sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pulando amarelinha na Cpi



Artigo publicado no Jornal O DIA SP em 28.6.12

                Aparecer na Tv é uma festa; amigos telefonam dizendo que a pessoa “virou artista”; parece ser um título que agrada a todos. Pular amarelinha as criancinhas gostam; brincadeiras alegram o coração e divertem a mente. A Cpi essa aí, feita de água, seria um misto de vaidade e brincadeira? Se for, não era para ser. O fato é que sob a desculpa de que precisavam dar “uma resposta à sociedade” (que altruísmo), políticos não se aguentaram e criaram uma Cpi. Não se bastaram em tão-somente assistir ao trabalho profissional e obrigatório do Dpf - departamento de polícia federal-, que coletou as provas.

                Investigação é uma área de conhecimento técnico que requer estudo, prática, livros e cursos. Negociação é outra. Mas qual é a “formação” dos C-p-izeiros em investigação e negociação? Esse questionamento poderia ser primário se visasse a uma reserva de mercado para profissionais de investigação e negociação. Mas poderá ser angustiante para o povo que paga o reality show de uma Cpi que talvez não produza nada de novo em termos de provas concretas.

                Nem se diga que político é um “negociador por excelência”. Essa pode ser uma piada perversa num país em que o conceito de política recepciona, ordinariamente, coisas como “é dando que se recebe”, “rouba mas faz”, “estupra mas não mata”, “nepotismo cruzado” e a última moda oficial: o bom e velho “eu não sabia”, além de tanta outras noções similares que norteiam as cabeças de quase todos os políticos brasileiros. Negociar é outra coisa. A Cpi poderia até ter “optado” por uma negociação técnica com envolvidos e testemunhas, se não fosse alguma ingenuidade de seu menino-relator e um vedetismo-bravata barulhento de alguns ali.

                A mania de querer ser investigador anda assolando “autoridades”. Promotores estão lutando para ganhar a carteirinha; o STF dirá se podem ter ou não. Políticos ficam sabendo de uma investigação do departamento de polícia e abrem Cpi para investigar. Por seu turno, a imprensa faz o seu papel, distribui fama na Tv a preço de liquidação. O Brasil conseguiu imitar bem os americanos: escândalos públicos viram um lucrativo show televisivo.

                O poderoso Jornal do Brasil em seu site (26.6.12) registra, sobre a testemunha Écio Ribeiro: “O ministro do STF Cezar Peluso concedeu a Ribeiro o direito de se fazer acompanhar de advogado e de não ser preso em decorrência da invocação do direito constitucional de não autoincriminar-se, com a prerrogativa de permanecer em silêncio”. Há um festival de erros aí. Não é o STF que concede o direito de alguém ser acompanhado de advogado, nem que garante o silêncio. É a lei. As históricas ameaças e tentativas de prisão feitas pelas Cpis são simplesmente ilegais, retratando total falta de conhecimento de políticos que se veem juízes, a ponto de se precisar do óbvio: habeas corpus para não se sofrer arbítrio dessas “autoridades”.

                Esse amadorismo nos conceitos jurídicos não deveria imperar. Odair Cunha, relator da CPI, dizem que passou a perseguir o governador de Goiás, além de não saber muito bem o que pergunta na investigação televisiva. O Dpf já ofereceu um “cursinho” a ele que anda confundindo as qualidades de depoente, testemunha e acusado. Aí, como a imprensa é imperdoável, ao mesmo momento que projeta o sujeito em fama, lanceta o erro na lama.

                Nem a Cpi vem sendo uma sede policial estrita (similar que fosse), em termos de investigação, manejando contradições a seu prol e complicando pessoas potencialmente envolvidas; nem um ambiente técnico de negociação profissional, obtendo acordos geniais, o que poderia até ser interessante, se alcançasse compromissos, estimulasse delações, instigasse novas ideias e caminhos e efetivamente obtivesse novas provas e luzes. Agora cismou de conversar com a sra. Cachoeira, a bela, que parte da imprensa em franca discriminação resolveu chamar de “namorada”. Que feio.

                Políticos podem ser, legitimamente, padeiros, empresários, banqueiros, índios, Ph.Ds., químicos, donas de casa, curiosos, delegados encostados ou efetivamente qualquer um. Basta conseguir muitos milhões de reais para uma campanha política a um cargo cujo salário jamais cobrirá os tais milhões conseguidos, numa lógica que a Receita nunca quis saber. Nesse quadro, o “I” da Cpi será o que menos importará. Basta estar político para aparecer na Cpi.

                Há quem acredite na pureza institucional das instâncias, das sedes, dos órgãos, das comissões, das funções e das atuações públicos. Mas historiadores e intelectuais seniores do país veem uma certa escatologia em muito disso aí. O grande antropólogo Roberto da Matta teoriza que a corrupção existe há séculos no Brasil, o que vicia irremediavelmente instituições e cargos. Parece ficar patente o baixo benefício que a Cpi consegue em relação a seu custo. Ainda, quando a Cpi virou a menina dos olhos de oposições (da esquerda e da direita), para ameaçar e contundir governos e inimigos, perdeu completamente a credibilidade.

                Ou seja, não é mais a verdade que importa, mas a desestabilização política ou desmoralização do oponente. Isso não é investigar seriamente.

