sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Palestra

Novos Dez Mandamentos





Novos Dez Mandamentos
Uma versão da inteligência, da democracia, do não autoritarismo e da liberdade (ou alguém é contra isso?)

1. Não faça aos outros o que não quer que façam com você.

2. Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal.

3. Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito.

4. Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade.

5. Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento.

6. Sempre tente aprender algo de novo.

7. Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles.

8. Jamais se autocensure ou fuja da dissidência. Sempre respeite o direito dos outros de discordar de você.

9. Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros.

10. Questione tudo.


www.ebonmusings.org/
Indexado na obra de Richard Dawkins, Deus um delírio, ps. 339-340.


Dawkins acrescenta (p. 341): "Não doutrine seus filhos. Ensine-os a pensar por si mesmos, a avaliar as provas e a discordar de você".
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Para quem vive batendo no peito alegando ser religioso, crente, fiel, ovelha, fala em Deus e vive sacaneando os outros e tirando proveito de tudo quando pode, em desonestidade e falta de ética descaradas, seria muito melhor ser um Brilhante (Ateu) e seguir esses mandamentos aí. A vida em sociedade seria mil vezes melhor. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eleição & religião

Rebanho religioso
 
Matéria publicada nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) 4.10.12
 
                        Há clichês repetidos como se fossem verdades absolutas. Um deles é: “religião, futebol e política não se discute”. Será? Entre pessoas agressivas e sem educação até pode ser assim. Mas qualquer tema pode ser debatido, basta gentileza e inteligência. Já misturar certos temas sempre foi fonte de tragédia na história da humanidade. Religião e política é uma mistura assim, ruim e atrasada, sempre geradora de fundamentalismos. Se a religião prega, ou deveria pregar, ética, harmonia, tolerância, amor e paz; a política tem como credo coisas bem antagônicas a isso como disputas aguerridas, luta por poder, implementação de ideologias com derrota de adversários etc.

                Não é por outra razão que todos os países considerados avançados não têm religião oficial. Uma religião, qualquer que seja, com pretensões políticas se desnuda, tira a fantasia num descarado “projeto de conquista política”, o que é pernicioso por si só. Deveria haver uma proibição de a religião pretender, enquanto representação religiosa, obter cargos públicos, eleitos etc. O Estado é laico e essa imposição é constitucional. O que justifica uma “bancada religiosa” em qualquer dos Poderes do Estado? Nem Fernandinho Beira Mar é mais suspeito que isso.

                Se isso é “razoável”, ou vão dizer que é meramente a lídima “representatividade” de uma parcela social, que se tivesse a bancada de juízes, promotores, prefeitos e governadores dessa ou daquela religião. Cada uma delas em seus Poderes e entidades. Absurdo. Isso é uma hipótese calhorda. A vontade de tomada de poder por qualquer um é normal. Mas com religião fica tudo fora de cogitação. É um sintoma do atraso.

                O título da matéria da Veja de 26.9.12 é: “A perigosa aliança da fé”. Olha aí. A revista não falou bobagem. É perigosa, é danosa, é errada e o poder pela religião, além de no Brasil ser inconstitucional, não tem como dar certo. É o loteamento da cidadania; o curral da visão de mundo; a lobotomia ideológica a serviço de o que não ser presta a ser um projeto de obtenção de poder oficial.

                Irretorquivelmente correto está o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, quando na entrevista sentenciou: “Não se pode usar religião para voto de cabresto”. Perfeito. Veja-se o pavoroso que é isso: voto de cabresto. Já o próprio eleitor deveria se envergonhar, se sentir humilhado em votar num candidato quem alguém lhe ordenha a escolha. Eleições manejam a soberania do voto livre, lúcido, comparado, refletido, questionado, feito por alguém que pensa ativamente. Não alguém que age como um boi manso e obediente num curral.

                Escolher um candidato requer análise, questionamentos e, sobretudo razão. Mas “razão” é precisamente o que ninguém menos que Martinho Lutero mais temia, ou odiava. São deles as famosas frases: “Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos da razão”; e “A razão deve ser destruída em todos os cristãos”. Ou ainda “A razão é o maior inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as coisas espirituais, mas com frequência entra em confronto com a Palavra divina, tratando com desdém tudo o que emana de Deus.” Parece não haver dúvida que esse estranho “método” da não-razão não é o mais indicado para se escolher um candidato.

