quarta-feira, 20 de março de 2013

JB cowboy



Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 20.3.13

Joaquim Barbosa, presidente do Supremo quer ser julgado por suas declarações fortíssimas. Gestores públicos em cargos ímpares, como o de JB, costumam primar por falas políticas. Fazem declarações mil vezes mais suaves. Em muitas vezes mentirosas. Mas como a mentira passou a ser a regra em declarações públicas de “autoridades” e a sociedade brasileira desenvolveu um anestésico contínuo em relação a ela, tudo se organizou. Praticamente todo o setor público de primeiro escalão mente com salários falsos; mordomias; casas, meninas e meninos de prazer; projetos e obras elaborados em mutretas financeiras e todo tipo de festa com o dinheiro público. Contam com a inesgotável paciência e falta de reação da sociedade brasileira.
Fica a imprensa feito louca, berrando sozinha, mais algumas ongs e tentando sacodir uma sociedade sonolenta. Tudo sem grandes eficácias. Pela sociedade, só se vê algum movimento quando um interesse próprio ou corporativo é afetado. Assim, 130 ciclistas se reúnem para reclamar a morte de um deles na Av. Paulista. 250 motoboys param a cidade de São Paulo para continuar impunes à fiscalização. E continuam. Mas Joaquim Barbosa é diferente.
Parece que as “taras antropológicas” que o perseguem, conforme ele confessou, vivem fazendo sua baiana rodar. Constantemente. Daí, cessam os eufemismos. Vêm as bravatas. Mas o que seria a sociedade sem um ícone assim? JB presta um grande serviço. Não interessa se está ou não em palanque eleitoral para ser o primeiro presidente da República negro dessa brazuca desvairada. Como todos estão acostumados a presidentes do Supremo Tribunal Federal híbridos em termos de declarações, compostos, polidos, políticos no sentido de contidos, um JB destrambelhado – para muitos é assim –  é o que de melhor pode haver para essa sociedade adormecida.
                O curioso é que quem passou a pisar em ovos, para não dar o verdadeiro tom de toda a potência das falas de JB foi exatamente a imprensa, sempre ávida atrás de um rentável escândalo. Parece que ela vem reagindo assim: espera aí, isso é muito forte, deixa eu suavizar um pouco. O fato é que JB, esteja ou não “jogando para a plateia”, começou a contrariar a lição de Voltaire, quando ensinava que “o segredo de aborrecer é falar tudo”. JB é um radical e isso é sua virtude. Chega de fingidos e engomadinhos, a praticamente totalidade.
                Outra leitura que poderia haver é a da “compensação”. Como JB talvez ganhasse a antipatia de uma larga fatia da imprensa, quando mandou o jornalista do Estadão chafurdar no lixo – que descontrole admirável –, chamando-o de palhaço – que grosseria brasileira interessante –, teria resolvido presentear a imprensa. Dar uma temporada de escândalo com as falas e críticas últimas. É um bom presente. Mas pouco importa. JB está “causando”. E isto não é ruim para a democracia que precisa de transparência.
Na última terça-feira (19) o ministro falou de relações oficiais para lá de espúrias. Afirmou que "o conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso" e que há muitos magistrados "para colocar para fora". A falação ocorreu durante reunião do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), presidida por Joaquim Barbosa. No episódio, foi aposentado um juiz do Piauí acusado de relação indevida com advogados. Além de ter liberado 1 milhão para um morto, o excelência lá também recebia caronas. Caronas?
Não parou aí. Jb também afirmou:  "sabemos que há decisões graciosas, condescendentes e fora das regras". Foi retrucado pelo desembargador Tourinho Neto na sessão do CNJ, dizendo que JB estava “endeusado”, mas os juízes se veem acovardados. Acovardados? Tadinhos. Ainda, Tourinho lembrou o episódio do ministro Dias Toffoli: "Tem juiz que viaja para o exterior com festa na Itália paga por advogado e ai não acontece nada". Mas aí Barbosa não retrucou. E Tourinho prosseguiu: "Se for para colocar juiz analfabeto para fora, tem que botar muita gente, inclusive juiz de tribunais superiores". Admitamos: a democracia não é um tesão?
Chama a atenção o presidente de um dos Poderes com declarações e diálogos tão fortes e incisivos. É claro que entidades como associação de juízes e OAB se manifestam, mas o fazem formalmente. No máximo dizem que “não é bem assim” e que “não se pode generalizar”. Essas falas educadas têm o condão de não deixar um vazio. Veem-se corretas. Mas a crítica continua ardendo, exatamente por ser inusual, fora do padrão do “bom gosto”, como reclama a grande pensadora Adriana Calcanhoto, na música “Senhas”.

No mérito e de sabido, relações espúrias entre juízes e advogados pertencem à categoria do mau profissional. Isso existe em todo lugar, em toda profissão, em todo cargo público. Uma vitória processual obtida pela compra de um juiz é um jogo vil, desrespeitável. As falas de Barbosa poderiam “influenciar” mais as corregedorias. Sonhar também é bom. O que é novo na engrenagem é que nunca se falou abertamente assim. Os espíritos de corpos costumam ser vingativos e devastadores. No caso dos magistrados ainda há outra confusão mental: há quem ache que eles não erram. Agora, como se trata do presidente do Supremo, uma reflexão maior pode existir. Ou não haver nada, claro.