                A Cpi poderá até conseguir alguma coisa, mas as provas já estão prontas. Perde-se objetividade, foco e possibilidade de bons resultados quando se trabalha politicamente. Perde-se técnica quando se trabalha por leigos em investigação e negociação.  E quem paga a conta da festa é o povo. Pena que ele goste de ser mais expectador do que fiscal do próprio dinheiro. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Arrastão nutricional



Artigo publicado no Jornal O DIA SP em 21.6.12

                Paulistanos sempre se gabaram de não ter arrastão. Diziam que o Rio era perigoso porque “tinha arrastão”. Nesta época em que o setor cultural mais importante da pauliceia lindamente desvairada, os restaurantes, se vê “arrastado” precisamente por bandidos armados, o Rio de Janeiro parece se tornar o sonho de consumo de alguns. Lá cessaram os arrastões, há anos.

                Os ex-famosos arrastões no Rio eram diferente, talvez bucólicos. Claro que a imprensa sempre vendeu jornal em cima de um pânico muito bem fabricadinho. Mas os praianos não estavam nem aí, a praia nunca esvaziou. Até porque carioca vai para praia com 2 coisas: sandália havaiana e uma nota de dez enfiada na sunga. No Rio os arrastões não envolviam armas, mas hordas. Eram os arrastões do tempo bom, tempo nublado não gerava arrastão, nem noite. A prática era exigente: necessitava de sol. O carioca passou a negociar com o arrastão: ficava sentado no lugar com as crianças, calmamente olhando os desavisados correrem. Os ladrões roubavam o que havia para roubar, não havia outra ameaça ou violência embutida.

                Mas se Nova Iorque é um must, em relação à grandeza dos acontecimentos, São Paulo é um mustinho. Do mesmo jeito que a bolsa de valores migrou para a capital brasileira do dinheiro, os arrastões também vieram para a cidade da garoa. Se os arrastões cariocas faziam mal à diversão; os paulistas fazem mal à digestão. Finalmente a bandidagem descobriu os restaurantes. Bingo Lucro garantido. Já há socialite sentando, literalmente, em cima de celulares. Outras, pensando em escondê-los em lugares bem mais secretos: criatividade-penitenciárias, é, “lá” mesmo.

                A inventiva da bandidagem, reconheça-se, é interessante. São Paulo construiu um verdadeiro shopping de restaurantes a céu aberto “para” seus assaltantes. E tudo muito bem seguro. Um assaltante de 16 anos com uma pistola 380 na mão congela meia dúzia de “seguranças”, aqueles de restaurante com indefectíveis ternos pretos que só assustam namoradinhos de patricinhas. São Paulo, bela e quatrocentona, quem diria, acabaria arrastada igual sua irmã-pobre carioca.

                A contabilidade do arrasto paulista revela vitoriosos 19 assaltos, numa média de 3 por mês, nos últimos tempos. Não mataram ninguém até agora e que se reze para que ninguém morra. Que “os mano” paulistanos copiem os colegas cariocas e só busquem bens materiais e nada mais e jamais machuquem alguém.

                As câmeras de filmar, o grande blefe da tecnologia de ponta, em pleno século 21, insistem na qualidade de pior que há. Deve haver policial especializado em decodificar imagens ruins porque aquele quase quadro a quadro que filmam é de lascar.

                Na ponta do resultado, os poderosos e incomparáveis restaurantes paulistanos já registraram queda de 20% no faturamento, segundo a federação de hotéis e restaurantes. Isso já impôs, sem dúvida, uma nova cultura de frequência. Horários mais cedo, novos hábitos como deixar relógios e joias em casa até o prato poderá mudar. Assaltantes podem fazer um curso básico de gastronomia por correspondência e aprender que quem come lagosta é rico e quem pede abobrinha com carne seca é pobre. Claro que essa regra esconde segredos e inversões inconfessos, mas tudo bem.

                Até o genial Bar Balcão, reduto de jornalistas e intelectuais sofreu um sacode. Aí a bandidagem errou. A vingança da classe pensante pode ser “maligna”. Um estudo teórico psicanalítico de porquê o rapaz caiu no crime, concluindo desde uma rejeição à mãe que lhe amamentou menos que irmão, até um complexo de inferioridade por ter sido cerceado em seu “espaço” pela sociedade burguesa. Seria uma vingança e tanto; e viva Freud.

                Poder-se-ia dizer que em uma coisa os “jovens” (é assim que se fala não é?) estariam calculando mal; burros, feios e mal alimentados como são essa bandidagem brasileira. Restaurantes não têm mais  caixa registradora fazendo o som que o maestro Edson Frederico levou para a Globo: plim plim, para se ouvir toda vez que anúncios vão render dinheiro. Pois é, restaurante não tem mais “féria”, ali. Só tíquetes azuis do Cielo que não é o nadador, mas o cartão de crédito.

                Então fica combinado que o assalto não é mesmo aos restaurantes, mas aos clientes. Pois bem, e aí os clientes estão diante de um duplo assalto. Primeiro o da conta. Um casal com vinho comum num restaurante bom em Sampa, mais o estacionamento “básico” de 30 reais, deixa fácil mais de trezentas pratas no estabelecimento. Agora com o segundo assalto poderá deixar também cartões, documentos, relógios, celulares, automóvel, saúde, tranquilidade e até a vida.

