quarta-feira, 8 de maio de 2013

Consultoria para quê?



JMA

 
Artigo publicado no Jornal O DIA SP, semana de 9.5.2013
 
 
                Há uma piada interessante. Um rico empresário de férias foi para uma ilha. Lá conheceu um pescador que pescava o que nenhum outro conseguia. Sugeriu ao pescador que abrisse uma empresa. Como ele era muito bom, teria sucesso, iria para a capital e ficaria rico. O pescador perguntou: mudar para quê? O empresário respondeu: olhe para mim, alugo um jatinho e vou de férias para uma ilha deserta. O pescador contestou: mas eu já vivo nessa ilha.

                O que está em jogo aí são apenas “visões de mundo”. Do pescador e do empresário. Há “pescadores” que quiseram se tornar empresários. Há outros que não conseguiram. Há os que nunca nem pensaram na hipótese. Já todo empresário, em regra, almeja um tipo de sucesso: o financeiro. Algumas lógicas que costumam valer para todo empresário, podem não valer para “pescadores”, como também para profissionais liberais, artistas, boêmios, e até trabalhadores em geral.

                Eric Robsbawm, falecido em outubro de 2012, em sua magnífica obra A era dos extremos, mostra que atualmente as empresas não passam muito mais de 30 anos de vida. A lição se aplica a um mundo consumista e globalizado, ávido por não mais sonhar. Um mundo no qual, em muitos casos, os valores de pais passaram a ser bastante diferentes dos valores dos filhos, considerando que os filhos seriam os naturais sucessores empresariais.

                Se o conhecimento empresarial, e mesmo o pessoal, há 50 anos, podia ser testado pela experiência pessoal e pela paciência do erro-acerto, atualmente com o futuro em velocidade máxima, qualquer erro pode representar uma tragédia para a empresa. Num mundo em que o competidor vizinho além dos computadores pode consultar profissionais espetaculares de várias áreas como publicidade, mercado, marketing, análises variadas, estratégia, negociação, prevenções jurídica e financeira etc., agir sozinho, pela própria cabeça, pode ser uma temeridade.

                Não se trata apenas da especialização do conhecimento. O século 20 produziu mais ciência e tecnologia do que em toda a história da humanidade somada. Diversos e novos saberes e conhecimentos se impuseram como ciência ou como padrões seguros, ou a chamada “boa prática”. Saber disso já é uma informação importante. Haverá quem quererá usar todo esse conhecimento para ganhar dinheiro. E haverá quem acredite “ter a sua empresa na palma da mão”. Uma espécie de cartomante dos negócios. Este ser sensitivo da empresa pode estar fadado ao insucesso.

                Os concorrentes podem não ser apenas os empresários que reduzem 1 real no produto. São, em primeiro lugar, a tecnologia bastante invisível e inacessível a quem não é um estudioso da área. No Guia PMBOK, por exemplo, no conceito de “Conhecimento em gerenciamento de projetos” lê-se: “O conhecimento completo em gerenciamento de projetos inclui práticas tradicionais comprovadas amplamente aplicadas e práticas inovadoras que estão surgindo na profissão. O conhecimento inclui materiais publicados e não publicados. Este conhecimento está em constante evolução”.

                Um projeto é “um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo”, conforme o Guia. Ora, esses conhecimentos novos interessarão tanto a quem quer criar um produto novo, quanto a quem quer um resultado novo sobre um produto já sedimentado no mercado. Exatamente aí é o lugar do consultor, um agente com competências determinadas e notório saber.

                Na Wikipédia lê-se: “Consultoria é a atividade profissional de diagnóstico e formulação de soluções acerca de um assunto ou especialidade. O profissional desta área é chamado de Consultor.” Repare que o consultor é como se fosse um médico, quando diagnostica o problema e, ao mesmo tempo, um solucionador prático dele. Quem pode ser consultor? O economista, o administrador, o engenheiro, o advogado, o profissional de marketing, o publicitário etc. Mas também o músico, o artista, o filósofo, o empresário, o cientista político. Qualquer um em sua área de atuação que se dedique à consultoria.

                Se um restaurante, por exemplo, precisa criar um clima suave e envolvente, poderá buscar num musicista e num decorador soluções atraentes espetaculares. Mas no querido “Restaurante do Seu Gentil”, o dono porá um toca-fitas em cima do freezer para a já vitoriosa feijoada dos sábados e comprará um vistoso pinguim de louça para “a mudança de decoração”, no espaço entreaberto da cortina de plástico com desenhos de flor. Se a pretendida ampliação de vendas for apenas na feijoada, pode dar certo. Mas para o negócio como um todo, estima-se que ouvir um especialista pudesse ser mais prudente. Ou totalmente necessário.

                Um colega professor da FGV, consultor sênior, brincou certa vez que o Brasil havia se tornado uma grande Casas Bahia. Um outro do mesmo nível afirmou que qualquer negócio aberto em São Paulo, por exemplo, precisa de 100% de competência, pelo alto nível da concorrência. Ambas as falas veem-se acertadíssimas. Os impérios empresariais do preço baixo se impuseram. E ao mesmo tempo alguns venceram. Mas algumas conjugações de certos fatores, como preço atrativo, qualidade de produto e competência de gestão costuma ser um grande quebra cabeça. Aí entram consultores especializados em ler mercados; compreender tendências; prever riscos e mudanças; estabelecer metas e padrões para um sucesso seguro da empresa.