Joaquim Barbosa está entre o céu e o inferno. Precisa aprender a viver mais no lado do céu, talvez. Quando chama o jornalista de palhaço está no inferno e sua vida pode se transformar num caos. Se for verdade que ele é “namorado de uma advogada”, como foi noticiado, suas falas ganham “espanto”. Mas quando ele fala das entranhas do Judiciário, em nítida transparência, ele vai para o céu. Falar o que se sabe e deve, mas ninguém fala é ponto positivo.
A sociedade precisará desse Batman, como ficou apelidado nas redes sociais, avocando uma autoridade moral para deitar falação da boa. Sua máscara de carnaval popularizada na festa deste ano não foi em tom de crítica, mas de aprovação. Há muitos vespeiros para serem tocados. Vamos ver quais o ministro vai escolher para mexer. Vem turbulência por aí. Vida longa a JB. Sem gelo, cowboy, por favor. Jean Menezes de Aguiar

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os 10 tipos mais chatos na internet

Ela é lindinha, mas diante de um chato, só com careta mesmo...


Os 10 mais chatos na internet, segundo pesquisa da loja britânica de artigos esportivos Sweatband:

1. Viciado em dieta e exercício - Acreditam que, por serem importantes, calorias perdidas merecem ser compartilhadas e cada novo exercício feito na academia é uma ótima oportunidade para uma foto.

2. Aficionados por comida - Não iniciam uma única refeição sem antes mostrar para todos os contatos que pizza de dois queijos e mel podem ser uma ótima combinação. Mas se for pão-de-queijo, a liturgia é respeitada também.

3. Polemistas de sofá - Postam mensagens vagas questionando seus contatos a entrarem em um interminável vórtice de opiniões duvidosas e fatos questionáveis.

4. Social gamers - Colocam lado a lado entre as prioridades a eleição do Papa e a doação de vaquinhas para a horta no Farmville. Se você não jogar, convite não falta.

5. Pais orgulhosos - Babões de plantão informam aos amigos, via rede, cada movimento dos filhos - desde o ultrassom.

6. Compartilhadores compulsivos - Não têm medo de dividir detalhes de suas vidas pessoais, um livro aberto, sem censura e com notas de rodapé picante.

7. Batedores de ponto - Dizem onde, quando e por quê estiveram em um estabelecimento comercial. Sempre. Dar ‘check-in’ é preciso.

8. Spammers de balada - Com eles, a vida é uma festa e você não pode perder. Por isso, enviam convite a todos - mesmo aos que não estão na mesma cidade ou no mesmo país.

9. Stalker Big Brother - Eles estão de olho. Em tudo. Comentam, curtem, compartilham e retuítam cada foto, atualização de status, post e novo recorde quebrado no Banana Kong.

10. Promotores de si mesmo - Donos de pequenos negócios que tratam amigos como clientes em potencial. Cada conversa é uma prospecção de negócio

A venda em loja

 


 
Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 14.3.2013
 
                Pode-se sustentar que há diferenças entre negociação e venda. A venda seria um momento; a negociação um processo. A venda seria uma obtenção; a negociação uma relação. Em termos de “tamanho do processo”, a venda seria mais rápida e menos elaborada do que a negociação que exige, em praticamente todos os casos, elaborações, planejamentos e análises.

                É claro que houve influxos aí. Os conceitos acabaram se interpenetrando bastante. Há quem considere venda e negociação partes de um mesmo processo relacional. Toda venda envolve alguma negociação, mas nem toda negociação envolve uma venda. Pelo menos a venda de um objeto material, como um sapato, o que quero tratar aqui. Pode haver, claro, um “produto” envolvido na negociação, inclusive imaterial, como uma ideia, ou um serviço. Assim, negociação poderia ser considerada gênero de que venda seria uma espécie.

                A literatura especializada é extensa, apenas alguns: Eugenio Carvalhal e outros: Negociação e administração de conflitos; e Negociação - fortalecendo o processo. Carlos Alberto Carvalho Filho: A azeitona da empada - negociação em vendas. Brian Clegg: Negociação - como conseguir acordos com as pessoas já. Herb Cohen: Você pode negociar qualquer coisa - dicas do melhor negociador do mundo. Henrique Sérgio Gutierrez da Costa: Negociando para o sucesso. Barry Farber: Negócio fechado! 12 clichês de vendas que sempre funcionam. Roger Fisher, Willian Ury e Bruce Patton: A negociação de acordos sem concessões. G. Richard Shell: Negociar é preciso. Linda Kaplan Thaler e Robin Koval: O poder da gentileza.