                A política esquerdista de desarmamento tem sua funcionalidade, mas para quem está no crime é uma ótima garantia de uma sociedade-ovelha, obediente e idiotizada. O ciúme das autoridades pelo direito de usar armas e a ideia de que somente qualquer um do Estado consegue aprender a usá-las, ao mesmo tempo que considerando todo o restante da população débil porque sem competência para aprender, é vesgo. A jovem ou o jovem com vinte e poucos anos de idade que passam num concurso de juiz ou promotor ganham, como um passe de mágica, um porte de arma de presente, como se soubessem alguma coisa de andar armado. Estes o Estado não “implica”. Mas um experiente e equilibrado cidadão que deseje obter um porte de arma, a lei é severíssima, num farisaísmo próprio dos imbecis.

                A Gloriosa está em xeque. Mas tudo não pode cair nas costas da prestativa PM, sabe-se disso. Ela obedece a pautas políticas, muitas vezes cínicas de “gestores” da segurança que “pensam” a cidade como se vê, precisamente, no filme-realidade Tropa de Elite. Caberá à sociedade exigir segurança. Mas como muitos usuários de restaurantes já anunciaram que terão um segundo celular para o ladrão, pode ser que tudo acabe em pizza. Tomar de assalto um restaurante está sendo um ótimo e lucrativo negócio para esses aí. Rápido, sem baixo risco e com inúmeros bens obtidos. Claro que um dia essa casa pode cair, mas até lá, muitos dissabores foram vividos. É gato e rato, sabe-se disso. Mas o rato não pode vencer. Jean Menezes de Aguiar

sábado, 16 de junho de 2012

Mulheres e palavrões


A boca


Atenção: o texto contém palavrões, não é recomendável para pessoas assustáveis ou ofendíveis.
 

Podem ser arrolados 7 motivos reais para a mulher não falar palavrões. 1) a educação sulamericana e patriarcal imposta a ela; 2) a sociedade machista a lhe acostumar à diminuição, inclusive demandando leis formais com finalidades compensatórias para proteção contra agressões físicas; 3) uma tendência regressiva de virginização com a praga rosácea do hello kitty e sua infantilização mental em mulheres mais que adultas, numa talvez disputa de espaço com filhas ou verdadeiramente virgens; 4) a fuligem social do “politicamente correto” e seu patrulhamento por tudo que possa ser passível de implicância por partes de pessoas que se arvoram em vigilantes da moral; 5) praticamente toda a publicidade feita com bonequinhos e desenhos animados infantis, até para vender automóveis ou antibióticos, ou seja, a sociedade compra infantilidades na leitura dos intelectuais da publicidade; 6) a renúncia da inteligência, da criatividade, da genialidade e do poder pessoal com a invenção desse “mundo corporativo” que abomina livros e saberes pesados como a filosofia, a sociologia, a antropologia, a história e outros, para se dedicar a apostilas, treinamentos, cases e  literatura “como” - auto ajuda (como trair seu chefe sem ser flagrado, como trair seu marido sem ser descoberto, como passar a empresa para trás sem que saibam etc.) uma leitura tipicamente hora-do-recreio, “divertida”, bem facilzinha; e por fim 7) uma forte crença pessoal feminina (subproduto nítido da educação peniana da sulamérica), assolando muitas mulheres no sentido de que “não fica bem” mulher falar palavrão.

 Percebem-se aí vieses, direta ou indiretamente de infantilização, educação castradora, machismo e insegurança. Entretanto, um menu assim talvez “vitime” as vitimáveis, ou seja, as mulheres susceptíveis a essa formalização imposta de personalidade, ou que não percebam o próprio incômodo com essa formalização que não lhe diz respeito originariamente e, desgraçadamente, não “têm como” reagir. Entretanto, é óbvio que há mulheres que sempre reagiram com elegância, ou sem, e personalidade e cuidaram para manter a boca limpíssima, e recheada de palavrões.

A mulher quando dá para ser cômica é uma delícia. Talvez pelo fato de os pós-chimpanzés machos de gravata e paletó terem dificuldades com uma mulher contando piada ou soltando um palavrão uterinamente profundo e, claro, pela graça feminina. Esse modelo de homem sempre temeu a mulher solta, resolvida, absoluta, que não precise pedir autorização à estrutura peniana que costuma pagar a sua alimentação em restaurantes para ser o que quiser, inclusive descaralhada nos palavrões. Nem se discuta o “desconforto” que certos homens têm de falar palavrão. E não adiantam, esses, darem de ombros dizendo - ué eu falo, quer ver? - “merda”, pronto, falei. Não é isso. Falar palavrão não é uma resposta probatória para se mostrar que se “pode” falar. Essa resposta não prova nada.