                A atividade empresarial moderna não resiste mais às ultrapersonalidades diretivas singulares e alheias a conselhos e outras visões. Vitoriosos empresários já perceberam que não dá para saber tudo, resolver tudo sozinho e planejar várias frentes sem auxílio profissional.

                Modelos negociais e de gestão, altamente técnicos e complexos, foram desenvolvidos para otimizar, rapidificar e mesmo criar sucessos. Um gestor centralizador de antanho que entre num embate com um concorrente moderno assessorado terá bastantes dificuldades.

               O consultor não é um gênio da lâmpada, mas um profissional que porta competências valiosas para o cliente, seja em que área for. A não vinculação à empresa é um ponto positivo: suas análises serão isentas e ao mesmo tempo fiéis à contratação. Daí, consultoria para quê? Para que uma cabeça com notório saber sobre uma ou algumas áreas, traga ideias, questionamentos novos, soluções e novas dinâmicas e visões para a empresa. “Apenas” isso. Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

STF x Congresso: a crise que nunca existiu

 

Foto: JMA
 
 Artigo publicado no Jornal O DIA SP - semana de 3.5.13

                Na última semana viveu entre nós uma crise “publicada”. Trata-se da proposta de emenda constitucional 33, da autoria do deputado pelo Piauí, Nazareno Fonteles. Dizem, um sujeito sincero. Como o STF virou pop e o sonho do “Faustão - essa é a sua vida” é fazer Joaquim Barbosa chorar ao vivo, todos puseram no colo o mesmo lado da questão. Acharam a Pec 33 um insulto, um afronta, um risco à democracia, um desrespeito ao Supremo. Nelson Rodrigues dizia ser burra toda unanimidade. Desconfiar passou a ser dever cívico.

                O que é uma crise? Num esforço conceitual, crise pode ser compreendida como um problema sério, que evolui, relativamente a um fato real e existente, que pode tomar proporções de difíceis consertos ou até soluções impossíveis. Os componentes do conceito estão aí: um problema real e não aparente; tendente a se agravar; com difícil administração de solução ou mesmo impossibilidade; podendo chegar a consequências muito mais graves ainda.

                O Estado brasileiro e suas “autoridades” devem ser os mais pródigos do mundo com a imprensa. Criam escândalos semanais. Na época militar o que era visível era a “impunidade”, um sintoma posterior ao evento danoso. Agora antecipou-se o processo. Com a imprensa livre, vive-se o costume da própria corrupção em-si. A junção desses males sociais destilou um anestésico social ao sonho da tolinha revolução. O máximo que a criatura lobotomizada faz é reclamar na fila do supermercado.

Quando a crise não é real, nós próprios nos incumbimos de dar-lhe aparência. Precisamos dela como uma droga social. E a imprensa, claro, contribui para a “visibilidade” do monstro, verdadeiro ou virtual. Com a Pec 33, parece que foi o que ocorreu.

A Constituição da República cuida do “processo legislativo”, no artigo 59. Este processo é responsável pela elaboração de leis e emendas à Constituição. Qualquer tema social ou jurídico pode ser objeto do processo legislativo. J. J. Gomes Canotilho, o mundialmente famoso constitucionalista português, é um dos grandes estudiosos sobre “matéria constitucional”. O objeto da Pec 33 “era” essencialmente constitucional. Nitidamente próprio de uma discussão congressual sobre extensão e tipologia de independência dos Poderes. A revisão, pela Casa do Povo, com um quórum elevadíssimo, de uma interpretação que no máximo 11 ministros do Supremo concluíssem. A reação foi quase jihadista.

Tudo bem que se viva um Brasil com carência de heróis. Lula já se enrolou com a Polícia Federal. Querem, agora, os 11 do Supremo deuses. Mas o processo legislativo tem blindagem constitucional. Qualquer matéria pode ser discutida “dentro” do Legislativo e, se votada, como se vive num Estado de Direito, há que ser respeitada.  Os juízes cumprem a lei que o Legislativo elabora. A menos que a lei seja tecnicamente inconstitucional, o que é totalmente diferente de ser incômoda, ruim, cerceadora, absurda, esquisita ou não agradar a um grupo ou outro etc., todos devem cumpri-la.

                A Constituição está acima do Estado e dos Poderes. A cada Constituição nova, dá-se um Estado novo. Estado é um ente criado pela Constituição. Isso precisa estar organizado para quem quer pensar o Estado. A Carta regula como é o processo legislativo e ninguém pode querer alterá-lo. Assim, há processos eleitoral, recursal processual e administrativo, tributário, financeiro, legislativo, todos eles previstos na Constituição, explícita ou implicitamente.

                Por outro lado, é possível haver ação de mandado de segurança, com ampla defesa, devido processo legal e sentença regular, relativamente a um processo legislativo por violação regimental de passos e atos processuais legislativos. O problema é que a Pec 33 cuidava, não ilegitimamente, de matéria atinente ao Judiciário e a situação foi política e midiaticamente tensionada. Não utilizaram um processo regular. O apedrejamento e a desmoralização públicos à Pec surtiu o efeito. O paredão foi varrido para recebê-la. E ela já foi para o lixo.

