quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Importante é ter corpão, não precisa cantar direito"

Áurea Martins, Cantora, linda, amada. Esta é poderosa.
 
               Artigo publicado no Jornal O DIA SP, semana de 13.fev.13

Pessoas geniais produzem frases geniais, do tipo “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”, Eça de Queiróz. Ler os geniais é uma delícia.

                Já para outros, o pensar parece ser um sacrifício. “Estupra mas não mata”, Maluf. “Ética é meio e não fim”, Renan Calheiros. “O ladrão do meu rolex merece pena de morte”, Luciano Huck. Agora veio isso: "Importante é ter corpão, não precisa nem cantar direito. Ainda bem que sou gostosa", Ivete Sangalo, cantora baiana.

                Sangalo não está errada. Nem sozinha, o que é o pior. Prestou um serviço com sua verborragia. A baiana disse o que muitos sabem, mas somente uma mulher e cantora poderia dizê-lo sem ser patrulhada, ainda que a frase possa conter, em termos musicais, o patético em si.

                É claro que não é coincidência que cantoras atualmente tenham que ser bonitas e gostosas, bem guardadas as proporções. É como se os gestores da fama musical tivessem resolvido: de “agora” em diante só queremos cantoras tesudas. A  qualidade musical pode ficar em segundo plano. Às vezes em quinto.

                Como músico profissional tive a sorte de tocar com a hoje famosa Áurea Martins, talvez a maior cantora da noite do Rio. Áurea, para ouvintes qualificados ligados à qualidade (ou isso não existe?) sempre foi a mulher mais linda do mundo, e esta beleza aqui é outra. Mas para os padrões desse sucesso ivetiano, a deusa Áurea está fora de medida. Leny de Andrade é outro exemplo. Será que a negritute total, o encanto, a qualidade do timbre e a voz de Áurea e a ginga de Leny, e “apenas” isso, em uma jovem qualquer hoje fariam “sucesso”? No paradigma ivetiano, não. Ganhou-se ou perdeu-se com a busca de paniquetes vocais? Nádegas são ótimas, mas não cantam, e o assunto é canto.

                A massificação do paladar musical veio para maior número de vendas e não como uma melhora da qualidade. O maestro Julio Medaglia revela que as 4 principais gravadoras do país demitiram o diretor musical e contrataram no lugar um “diretor de marketing”. Acabou a mentira. Só vamos combinar: vender um trilhão de Cds não tem nada que ver com qualidade. Nunca teve.

                Agora, ainda, as cantoras do padrão ivetiano – coxas, malhação, silicone, personal, gravidez pela Tv, namorado-artista, e uma vida social dependente dos Tvs-famas/internet –, devem estar enfurecidas. Até aqui conseguiam disfarçar a realidade. Mas a rainha do canta-pra-pular ou pula-pra-cantar, Ivete, revelou o “segredo”: para ser cantora basta ser gostosa. É o duelo música reflexão e qualidade versus música furacão e banalidade. Nada contra o balanço: em shows de Tim Maia, Djavan, Seu Jorge, Lulu Santos, Ney Matogrosso, ninguém fica parado, todo mundo dança. Mas a qualidade musical é inconfundível.

                Há um outro segmento, na atualidade, diferente. É a música pretensamente intelectualizada, cult mesmo. Capitaneada por moças muito bem nascidas em São Paulo, esbanjando sobrenome e fingindo engajamentos no “chatissimamente correto”. Aqui também há um gestor estético na seleção inicial. Quando lança uma nova cantora no mercado não abre mão da aparência. Ivete não falou bobagem. Ela sabe que se tirar o show e o palco de seu canto, sobram mesmo as belas pernas.

                A situação nos programas Ídolos é outra. O Ídolos autêntico, da Record, tira sarro das esquisitices e gera diversão, além de mostrar gente boa. Já o Ídolos-o-meu-é-o-melhor, da Globo quer se mostrar, supostamente, comprometido com a qualidade. Promete que o jurado não conhece o candidato e tem aquela mise-en-scène de ficar de costas. Ok ok. Nestes programas o interesse imediato jamais é o canto em si, mas a audiência televisiva “do programa”. E audiência é um mix de coisas. O feio e o esdrúxulo, por exemplo, podem gerar pontos. É a novelização da escolha dos novos artistas, em capítulos, o Bbb musical, mas musicalmente válido.