Uma explicação se faz necessária. Não se defende aqui que palavrão seja um “valor” obrigatório para a mulher; que toda mulher tenha que falar palavrões e a mulher que não falar será fraca ou insegura. Há mulheres poderosas que não “precisam” de palavrões ou optam por não falar. Mas as poderosas também se mostram por contornos muito nítidos (é impressionante como o poder pessoal está cada vez mais raro nessa sociedade "levinha"). Palavrão é gosto, e gosto não se discute, talvez lamente-se. Particularmente, acho bonito mulher ensandecidamente desbocada e sem pudores com a própria boca. Ainda, o palavrão feminino é uma situação que serve para revelar como certos homens se assustam, e recriminam a mulher, já que palavrão de outros homens eles não se “queixam”. Começam recomendando, com um riso nervoso, que “não fica bem” mulher falar palavrão, até carimbá-la de “bocuda” ou de boca suja, já num juízo que tenta psicanaliticamente sujar a mulher, imprestabilizando-a socialmente.

Todas essas comparações e análises são primárias, mas talvez contenham alguns indicativos sugestivos. Há as mulheres comportadas; as esforçadas; as obedientes; as preocupadas; as boas-moças; as de família; as que perguntam “o que vão pensar de mim?”; e as que apenas não falam palavrões (talvez muitas das primeiras vão querer “ser” estas últimas, dizendo que apenas não falam palavrões). E há as desbocadas, as que mandam tomar no cu, com uma pronúncia dolosamente lenta e muito bem nutrida. As comportadas se “defendem” justificando que não fica bem, que não gostam de palavrões, que são educadas, que não é de bom tom etc. Já as desbocadas parecem não se preocupar com construir uma explicação, apenas falam o palavrão e apertam o botão do “foda-se” para o mundo. Essas são sedutoras. Jean Menezes de Aguiar.


ANEXO.

O doce H. L. Mencken sobre bagagem mental, homens de negócio e mulheres, que “enxergam tudo, com olhos brilhantes e demoníacos”.

“Toda bagagem mental do empresário médio, ou mesmo do profissional médio, é desordenadamente infantil. Não se exige mais sagacidade para se levar adiante a conduta diária do mundo ou desejar as doses habituais de burrice em nome da medicina e do direito do que a de dirigir um táxi ou pôr um peixe para fritar.”

“Os gênios dos negócios eram homens vigorosos e masculinos, o que os tornava bem-sucedidos num mundo masculino. Intelectualmente, eram cartuchos de pólvora seca.”

“A advocacia exige apenas um arsenal de frases ocas e fórmulas estereotipadas, além de um torpor mental que põe esses fantasmas acima do bom-senso, da verdade e da justiça.” Por isso as mulheres não se dão bem aqui, mas como enfermeiras, “uma profissão que requer engenhosidade, raciocínio rápido, coragem diante de situações desconhecidas e desconcertantes e, acima de tudo, capacidade para penetrar e dominar seu caráter.”

“O homem de baixo nível nunca tem total confiança em sua mulher, a menos que seja convencido de que é inteiramente desprovida de suscetibilidade amorosa.”



sexta-feira, 15 de junho de 2012

"Afinal de contas, disso eu entendo"





                        O argumento de autoridade é um nojo. No caso do título, uma jactância apoiada numa vontade de fazer o outro capitular subjetiva e arrogantemente a si próprio. A frase é tirada de Adorno e Horkheimer (Dialética do esclarecimento), quando discutem os judeus, no sentido de que, no momento que precedeu a era hitlerista, pareciam ter resposta para tudo, invocando uma pseudo sapiência pessoal que não contribuiu em nada para nada. Por isso os famosos autores disparam “Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente”, no sentido de os judeus negarem, com “argumentos bem fundamentados” as chances de Hitler chegar ao poder. Essa “superioridade bem informada”, como falam os autores, em verborragia pessoal exteriorizada pelo “afinal de contas, disso eu entendo” construíam statements (enunciados) tão sólidos que intimidavam, e, com essa funcionalidade da intimidação pelo conhecimento, viam-se inteiramente falsos, um subproduto de uma tal vontade do conhecimento.

Antes que se apresse em xingar a análise de Adorno e Horkheimer de uma panaceia racista (völkisch, na linguagem original deles), há se tirar lições importantes para o manejo do conhecimento, principalmente um conhecimento facista que busca vencer pela opressão de uma inteligência fabricada que esconde uma violência em não dialogar, mas buscar apenas a derrota do outro. Como advertem os autores “Não é fácil falar com um facista. Quando o outro toma a palavra, ele reage interrompendo-a com insolência. Ele é inacessível à razão porque só a enxerga na capitulação do outro”. E não se pense que apenas, no caso, os hitleristas eram “facistas”, estes sê-lo-iam buscando a dominação pelo poder primário da força, disfarçada de convencimento. Conseguiram, boçais, por um tempo. Mas há os facistas pela moeda do conhecimento, buscando a dominação “sofisticada” do saber fabricado de plantão, quando usam o argumento de autoridade. Se a opinião “não pensa, pensa mal”, e precisa ser “destruída” como ensina Gaston Bachelard (A formação do espírito científico); o argumento de autoridade é menos passivo, menos modesto, mais jactancioso e visivelmente mais bélico e arrogante. É claro que no mercado da imbecilidade, compra essa tralha mental quem quer, mas ela ainda faz inúmeros estragos na crença de que o conhecimento possa valer por um argumento vaidoso e autoritário como esse. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Falar em tese no Facebook é tabu?

Com gente chata faz-se igual à baleia: mergulha gostoso e não se está nem aí...