                Um exemplo de país atrasado é Israel. Calma. Não se pode medir o “progresso” de Israel pelo poderio bélico de massacrar seus inimigos fundamentalistas religiosos, sob o seu também fundamentalismo religioso. O maravilhoso livro do professor de história da universidade de Tel-Aviv, Shlomo Sand, intitulado A invenção do povo judeu, com 570 páginas é cabal. Israel é um modelo  ditatorial de religião oficial, tendo obrigado até a ateus a terem inscrita nas suas identidades a religião “judeu” (p. 17), que violência. Nas escolas, a história do judeu é um departamento próprio, não pertencente ao setor de história (p. 41), que absurdo. 5% dos nascidos em Israel não são judeus, ainda que paguem impostos, mas a discriminação contra eles, que nem universidade podem cursar, é total (p. 532), que preconceito. Assim, esse violento Estado de Israel não é de todos os “seus cidadãos” (p. 530), mas só dos judeus. Como é bom o meu Brasil.

                Certamente por todos esses conhecimentos históricos sobre Estados com religiões oficiais e suas truculências, nem se precisando ir a países com burca, que a reportagem da Veja sobre religião e política foi categórica: “Em qualquer lugar do mundo, sua mistura é explosiva, deletéria e arriscada”.

                Mas o que ocorre com “candidatos”, esse ser que acorda um belo dia e resolve entrar para a política? Quer dizer, entrar não, tentar entrar. Afora a percentagem de zero vírgula qualquer coisa que efetivamente acredite fazer o bem, se é que chega a essa fração, o que manda é a sede. Sim, sede de poder, dinheiro, salário público, carteirada, motorista, mordomia, negociatas, arranjos, comissões, mulheres bonitas em casas suspeitas, aposentadorias imorais, empregos para os seus e um infindável rol de benefícios, prazeres e delícias.

                Esse mundo da política não deveria ser para um “religioso”, uma pessoa pacífica, um quase-santo. Por favor, não riam de mim. Assim como o mundo religioso não deveria ser “acessado” por candidatos & picaretas, politiqueiros para lá de profissionais e até bem intencionados. Qualquer um pode ir à religião e a Deus. Mas não qualquer um pode ir às eleições e à política.

                O grande historiador brasileiro Boris Fausto, da USP, afirma: “lamentavelmente o Estado laico perdeu a força”. Perder a força é se tornar Estado menos laico, ou, mais religioso. Que perigo. O cineasta Luis Buñuel diz: “Deus e a Pátria são um time imbatível; eles quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue.”

                São Paulo, não o santo, mas a cidade, parece ter sido loteada em termos de candidatos e “religiões”, conforme se lê na reportagem. Mas outras cidades, onde não há, por exemplo, livrarias para instruir o povo, devem aderir nas próximas eleições ao modelo de curral paulista. O problema é que o ser humano é, maravilhosamente um animal superior, não um ser mentalmente castrado que viva em baias ideológicas e currais de votação. A liberdade, o voto e a democracia custaram muito à humanidade e mesmo a brasileiros. As pessoas deveriam se informar muito e votar por uma escolha soberana sua, não um parto induzido. Jean Menezes de Aguiar

PS. quando falo em "religião" posso estar querendo falar em "igrejas".

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mensalão, Cachoeira e malhação

Aprovada: futura Deputada, Senadora e presidente do Brasil.

Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) - 26.9.12

                Há lições a se tirar da situação atual? Sempre há. 1) O STF parece ter virado, de vez, programa de TV. 2) O mensalão recebeu status de novela, reservando José Dirceu para o capítulo final, quando se saberá se é o grande culpado ou não. 3) A grande imprensa que ridicularizava quem duvidasse da sua sentença condenatória do mensalão, agora abre fartos espaços a dúvidas até sobre a honestidade do Supremo. 4) Se no caso Cachoeira dizem haver provas cabais de corar senadores sérios, admitam-se, no caso mensalão parece só haver indícios, e mesmo assim a juizada suprema está enfiando a caneta. Seria isso a justiça “interativa” que faz o que o “soberano” povo quer? Preocupante.