                Em cursos de pós-graduação, como os que temos na FGV, nas disciplinas Negociação e Administração de Conflitos e Negociação Comercial, o assunto da “venda” no varejo, em loja, sempre aparece. Nossos alunos, diplomados em economia, administração, contabilidade, direito, engenharia etc., ocupam cargos de gerência e direção em todo tipo de empresa pelo país. Algumas princípios oriundos da observação rotineira parecem ser aceitos de uma forma bastante generalizada.


                Na venda de loja, uma situação valiosa é se tentar “conhecer” minimamente o cliente. Se ele, por exemplo, tem 50 anos de idade, vai a uma loja de ternos e diz ser um alfaiate, precisando de uma roupa pronta, qual deve ser a postura do vendedor? Será que o “treinamento” de “convencimento” para clientes “comuns” sobre pano, acabamento, costura, corte, maciez e qualidade terão, neste caso muita “importância”? Fica claro que o vendedor terá que relativizar o atendimento, afinal, este cliente parece saber bastante (ou muito mais do que o vendedor) daquele produto que está procurando.

                Nestas situações, se o vendedor tiver a humildade, ou será inteligência, de até pedir dicas sobre, por exemplo, porque o tecido de lã fria super 80 “espeta” na pele de alguns clientes e o super 200 não, poderá  ganhar a simpatia do cliente. E num mundo de loja em que não poucos vendedores são chatos, insistentes e minimamente especializados, a simpatia e a verdadeira gentileza podem somar muito.

                Outra situação é o cliente que mostra, inequivocamente, logo no início, que não gostaria de ser incomodado. O vendedor deveria “acreditar” nisso. Há um traço de personalidade do cliente aí. Ele não quer andar na loja com um vendedor-sombra em suas costas, tentando empurrar cada peça que ele olhe ou examine. Não quer ficar ouvindo que as peças que olha são “lindas” e ficam muito bem nele. Este cliente pode sair da loja falando mal da empresa. Este pode ser um passivo de imagem péssimo para um negócio. Não saber analisar rapidamente que tipo de cliente está na loja pode criar desastres assim.

                Se a máxima “o cliente tem sempre razão” vale alguma coisa, há que se respeitar (mesmo) a vontade do cliente. Ainda que o vendedor estranhe e não entenda alguma coisa. Há uma equação: quanto a habilidade do vendedor consegue convencer um cliente a comprar. Mas pode haver um efeito colateral: conseguir empurrar um produto que o cliente não queria gerará satisfação ou arrependimento posterior? A “criação de valor”, que tanto se discute não se resume a “inventar” um valor falso e momentâneo para gerar a compra e danem-se as consequências. Um analista de pós-venda pode identificar nessa estratégia uma vitória de pirro.

                Outra situação é a do vendedor que mente. Na loja da Rolex, na 5ª Avenida, em Nova Iorque, uma vendedora para lá de veterana em termos etários e completamente vaidosa por ser vendedora da Rolex praticou este pecado mortal. Um cliente conhecedor de relógios entrou na loja e gentilmente perguntou onde era a loja da Tudor, um relógio fabricado pela Rolex que tem a marca Rolex na pulseira. A vendedora informou que o Tudor nada tem que ver com a Rolex, é um relógio sensivelmente inferior e que praticamente estava descontinuado pela fábrica. Em tempos de internet, uma consulta ali mesmo, no smartfone do cliente, ao site da Tudor, já desmentiria a senhora nitidamente de má-fé.

                Em tempos de Google é perfeitamente possível imaginar que haja clientes que saibam o que está pedindo, querendo comprar. Mesmo que sua roupa ou aparência possam não condizer, nos padrões preconceituosos de muita gente com o que se quer vender. Isso já é um outro caso.

                O preconceito visual e de percepção em alguns casos beira ao patético. Sabe-se de uma milionária que entrou numa grande loja de grife em São Paulo e perguntou o preço de um vestido. A vendedora olhou-a de cima abaixo e disparou: esse vestido é muito caro para a senhora. A cliente respondeu: “embrulhe dois”. Não se sabe qual foi o destino da vendedora depois disso.

                Tanto a venda como a negociação requerem inteligência e rapidez de raciocínio, se é que não são o mesmo. Há um famoso tripé a ser estudado nos livros indicados: tempo, informação e poder. O livro “O poder da gentileza” também é uma excepcional ferramenta para a negociação e a venda. O caso é que existe a gentileza falsa e a gentileza verdadeira. Clientes inteligentes percebem a diferença sem dificuldade. Uma gentileza apenas “treinada” e pronta para se transformar em implicância ou desprezo, raiva ou antipatia quando o cliente apenas não compra, pode ser uma marca negativa indelével para uma loja.