                Nada está imune a um processo judicial regular, mas não foi o que houve com a Pec. Há um precedente de patrulhamento. Tentou-se “regular” a imprensa, há poucos anos, coisa que as Constituições Alemã, Francesa e Italiana conhecem tranquilamente. A reação foi ácida e concertada. Praticamente equiparou-se o pecado de regulação da imprensa no Brasil à morte de Jesus. Foi ridicularizado quem tentou sequer abrir a discussão. O patrulhamento funcionou. Voltou a funcionar agora com a Pec 33.

Mas será que um controle popular como quis a Pec seria todo esse “afronta”? Haveria todo esse “regresso” que adivinhadores do caos anunciam? Há uma linha tênue entre a interpretação técnica da Constituição que, em termos decisórios, cabe ao Supremo e em termos científicos cabe a qualquer jurista, mas em termos não técnicos, sociais e populares pode, perfeitamente, ser dividida com a sociedade. O nome disso? “Democracia”. Ou será que a sociedade tem que ser “substituída” pelos 11 do STF para traçar seus destinos, cultura, hábitos e esperanças? Estigmatizaram o processo legislativo no caso.

Os chefes do Legislativos, políticos profissionais que são, correram para o não enfrentamento. Juraram que a crise, por eles, acabou. Mas sabem que o tema ficou no ar. E o STF pode estar mais em xeque ainda com seu ativismo judicial doméstico. Nem se diga que a tese da “vingança” relativamente à Pec, por causa do Mensalão, seria válida. Balela. A Pec era de 2011, anterior às condenações.

Se essa moda pega, a imprensa vai “ajudar” a dizer o que é matéria constitucional, abrindo crises e proibindo o Legislativo de trabalhar quando achar que algo “não é bom”. A equação é exagerada. Mas tudo foi um exagero. Se já se viveu o porre da democracia, talvez se esteja vivendo o porre da imprensa. Aliem-se coisas detestáveis como o tal do politicamente correto, a intolerância, o consumismo patológico, a ode por se reclamar de tudo e outras ondas sociais brazucas.

Rui Barbosa ensinava que “não existem palavras ociosas na Constituição”. Todo e qualquer termo legal, constitucional, contratual precisa ser interpretado juridicamente. Leigos têm certa dificuldade em “aceitar” isso. Acham que leem literalmente e pronto. No caso da Pec 33, alguns se agarraram à palavra “independência” dos poderes. Mas independência no caso, não é ausência de toque, comportamento estanque radical. Os 3 Poderes praticam funções uns dos outros. Limites e quantidades de outorgas constitucionais, desde que não sejam cláusula pétrea, podem ser revistos. O problema é que tudo está virando lóbi e alguns são bastante poderosos. Jean Menezes de Aguiar

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pais e filhos



 
Artigo publicado no Jornal O DIA SP - semana de 25.abr.13
 

                Filhos não são criados “para os pais”. Ou não deveriam ser. Pais têm que admitir e compreender a existência de choques de ideias. Às vezes desconcertantes e em diversas áreas cruciais. Mas isto não é tão simples assim, ainda que muitos pais digam que “discordâncias” sejam naturais. Da boca para fora é fácil. Vivenciar conflitos ideológicos e de gerações é bem mais complicado.

                Até que ponto os pais “sabem” o que é melhor para o filho? É muito comum pais afirmarem, ou imporem isso, às vezes autoritariamente, apenas porque viveram mais tempo. O “saber mais” sempre escondeu a barganha do poder. De pais para filhos, é comumente utilizado, o jargão, em nome de uma suposta maior maturidade. Em muitos casos e assuntos ela até existe. Mas em outros não. Veem-se, por exemplo, alguns pais vivendo tragédias e tormentos pessoais, em absoluta falta de bom senso e sabedoria para administrar a própria vida.

                Sabe-se que a vida “perfeita” não existe. A maturidade acabada também não. Todo conselho admite questionamento. O fato é que nem todos os pais são geniais; equilibrados; sensíveis; e mesmo verdadeiramente amorosos com os filhos. Assim como também há filhos iguais.

                Em relações difíceis há sempre um tipo de conserto muito válido para ambos os lados que é o infalível amor declarado. Declarar amor vale para qualquer erro ou indelicadeza. Do filho para o pai ou no sentido inverso. Expressamente, cara a cara, além de ser um grandioso presente, é o remédio mais poderoso que existe. Isso não quer dizer que alguém possa “trair” o outro alegando amor.

                Pessoas calhordas traem a confiança do outro, mentindo, dissimulando para depois alegar amor e tentar disfarçar o que praticou. Esta hipótese sequer é considerada aqui. Pessoas ruins há, em qualquer lugar, sejam pais ou filhos.

Há também o farisaísmo das falsas preocupações. Em nome delas, muitas vezes, o que se busca é a manutenção de poder. Pais que invadem a liberdade e a autonomia de filhos, quando suas intenções são desmascaradas, alegam a “sagrada” preocupação de pai ou de mãe. Para alguém minimamente inteligente, não cola. Desrespeito não pode ser chamado de preocupação. Violar direitos não tem nada que ver com preocupação. Relações densas em amor e confiança não precisam violar, são conversadas.