                Há dias a imprensa parece se preparar para uma nova fase. Avalia que ganhou a condenação do mensalão. Mas ele deixará de ser notícia. Quem incinerar agora? Talvez o Supremo, bobinho que pode ter caído na esparrela da mídia. Espaços nobres de páginas inteiras começam a ocupar os jornalões discutindo, em palavras bem comportadas, a seriedade, a honestidade, a competência dos juízes do Supremo. Talvez seja o pedágio que um Supremo televisivo tenha que pagar pela fama. Isso se não sair arranhado. Essa popularização cobra o sabido e vulgar preço da intimidade: a perda de confiabilidade. Os ministros do Supremo passaram a frequentar nosso churrasco na laje, pela TV. Para a revista Caras e desfile na Marques de Sapucaí é um pulo. Viraram “gente como a gente”, sabemos que coçam o nariz e fazem xixi.

                Para quem ainda acredita que foro especial é a balela inculta do foro privilegiado, e luta contra essa suposta mazela, pode ser que aprenda uma lição. Cachoeira, longe desse foro especial (e dos holofotes) está quieto sem fazer marola e aparecer na mídia - o seu processo -. Teoricamente tem mais chances de ser “absolvido”, mesmo com mais provas contra si, do que um réu do mensalão, apenas com indícios. Se bobear seu procurador de justiça encarregado ainda será dotô Demóstenes. Que delícia.

                É o Supremo um “Maria vai com as outras”? Artigo do jornalista Breno Altman, intitulado “De qual lado ficará o STF?” publicado na Folha de 24.9.2012 recorda falhas graves históricas do Supremo. Sugere instabilidade da corte, já no título da matéria. E afirma: “Os monopólios da comunicação exercem pressão para que a corte endosse sua versão e condene a qualquer custo. Mais que preocupação eleitoral imediata, a batalha se trava para legitimar a velha mídia, verdadeiro partido das elites, como senhora da opinião pública, além de impor gravame ético ao PT e ao governo Lula”. Conclui: “É um julgamento de exceção”. Olha que arranhão.

                No dia seguinte, 25.9, se vê em página inteira artistas e intelectuais famosos, e até Bresser Pereira, do galho tucano, condenarem a espetacularização do mensalão. Não falam eles, mas todos sabem que tudo começou na mídia. O STF é ponta do iceberg. Mas “artistas não entendem de direito”, berrará o positivista reacionário em tolo “argumento de autoridade”. É outro preço que o Supremo parece que vai pagar: o enfrentamento com uma intelligentsia. Se o Supremo quis ser pop, talvez não tenha conseguido. Por esta ele não esperava. Como a grande imprensa queria sangue, pareceu que o politicamente correto seria ter-se sangue. Nada como um dia após o outro.

                Quem lida com jornalismo sabe como é: "Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções", in Novo manual da redação, Folha de SP, 1992, p. 19. Tem mais, uma "tradição da imprensa de dar destaque apenas para notícias de caráter negativo", p. 125. Se o Supremo auscultou a opinião publicada, bem diferente de opinião pública, pode ter calculado errado.

                É claro que nenhum órgão de comunicação vai, hoje, confessar, que esse ódio todo por Zé Dirceu é porque ele tentou regular a imprensa e virou inimigo privado número 1. Regulação que, aliás, se vê nas Constituições da Espanha, Alemanha, França e Itália. Mas no Brasil isso virou infâmia sacra, pedofilia ideológica contra uma democracia menininha, de 20 anos de idade.

                As análises de “ondas”, como grandes oscilações, de Alvin Toffler, podem ser feitas nessas estruturas largas, como imprensa, direito, Supremo, Estado e sociedade, ainda que muito difíceis. Poderiam envolver algo de futurologia, o que é péssimo. Talvez o mensalão seja um divisor de águas, o Supremo não o admitirá abertamente.

                A direita (eterna vidraça blindada, coisa que lembra banco) ocupou legítima ou ditatorialmente o Estado brasileiro por praticamente todo o tempo do século 20. Roubou com perfeição milimétrica, ou lambança em muitos casos. A esquerda (pedra marxista pontiaguda) prometia castidade financeira, jurava que seus homens eram eunucos do capital e suas donzelas, guerrilheiras da moralidade. Dizem, agora, que a esquerda ladra opera o roubo com a mesma jactância da direita. Está na rua. Aí, tadinho, o Supremo no meio, ora acusado de omisso histórico por nunca ter condenado um “mísero” banqueiro; ora de fraco em ouvir uma mídia malandra e agora condenar sem provas.