                Compradores em potencial podem dar “sinais de compra”. Vendedores dão “sinais de venda”, assim está nos livros e vale conhecer todos. Mas uma empresa mal concebida pode ter sinais difundidos negativos de atendimento. Isso é o pior que há. Há cursos até de curta duração para gestores empresariais. Sempre valem à pena. Na dúvida, ser extremamente simpático e gentil é o melhor. Aí não há erro. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 9 de março de 2013

Liberdade para os casais


O amor
Artigo publicado no jornal O DIA, semana de 7.3.2013
 
O tema não é novo, mas continua a comportar questionamentos interessantes. Há, continuadamente, uma carga bastante forte de preconceito social com questões que envolvem relacionamento de duas pessoas que se gostam e resolvem ficar juntas. O preconceito é velho de guerra, mas parece se renovar, inacreditavelmente, em sua trincheira de luta.
Antigamente havia um “normal”, pelo menos nos países conservadores, em termos de um roteiro evolutivo da relação. Namoro, noivado e casamento. Repare-se que, até paradoxalmente, a língua inglesa não conhece muito bem a terminologia “noivado”. Utilizam-se, por lá, diversas formas gramaticais “querendo dizer” noivado. A palavra “fiancé”, por exemplo, tem origem francesa.
Considere-se um conceito: união séria entre duas pessoas pelo vínculo do amor ou atração pessoal, com a finalidade de constituição de família, no mínimo ambos que ali já se encontram, sob parâmetros jurídicos e certos valores sociais. De o que se trata esta união? Analisado este conteúdo aí, sem nominá-lo, fica honestamente impossível dizer, com “perfeição”, que se trata de um casamento; uma união estável; ou “mesmo” uma relação de duas pessoas homossexuais.
Fatores como duas pessoas, vínculo de amor, finalidade familiar, parâmetros jurídicos e comprometimento de valores são comuns ou que podem ser perfeitamente comuns a qualquer relação entre duas pessoas. A lei variará em relação a conceitos de família, parâmetros jurídicos e valores sociais. Mas ela, no tema e em todo mundo, vive atualmente sua maior crise e revisão. Estima-se, por exemplo, que a própria Igreja Católica acabe com o celibato. Parecem não caber mais, no mundo, ou verem-se efetivamente atrofiados, interferências e comandos externos, legais ou heterônomos à vida dos casais.
Essa nítida evolução não quer dizer que a sociedade e a lei não imponham marcos divisórios conceituais nítidos. Mas uma grande questão, socialmente evolutiva se nos impõe: o mundo caminha para a redução desses marcos “organizatórios”, em relação à convivência de duas pessoas, ou para o agravamento deles? Responder com honestidade histórica a esse questionamento bastante metodológico é de total importância. Parece não haver dúvida que o mundo discute atualmente como reduzir marcos, barreiras e proibições. Não ampliá-los.
Se um imaginário “vetor metodologico do progresso” puder ser traçado obedecendo à simples evolução histórica do mundo, o seu caminhar, ver-se-á que a sociedade progride para a redução dos marcos divisórios, classificatórios e separatistas. Foi assim, por exemplo, com filhos adotivos, espúrios, naturais, ilegítimos, biológicos etc. Essas classificações tendem a cair.
As relações amorosas, sexuais, íntimas, de convívio de duas pessoas cada vez mais passam a dizer respeito a elas e somente a elas. Em direito chamar-se-á isso de ampliação da autonomia da vontade. Tem-se uma retração do Estado na vida privada das pessoas e uma ampliação de o que cada um que sabe de si, quer para si.
Ou será que o mundo caminha para criminalização das relações que muitos ainda consideram espúrias, proibidas, indecentes, imorais ou ilegais? O correto enquadramento histórico dessa principiologia é muito revelador. Alguém verdadeiramente honesto e não preconceituoso que seja contrário a uma dessas formas “novas” de relação, ao perceber que toda a evolução social do mundo há em sentido contrário ao seu modo de ver, deveria apenas “se” repensar. Nada mais que isso.
Talvez essa visão macro da evolução histórica e social seja o ponto metodológico mais grave para que posições sejam, sim, mudadas. Vulgarmente seria: sou eu e meu umbigo mental que estamos certo e todos os países estes errados; ou todos os países que caminham juntos nessa evolução representam uma modernidade saudável? A humildade em se ver possivelmente errado em relação a uma grande onda mundial, não tem que ver com qualquer padrão de imitação, macaqueamento, importação de valores do chamado primeiro mundo.
Entre casamento e união estável sempre houve valas profundas. Expressas e assumidas, ou hipócritas e disfarçadas. Mas entre homem e mulher também. Somente em 1988, por exemplo, o machismo legal no Brasil acabou. O homem era o “chefe da sociedade conjugal”, o “cabeça do casal”, designava por vontade sua onde seria o “lar conjugal” etc. Certas igualdades são muito recentes. A igualdade que se percebe em xeque agora é a das relações. Liberdade para os casais. Mesmo que contrários ao que queiramos ou entendamos por “correto”.
Quando a Argentina sai à frente e aceita o casamento de homossexuais ela apenas encampa uma evolução que há no mundo ou caminha na contramão da história? O recurso às questões metodológicas é um poderoso auxiliar na percepção de como uma grande parte da sociedade mundial, por exemplo, o Ocidente, “pensa”.
Talvez o grande ponto de toda questão ligada às relações entre pessoas que se amam esteja centrado na discussão da autonomia de vontade. Porque eu acho, com minha arrogância portátil, que uma dada relação é promíscua, quero que haja uma lei proibindo-a. Esse pensamento é velhaco e já foi desmontado ao longo da história, inclusive com pessoas conservadoras sendo flagradas com suas “taras” e “defeitos” a esses próprios modos de pensar.
Jamais se tratará de um vale tudo, de uma Sodoma e Gomorra, de uma promiscuidade social em que possa existir uma família com 3 maridos e 2 mulheres. O problema poderá ser se uma célula assim se vir feliz e se aceitar. E aí sociedade? Quanto é correto “se intrometer” na vida relacional de um casal? Quanto a pessoa, a sociedade e o Estado podem fazê-lo? É exatamente esse quanto que vem sendo reduzido seguidamente. Conservadores querem requentar essa intromissão. Mas a sociedade com sua sabedoria que ninguém rouba parece já ter dado um basta a isso. O resto é só assistir de camarote. Felicidade a todos os casaizinhos e casaizões. E que o amor vença. Jean Menezes de Aguiar.