 Artigo publicado no Jornal O DIA SP em 14 de junho de 2012

                O patrulhamento atual, esse “chatissimamente correto” está um saco. Pessoas vivem vigiando o que as outras falam, escrevem, pensam. Não se pode mais ter opinião. O sujeito cisma de querer ser seu “amigo” (só rindo...) no Facebox, você não pediu nem convidou, apenas “aceitou”, e qualquer coisinha mais estranha que você fale pronto. Vem o mala alegando que o seu discurso é “desrespeitoso” ou ofensivo. Quando se fala em certas áreas, ainda que totalmente em tese, sem indicar ou sugerir ninguém, alguém pula da última fileira e patrulha o texto, alegando mágoa e “ensinando” que não se pode falar o que quer. Será que não se pode, no “seu” espaço? Lidemos com alguns exemplos famosos de liberdade de expressão para tentar melhorar o nível. Há menos de um mês publiquei aqui na coluna algo semelhante sob o título Ofendíveis.

                O grande Gilberto Freyre, Casa grande & senzala, 4ª ed., 1943, 1º v., p. 90, se refere ao então ditado popular da época; “Branca para casar, mulata para f...., negra para trabalhar”. Quem lê a frase solta pode “estranhar”, mas o contexto é bastante sedutor. Uma coisa é o que está dito. Outra é o contexto em que o dito está. Uma pessoa mal intencionada detratará a frase, rápido, fácil. Uma honesta procurará, inteligentemente, o contexto. Estas últimas são, infinitamente, as melhores.

                Isaac Asimov, Antologias, 1, p. 199, sobre a densidade de discurso que só busque agradar dispara: “Qualquer acréscimo de tempero ou substância ofenderá a alguém e ocasionará perdas. Resulta daí uma papa insossa, não porque ela agrade, mas porque não corre o risco de desagradar.” E sobre os intelectuais da publicidade se preocupar com isso “deve lhes provocar gargalhadas de desprezo”. Repare que o “tempero” e a “substância” aparecem como geradores de “ofensa”, ou seja, tudo precisa ser levinho, superficial. Haverá quem opte por um discurso-papa-insossa, o que não será o caso, por exemplo, de um filósofo como Alain Touraine que ensina: "O intelectual não é um legislador, mas um agitador”. Ou de um ácido H. L. Mencken, O livro dos insultos , afirmando que na religião e na poesia tudo está assim “desde que o 1º gorila avançado vestiu cuecas, franziu a testa e saiu por aí dando conferências”.

                Fala-se “em tese” quando não se especifica ninguem, e ninguém deveria “avocar” se sentir ofendido. Não há temas tratados “em tese” proibidos. A menos que em pleno século 21, com liberdade de expressão garantida haja “tabus”. Podem ser incesto, aborto, religião, prostituição, drogas, fé, Deus, crianças, advogados, políticos, qualquer tema é possível de se discutir. Qualquer tema admite crítica, opinião, discordâncias. O defeito será o patrulhamento, sempre farisaico.  

                O espetacular livro de Rui Castro, O melhor do mau humor, é um repositório de frases as mais cínicas e impiedosas sobre todo e qualquer tema. Garante ótimas gargalhadas, não para os chatos que patrulham. Não pode, por um exemplo absurdo, a OAB querer se insurgir contra o que figuras mundialmente conhecidas falam em frases do advogado, num livro como o do Rui Castro. Nem a balela primária e politicamente correta de que “não se pode generalizar”. Telenovelas, por exemplo, têm enfrentado corporações ciumentas, e com surtos de imbecilidade, quando criticam um personagem. A associação nacional de não sei quem se insurge se um “personagem” é retratado negativamente. É patético isso. Por esssa “lógica” obscurantista não poderia mais haver filmes porque qualquer um, policial, advogado, juiz, político, médico, padre, ligado a uma associação poderá se sentir “ofendido” com a história inventada no enredo de arte.

                Seria o fim das liberdades artísticas e de expressão. Alexandre Pires e Neymar tomaram umas e se fantasiaram de chimpanzé; pronto. Foram ordeiramente enquadrados por um chato de plantão. Quanto autoritarismo e falta de genialidade nessas “autoridades” cheias de moral e civismo, querendo “investigar” racismos.

                De novo, cito o filósofo Lou Marinoff, Mais Platão, menos prozac, pág. 70: “As pessoas que procuram se ofender sempre encontram motivo para isso; consequentemente, são elas que têm um problema.” Em épocas assim, rolando solto o preconceito, o ato de pensar - não sendo a “papa insossa” de Asimov -, como um agitador de Touraine está ficando ridiculamente perigoso. Voltaire já ensinava: “o segredo de aborrecer é dizer tudo.” Mas será que da época de Voltaire, que precisou fugir duas vezes da França por perseguições à sua intelectualidade deliciosamente debochada, nada mudou? Pois é, a goma do formalismo está escondendo navalhas para serem usadas como vinganças, mesmo entre “amigos”.

                “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”, já disparava o agora eleito cientista do século Albert Einstein, cansado de tanta interpretação maldosa e errada a seu respeito. A minha bonita Roberta outro dia copiou de algum lugar e postou no Facebox dela uma brincadeira sobre religião. Bastou isso para uma amiga de infância pular e acusar a bobajada do “desrespeito”. O entrevero durou 3 minutos e a “amiga” encerrou a amizade. De amizade isso tem “pouco”. O mesmo consumismo boçal que está fazendo filhos matarem pais, e esposas esquartejarem maridos, está causando esses faniquitos e pitis.