                Ivete foi cultural, por isso antropológica. Ela e seu avião são subprodutos desse sistema. Não se pode condená-la. Quando ela reconhece o que muitos músicos, diretores e críticos sabem, que ela não canta bem (e não só ela!) e vive mais do corpão, ajuda a pôr em xeque o sistema infame da não qualidade. O desesperador é saber do triunfo de um sistema que “obrigou” deuses como Tim Maia, Djavan e outros tantos a terem que montar seus selos e estúdios, porque as gravadoras lhes fecharam as portas não poucas vezes.

                Se a qualidade musical e de canto, para o cantor, foi mesmo “substituída” pela estética, mais produção, enfeites, encantos visuais, jogadas de mícia etc., há aí uma nova-velha cultura. Meu pai dizia que na década de 1950, quando Cauby Peixoto voltou dos EUA e apareceu na capa de uma revista com peito nu, ensaboado, foi um escândalo. O idolatrado Cauby me confirmou a história quando trabalhei como músico dele. O escândalo é uma técnica antiga, mas vamos combinar: Cauby canta.

                Há comparações fáceis. A música de discoteca antiga possuía harmonia e melodia belíssimas. Atualmente, é um “tum tum tum” ritimado. Uma explicação: até pessoas sem qualquer musicalidade conseguem acompanhar o ritmo marcado. Daí não há necessidade de “música”, só de ritmo. Essa massa quer pular e brincar, não ouvir música, e que fique claro: é um direito. Só não venha dizer que “tudo é a mesma coisa”, que tum tum tum tem qualidade musical.

                Vive-se no Brasil, sem qualquer ode ao “antigamente”, uma sociologia da degradação musical. Entraram em cena outros valores para se achar um cantor ou uma cantora “bons”. Não mais a qualidade musical, o gogó. Casa noturnas famosas no Rio, da década de 1970/80 como 706, Special Bar, Chico’s, 21,  produziram figuras como  Djavan, Alcione, Emílio Santiago etc. Mas naquela época a cantora não era medida pelo quadril. O que valia para ouvintes que buscavam a qualidade do canto era o sonho auditivo. Cada vez mais estes ouvintes se tornaram órfãos.  Jean Menezes de Aguiar

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Contrato de gaveta

 
 
 Artigo publicado nos jornais O DIA e O ANÁPOLIS - semana de 7.2.13

                Certa vez um velho cliente me procurou. Havia sido citado, era réu em uma ação judicial movida pelo agora ex-sócio que reclamava a metade de um terreno. O autor da ação tinha como prova um documento particular, típico contrato de gaveta. A assinatura do meu cliente parecia perfeita. O documento também. O terreno era valioso. Por primeiro, perguntei se ele havia assinado; ele negou. Disse que não se lembrava. Chamou a filha, que cuidava do financeiro da empresa e perguntou: filha, o papai assinou isso? Ela olhou lentamente, disse que a assinatura parecia a dele, mas não sabia.

                Eu insisti. Ele se manteve firme, negando. Eu disse que pediria perícia grafotécnica e que se a assinatura fosse mesmo dele, apareceria a mentira. Ele replicou seguro: – pode pedir! Aí, lendo a petição inicial, detidamente, vi que estava afirmado que autor e réu compraram o terreno, mas combinaram em deixar apenas no nome do réu. Daí, o contrato de gaveta. Pelo Código Civil antigo, arts. 97 e 104, esta típica simulação, até confessada, impedia uma ação judicial.

                Foi feita a perícia e viu-se que a assinatura era mesmo do réu, o meu cliente. Mas a juíza de primeiro grau julgou contra o autor, corretamente, com base nos arts. 97 e 104. A simulação não podia ser “desfeita” como queria o autor. Ele recorreu para o tribunal, furioso. Na sustentação oral, disse que era um escândalo, que a perícia houvera reconhecido a assinatura do meu cliente e este iria ficar com a totalidade do terreno. Na mesma sustentação, reforcei o que estava nos autos: o autor queria desfazer uma simulação e a lei não tolerava. Os desembargadores, por unanimidade, julgaram improcedente o recurso e não anularam a transação. Mantiveram a situação.

