sábado, 9 de junho de 2012

Uma história de amor



Era um dia de cidade grande, grande e antiga, como se carros e ônibus tivessem combinado não circular. As praças viam-se entristecidas por seus bancos vazios e folhados das árvores. Grossos caules de gigantescas fábricas de folhas sentiam-se ociosos implorando ser tatuados a canivete por algum casal apaixonado, mas esses haviam decidido hibernar. Encostado no lado esquerdo do portão de um grande prédio antigo estava Philippe, um músico francês, esperando o nada. Conversava com a indecisão sobre acender um charuto que houvera ganhado, um presente dos bons.

Quando passou, apenas existindo, a deusa que a vida tinha reservado para sua felicidade. Philippe sabia que este conceito era zombável e filosoficamente pueril, mas se permitiu esse pensar de relance. Era uma deusa, nenhum homem olha como ele olhou se não fosse uma. Havia um carinho e adoração naquele olhar, não uma fome sexante. O feitiço nos quadris fez cessar a indecisão, ocupar a mente quase já ex-ociosa. A história para ele não era irreal, ele sonhara aquela mulher a um longo tempo. Construía ali a certeza de que beijá-la seria a morte, o inferno, um terremoto e o amor eterno, toda essa poética junta. Num surto de sanidade esqueceu o descompromisso, a indecisão e a ociosidade e seguiu a bela por 3 passos. Bastaram-lhe 3 passos. Pediu-lhe um minuto, com carregado e recluso sotaque parisiense. Teve em resposta uma jovem serena e segura, resolvendo dar-lhe um olhar inteirinho de presente. Começou a querer que o tempo parasse; ele parou e Philippe percebeu que o tempo se fizera seu companheiro, como se dissesse: vá, resolva, agora só depende de você. Numa segurança inabalável ela renunciou a tudo e instantaneamente encheu aquele agora menino de atenção. O olhar de Philippe perdeu a antipatia francesa, a acidez parisiense e a soberba primeiromundista. Ele próprio estranhou e achou graça como o amor podia ser tão poderoso a ponto de causar essa humildade repentina e consciente nele. Logo ele que desprezava a humildade, essa baixeza humana que só serve para exibição, pensava, e exibição por exibição prefiro a minha arrogância de ser vivo, teorizava. Mas o certo é que seu coração disparou. Aquela mulher seria o amor de sua vida, sonhou como os românticos que insistem em não amadurecer, e aguar os olhos por qualquer grande bobagem lembrada. Mas isso era um segredo dele, ao mesmo tempo que sua força mais poderosa, o romantismo entregue, dedicado de um homem.

Por mais de 10 segundos, que pareceram vários minutos, ambos fitaram-se como que apaixonados, em pé, num esquina. Ele perdeu a voz, ela perdeu a própria atenção; queria indagar o que ele queria, mas nem isso conseguia. Amor à primeira vista seria um clichê muito banal para aquela mulher para lá de bem resolvida. Mas aí havia o paradoxo nela: de tão liberal e possível ela não afastava de si a hipótese extrema do amor à primeira vista, só que não aceitava viver a experiência; piegas por essência, infantil por credo, impossível por finalidade, primária por desejo.

Não podia ser, não existe assim, o destino não é um conto criado, sussurrava sua razão matemática tão íntima e menstrual, enquanto seu coração menininha-grande-mulher, traindo-a, implorava louco aos céus por querer que fosse exatamente assim. Após um silêncio que pareceu demorar meses, Philippe falou: - um beijo. E ela imediatamente reagiu, num sarcasmo amoroso genial, certa de que ele a entenderia: só se fosse o último da vida de nós dois e o altar fosse o próximo passo. Ele, pasmado, não acreditava em como ela brincava com o destino, devassa, mundana e linda, agora uma princesa certamente virgem, tamanha a sua inteligência. Ele disse: - Manoela! Ela respondeu, será menino o nosso filho e se chamará João. Ele não conseguia mais fugir daquele jogo genial, daquela inteligência devassa e viciante, aguda e entregue, que transformava sua já dona em uma mulher ainda muito mais linda. Quando ele então tentou a obviedade para ver no que daria: - não sei nem o seu nome, falei um beijo e você respondeu com o altar, falei um nome supondo-o seu e você disse que o nosso filho seria menino; você decididamente não é louca! Só precisa me pedir em casamento. E ela sorrindo carinhosamente respondeu: não, eu amo perdidamente. Ela não era uma mulher, agora era uma rainha.