                Falar em tese não é nem juridicamente ilícito, nem moralmente reprovável nem inteligentemente feio. Agora, para pessoas “burrinhas” (sei que não posso falar essa palavra sem ser no diminutivo, os chatos pulam) qualquer coisa será um pé para considerarem um “desrespeito”. A sorte é que há pessoas muito mais inteligentes e geniais que nós para nos dar colo. E um colo é uma delícia. Mesmo um colo devasso de um intelectual que nos xingue à vontade, mas honestamente, e não nos patrulhe de uma forma safada. É por isso que Michael Ghiselin dispara: “Arranhe um altruísta e verá um hipócrita sangrar”.

                O patrulhamento, o cerceamento, a vigilância temática são formas hipócritas de se tentar calar o discurso “em tese” sobre um assunto. São, essas mazelas, atreladas a alguma moral de plantão e à suposição de que se pode fiscalizar a opinião do outro. Essa grosseria ou autoritarismo filosóficos não deveriam ter mais vida em pleno século 21. Quem “se sentir” difamado por qualquer coisa que contrate um advogado. Se for um problema de “mágoa”, pode cancelar a amizade. Se for um contorno psicanalítico, como referido por Marinoff, que procure um divã. David Levy e Helena Masseo de Castro são grandes profissionais de divã. Está feita a recomendação e assunto encerrado. Jean Menezes de Aguiar.

domingo, 10 de junho de 2012

Adorno, Feyerabend e algum relativismo

Theodor Adorno


Deve ser um "alento" (se é que há esse necessidade filosófica) para cientistas (básicos) encontrar em Adorno (Dialética negativa) a "relativização" do relativismo infinito, pós-desconstrutivista (nada que ver com Derrida) e para-anárquico de Feyerabend, conquanto algo sedutor, admita-se. (Adorno não se dedicou a Feyerabend, é anterior, claro, mas talvez se consiga essa leitura futurizada). Nem Adorno pode ser acusado de elitista de forma simplista como se ouve nalgumas sedes, nem Feyerabend conseguiu desconstruir a razão e outras sedes (nem sei porque comparo isso, talvez um toque ínfimo de objetos possa haver). Passagens de Adorno como "A dialética opõe-se tão bruscamente ao relativismo, quanto ao absolutismo" e a construção de se "reconhecer o relativismo como uma figura limitada de consciência" expõem, numa leitura rápida o inverso de o que o relativismo sempre propugnou e costuma ser associado: à não oclusão. Mas há um "fechar questão" interessante e talvez adornianamente defensivo deixando tudo e qualquer coisa aberto. É como se  no relativismo houvesse a limitação pelo não atingimento ao dado minimamente "correto" [desabstrativizado]. Talvez por isso Adorno discuta o relativismo sociológico de Mannhein, como "o que flutua livremente", mas nada é "livremente" (!), em conjunto com o hermetismo do ceticismo burguês incorporado pelo relativismo. É interessante a forma de ceticismo imposta pela relativização; ela não é não cética, mas espuma um ceticismo no seu próprio avesso: o que não obedecer a esse relativismo ser-lhe-á [ou será] imprestável. Aí uma forma nítida de prepotência.
A pós-modernidade, em alguns cantos, tem imposta ou querido impor essa relativização desajeitada de que tudo pode. Feyerabend empolga, admita-se, mas "algum" retorno a Adorno é um "novo" ar, e sempre um porto seguro. Que paradoxo interessante. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 9 de junho de 2012

Uma história de amor



Era um dia de cidade grande, grande e antiga, como se carros e ônibus tivessem combinado não circular. As praças viam-se entristecidas por seus bancos vazios e folhados das árvores. Grossos caules de gigantescas fábricas de folhas sentiam-se ociosos implorando ser tatuados a canivete por algum casal apaixonado, mas esses haviam decidido hibernar. Encostado no lado esquerdo do portão de um grande prédio antigo estava Philippe, um músico francês, esperando o nada. Conversava com a indecisão sobre acender um charuto que houvera ganhado, um presente dos bons.

Quando passou, apenas existindo, a deusa que a vida tinha reservado para sua felicidade. Philippe sabia que este conceito era zombável e filosoficamente pueril, mas se permitiu esse pensar de relance. Era uma deusa, nenhum homem olha como ele olhou se não fosse uma. Havia um carinho e adoração naquele olhar, não uma fome sexante. O feitiço nos quadris fez cessar a indecisão, ocupar a mente quase já ex-ociosa. A história para ele não era irreal, ele sonhara aquela mulher a um longo tempo. Construía ali a certeza de que beijá-la seria a morte, o inferno, um terremoto e o amor eterno, toda essa poética junta. Num surto de sanidade esqueceu o descompromisso, a indecisão e a ociosidade e seguiu a bela por 3 passos. Bastaram-lhe 3 passos. Pediu-lhe um minuto, com carregado e recluso sotaque parisiense. Teve em resposta uma jovem serena e segura, resolvendo dar-lhe um olhar inteirinho de presente. Começou a querer que o tempo parasse; ele parou e Philippe percebeu que o tempo se fizera seu companheiro, como se dissesse: vá, resolva, agora só depende de você. Numa segurança inabalável ela renunciou a tudo e instantaneamente encheu aquele agora menino de atenção. O olhar de Philippe perdeu a antipatia francesa, a acidez parisiense e a soberba primeiromundista. Ele próprio estranhou e achou graça como o amor podia ser tão poderoso a ponto de causar essa humildade repentina e consciente nele. Logo ele que desprezava a humildade, essa baixeza humana que só serve para exibição, pensava, e exibição por exibição prefiro a minha arrogância de ser vivo, teorizava. Mas o certo é que seu coração disparou. Aquela mulher seria o amor de sua vida, sonhou como os românticos que insistem em não amadurecer, e aguar os olhos por qualquer grande bobagem lembrada. Mas isso era um segredo dele, ao mesmo tempo que sua força mais poderosa, o romantismo entregue, dedicado de um homem.