                Está sendo interessante essa segunda ondinha no mensalão, a do jornalismo que começa a se precaver para a perda do sensacional com a condenação já anunciada. Por outro lado, juízes do Supremo que porventura não aprovaram os capítulos televisivos até aqui, podem querer absolver.

                Enquanto isso, Cachoeira dorme e lê. Sua Bela, que a todos nós pertence no imaginário, chora a ausência do amor preso na masmorra. O juiz trabalha sua burocracia processual. E a imprensa “esquece”, deixa Cachoeira em paz. Mas Cachoeira tratou bem a mídia, aceitou ser xingado de contraventor e não chamou o jornalista de pobretão invejoso. Se chamou, editaram.

                Há dúvidas se um processo judicial devia virar uma Malhação, no sentido novelesco. O lado emocional da exposição pública tira equilíbrio do juiz? A pressão cavalar da mídia - vulgo patrulhamento - com satanização imediata de quem pensa contrariamente pode afetar um julgamento? Deve-se estudar direito pela ciência, pela dogmática, pela zetética, pelos autores e livros ou pelo nome e ideologia de quem vai julgar?

                Talvez o Supremo queira mudar alguns paradigmas. Mas quem quer mesmo é a própria sociedade, agora “interativa”. Vive-se um direito mais pragmático, então “interativo”, como as TVs que no futebol “precisam” ouvir um torcedor com uma pergunta imbecil, de uma cozinha de quitinete, para dizer que são estão ligadas ao povão. Se um julgamento virar isso, a justiça além de cega, o que já é complicado, estará em coma. Jean Menezes de Aguiar

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Processo civil um olhar

Mariza, cada dia mais linda.
 

1 Um juiz em interlocutória preclusa decide pela intervenção iussu iudicis ao autor. Este tenta citar por diversas vezes e não consegue. Muitos meses depois o autor peticiona "desistindo" da ação em face desse réu. Um novo juiz homologa a desistência e sem esperar o interregno contestatório ao réu originário determina que o escrivão certifique o decurso in albis da defesa. O escrivão "conserta" a interlocutória judicial dizendo que o prazo defensivo tem a seu favor o CPC, art. 241, ante a pluralidade no polo passivo que impõe o início da defesa à última juntada de mandado cumprido. Daí:
1) errou o novo juiz ao aceitar a desistência de uma ação que ao autor se lhe foi imposta pela intervenção iussu iudicis?
2) errou o autor ao desistir de algo que se lhe era uma imposição, logo uma intangibilidade processual - não se desiste de o que não se propôs-?
3) errou o juiz ao tentar impor preclusão temporal à defesa antes da juntada do último mandado cumprido?
4) errou o escrivão ao consertar a interlocutória do juiz?
5) tem o escrivão poder para "determinar" prazo? (ao lado dos prazos legal e judicial háaveriao prazo "cartorial"?
6) o novo juiz é obrigado a chamar o feito à ordem e redeterminar a intervenção iussu iudicis, ante uma preclusão pro iudicato?
7) a questão da completude do polo processual já preclusamente determinada é de ordem pública e, por isso, "indesistível", como quis o autor?
8) o caso é de "revisão" do juiz a ato ordinatório do escrivão, CPC, 162, par. 4o?

 

2 Há numa contagem pretensamente completa 30 autores brasileiros que dão embargos declaratórios de interlocutória. Há quem chegue a dar de despachos de mero expediente, sob a lúcida alegação de que contraditoriedades, omissões e obscuridades não podem viger numa decisão ou despacho a qualquer termo. Mas o STF, salvo Marco Aurélio, nega declaratórios à decisão monocrática do relator, dizendo que a cabida é diretamente o regimental (agravo interno). A ser assim, se se opuser o declaratório dessa monocrática precluirá ao extraordinário, ainda que o TJ recorrido aceite e dê provimento! É formidável isso, porque pelo "desejo" do Supremo ter-se-á uma monocrática potencialmente contraditória ou omissa ou obscura tendo que se levar essa epistemologia corretiva ao colegiado do TJ não sob declaratórios, claro, mas sob regimental, numa tergiversação teleológica do próprio regimental. Daí, dane-se o cabimento dos declaratórios na espécie, danem-se os 30 autores que "ensinam" ciência processual, e dane-se a própria ciência, tudo para valer a vontade do Supremo que chancelará precluso temporalmente o extraordinário pela oposição de declaratórios sobre a decisão do relator. 
 