Torcida que mata


No caso, antropofagia.
Artigo publicado no jornal O DIA, fev. 2013 
Um dos traços do consumismo é exacerbar sentidos e sentimentos, inclusive apressando-os. Há que se emagrecer em 8 dias. Deixar de ser careca em 25. Aprender inglês em 1 mês. Cursar o segundo grau em 3. Ter a melhor ereção do mundo com uma pílula, mesmo que se tenha 16 anos de idade. Essas mentiras são apenas um dos valores visíveis do consumismo e seu ritmo. Mas a sociedade adotou tais valores silenciosamente, num modo tácito de “agora é assim”.
Daí, a simples atividade de torcer por um time precisa ser transformada em sofrer e jurar fidelidade, acima, bem acima da esposa. Crianças são, nesse universo, ensinadas a amar os times de seus pais, tolhendo-lhes a escolha, obviamente, mas de forma autoritária. Há o amor aos pais e o amor ao time no mesmo patamar. Em religião se chama isso de fundamentalismo, a negação do conhecimento racional em nome de um dogma radical impensado. No esporte, chamar-se-á de fanatismo.
Curioso que fanatismo, antigamente, era algo ruim, ligado a um distúrbio de comportamento. Mas com o consumismo atual, passa a ser um valor enaltecido. Nessa engrenagem social, se o torcedor não for fanático não é um torcedor verdadeiro.  Se o jogador apenas vibrar e não se dirigir à torcida mordendo o escudo do time que fica no peito já acessível à boca para ser mordido, como sinal de adoração, não “vestiu a camisa”. Já as finais, todas, são “dramáááticas”, conforme um Galvão “esperto” Bueno que ajuda a vender o drama e o derradeiro, fatores compositivos do fanatismo.
É claro que sempre haverá quem lucre com o fanatismo. Sim, lucrar dinheiro mesmo. O fanatismo gera um tipo de devoção e presença garantida em estádios. Inclusive em continentes inimagináveis. Pessoas “pobres” saem do Brasil para assistir a um jogo no Japão. É como já se cantou que o sambista se preparava o ano inteiro para o desfile na Sapucaí, inclusive economizando dinheiro para a fantasia. Mas a poesia do Carnaval não chegou a gerar o fanatismo da morte.
Esta semana o mundo futebolístico foi sacodido pela morte de um garoto de 14 anos de idade atingido por um petardo incendiário de mão, lançado intencionalmente por um torcedor brasileiro. Justamente o time que foi campeão mundial tem, logo a seguir, o desastre de sua torcida, a mais oficial, e fanática, causando a morte de um menino. Dirão conservadores de plantão que não foi “o time” que matou, que não foi “a torcida” que matou. Tolos legalistas empunharão a teoria de que a pena não passa da pessoa do delinquente, recitando normas constitucionais totalmente ociosas quando se pensa no jovenzinho morto.
Se essa responsabilidade é cirurgicamente identificada na pessoa do lançador do petardo, porque então o time foi condenado a ficar todo o campeonato sem a presença de sua torcida? Será que a Conmebol “enlouqueceu”? Será que os julgadores do caso são uns tontos? Há um conceito aí que entrou em cena: a exemplariedade. 
A exemplariedade é um conceito cada vez mais necessário num mundo consumista. Uma punição será exemplar quando a um fato de gravidade 1, ela venha sobre tônus 3 ou 5. Ou seja, com uma resposta mais elevada do que o fato originário. Essa gradação para o pior é diferente da que se vê, por exemplo, na legítima defesa. A uma agressão injusta de um bandido não se pode exigir, no momento do desespero, uma reação totalmente equilibrada do homem de bem. Daí se permite que este homem de bem mate o agressor ainda quando o agressor não fosse perpetrar um homicício, mas somente um roubo.
No caso da Conmebol é exatamente o inverso. Os juízes tiveram tempo para refletir e calcular a pena. A dosimetria dela levou em consideração esse efeito exemplar. Quis-se uma resposta severa e que entrasse para a história, afinal, tratava-se da morte de um jovem criminosamente feita em estádio de futebol, na condição de mero torcedor, não de um ladrão. Ainda que se estime que a própria entidade possa não ter toda a força para “manter” a punição. Mas isso já é outra questão.
Todo o futebol deveria se ver de luto com a bestialidade perpetrada. Medidas severíssimas deveriam ser tomadas e isso sem qualquer cunho autoritário ou conservador. São Paulo já vive o absurdo de não poder ter bandeiras em torcidas porque os boçais se matam, se furam. É patético. E o Estado invariavelmente letárgico, o máximo que consegue responder é: o Ministério Público vai investigar. Essa frase já virou um anedotário frente a crimes e truculências empreendidas por torcidas.
O pior de tudo é que passou a não ser somente uma torcida com esse padrão. Agora, como o fanatismo se tornou a regra, times outrora considerados de “elite” começam a ter seus núcleos de violência, ódios futebolísticos rácicos e étnicos, cortes de cabelos e vestimentas nazistas e outros adereços próprios do esdrúxulo e do boçal.
Ficar o time aí, da torcida incontível que quebra aeroporto e precisa ser fiscalizada pelo serviço secreto japonês para que não afete a paz e a cultura nipônicas por todo um campeonato sem sua torcida pode ser um marco. Um triste marco, mas necessário. É um grande time, fez uma ótima e bela campanha em campo. Mas os times passaram a ser bastante responsáveis pela idolatria cega e fundamentalista de seus torcedores. Se não fosse assim, pela morte do garoto, o time não seria punido como foi. O mais triste é que isso se dá imediatamente após uma conquista do mundo tão bonita. O futebol precisa se reler, se rever, sob pena de campos se tornarem, sim, “arenas” para enfrentamentos de morte.
Marmanjos que se orgulham, estranhamente, de se dizer “loucos” têm o direito de ser o que quiserem. E a polícia, o Estado, a sociedade de bem têm também o direito de “conter” doentes e desestruturados violentos, como vigaristas e criminosos. Ou em internações como medidas de segurança ou com a boa e velha penitenciária. Só dependerá do grau de violência e boçalidade verificada. Agora todo mundo da “torcida” está assustado. Mas o menino morreu. Jean Menezes de Aguiar.