                Nunca consegui compreender como pessoas não têm medo de fazer contrato de gaveta; fazer uma simulação jurídica. Atos simulados podem gerar verdadeiros desastres financeiros, societários, familiares, pessoais. Já convivi com empresários que se gabavam de ter folhas de papel em branco assinadas por sócios. Eu perguntava: e isso vale o quê? E o ingênuo respondia, que com aquele papel podia tudo. Assistir muito filme dá nisso.

Uma folha em branco assinada nunca foi uma varinha de condão sobre bens e direitos, e nunca será. No mínimo, em uma discussão judicial podem ser investigadas “causas” e “provas” que podem consumir 10, 15 anos num terrível processo, com despesas altíssimas. Já se viu a grafotecnia em relação a um texto, anular e imprestabilizar documentos pré-assinados, pós-assinados, desdobrados em branco etc.

                Problemas que podem envolver um contrato de gaveta: 1) um óbvio elevado risco jurídico (será que alguém “gosta” disso?). 2) a morte do sócio e inventário com interesse de terceiras pessoas estranhas ao contrato. 3) a típica natureza de simulação do ato (fraudes criminal e tributária). 4) a má-fé de ambos, agora ainda mais negativada no Código Civil. 5) eventual divórcio do sócio e o bem ser arrolado pelo cônjuge na meação. 6) possibilidade de o bem ser penhorado por terceiros, por problema do sócio. 7) necessidade de ação de embargos de 3º  para tentar derrubar uma penhora. 7) ação regressiva contra o sócio tendo-se que vencer a barreira da simulação.

                Como tudo na justiça tudo leva muitos anos, vê-se que contrato de gaveta é, sem sombra de dúvida uma péssima forma de gestão. Somente “boa” para quem assume poder ter problemas caros e longos. Se não insolúveis, como o exemplo do início da matéria.

                Somente em 25.10.2012 a 4ª Turma do STJ (veja, a 4ª) entendeu que o comprador pode opor embargo à penhora tendo em mão contrato de gaveta. Mas isso, contrariando entendimento de juiz de primeiro grau e de tribunal. Ou seja, a questão é totalmente bamba.

                Um pouco diferente é um contrato de gaveta com a Caixa, por exemplo, em que há alguma proteção do mutuário pelo Código do Consumidor. Sendo a Caixa o polo forte da relação jurídica, há alguma proteção ao polo fraco, o consumidor. É relativo, mas é assim. Só que entre pessoas no mesmo “nível” jurídico, sócios por exemplo, a situação piora totalmente.

                O contrato de gaveta não vale perante terceiros, sejam filhos, esposa, nora, genro, sogro, outros sócios da empresa, bancos etc. Assim, um terceiro não está “obrigado” àquele contrato. Não tem que “respeitar” um contrato que não assinou. A falta de publicidade de um ato jurídico, principalmente envolvendo imóveis, é extremamente perigosa.

                Ainda, há outros aspectos piores. Se há simulação civil, com certeza poderá haver um crime conexo, além de, provavelmente, uma sonegação tributária. Se envolver mais de três agentes na situação, chega-se ao panfletário crime de formação de quadrilha.

                As conclusões parecem ser simples. Ganhar dinheiro não é fácil, mas sua preservação por toda a vida requer conhecimentos profissionais. Um ato amador, ou um considerado genial, sem ser, pode gerar um desastre. A verdade é que o Direito, secular, conhece todas as espertezas dos que se julgam mais inteligentes do que a lei. Enquanto as espertezas não dão problema, tudo bem. Depois, são noites sem dormir e muito dinheiro gasto. Contrato de gaveta? Qual bom advogado recomenda? Jean Menezes de Aguiar

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Índice temático 1 - mulher, amor e relacionamentos


Mulher brasileira: corpo x inteligência





























 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

2013 incendiado

Quando a dor tem imagem.
Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, semana de 31.1.13
 