                Liberdades de filhos, no curso de seu amadurecimento, na idade pré-adulta, são invariavelmente tomadas, conquistadas. Isso parece estranho, mas toda liberdade aí deverá ser um direito na vida adulta que se aproxima. Pessoas colecionam direitos, “mesmo” jovens. Isso é bem fundamentado em Rudolf Von Ihering, na obra A luta pelo direito. Ali se aprende que todo direito, na história do mundo, foi e é tomado, nunca cedido gratuitamente, pela “bondade” de algum patrão, pai, gestor ou Estado.

Filhos, mais ou menos ali pelos 16 anos de idade, iniciam ou agudizam um processo de “resistência” lógica, mais fundamentada, aos comandos e desejos dos pais. Quando os pais são inteligentes em buscar o diálogo, conseguem explicar, e convencer, com lúcidos fundamentos e razões, que alguns “nãos” são honestos e necessários. Essa inteligência paterna, em muitos casos, “vence” o adolescente que se torna um admirador dos pais. Percebe, o filho, que deve viver contenções e cuidados normais postos pelos pais. Este diálogo é troca e amor.

                Em relações saudáveis há “nãos” naturais ditos aos filhos. São impostos e manejados durante toda a infância de uma forma ao mesmo tempo firme e inteligente. Nestes casos, no futuro, a previsão é de ausência de problemas. Mas isso não quer dizer o conceito frufru da moda em educação que é o tal do “limite”. Essa palavra passou a ser a grande mentira em razão da falta de autoridade, conceito jamais confundível com autoritarismo. Pais que precisam repetir 5 ou 18 vezes um “não” a um filho para depois ainda concordar dizendo que “é somente esta vez”, devem ter uma relação familiar bem quebradiça. Até no amor.

                O filho que aprende a confiar na inteligência e diálogo com os pais, tê-los como referência ou mesmo ídolos de equilíbrio e sensatez, terá muito mais receptividade em ouvir um “não”. Saberá que este “não” certamente será inteligente e dosimetrado. Em uma relação sadia assim, o choque de ideias ou de gerações será sensivelmente menor e mais harmonioso. Filhos entenderão. Pais também.

                Choque de ideias tem que ver com direitos, imposições e vontades. Na medida em que o jovem avalia que pode fazer certas coisas, considera isso um direito seu. Assim, beber além da conta, voltar tarde da boate, fazer sexo, fumar maconha etc. Famílias que não conversam, não negociam pelo diálogo podem enfrentar alguns desastres ou surpresas. Conversar aí, não é exercer “controle”, mas essencialmente conhecer o filho a fundo. E conhecer passa por não se surpreender com novos valores e comportamentos.

Choque de ideias também pode se ligar a divergências políticas, religiosas, morais e de comportamento em geral. Há formas autoritárias de educação, suavemente disfarçadas. Por exemplo, a que impõe uma religião ou um modelo de voto político ao filho. Essas escolhas são óbvios traços de personalidade de cada um. Jamais deveriam ser fruto de ingerência externa à personalidade. Filósofos famosos ensinam que não há bebê cristão ou bebê muçulmano. Isto é uma invenção familiar oriunda do autoritarismo. Do mesmo jeito que não há bebê petista, direitista ou comunista.

 Pais precisam analisar “quanto” negarão de personalidade ao filho impondo pequenas ou grandes invasões em sua estrutura de ser pessoa plena. Educar não é moldar, adestrar ou calar a criatividade, a crítica, a irresignação e a genialidade de alguém. Também não é querer fazer um filho à imitação dos pais, ainda que naturalmente isso possa ocorrer em certa medida. A família brasileira é essencialmente conservadora e isso jamais pode ser entendido como um elogio. Os preconceitos precisam do conservadorismo como ingrediente primeiro.

Até certa idade são os filhos que precisam entender os pais. Só que o futuro não “pertence” aos pais, mas aos filhos. Aí serão os pais que precisarão entender os filhos. Dá-se essa troca. Um filho psicologicamente forte, bem informado e com padrões morais e éticos firmes parece ser o mínimo para que a vida lhe sorria. Aí pode estar um conceito interessante de educação inteligente e forte. Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Rapidinhas.

A ciência, a verdade e o amor.

Viu-se requentado nos EUA algum debate entre criacionistas (o homem foi feito por Deus) e evolucionistas (o homem evoluiu como Darwin explicou em 24.11.1859). Cientistas nunca precisam invocar Deus para demonstrar suas teorias, já evolucionistas apelam dizendo que suas teses são “científicas”. Ou usam a fraude maior: “está comprovado cientificamente”, a frase-lixo. Qualquer teoria pode ser científica, basta conter os 2 pilares do método científico: 1) evidência, para qualquer pessoa; 2) capacidade preditiva - testes racionais devem confirmar. Só isso. Pessoas com um mínimo de objetividade compreendem a diferença entre crença e ciência. A Igreja Católica, aquela dos bispos com Ph.D, teve a honestidade de se “arrepender” e se retratar. O papa João Paulo II reabilitou Galileu depois de 359 anos. A Igreja aceitou a Evolução de Darwin. Veja que bonito! A Evolução ficou por 80 anos sendo combatida dentro da ciência, até que a própria ciência não conseguiu mais combatê-la. Darwin foi totalmente confirmado. A Evolução deixou de ser uma teoria e se tornou um fato (por todos, Ernst Mayr). Argumentos objetivos, racionais, lógicos e demonstráveis são sedutores para o inteligente. Uma boa leitura é “A goleada de Darwin”, do grande biólogo Sandro de Souza. Um livro fácil, modesto, simples e racional, como a ciência. O amor que a ciência ensina é um amor da verdade, com paz, não é um amor com ameaças e pecados, temores e culpas. Experimente a ciência. Dê ciência para o seu filho, dê infinitamente; torne-o inteligente. JMA.