NY: consumismo x funcionalidade

Fev 2013, Nikon D3200, 24mp, objetiva Nikkor 55-300mm, puxada nos 300mm. JMA.


Artigo publicado no jornal O DIA, fev. 2013


            Em épocas de globalização, em pleno 2013, não estou tendo onde ou como escrever esta matéria de hoje. Não sei se conseguirei enviar para o jornal. Isso porque me encontro em Nova Iorque, um dos centros de maior tecnologia do mundo. O incômodo gráfico, textual e consequencial é enorme.

            O assunto teria como objeto uma discussão sobre o consumismo, mas o entrave que se me apresenta é imenso. Comprei um notebook aqui para substituir o velho e poderoso Philco, isso mesmo, um montado na China como qualquer um. O novo, bem bonito, vem com o Window 8 que mais parece um joguinho de descoberta de como se maneja algo capcioso criado somente para dificultar e manter a reserva de mercado de que somente "eles" podem saber como fazer. Sem problema.

            Aí pensei, fácil, estou num hotel na 7a avenida, em frente ao Madison Square Guarden, um estabelecimento com mais de mil quartos e que para eu chegar do elevador ao apartamento preciso de exatos 150 passos. Deve haver uma "salinha" de internet.

            Bingo, como dizem os americanos. Para um hotel deste tamanho há uma sala com 5 computadores. Não posso estranhar, a presunção é de que todos tenham o seu computador, menos alguns como eu que estejam "em transição".

            Vou à recepção e me cobram 20 dólares por uma hora de uso. Sinto-me razoavelmente assaltado. Não é aqui que tudo é praticamente de graça? Ledo engano, algumas coisas são exorbitantemente caras. Enfio o cartão e o troço começa a funcionar, ok. Procuro o Word, sim aquele programa para digitar (não é este que estou usando, este é apenas o WordPad - e, de novo, não sei se conseguirei enviar esta matéria - tomara!). Não há Word.

            Controlo o desespero. O que vale um computador para mim sem Word? Nada. Joguinhos? Cruz credo, já sou deliciosamente idoso e desalegre para curtir joguinhos (amigos do Facebook, parem de me convidar para não-sei-o-que-Ville).

            Consigo "ligar" um editor de texto no computador do hotel, mas o teclado não funciona, ele não sabe que existe o Brasil. Não há um acento gráfico em português. Vou ao meu Blog e copio um artigo meu publicado. Tiro todos os acentos e sinais, os copio no arquivo do novo texto e começo a escrever copiando e colando cada um dos sinais quando preciso, um a um. Mas aí olho para o consumo miserável do "card" da internet e ele já comeu quase 50% dos 20 dólares. Bate o desespero. Estando na terceira linha com este método infernal, precisarei de uns quatro mil dólares para mandar esta matéria. Sem chanche. Aborto.