 

3 O CPC, art. 284 é um "direito subjetivo processual" ao erro, outorgado ao autor, na medida em que a inicial só possa ser rechaçada, naqueles moldes, se o autor não recompuser eventual errância sua ou mesmo dificuldade intelectiva do juiz. Sabe-se que direito processual não é ambiência para outorgas de direitos subjetivos, autores bastantes científicos e seniores do processo não reconhecem ser o CPC um potencial chancelador de direitos subjetivos, mas é sedutor se ver o bom e velho 284 como recocnhecedor de direito subjetivo processual ao erro. Numa visão pragmática, a indeferibilidade da inicial sujeita à oportunização do autor com o conserto, expõe uma deliciosa natureza jurídica não de uma clássica facultas agendi, no sentido dum facere ou non facere, mas no sentido de que o juiz só possa agir no indeferimento se ofertar ao autor o conserto. O que pode ser isso se não um direito outorgado pelo CPC? Foça-se a barra aqui, admita-se, mas essa natureza jurídica parece ser sedutora.

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O intelectual assusta

Que isso rapaz, uma loura dessa e você enrolado com livros?


Artigo publicado nos jornais O DIA SP e ANÁPOLIS (GO) 20.9.12

                Outro dia “comentando” uma análise sublime da Arnaldo Jabor, leitores de internet destilavam fúrias e ofensas. A inveja é uma coisa antiga. Pareciam torcedores fanáticos e ideológicos de um time inimigo, com seus ódios fundamentalistas. Maomé foi zombado por um cineasta americano e em nome disso religiosos assassinaram um embaixador e feriram pessoas. A França, também esta semana, fechará 20 embaixadas e escolas em diversos países por causa de um de uma piada em jornal com esse mesmo Maomé. A semente do fundamentalismo já está no Brasil, inclusive com políticos e candidatos.

                O intelectual encanta a alguns e assusta a outros. Mas assusta os assustáveis. Há quem opte por viver horrorizando-se, magoando-se. Que opção trágica; que gente chata. Também há burros velhos, mais burros do que velhos, com medinhos de demônios, capetas, infernos, diabos e duendes. Que gente cansativa. Esses detestam intelectuais, os que compõem o livro Playboy – as melhores entrevistas, como Boni, Chico Buarque, Henfil, João Saldanha, Lobão, Nelson Rodrigues, Pasquim, Paulo Francis, Tom Jobim e outros.

                Mas o que é um intelectual? Não há uma definição exata para o que possa ser um intelectual. É possível se delinear o que ele não é. O intelectual não é um obediente, domesticado, seguidor de modismos & tendências, preocupado com o que vão pensar dele, de sua imagem, seu penteado, sua roupa e seu discurso. Por este plano de o que ele não é, percebe-se o que ele é: cabeça aberta, informado, inteligente, culto e produtor de conhecimento, de leituras sociais, de críticas.

                O intelectual não é um anarquista de modos, um negador compulsivo da ordem, ainda que possa desprezá-la com todo a sua fé anárquica seguida de uma gargalhada perfumada a uísque. Também não é alguém que apenas se fantasia para parecer in, descolado ou aderido a um movimento Cult, fashion, ou qualquer dessas idiotices sociais. A fantasia social urbana - roupas multiespalhafatosas, despenteados cuidadosos a laquê, a obrigação da tatuagem e o provincianismo visual conhecido como look (fulano de look novo)- é utilizada para enganar. Muitos em cidades como São Paulo vendem essas imagens transformativas. Isso engana a quem mede tudo pela aparência. No Brasil atual, a figura urbana do intelectual, para muitos, chega até a exigir uma aparência “descolada”.

                Nos EUA os intelectuais passam por um relativo processo de extinção, e nada muito recente. Movimentos como academização, profissionalização, carreirismo e aceitação de cargos no Poder são apontados por estudiosos como alteradores do conceito de intelectual. Este deixou de ser um produtor puro ou autônomo de conhecimento e passou a ser um contratado das universidades ou de centros de poder. A diminuição dos intelectuais vai se acentuar nos anos 1960, com a morte do Greenwich Village, que imperou como bairro boêmio desde 1900. Ali também, com o declínio da boêmia dar-se-á o sumiço dos intelectuais. O mundo não ficou mais inteligente. Pode ter ficado mais rico e belicoso, mais fútil e interligado.