O Facebox e o amor.

As pessoas não estão amando. Não estão se tocando, se abraçando, se acarinhando. Não se trata dum discurso piegas (isso seria bobinho).
O Facebox é maravilhoso, mas talvez tenha "serenado" amizades no sentido de que se estamos aqui, não precisamos de "mais". O contato físico saiu de moda, os almoços, as visitas, as surpresas.
A proximidade virtual não é proximidade real, não é amor trocado. Parar de trocar amor foi o grande prejuízo social. Parentes, amigos, vizinhos não estão se tocando mais. Têm-se todos no Fb e "pronto". Há uma sensação de proximidade falsa. Saber que o outro está ali (e não morreu) não é saber do outro.
Nas redes sociais não se trocam dores, saudades, tormentos, dúvidas, e dificuldades: o "colo". E no mundo real isso não desapareceu. As pessoas precisam se tocar mais, se beijar, convidar, querer ter o Outro junto. Desejar parabéns a um aniversariante on line não é olhar no olho, não é um beijo, um abraço e a satisfação que só o amor dá.
Não "curta" apenas um texto desses, reflita. Não enalteça seu autor, distribua beijos verdadeiros e declarações de amor. J-P Sartre ensinava que "o prazer não pode existir antes da consciência do prazer". É essa consciência que nos fará buscar o prazer do amor e querer que o Outro tenha o mesmo prazer. Sejamos melhores de o que fomos até hoje, pela opção do amor, a qualquer um, a quem até nem mereceria amor. O amor é infinito. Desperdice-o. Sua beleza enquanto pessoa pode estar aí. JMA.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Martin Richard, 8. Até quando?






 
 Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 18.4.13

                As bombas na Maratona de Boston (15.4.2013) fizeram três vítimas fatais, uma delas o garoto de oito anos. Mais 176 feridos, alguns graves. Martin Richard aparece em sua última foto com um cartaz feito para a linha de chegada. Ia esperar o pai. Escreveu “não mais ódio - paz”. Exatamente esse menino com essa mensagem morreu na explosão. Sua mãe teve traumatismo craniano, está em estado grave. Sua irmã teve uma perna amputada. Seu pai, vê-se, perdeu muito.

                A importância não está em Martin ser americano, ocidental, louro e falar em paz. Poderia ser árabe ou judeu; brasileiro da favela ou do Leblon; branco, amarelo ou preto. Há que se igualar a condição humana. O problema é a raiz de inúmeros casos semelhantes: a guerra. Quando não é política, é religiosa. No Brasil existe a subguerra do tráfico que mata igual.

                O famoso cineasta espanhol Luis Buñuel tem uma frase conhecida: “Deus e a Pátria são um time imbatível; eles quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue.” Essas verdades não podem ser disfarçadas pelo incômodo que algumas pessoas ligadas à religião “querem ter” quando se discute fé. Impedir a discussão é patrulhamento radical. E o ingrediente utilizado costuma ser a mentira. Já o disfarce invariavelmente esconde um discutível padrão moral.

                Na Primeira Guerra Mundial mulheres obedientes, e tolas, entregavam plumas brancas a jovens não fardados dizendo – “não queremos perdê-lo, mas achamos que você deve ir, pois seu rei e seu país precisam que você vá” (trecho de uma música inglesa da época). Consciências, valores, análises pessoais eram simplesmente jogados no lixo. O patriotismo era uma virtude absoluta. Não havia questionamento que suplantasse o slogan do soldado profissional que era “Meu país, certo ou errado”. Em nome disso se matava à vontade.

                A filosofia da guerra discute o bestialismo de não se refletir que se vai matar qualquer um ou qualquer grupo que um político-chefe mandar. Tudo por um patriotismo de plantão que em muitos casos é requentado às pressas. Essa cegueira há nos conflitos ligados à “pátria”, esse conceito encharcado de moralismo e cobrança. Mas há outras cegueiras.

                A cegueira que matou Martin Richard, já se suspeita, é a religiosa que, modernamente, passou a ser em muito confundida com a terrorista. Terrorista, aí, é apenas a funcionalidade do ato: o matar qualquer um, desde que com visibilidade. Mas na história, em muitos casos, a causa do terrorismo é religiosa.

                Foi assim e continua a ser com os ataques suicidas; com o 11/9; com o 7/7 londrino; com as Cruzadas; com a caça às bruxas; com a Conspiração da Pólvora; com a partição da Índia; com as guerras entre israelenses e palestinos; com os massacres sérvios/croatas/muçulmanos; com a perseguição dos judeus como “assassinos de Cristo”; com os problemas da Irlanda do Norte; com o Talibã e cristãos a explodir estátuas antigas ou chutar novas; com as decapitações públicas de blasfemos; o açoite da pele feminina pelo crime de ter se mostrado em um centímetro (relação de casos do biólogo Richard Dawkins). A boçalidade humana é infinita e muitas vezes o ódio é camuflado em algum ente ou livro sagrado.