            Subo para o apartamento e peço à namorada, novinha, sabe tudo de internet, que tente por o novo notebook em português. Ela diz que não pode perder o dia da Macy's para tentar me ajudar (e sou eu que quero correr para lá). Imploro e ela perde toda a manhã. Estava certa, o Windows 8 foi feito para garotos viciados em computador, mas tudo bem. Acesso a internet e pergunto ao Gúgle (pense com sotaque maranhense, ouvi assim lá, é poético) como transformar o Windows em português. Vem um garoto com uns 8 anos de idade que não é brasileiro, ouvindo-se um martelar de obra ao fundo e ensina, no Youtube. Eu amo esse garoto desconhecido. Consigo pôr o teclado em brazuca. (Tomara que consiga "enviar", não tenho e-mail instalado ainda).

            Aí estou aqui, digitando a matéria de hoje. Qual é mesmo o tema? Xi, já comi quase todo o tamanho da matéria contando esse besteirol. Tudo bem, confio que serei perdoado, afinal estou invocando o provincianismo de dizer que estou em NY. E foi a minha primeira vez (não doeu).

            O tema seria sobre uma leitura do consumismo. Confesso que me surpreendi. Estamos acostumados a uma interpretação vulgar do consumismo na visão da compra, o verbo consumir em si, a coisa do shopping center, a pessoa cheia de sacolas. Por aqui há muito mais que isso e os sacoleiros não são os novaiorquinos. Até porque os deslumbrados com muamba somos nós, não eles.

            Eles podem viver o espírito do consumismo, nós vivemos sua mundanidade. O consumismo para eles aparece num atendimento ruim, sempre apressado e mal humorado. Não gostam de dar informações. Se não der gorgeta o cara lhe cobra acintosamente. Eles acham que têm "direito" a gorgeta. Há essas "bobagens" nas relações com eles. Mas há coisas densas que precisam ser analisadas.

            Não se vive aqui o luxo paulista fútil de os restaurantes terem que fazer reforma todo ano porque se não o cliente "enjoa". A louça sanitária nos banheiros se funcionar perfeitamente pode ser da época do pós-Guerra. Os aquecedores para calefação também. A impressão é que os enfeites da coisa nova não precisam existir se a funcionalidade estiver cumprindo seu papel. Isso é cultura.

            O metrô tem uma cara que parece imutável, não é mexida, não é reformada a cada prefeito com novos tijolos que custarão bilhões de dólares como as calçadas paulistas, tudo feito para piorar e quebrar, precisando de reformas e com chances a comissões milionárias que o Ministério Público jura que vai investigar e nunca dá em nada.

            A funcionalidade americana é desconsumista e desnatura o seu consumismo. Isso é muito bom de se ver. Haveria um consumismo, sim, com suas garras afiadas, mas sem tomar o espaço de um clássico que os países que apenas "imitam" querem desovar em troca do "tudo novinho", o horror cafona da decoração toda novinha sem nenhum peso.

            Estou sem o contador de palavras e aqui não consigo visualizar o tamanho do artigo. Vou aprofundar o tema dessa visão comparatória que achei fascinante. Anotei diversas características em observações que tenho feito no frio de até 8 graus negativos. Ainda fico algum tempo aqui. Espero que a matéria de hoje chegue sem grandes erros, cuja responsabilidade é somente minha pessoal. Agora, a Macy's me espera. Jean Menezes de Aguiar.

 
PS. Por presente do destino encontrei Leny Andrade, citada no artigo abaixo, na BH fazendo compras. Foi um papo amoroso com essa grande cantora brasileira.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"Importante é ter corpão, não precisa cantar direito"

Áurea Martins, Cantora, linda, amada. Esta é poderosa.
 
               Artigo publicado no Jornal O DIA SP, semana de 13.fev.13

Pessoas geniais produzem frases geniais, do tipo “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”, Eça de Queiróz. Ler os geniais é uma delícia.

                Já para outros, o pensar parece ser um sacrifício. “Estupra mas não mata”, Maluf. “Ética é meio e não fim”, Renan Calheiros. “O ladrão do meu rolex merece pena de morte”, Luciano Huck. Agora veio isso: "Importante é ter corpão, não precisa nem cantar direito. Ainda bem que sou gostosa", Ivete Sangalo, cantora baiana.

                Sangalo não está errada. Nem sozinha, o que é o pior. Prestou um serviço com sua verborragia. A baiana disse o que muitos sabem, mas somente uma mulher e cantora poderia dizê-lo sem ser patrulhada, ainda que a frase possa conter, em termos musicais, o patético em si.

                É claro que não é coincidência que cantoras atualmente tenham que ser bonitas e gostosas, bem guardadas as proporções. É como se os gestores da fama musical tivessem resolvido: de “agora” em diante só queremos cantoras tesudas. A  qualidade musical pode ficar em segundo plano. Às vezes em quinto.