                O termo intelectuais parece ter sido cunhado em França, por época do famoso processo Dreyfus, em 1890. Artistas, escritores e professores, incluindo-se aí Emile Zola, contestaram o processo por meio de uma petição. A reação a esse grupo, com Ferdinand Brunetière à frente foi: “Quanto a essa petição que está circulando entre os intelectuais!, o mero fato de se ter recentemente criado essa palavra intelectuais para designar, como se eles fossem uma aristocracia, indivíduos que vivem em laboratórios e bibliotecas, indica uma das mais ridículas excentricidades de nosso tempo”.

                Nunca houve isso de aristocracia. Há meras semelhanças e traços de identidade de manejo das culturas. Repare-se, não traços de identidades culturais, mas identidades de manejo, ou seja: a crítica, a abertura pensante, o destemor por contestações. Alie-se a isso, sempre, a produção. Falar em intelectual é falar em produção, textos, livros etc.

                Uma das tônicas mais vivas na caracterização do intelectual é a inteligência. A palavra russa intelligentsia foi cunhada em 1860 e certamente é a feição mais próxima do termo intelectuais. Assim está em Russell Jacoby (Os últimos intelectuais). Outra é a sensibilidade às contradições e contestações, apontada por Norberto Bobbio (Os intelectuais e o poder). O lúcido ateísmo de Darcy Ribeiro perante o leito de morte de sua mãe nunca o impediu de ser, ao mesmo tempo, um apaixonado pelas mulheres, pela poesia e pelo amor. A poesia e a arte; o sonho ao lado de uma visão da realidade com pitadas de pessimismo - o realismo bem informado - são temperos do intelectual.

                O intelectual assusta porque não se intimida com termos, palavras. Arnaldo Jabor abusa de conceitos “proscritos” por uma preconceituosa sociedade da hipocrisia que jacta sua vitória do capital. Seus textos se arejam com palavras poéticas como “imbecil”, “burro”, “idiota”, “canalha”, “piranhinha”, “subúrbio”, “calhorda” e outros deliciosamente piores. Assustáveis não quererão ler Jabor, não pela inteligência do texto, mas pelo preconceito formalista com as palavras.

                Assim será com Nelson Rodrigues, o divino “tarado brasileiro”, que tratou das cunhadas, primas e tias ávidas. Com Nietzsche e Richard Dawkins, que desmontaram Deus. Com Noam Chomsky que contou ao mundo os verdadeiros EUA. Em 1969 jovens teóricos nos EUA criaram o Antipode - A radical journal of geography, buscando, sim, um radicalismo e discutindo temas não tradicionais como a geografia da pobreza, do subdesenvolvimento e do urbanismo. Não se amedrontaram com o termo “radical” que, para muitos, é um perigo e uma insanidade.

                Quem vai se adequar muito bem ao termo intelectuais serão certos jornalistas, aponta Jacoby, pelo tipo de produção e publicação que manejam. Vê-se na mesma obra que muitos médicos, advogados e outros profissionais abdicaram de produzir para o público, um dos traços essenciais dos intelectuais. Ensimesmaram-se nas profissões e não exercitaram a crítica e o pensar sociais. No Brasil, por exemplo, não poucos advogados posam e agem como caretas, ortodoxos e, invariavelmente, autoritários, talvez na vã suposição de que isso “passe” seriedade. Já competência é outro fator.

                O que é “crítica” natural para o intelectual, pode ser sinônimo de radicalismo ou grosseria para muitos. Será que Jabor lê as diatribes de 3 linhas que lhe são enviadas nos quadradinhos famélicos “interativos” para leitores, os quais não cabem produção, apenas frases? Aposto que não. Em Jabor certamente o uísque lhe dá mais prazer e felicidade. Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Batatinha

 
 
 
 
“As ostras se abrem e se fecham de acordo com as marés e continuam essa atividade mesmo quando trazidas para a terra e num recipiente escuro (Paul Feyerabend), coisa que os humanos jamais sentiriam. As batatas têm mais capacidade de captar os ritmos lunares que os humanos (F. Brown). Mas somente o meu coração é capaz de traduzir as aflições da ostra e da batatinha como poesia a ser composta pela emoção em receber o olhar de uma certa dona, o roçar do seu braço e um sussurro intenso em mim.”