Se há, no Brasil, anestesia social pela rotina semanal de escândalos com corrupção e impunidade, não há com a tragédia. A tônica é a de que o incêndio que se abateu sobre o país traz forte carga de culpa do Poder Público. O Estado faz cara de honestidade infalível, impõe penas e multas, dívida ativa, privilégios de cobranças, execuções fiscais, varas judiciais ciumentas para seus créditos, tem procuradores, auditores, fiscais, vasculhadores e investigadores para todo tipo de coisa. Obriga à sociedade uma infinidade de autorizações, laudos, vistorias, pagamentos, recolhimentos, taxas, impostos, contribuições, guias etc. Parece que tudo isso é real e “adianta”, que previne algo. Aí, 235 pessoas morrem queimadas em Santa Maria.

De 3, 1. Ou tudo isso é um grande e milionário cartório somente para arrecadar dinheiro para o Estado e dane-se a sociedade, com baixíssima eficiência. Ou tudo isso é uma grande incompetência das “autoridades” que não têm inteligência para traçar um menu de exigências capazes de conter, efetivamente, um único incêndio em uma casa noturna, a ponto de 235 pessoas morrerem. Ou as exigências valeriam, eficientemente, mas os agentes do Estado são compráveis, alugáveis, corruptos e dão o papelzinho de autorização para quem pagar.

O “culpismo” aí é a sanha de se achar um culpado no primeiro momento. Percebe-se que essas boates são caixotes blindados com leões nas portas de saída proibindo quem tentar fugir sem pagar. Que há alguma culpa do empresário, ninguém discute. Mas a culpa do Estado também é nítida. Agora começa a ser discutida, seriamente, a culpa dos Bombeiros no resgate. Uma novidade e tanto, inclusive pedindo “ajuda” à população. Ajuda?

O governador no primeiro momento correu para a Tv, mostrou-se “preocupado”. Prometeu apuração de responsabilidades. Quem acredita nisso, a sério? Num país em que a sociedade põe o dedo na cara do poder público, não é o Brasil, talvez algum ministro já tivesse se suicidado; o governador se demitido. O Chefe dos Bombeiros já estivesse na rua. O nome disso é “exemplariedade”, mas este padrão ético o poder público brasileiro não conhece. O Corpo de Bombeiros, por exemplo, pertence ao governador. Quem “escolhe” seu chefe é o governador. Aí os formalistas berrarão: calma, há o devido, sagrado e constitucional processo legal. Alguém só pode ser considerado culpado após um processo. Ok.

 O prefeito (Município) diz que paga ao Corpo de Bombeiro (Estado) para fiscalizar. O que isto quer dizer? Com este pagamento não há mais responsabilidade da prefeitura? O Corpo de Bombeiro defende-se dizendo que não pode “fechar boate”. Então estamos combinados: ninguém tem culpa. Mandemos para cadeira elétrica moral o dono da boate e a vida continua.

Há uma assimetria nítida em três pontas aí, entre 1) a forte exigência do Estado na burocracia para a instalação de um estabelecimento, 2) a liberação efetiva do estabelecimento e 3) o risco de morte, no caso consumando óbitos. É exatamente com receitas fáticas assim que institutos jurídicos são revistos. Dizer-se, formalistamente, que a responsabilidade jurídica do Estado é somente mediata, num caso como este, é aceitar um padrão assimétrico. É dizer que todas as “necessidades” de vistorias oficiais – caríssimas – não servem para nada. Mesmo elas existinto, 235 pessoas podem morrer. Então elas servem para quê? Não é mais este faz de contas fiscalizatório que a sociedade quer.

Se o Estado “inventa” uma fiscalização e a impõe à sociedade, cobrando caro por ela, esta fiscalização tem a natureza jurídica de “absorver” um quantum de responsabilidade imediata, pelo menos num evento-catástrofe como o de Santa Maria. Não adianta um procurador estatal qualquer dizer: mas não foi o Estado que matou! Diante de 235 mortes esta alegação é lixo. Fica em xeque o porquê de exigências e fiscalizações se elas não adiantam nada. Em Santa Maria não adiantaram.

