segunda-feira, 25 de março de 2013

As duas visões


 

 
 
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Duas são, para mim, as mais importantes teorizações filosóficas existentes, na atualidade. A primeira está em O discurso filosófico da modernidade, de Jürgen Habermas, no capítulo O conteúdo normativo da modernidade, p. 467 e seguintes. A segunda em Cultura e democracia – o discurso competente e outras falas, de Marilena Chaui, no capítulo Ética, violência e política, p. 340 e seguintes.

Habermas finalmente relativiza a “relativização” que se instaurou um tanto quanto ditatorialmente com um certo “metadiscurso” filosófico acerca da modernidade e o que lhe diga respeito. Questiona, utilizando como paradigmas, expressamente, a dialética negativa, a genealogia e a desconstrução. Inclua-se aí um de seus professores diretos, Adorno. 

Reclama que esse novo discurso nem é ciência, nem filosofia. Nem é moral, nem é literatura ou arte, nem um novo padrão jurídico. Assimétricos a seus próis, exigem autoritariamente uma compreensão acrítica, patrulhando o que discrepe da pura e simples aceitação. Não se refere expressamente, nem o precisaria, mas um modelo esgarçado, talvez o grande marco, pode ser Sokal e Bricmont, em Imposturas intelectuais.

Fala em “simbiose de incompatibilidades”, perda de segurança nos “critérios institucionalizados do falibilismo” e o jogo sujo de que se permitem recorrer a um argumento apelativo final: “que o oponente entendeu mal o sentido do jogo de linguagem no seu todo, que em seu modo de responder cometeu um erro categorial”.

O cipoal de ideias, ismos, teorias, e visões de mundo outras, que já dura pouco mais de um século – por todos e o mais antigo referido, a Genealogia –, mutilou a cabeça de muita gente que se sentiu na “obrigação” de acompanhar pautas disformes de interpretação do mundo e da sociedade, aceitando a desconexidade auto-culpativa por não poder entendê-la razoavelmente a não ser com uma boa dose de LSD filosófico. Habermas é música aos ouvidos nesse segmento e nós, simples mortais que tanto nos maravilhamos com um Michel Serres diurno, em Entrevistas do Le Monde, e nos punimos tanto pela insuficiência intelectual com um Michel Serres noturno, em Os cinco sentidos – filosofia dos corpos misturados, só podemos comemorar.

 

2

A segunda grande lição está em Marilena Chaui. A pensadora desenha o farisaísmo do discurso piegas, do discurso violento, do discurso patrulhador e, por que não, da simbiose de todos eles, do discurso canalha quando se veem invocações de “ética” e de “retorno à ética”, num sabor totalmente neoliberal e protegido por uma violência tácita, clivando a própria ética para admiti-la segmentarizadamente em porções exclusivistas – ética política, ética familiar, ética profissional –, sem o liame da universalidade, podendo-se supor inclusive, a partir daí, a não-ética no segmento não previamente nominado ou “escolhido”. Esta alienação não é totalmente imperceptível, mas é cômoda, a partir de uma sociedade também fragmentada.

A podridão da ideologia ética exigirá a violência para poder se firmar como linimento. Aqui Chaui invoca Alain Badiou (Sur le mal), no sentido de que enquanto a ética encarnará o bem, a ideologia da ética será a imagem do mal que precisará da imagem do mal para ser o não-mal. Aí surgem o piegas, o passivo reativo totalmente falso próprio das religiões manejantes do Diabo e outras estapafurdices e boçalidades, o que hasteia a bandeira da compaixão e da indignação para, por culpa invocada, teatralizar sua benemerência portátil e ética a preço de liquidação.

De novo, é sempre reconfortante encontrar e reler temáticas insuspeitas e superiores como essas apresentadas por Habermas e Chaui. Jean Menezes de Aguiar.

 

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