Por mais de 10 segundos, que pareceram vários minutos, ambos fitaram-se como que apaixonados, em pé, num esquina. Ele perdeu a voz, ela perdeu a própria atenção; queria indagar o que ele queria, mas nem isso conseguia. Amor à primeira vista seria um clichê muito banal para aquela mulher para lá de bem resolvida. Mas aí havia o paradoxo nela: de tão liberal e possível ela não afastava de si a hipótese extrema do amor à primeira vista, só que não aceitava viver a experiência; piegas por essência, infantil por credo, impossível por finalidade, primária por desejo.

Não podia ser, não existe assim, o destino não é um conto criado, sussurrava sua razão matemática tão íntima e menstrual, enquanto seu coração menininha-grande-mulher, traindo-a, implorava louco aos céus por querer que fosse exatamente assim. Após um silêncio que pareceu demorar meses, Philippe falou: - um beijo. E ela imediatamente reagiu, num sarcasmo amoroso genial, certa de que ele a entenderia: só se fosse o último da vida de nós dois e o altar fosse o próximo passo. Ele, pasmado, não acreditava em como ela brincava com o destino, devassa, mundana e linda, agora uma princesa certamente virgem, tamanha a sua inteligência. Ele disse: - Manoela! Ela respondeu, será menino o nosso filho e se chamará João. Ele não conseguia mais fugir daquele jogo genial, daquela inteligência devassa e viciante, aguda e entregue, que transformava sua já dona em uma mulher ainda muito mais linda. Quando ele então tentou a obviedade para ver no que daria: - não sei nem o seu nome, falei um beijo e você respondeu com o altar, falei um nome supondo-o seu e você disse que o nosso filho seria menino; você decididamente não é louca! Só precisa me pedir em casamento. E ela sorrindo carinhosamente respondeu: não, eu amo perdidamente. Ela não era uma mulher, agora era uma rainha.

A sinceridade era derramada numa esquina anônima, entre pessoas comuns, tolas e apressadas que cismam em trabalhar sem saber muito bem para quê. O amor circulava irresponsavelmente entre eles, talvez mais rápido que a heroína na circulação sanguínea, totalmente dominante no momento da liberação da veia. Não nessa exageração de amor um desejo vulgar, o sexo ficou esquecido, a moeda era um carinho suave e um pavor declarado em ambos por não viverem um amor. Aí estava o pacto. Isso era possível. De um simples olhar. Raro, raríssimo, mas possível. Ela invadiu-o: vamos nos apaixonar sem saber nossos nomes? E ele: -não, nós vamos nos casar. Ela pela primeira vez gargalhou aberta e barulhentamente, como só as grandes e poderosas mulheres conseguem fazer. - Você não serve para mim, soou na voz feminina da conversa. Ao que ele prontamente respondeu: temeu minha inteligência não é? E ela concordou imediatamente com um riso de boca fechada como quem fez uma travessura e foi descoberta. Sua graça era infinita, apenas um superproduto da sua genialidade.

O café era um hábito para Philippe e foi na entrada do bar, por movimentos daquela mulher ainda sem nome que ele confirmou o amor. Atordoado perguntou qual seria a identificação dela. Ouviu um açucarado: - Christine, com o erre forçado dos franceses. Ele imediatamente destacou: -um nome francês! Os olhares eram embriagados de tanta emoção, as intenções já conhecidas, os desejos relevados, havia confiança naquela situação, uma estranha amizade se solidificava sem qualquer porquê. Philippe disse: - nós não podemos nos perder. Quase antes de ele terminar a frase ouviu em resposta: - nunca vou lhe deixar. Era impressionante ou totalmente estranho o filosofar transgressivo de ambos em complementaridade e junção. Aquilo não estava acontecendo, era o descontexto de um texto que não se escreve, era o reencontro de um encontro que nunca houve. Não era mais atração, era um confiar, um querer bem e uma descoberta. A palavra era um só: doçura e encantamento mútuos. Aquela adulta Christine e totalmente proprietária do seu destino fazia questão de se entregar, não por uma atração, mas pela circularidade da inteligência delicada que se construía na relação. A admiração a Philippe não se cansava. Ele se apresentou e se identificou.