 Quem fiscaliza o fiscal? E o fiscal do fiscal? Essa regressão só não pode chegar na sociedade por um único fator: ela sustenta um Estado luxuoso e milionário. É claro que em última análise há uma culpa “nossa”, mas o Estado é ilegítimo para discuti-la. Somente nós, do lado de cá do balcão podemos fazê-lo. A divisão é “artificial”? Então porque somos “fiscalizados” e isso não adiantou nada em Santa Maria?

Mas a corda costuma arrebentar no lado mais fraco. Prendam o Severino! O vigia de boate que nasceu com 6 quilos, hoje tem 1,99m de altura, pesa atualmente 140 kilos, não completou o ensino fundamental e basta olhar para a figura: é o “segurança”. Prendam ele que, com sua cabeça e obediência de salário de segurança lutou para não deixar ninguém sair da boate pela porta de emergência. Prendam ele, que planejou matar 235 pessoas, só vai faltar isso. Prendam ele que “criou” a norma trabalhista  que descumprida dá justa causa, de: “por aqui não sai ninguém, entendeu Severino, nem a minha mãe!”.

                Já se soube que há 10 grandes boates em São Paulo sem alvará. Mas também, alvará é um papel. Será que faticamente, verdadeiramente, representa garantia de algo? A boate de Santa Maria tinha alvará, válido até poucos meses atrás. E daí? Após o desastre, o prefeito de SP prometeu que “conversará” com donos de boates. Sem comentários.

                Esta semana, donos responsáveis de boates deveriam estar revendo seriamente seus estabelecimentos. Frequentadores também devem rever sua vontade de “uhuuu”. Oficiais dos Bombeiros do país deveriam estar nas ruas espontaneamente vasculhando imóveis potencialmente perigosos como boates, estádios de futebol, circos, igrejas e tantos outros. Nenhum túnel da cidade de São Paulo tem extintor ou mangueira de incêndio. Você sabia? Parece que o Corpo de Bombeiros não sabe. Os buracos e instalações apropriados estão todos lá, vazios. São Paulo!

                O incêndio de Santa Maria sora impunidade e continuará sorando. A menos que um choque de ordem (de verdade) “houvesse”, nada será mudado. O legislativo já quer surfar: fazer novas leis.

Este artigo seria jurídico, tentando rediscutir a responsabilidade jurídica do Estado, o “responderão”, palavra da Constituição da República, art. 37, parágrafo 6º. Mas a revolta é grande, perde-se a mão. Quem sabe uma lei que dissesse que o governador, os secretários da área e todos os chefes de fiscalização, investigação, procuradoria ficariam automaticamente impedidos, sem salário, com qualquer desastre social com mais de 50 pessoas atingidas? Não me culpem por sonhar. É o que restou. Jean Menezes de Aguiar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Internação involuntária



São Paulo iniciou a internação involuntária para dependentes químicos graves. A imprensa de início ouviu estudiosos contrários que rapidamente ligaram o conceito a uma discriminação profunda, numa ponte com a loucura que, antes do século 17 era vista como a rejeição da estrutura de racionalidade que forma as normas da sociedade. Ali, como se pensava, os loucos “preferiam” a irracionalidade à razão. Será Michel Foucault que mostrará que Descartes rejeitou a loucura como fundamento e considerou, mediatamente, os loucos como uma ameaça à racionalidade e à moralidade alheias, com o seu “argumento cogito” (penso, logo existo). 

 Sobre os manicômios, na história, fez-se algum paralelo na SP atual, eles pioraram o tratamento, segundo Foucault, foram mais desumanos e partiam da premissa de que os loucos eram moralmente responsáveis pela própria doença. Se a internação involuntária em SP não tiver esse vezo ideológico atributivo da responsabilidade ao usuário de crack, por exemplo, como se fazia com o louco e em sua vida manicomial, um nítido ranço do pensamento conservador, o de que cada um é responsável pelo que faz, a prática atual paulista pode acabar representando um avanço.
 