                John Lenon imaginou exatamente um mundo sem essas mortes e guerras, por isso passou a ser o símbolo mundial de pessoa da paz. Sua música Imagine às vezes é tocada nos Estados Unidos, por radicais, nada geniais como Lenon, de forma adulterada, com a frase “and no religion too” expurgada, trocada para “and one religion too”. Até a arte, a poesia e o sonho os fundamentalistas patrulham, moralizam e proíbem a seus fanáticos. É a tragédia da ignorância.

                Os Estados Unidos não vivem atualmente uma nova contestação ferrenha, interna ou externa, que motive bombas em razão de algum padrão econômico, de guerra política, de invasão, social doméstico ou outro equivalente. Sobra o velhaco terrorismo religioso. Passei o último mês em Nova Iorque, parecia que tudo já estava normal de novo. As pessoas se viam tranquilas nas ruas repletas de polícia. Desgraçadamente a esta hora a lembrança do terror volta a rondar.

                Este atentado também pode ser obra de um “maluco”. Mas o presidente Obama, que resistiu num primeiro momento a assumir, já passou a dizer que é, sim, terrorismo. O caso é que até os grupos terroristas podem ter “aprendido” a não mais assumir autorias. O silêncio pós-atentado está estranho.

                Com este atentado dá-se uma imediata globalização da preocupação e do medo, que não é mera neurose social. A Maratona de Londres e a do Rio, bolas da vez, já começaram a ser repensadas. O brasileiro “não quer” assumir a ideia de que uma bomba possa explodir em seu pacífico quintal. Mas o terrorista profissional não quer saber. Além do mais, os órgãos de segurança domésticos que não têm lá muita intimidade com a coisa. Aí não é caso de Bope.

                Um dos problemas do fundamentalismo que explode e mata pessoas acaba sendo a leniência ou ausência de resistência pelos seguidores pacíficos. As guerras santas foram e são justificadas assim. O silêncio dos pacíficos é comprometedor. Sêneca cunhou: “A religião é considerada verdade pelas pessoas comuns, mentira pelos sábios e útil pelos governantes.” Quando o fanatismo consegue usar esta “verdade” religiosa para matar, e não “apenas” para praticar seus preconceitos, passa-se a ter a morte santa.

                Os Estados Unidos pagam o preço assimétrico que é enfrentar o terror. A sociedade americana se tornou refém do gasto público bilionário incessante para, meramente, se proteger de radicais. O problema é que nenhuma proteção é cem por cento capaz. Basta um mero Martin Richard para se perceber que um mínimo furo no transatlântico quer dizer uma vida. Viva John Lenon e seu sonho de paz. Nossas lágrimas por Martin. Jean Menezes de Aguiar

sábado, 13 de abril de 2013

Minha Cara Amiga Monica Cristina

O intelectual e a linda


Texto de Fakebook 


Minha Cara Amiga Monica Cristina.

“A coisa aqui tá preta”, copiando Chico. Não quero lhe importunar aí, mas talvez nossas notícias não deem a volta ao mundo, rs. Aproveito para contar umas mentiras pessoais, umas vantagens empedernidas, pedir confetes e tentar uma massagem no ego. Contrito.


Vc já percebeu que por aqui a inteligência saiu de moda. Isso lembra Jabor, sempre genial e emputecido (e emputecendo!). Minha mãe podia ter transado com o pai do Jabor, aí eu nascia Jabor. (Será? rs). A encrenca é que o patrulhamento ganhou ares de ideologia facistoide em que as falas são vigiadas por moralistas de plantão, conservadores autoritários e caretas travestidos de modernos. É a ditadura do babáquico.

Gerald Thomas apalpou a região pubiana de Nicole Bahls, com uma autorização tácita da coxuda que não está nem aí para uma bobagem dessas, encarnando personagem no Pânico (um programa de TV). Aí uma “imprensa” de Fakebook abriu guerra ao teatrólogo odiado, rs, dizendo que ele a tinha “estuprado”. Veja o link* da resposta dele. É uma delícia, uma vingança clitoriana contra essa horda antiquada. Vc, sei que vai gostar.

Os moralistas, tanto da Filosofia como do Facebox, continuam patéticos.

Lobão que era ministro na década de 1950, continua ministro de minas e energia, com os “mesmos” cabelos. Renan voltou. Collor também. É verdade! Sarney continua novo em folha. Tem um pastor que odeia gays e negros, se depila e se maquia todo, dizem, que virou presidente da comissão direitos humanos da câmara dos deputados. Não é do cacete? O Senado ainda existe, não conseguiram ouvir o prof. Dalmo de Abreu Dallari e extinguir aquilo. O aborto ainda não foi liberado, em que pesem todos os Conselhos Regionais de Medicina e o Federal apoiarem a prática do primeiro mundo. Casamento gay, na Argentina, Uruguai, nada de Brasil. Mas a gaysada sabe se defender, se “virar”.

A Europa avança com a ciência, nós avançamos num fundamentalismo religioso e a guerra santa talvez pegue nossos filhos ou netos. Famílias estão sendo separadas e desunidas por essas ideologias radicais. Aqui, “deus” virou mercadoria paga com cartão de crédito.

O partido dos trabalhadores, lembra?, dizem que tem acordo com o crime organizado paulista que a polícia jura por deus não saber como acabar. Brasileiros ainda bebem para dirigir e continuam matando, mas a impunidade é praticamente igual.