                Como músico profissional tive a sorte de tocar com a hoje famosa Áurea Martins, talvez a maior cantora da noite do Rio. Áurea, para ouvintes qualificados ligados à qualidade (ou isso não existe?) sempre foi a mulher mais linda do mundo, e esta beleza aqui é outra. Mas para os padrões desse sucesso ivetiano, a deusa Áurea está fora de medida. Leny de Andrade é outro exemplo. Será que a negritute total, o encanto, a qualidade do timbre e a voz de Áurea e a ginga de Leny, e “apenas” isso, em uma jovem qualquer hoje fariam “sucesso”? No paradigma ivetiano, não. Ganhou-se ou perdeu-se com a busca de paniquetes vocais? Nádegas são ótimas, mas não cantam, e o assunto é canto.

                A massificação do paladar musical veio para maior número de vendas e não como uma melhora da qualidade. O maestro Julio Medaglia revela que as 4 principais gravadoras do país demitiram o diretor musical e contrataram no lugar um “diretor de marketing”. Acabou a mentira. Só vamos combinar: vender um trilhão de Cds não tem nada que ver com qualidade. Nunca teve.

                Agora, ainda, as cantoras do padrão ivetiano – coxas, malhação, silicone, personal, gravidez pela Tv, namorado-artista, e uma vida social dependente dos Tvs-famas/internet –, devem estar enfurecidas. Até aqui conseguiam disfarçar a realidade. Mas a rainha do canta-pra-pular ou pula-pra-cantar, Ivete, revelou o “segredo”: para ser cantora basta ser gostosa. É o duelo música reflexão e qualidade versus música furacão e banalidade. Nada contra o balanço: em shows de Tim Maia, Djavan, Seu Jorge, Lulu Santos, Ney Matogrosso, ninguém fica parado, todo mundo dança. Mas a qualidade musical é inconfundível.

                Há um outro segmento, na atualidade, diferente. É a música pretensamente intelectualizada, cult mesmo. Capitaneada por moças muito bem nascidas em São Paulo, esbanjando sobrenome e fingindo engajamentos no “chatissimamente correto”. Aqui também há um gestor estético na seleção inicial. Quando lança uma nova cantora no mercado não abre mão da aparência. Ivete não falou bobagem. Ela sabe que se tirar o show e o palco de seu canto, sobram mesmo as belas pernas.

                A situação nos programas Ídolos é outra. O Ídolos autêntico, da Record, tira sarro das esquisitices e gera diversão, além de mostrar gente boa. Já o Ídolos-o-meu-é-o-melhor, da Globo quer se mostrar, supostamente, comprometido com a qualidade. Promete que o jurado não conhece o candidato e tem aquela mise-en-scène de ficar de costas. Ok ok. Nestes programas o interesse imediato jamais é o canto em si, mas a audiência televisiva “do programa”. E audiência é um mix de coisas. O feio e o esdrúxulo, por exemplo, podem gerar pontos. É a novelização da escolha dos novos artistas, em capítulos, o Bbb musical, mas musicalmente válido.

                Ivete foi cultural, por isso antropológica. Ela e seu avião são subprodutos desse sistema. Não se pode condená-la. Quando ela reconhece o que muitos músicos, diretores e críticos sabem, que ela não canta bem (e não só ela!) e vive mais do corpão, ajuda a pôr em xeque o sistema infame da não qualidade. O desesperador é saber do triunfo de um sistema que “obrigou” deuses como Tim Maia, Djavan e outros tantos a terem que montar seus selos e estúdios, porque as gravadoras lhes fecharam as portas não poucas vezes.

                Se a qualidade musical e de canto, para o cantor, foi mesmo “substituída” pela estética, mais produção, enfeites, encantos visuais, jogadas de mícia etc., há aí uma nova-velha cultura. Meu pai dizia que na década de 1950, quando Cauby Peixoto voltou dos EUA e apareceu na capa de uma revista com peito nu, ensaboado, foi um escândalo. O idolatrado Cauby me confirmou a história quando trabalhei como músico dele. O escândalo é uma técnica antiga, mas vamos combinar: Cauby canta.

                Há comparações fáceis. A música de discoteca antiga possuía harmonia e melodia belíssimas. Atualmente, é um “tum tum tum” ritimado. Uma explicação: até pessoas sem qualquer musicalidade conseguem acompanhar o ritmo marcado. Daí não há necessidade de “música”, só de ritmo. Essa massa quer pular e brincar, não ouvir música, e que fique claro: é um direito. Só não venha dizer que “tudo é a mesma coisa”, que tum tum tum tem qualidade musical.

                Vive-se no Brasil, sem qualquer ode ao “antigamente”, uma sociologia da degradação musical. Entraram em cena outros valores para se achar um cantor ou uma cantora “bons”. Não mais a qualidade musical, o gogó. Casa noturnas famosas no Rio, da década de 1970/80 como 706, Special Bar, Chico’s, 21,  produziram figuras como  Djavan, Alcione, Emílio Santiago etc. Mas naquela época a cantora não era medida pelo quadril. O que valia para ouvintes que buscavam a qualidade do canto era o sonho auditivo. Cada vez mais estes ouvintes se tornaram órfãos.  Jean Menezes de Aguiar