Com uma fiscalização ativa da sociedade e da família, para quem tiver, do CRM e OAB, esta internação seria bem diferente daquela à qual os manicômios apareciam como defensores de uma norma homogênea da moralidade social (Foucault). Como os tempos são outros, e o grau de transparência pública se mostra muito melhor, a própria imprensa já começou a dar sinais (jornalísticos) de “apoio”. Que os dependentes químicos graves sejam tratados com respeito e tecnologia, carinho e decência por um Estado tão omisso e responsável diretamente com esse quadro devastador. JMA.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Senado Federal pra quê?

O intelectual Cristovam Buarque de Holanda

Ninguém menos que o prof. Emérito da USP, Dalmo de Abreu Dallari, para abrir o debate: “Pelo fim do Senado Federal”. Perguntou "Senado pra quê?".  Pois é, não é um qualquer, é Dalmo, e viva o argumento de autoridade máximo, inquestionável, oprimível historicamente ao seu contrário. Com o farisaísmo, só assim. Abaixo, recortes do manifesto elaborado pelo senador Cristovam Buarque de Holanda, à época da eleição do novo presidente do Senado (jan.2013). Tire suas conclusões lendo as palavras do próprio senador (algumas em maiúsculo).

 Sobre o Senado Federal:

“Uma nova presidência e um novo rumo para o Senado

Principal causa da perda de credibilidade do Senado é CONSEQUÊNCIA de nosso comportamento e nossa INEFICIÊNCIA.

Tem acumulado posicionamentos que desgastaram sua imagem perante o povo brasileiro, especialmente pela FALTA DE TRANSPARÊNCIA, pela edição de atos secretos, pela não punição exemplar de DESVIOS ÉTICOS e pela perda da capacidade de agir com independência.

NOSSA INOPERÂNCIA ao saber que temos 3.060 vetos presidenciais sem serem analisados ao longo de quase duas décadas; e nossa RIDÍCULA TENTATIVA de organizar a votação de todos estes vetos em uma tarde, como forma de passar por cima de decisão do Supremo.

Mostramos UMA CARA DE INEFICIÊNCIA POR DÉCADAS e de ridículo em uma tarde.

Passamos a ideia de estarmos BRINCANDO COM A REPÚBLICA de uma maneira INCOMPETENTE E INCONSEQUENTE, tanto seja por decisão política dos líderes da Casa, seja por ANÁLISES FRÁGEIS DE NOSSA CONSULTORIA JURÍDICA.

MAIS UMA VEZ encerramos as atividades legislativas SEM votar o orçamento para o ano fiscal que se inicia em 1º de janeiro. A POPULAÇÃO será a principal prejudicada.

Depois de TRÊS ANOS de prazo dado pelo Supremo, NÃO CONSEGUIMOS definir o funcionamento do Fundo de Participação dos Estados, jogando as finanças dos Estados em um ABISMO.

Mostramos FALTA DE ZELO com o federalismo cooperativo inscrito na Carta Magna e penalizamos as unidades federadas mais frágeis, contribuindo para permanência das enormes desigualdades territoriais.

Nos mesmos dias ainda passamos pelo RIDÍCULO, INOPERÂNCIA E SUSPEITAS ao terminamos vergonhosamente a CPI do Cachoeira.

Cabe lembrar o constrangimento de que a Administração do Senado passou anos cometendo o equívoco de não descontar Imposto de Renda de parte do salário dos senadores e, ao ser surpreendida pela Receita Federal, decidiu pagar COM recursos PÚBLICOS, o que era dívida pessoal de cada senador, embora provocada por ERRO da Administração da Casa.

Nossos plenários vazios, nossos DISCURSOS APENAS PARA A TELEVISÃO, a falta de debates de ideias e de propostas.

Uma reforma no funcionamento da Consultoria JURÍDICA, para dar-lhe mais competência e mais independência, de maneira a impedir os ERROS recentes seja por DESCONHECIMENTO DAS LEIS.”

Cristovam Buarque de Holanda, senador da República.