Perguntou como seria um beijo, e ela respondeu: - de hoje a 6 dias você vai saber, até lá estará “em provas” comigo, vamos discutir inúmeras possibilidades e atuações, inclusive a do beijo. Ele se viu refém. Convidou-a a passar os 6 dias em sua casa, dormindo juntos e agarrados numa cama de solteiro, sem um tocar no outro. Ela disse que adoraria, mas precisava viajar naquele dia à noite. Começaram a espremer os minutos, não existia mais cidade, rua, gente, café, garçonete ou celular. Os olhos não se perdiam. Philippe não era um homem bonito, mas seu romantismo e entrega acessavam aquela mulher deslumbrante.

Ambos viam-se carentes, sofridos pelo consumo do sexo fácil, dos encontros produzidos sem olhar, das noites preparadas para se dar bem. Não havia olhares em ambas as vidas, apenas ali nasceu o olhar. Ele interrompeu um amoroso silêncio e perguntou: - você me daria um beijo? O questionamento saído do nada não surpreendia Christine, nada a deixava surpresa. Sua resposta veio rápido: - mas eu já lhe beijei tanto nesse tempo que estamos aqui, em sonho; você quer mais um? Havia mais inteligência nela do que mulher, e isso a deixava tenebrosamente linda, ornada por longos cabelos escuros e um olhar mais que vivo, energizado e reto. Philippe pediu um café e um conhaque, Christine chamou a garçonete e ordenou um atendimento idêntico, frisando: - da mesma marca e na mesma quantidade que a senhorita trouxer para ele, precisa ser exatamente idêntico, inclusive na quantidade e densidade! A garçonete sorriu encantada com a inusitada encomenda e quando serviu disse que podiam trocar à vontade porque, afinal, ambos os pedidos eram iguais. A gentileza de Philippe cedeu a primeira escolha, ela se encantou.

Não havia horário de verão e a tarde era gentil com o anoitecer, cedia espaço rápido e saía correndo para se refazer, cansada de tantos que insistem em viver de dia, usando-a até a última gota de claridade. Após 3 doses mantidamente idênticas de bebida o olhar deles revelou um amor diverso, compromissável, e um silêncio alvissareiro. Os rostos foram se aproximando em quietude, lentamente, até ficar a milímetros um do outro, e ouvindo as respirações, como se quisessem conhecer cheiros, ritmos, gostos e hálitos. Tudo agradou e se tornou mais emocionante. Temiam o beijar, mas havia invencibilidade ali. Ele veio, caudaloso como um gozar litral, reservado, lento, ininterrupto, total e suculento, escondido numa quina da sala do café, como se canto de sala fosse tapume. Foi só entre eles, só para eles, secretamente escandaloso e denso em sabor e sensações. As bocas buscavam mais e mais se encaixar e elas próprias se incumbiam de tapar o movimento ritmado das línguas que se mostravam largas e abertas, desapressadas nos toques inteiros, prazerosas, íntimos, entregues às mordidas do outro como que querendo serem prendidas para sempre, permitindo sons de respiração quase que inaudíveis para eles próprios, havia uma darwiniana produção de saliva lubrificando o beijar e enganando a evolução como se a reprodução fosse o próximo passo, mas eles brincavam de felicidade com as bocas naquele beijar único que desafiava o tempo e um pudor retrógrado qualquer como se a busca por um clitóris beijal fosse um delito, como se beijar como se come uma fruta aguada, mas não gulosamente e com a paciência própria do amor, fosse o escândalo obsceno que não podia ser revelado. Aquele beijo assistido por outrem seria um escândalo, filmado seria uma grande história de amor. As bocas não se tocavam apenas, prometiam amor eterno após aquilo que chamaram de “nosso beijo”.

Mas o beijo era um mau agouro e eles o pressentiram por tanto amor que sentiram naquele beijar. Foi como se não quisessem que tivesse dado tanto certo, porque a perda ser-lhes-ia fatal. Certamente por isso insistiram tanto em marcar território em um único e possível beijar, com cheiros, sabores, sentimentos, ruídos, paladares e sensações. O desastre é silencioso e imundo. Sua chegada às vezes é suave. Como já lamentou Hölderlin, que estranha mania essa de Deus de separar as pessoas que foram tocadas pelo amor. Não havia um Deus confiável ali, absolutamente, ou se tivesse havido algum, ele começara a dar as costas, numa traição infame e antropofagicamente agnóstica do próprio Deus para com o amor, invejoso por nunca ter dado um beijo assim.

Christine se levantou suavemente e disse baixo: - vou embora. Não precisava razão. Eles não combinaram nenhuma razão, para nada. Philippe apenas aceitou quieto e sábio. Uma Christine gentil anunciou: um dia nos encontraremos de novo, não é possível que um amor assim possa acabar. Pegou uma nota de maior valor que havia no país, pôs sobre a mesa e delicadamente se despediu. Pediu que ele se mantivesse sentado. Uma lágrima tentou marcar o rosto de Philippe, mas lágrimas não marcam. Um aperto no peito prometeu lhe causar um dano futuro, esse sim, a saudade. A percepção da definitividade da despedida lhe cortou a realidade, lentamente. Ele tentou dar o telefone, num desespero de menino, ela recusou. Sussurrou um endereço na cidade vizinha e contou que vez em quando andava por lá. Saiu com a certeza de que ele a encontraria, e a João. Naquele dia o conceito de amor mudou para nunca mais voltar a ser o mesmo. Jean Menezes de Aguiar.