A música ao vivo de qualidade não existe mais. Não sei onde ouvir MPB ou jazz na maior cidade do continente. Elis, Gal, Djavan, Chico etc. nada. Tim e Emílio morreram, como pode isso? Agora inventaram uma música “universitária” com 3 acordes totalmente tolos e nos shows o cantor é obrigado a gritar – “todo mundo galera”. Acho que essa frase é ligada a satanás, porque milhares de pessoas se histerizam quando ouvem o troço. (Satanás entrou na moda aqui, então vamos falar do idiota que muita gente ainda tem medinho).

Serra, o neo-Maluf ainda tenta ser alguma coisa. Maluf? Parece que pegaram 500 trilhões dele numa conta aí mas ele continua religioso: jurando.

Faustão, sucessor de Chacrinha, o gênio, ainda existe. Eu, bem tô velho e acabado, a peruca que vc mandou daí continua me servindo. Também continuo o mesmo sonhador tentando aprender piano, mas não consigo.

Não posso falar muito, afinal há diversas ditaduras policialescas no ar. A ditadura da imagem, não sabem distinguir uma zombaria de algo sério. A ditadura da mediocridade, querem preconceitualizar o que vc diz. A ditadura do ódio, utilizam o menosprezo para não dialogar. E a ditadura do politicamente correto (isso sei que tem aí aos montes, rs).

Saímos do penúltimo lugar em pior distribuição de renda do mundo, com Serra Leoa, e somos agora o oitavo pior. O Estado arrecada 100 mil reais reais por segundo. Recorde em cima de recorde.

Vão fazer 4 tribunais a custo de 8 bilhões. Não é sacanagem. Juro que não é. O presidente do Supremo é um negro. Não tô de sacanagem. Não sei se tem almirante negro, mas no Supremo já tem. Evoluímos né? É, é alguma coisa.

Esta semana um rapaz de 19 anos foi morto num assalto na porta de casa. Isso virou rotina. Deputados se aumentam em 60, 70% e a sociedade, nada. O teto de salário oficial é 27 mil reais, mas todo mundo ganha 40, 50, 90 MIL (no Estado). Bem, deve ter neguinho se coçando pra dizer que não é todo mundo. Isso é o que mais tem em Fakebook. Ô gente chata. Ok, tem só uns 15 mil do governo ganhando isso.

Pais continuam a abusar de filhas. Hospitais públicos continuam a sacanear doentes e jogar-lhes seguranças como se fossem assaltantes.

Mas tem o futebol. Importamos da Inglaterra o ódio do torcedor, última moda aqui. Se deixar as torcidas se assassinam. É sério. Mas o Brasil é a bola da vez. É isso amiga. Vou me candidatar à ABL este ano concorrendo com FHC. Será que os textos do facebox contam? Um beijo em vc e no maridão super-mega. Estou programando uma viagem este ano para Aparecida do Norte, mas vou de leito! Vou me benzer, ou contrair um empréstimo para pagar advogado. Fui.

Ass. Atheneu São Luiz, seu criado.

* http://odia.ig.com.br/portal/diversaoetv/mulher-n%C3%A3o-devia-se-portar-como-objeto-diz-gerald-thomas-ap%C3%B3s-pol%C3%AAmica-com-nicole-bahls-1.571420

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Os 4 tribunais bilionários


A festa da riqueza
 
 
 Artigo publicado no Jornal O DIA SP, semana de 11.abr.2013

                Com o Mensalão o Supremo Tribunal Federal virou pop. Seu ícone atual, Joaquim Barbosa, ganhou status, no colo da mídia, de star. Percebeu que suas frases de efeito – e seu temperamento – serão devastadores nas manchetes de uma imprensa ávida por escândalos. Mas isso é somente a espuma. Há dois buracos mais embaixo. Um o que efetivamente mostra a existência de mutretas intermináveis no país, praticamente diárias. O outro, da sociedade que se mostra enlouquecida em comprar sensacionalismo e “justiça”, ou o que se possa entender por este conceito.

                Com o consumismo a justiça entrou na moda. Berra-se por justiça. Fazem-se passeatas por justiça. Criam-se ongs globais e interplanetárias por justiça. Justiça passou a ser o alimento mais imediato e barato do consumismo quando algo dá errado. E como há uma adoração por “reclamar”, viva a justiça. Passamos a ser uma sociedade da reclamação, como se fôssemos perfeitos e éticos. Marilena Chaui chama esta onda de “ideologia da ética”. Apenas uma ideologia, não há a ética em si. Reclama-se por correção, ainda que mentirosamente.

                Esta semana ouvi no supermercado Pão de Acúcar, esquina das Avenidas Francisco Morato e Jorge João Saad que 300 carrinhos simplesmente sumiram. Isso mesmo. Com a proibição das sacolas plásticas, há tempos, clientes levaram os carrinhos para casa. E não devolveram. Há, nessas mentes a invocação de “uma” justiça. Bem maleável, como ensina Hans Kelsen na obra O problema da justiça. Algo assim: “como não me dão mais sacolas não estou ‘muito’ errado em levar um carrinho, afinal como vou descarregar as compras em casa?” O “afinal” é o fundamento, a razão. Isso aí a 1,5 quilômetro do estádio do SP, em pleno Morumbi, uma região “chique” (...) de São Paulo.