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Que análise pode ser feita "disso"? Não há análise, não  há leitura, não há interpretação. Bastas são as palavras do próprio senador, que não é louco, nem irresponsável, nem "exagerado" como conservadores de plantão quererão nominá-lo. Cristovam é, sim, um intelectual com todas as letras, o que emputece a muitos. Não é um qualquer apenas com terno caro, simpatia química, automóvel de luxo e uma prostituta ou um garoto de programa lhe esperando depois do expediente. E não é um intelectual "apenas" porque seja da esquerda, esse reducionismo não cola mais. Mas justamente porque não se intimida ou não se vende a ponto de não dizer essas coisas medonhas que todo mundo sabe, imagina e a história confirma.
Paridas das entranhas senatoriais as palavras de Cristovam deveriam causar uma revolução nacional, um movimento, uma luta. Mas sabemos que não causarão nada, não com uma sociedade como o próprio pensador analisa em seu ótimo livro Admirável mundo atual - dicionário pessoal dos horrores e esperanças do mundo. Os concursos milionários do Senado, os salários milionários do Senado, a assessoria jurídica milionária do Senado, nada disso presta para não incorrer nos defeitos, falhas e faltas de conhecimento apontados por Cristovam. Repetindo, por Cristovam! Jeito? Não há jeito. Que triunfe o cinismo.
 





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Mulher brasileira: corpo x inteligência


Desafiadora
 
Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS - semana de 17.1.13

          Semana passada pedi no meu “Facebox” opiniões sobre o tema. Somente mulheres se manifestaram. Estranho essa abstinência masculina à mulher, mas, como se diz popularmente, sem discriminações.

              Mulher brasileira é boa sob vários aspectos. Se não somos os rostos ou os cabelos de qualquer garçonete sueca, como muitos gostariam, Darcy Ribeiro dizia que aquilo é pobreza, riqueza é a nossa mistura. Viva Darcy. Mas nem tudo são elogios. Há crises numa sociedade consumista. Uma grave é a aparente substituição do conteúdo (o ser, o intelecto, a ética, o amor) pela forma (o corpo, as nádegas, o cabelo, a pose, a pegação). Para muitas esta situação passou a ser tristemente ditatorial.

                Isso se dá pela troca de um valor descartável, menor ou passageiro, por um que “deveria” ser central, importantizado. É o acessório no lugar no principal. Meninas urbanas de classe média ali pelos 15, 18 anos de idade buscam mais inteligência ou corpo? É claro que há influências e educações aí. Cada um pode buscar o que quiser. Inteligência e conhecimento também são valores, logo, escolhas. Se a tesuda Sabrina Sato consegue ficar rica por sua beleza física, ou se mais 7 ou 20 da Tv ficaram, são 7 ou 20 exemplos. Isso não é a regra, e deveria ser compreendido.

 Ainda, “ser rico” é também um valor que pode ser perseguido. Para muitos a troco de qualquer coisa. Parece não haver dúvida de que com a “invenção” da periguete – o ser fêmeo que resolveu disputar com profissionais do sexo a custo zero de remuneração a clientela masculina e ainda se orgulha (nada contra) –; e com as notícias de Tv sobre corpos que andam e falam e obtêm “sucesso” na vida, deu-se uma geração de valores assim para muitas. Parece haver toda uma educação baseada nesses valores. Mas ouçamos as próprias mulheres, em democracia.

                Diana Nacur, advogada mineira, sugere que o tema seja conciliado com a função materna. Aponta a grave dúvida entre a carreira profissional e o papel de mãe. Difícil conciliação, mas não impossível. Os homens precisam entrar na maternidade. A mãe pode não querer mais ser a dona de casa que se anulava profissionalmente. Isso abre dilemas. Se o homem reduzir em 30% sua atenção profissional, poderá ter reduzido em 30% o seu “sucesso” que, em última análise reverteria para a família. Mas aí terá que atuar conjuntamente com a mãe. Por seu turno, a mãe pode obter um sucesso que ultrapasse os 30% a menos do marido. Ou ultrapasse em muito.  O tom aí será a “harmonia”.