                Provavelmente muitas dessas pessoas “descoladas” e “politicamente corretas” participam de passeatas pela “paz” e se mostram engajáveis em algum movimento cujo nome anteceda a expressão “do bem”. Ciclistas do bem, investidores do bem, empresa do bem etc. Os monstros não são os bichos, somos nós, humanos que matamos, roubamos, estupramos. E babamos discriminação como presidentes de comissões legais, estatais, oficiais aí.

                Joaquim Barbosa esta semana deu mais um presentão para a imprensa. Ou meramente “contou”, coisa que os conchavos proíbem. “Revelou” que houve “conversas sorrateiras” para a criação de 4 tribunais à bagatela de 8 bilhões de reais. Pois é, passou a haver no serviço público uma ode ao Estado, à oficialidade. Assim, que se jorre o dinheiro da sociedade para palácios, monumentos, comemorações, viagens, passeios, representações etc.

No entrevero anunciado, na sala do Supremo, já que se sabia que JB era contrário à criação dos tribunais, foi autorizada a participação da imprensa. Uma primeira indagação: por que um assunto institucional com um embate certo precisaria ser “transparente” à imprensa? Uma resposta é: pela candura de devoção à transparência. Isso beira à ingenuidade. Outra resposta é querer, JB, que o escândalo certo causasse sensação na sociedade para ela “defender” a tese contrária à construção dos tribunais bilionários. Uma última é palanqueal: se é verdade que JB vai ser candidato à presidente da república, quanto mais marola na defesa da sociedade “melhor”. Para ele.

Joaquim não está errado quando afirma que associações de classe não podem falar oficialmente pelo Judiciário, pelo Estado. Isso tem a ver com a natureza jurídica dessas entidades que, jamais são órgãos estatais. E o órgão oficial que, sim, representa o Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça, curiosamente não foi ouvido. Tem coisa aí. Não interessa se uma ou outra associação existe há 40 anos, como defendeu um dos presidentes. Antiguidade não outorga natureza jurídica de oficialidade a uma mera associação de classe.

Por outro lado, as falas de JB foram para lá de organizatórias. Chegaram ao autoritarismo quando impuseram um público calaboca no juiz apenas por negar a tese da “conversa sorrateira”. Aí, Barbosa que atira a primeira pedra deve imaginar que a resposta virá, elaborada por pessoas inteligentes e com tempo para orquestrar a contestação. Saldo: todas as associações e a OAB se manifestaram contundentemente contra JB. E por mais que o presidente do Supremo possa ter ficado conhecido como um Batman nas redes sociais, ele é apenas um. E não é, de verdade, o Batman. As respostas expuseram, ou sugeriram, um JB descontrolado, o que pode ser ótimo para uma campanha política, no sentido de “autenticidade”. Mas péssimo para um magistrado em atividade.

                Isso tudo, ainda, não é made in JB. Há retratos sociais nítidos aí. O sociólogo Zygmunt Bauman, na obra Vida líquida, p. 67, mostra que requentamos a sociedade do olho por olho, num modelo de vendetta (vingança). Não se berra por vingança, que é feio, mas por “justiça”, ainda que o ódio possa estar nítido. Se é “justiça”, tribunais bilionários “podem”, afinal farão justiça. O pastor-deputado da comissão de direitos humanos que diz que Deus vingativo matou John Lenon porque Lenon sugeriu os Beatles como religião, terá mais votos. Ele invoca nada menos que uma justiça divina. Maluca, mas invoca.

A sociedade se alimenta disso. O pacatamente ordeiro, o carinhosamente amigável e o belamente gentil são rotulados de bobos. Do mesmo jeito que o que busca racionalidade e lógica é tido como radical. Não se percebe o absurdo que são 8 bilhões de reais num país em que nem todos têm água potável para viver e outra parcela acha “genial” comprar água para beber em vez de um filtro. Isso no país da água. Legalistas dirão que os tribunais foram “aprovados”. Essa é a sua “razão”. Jonathan Glover, citado por Amatya Sen, na obra A ideia de justiça, p. 66, dispara: “onde pode ser encontrado o remédio para o mau uso da razão?”. Razões são “escolhidas”, umas em detrimento de outras. Essa é a grita de JB de que houve uma má escolha.

Ouvi numa cidade do nordeste que ali havia apenas 50 automóveis, e todos “de luxo”. Eram as “autoridades” que circulavam “quando iam” trabalhar. O resto da população andava a pé e de jegue.  Em outros lugares, os prédios são apenas os “palácios” oficiais, todo o resto da população habita casinhas quase de pau a pique. Isto faz lembrar a velhaca teoria econômica do primeiro crescer o bolo para depois dividi-lo. O Brasil já é o país do presente: para alguns. O conceito de “justiça” com 4 tribunais sorvendo 8 bilhões de reais é a razão de crescer o bolo (“justiça”) para depois se dividir (atendimento). Por outra lógica, o povo precisa de atendimento hoje. A fórmula cretina do bolo já mostrou sua mentira histórica.

                Pelo volume de dinheiro envolvido no caso e o hábito oficial brasileiro de superfaturar tudo, e todos os envolvidos sempre se “darem bem” supõe-se que JB não tenha dito bobagem quando usou a palavra “sorrateira”. O futuro dirá. Para desespero da sociedade, parece que “o uísque” estava certo. Viva JB sem gelo. Jean Menezes de Aguiar.