                Monica Cristina, brasileira que mora no Japão, país “pesado” contra a mulher, opina que a inteligência é o pesadelo masculino. Não está errada. Mas há que se considerar com isso um modelo de homem mais conservador. Um que não admitia ter uma mulher “também” inteligente, isso na hipótese de ele sê-lo, o que nem sempre é o caso. O tema cai nessa vala residual do machismo: este homem não tolera uma mulher com sabedorias e genialidades. Quem precisa se desenvolver nesse caso não são as moças, mas os rapazes. Acredita-se que entre jovens isso já esteja muito melhor organizado. Meninas “parecem” não admitir mais ter sua inteligência secundarizada.

                Renata Strobilius, fonoaudióloga paulista, bonita, bem casada e mãe, demanda se fale do consumismo desvairado com campanhas publicitárias destinadas às mulheres. Com uma visão ácida, fala da maternidade consumista com bebês que passaram a ser itens na prateleira. Realmente, parece haver uma outra mulher nessa virada de século. Uma preocupada só com corpo, cartão de crédito e diversão. É um modelo cultural meio triste apontado por estudiosos. Felicidade passou a ser a balada de hoje, amanhã está muito distante. Conhecimento virou busca no Google de celular. O caso é que muitas mulheres ainda sonham e o sonho obedece a outro ritmo, encantamento, poesia, romantismo e amor. A publicidade parece ter se esquecido disso. Homens também.

                Rosana Miranda, advogada paulista reclama a mulher madura que após criar os filhos e voltar aos estudos não tem a devida valorização. De novo o foco parece ser o companheiro. Parece ficar sintomático que alguns “defeitos” da mulher são oriundos de defeitos primários de homens. A única saída: diálogo aberto e franco, o que alguns homens temem. Não há outro caminho.

                Liziane Cantini, bela gaúcha, perdoe-se o pleonasmo, morando em Tocantins, lembra que homens e mulheres se completam fisicamente. Realmente é assim, ainda que numa visão “clássica”. A vida se pluralizou e o modelo homem & mulher (para mim o único bom) continua o majoritário. Essa completude é tão espetacular que problemas graves são esquecidos quando um homem está aos braços protetores de sua leoa. E o paradoxo é imenso: o tal sexo frágil se mostra poderosamente protetor de seu menino. Aí a poesia fica querendo fazer barulho.

                Dayse Baqui, cantora no Rio, rasga a fantasia. Exibe-se como bem resolvida garantindo nunca ter chorado por nenhum homem, ao mesmo passo que se diz serviçal e cozinheira eterna de seu companheiro. Teoriza que a fome dele nunca acabará e ela será sua cozinheira até morrer, mas só ela. Um equilíbrio interessante, um manejo difícil, mas uma visão forte.

                Pois bem, inteligência, conhecimento, sabedoria ou corpo malhado? É muito polarizado um questionamento assim. Pode-se imaginar uma mulher bonita e inteligente. Nada exclui nada. O problema começa quando se “negam” certos valores. Quando se “quer” que o único valor seja, por exemplo, a beleza, ou o corpo. Aí, cai-se numa vala de futilidade ou de vulgaridade. Por outro lado, o próprio conceito de “vulgaridade” pode estar sendo revisto numa sociedade consumista.

Se mães põem suas filhas de 5 anos dançando sobre uma garrafa e esse padrão passa a ser o “comum”, é o conceito de “vulgaridade” que está sendo revisto. Os Bbbs, 19, 20 nunca pararam; há audiência, a sociedade insiste nisso.

                Talvez haja “uma” cisão na visão da mulher. Quem está “na balada” vê a mulher (se vê) de uma certa forma e este olhar não é ilegítimo. Quem está fora pode achar isso uma “pouca vergonha”, talvez uma visão meio conservadora. Ambas as “pontas” pudem rever suas análises em alguma medida. Há, inegavelmente, para o padrão comum e usual de vulgaridade uma onda dela solta por aí. O conceito nunca atendeu ao item inteligência, mas ao corpo. Corpo é lindo, belo e maravilhoso. Mas a “conversa” pela inteligência parece ser mais poderosa do que ele.

                A mulher feia, mas inteligente se torna encantadora e poderosa, conquista, vence e “tem”. A bonita e inteligente se torna um espetáculo. A “só nádegas” se torna o quê? Jean Menezes de Aguiar
 
Agradeço a colaboração das amigas citadas.