A sinceridade era derramada numa esquina anônima, entre pessoas comuns, tolas e apressadas que cismam em trabalhar sem saber muito bem para quê. O amor circulava irresponsavelmente entre eles, talvez mais rápido que a heroína na circulação sanguínea, totalmente dominante no momento da liberação da veia. Não nessa exageração de amor um desejo vulgar, o sexo ficou esquecido, a moeda era um carinho suave e um pavor declarado em ambos por não viverem um amor. Aí estava o pacto. Isso era possível. De um simples olhar. Raro, raríssimo, mas possível. Ela invadiu-o: vamos nos apaixonar sem saber nossos nomes? E ele: -não, nós vamos nos casar. Ela pela primeira vez gargalhou aberta e barulhentamente, como só as grandes e poderosas mulheres conseguem fazer. - Você não serve para mim, soou na voz feminina da conversa. Ao que ele prontamente respondeu: temeu minha inteligência não é? E ela concordou imediatamente com um riso de boca fechada como quem fez uma travessura e foi descoberta. Sua graça era infinita, apenas um superproduto da sua genialidade.

O café era um hábito para Philippe e foi na entrada do bar, por movimentos daquela mulher ainda sem nome que ele confirmou o amor. Atordoado perguntou qual seria a identificação dela. Ouviu um açucarado: - Christine, com o erre forçado dos franceses. Ele imediatamente destacou: -um nome francês! Os olhares eram embriagados de tanta emoção, as intenções já conhecidas, os desejos relevados, havia confiança naquela situação, uma estranha amizade se solidificava sem qualquer porquê. Philippe disse: - nós não podemos nos perder. Quase antes de ele terminar a frase ouviu em resposta: - nunca vou lhe deixar. Era impressionante ou totalmente estranho o filosofar transgressivo de ambos em complementaridade e junção. Aquilo não estava acontecendo, era o descontexto de um texto que não se escreve, era o reencontro de um encontro que nunca houve. Não era mais atração, era um confiar, um querer bem e uma descoberta. A palavra era um só: doçura e encantamento mútuos. Aquela adulta Christine e totalmente proprietária do seu destino fazia questão de se entregar, não por uma atração, mas pela circularidade da inteligência delicada que se construía na relação. A admiração a Philippe não se cansava. Ele se apresentou e se identificou.

Perguntou como seria um beijo, e ela respondeu: - de hoje a 6 dias você vai saber, até lá estará “em provas” comigo, vamos discutir inúmeras possibilidades e atuações, inclusive a do beijo. Ele se viu refém. Convidou-a a passar os 6 dias em sua casa, dormindo juntos e agarrados numa cama de solteiro, sem um tocar no outro. Ela disse que adoraria, mas precisava viajar naquele dia à noite. Começaram a espremer os minutos, não existia mais cidade, rua, gente, café, garçonete ou celular. Os olhos não se perdiam. Philippe não era um homem bonito, mas seu romantismo e entrega acessavam aquela mulher deslumbrante.

Ambos viam-se carentes, sofridos pelo consumo do sexo fácil, dos encontros produzidos sem olhar, das noites preparadas para se dar bem. Não havia olhares em ambas as vidas, apenas ali nasceu o olhar. Ele interrompeu um amoroso silêncio e perguntou: - você me daria um beijo? O questionamento saído do nada não surpreendia Christine, nada a deixava surpresa. Sua resposta veio rápido: - mas eu já lhe beijei tanto nesse tempo que estamos aqui, em sonho; você quer mais um? Havia mais inteligência nela do que mulher, e isso a deixava tenebrosamente linda, ornada por longos cabelos escuros e um olhar mais que vivo, energizado e reto. Philippe pediu um café e um conhaque, Christine chamou a garçonete e ordenou um atendimento idêntico, frisando: - da mesma marca e na mesma quantidade que a senhorita trouxer para ele, precisa ser exatamente idêntico, inclusive na quantidade e densidade! A garçonete sorriu encantada com a inusitada encomenda e quando serviu disse que podiam trocar à vontade porque, afinal, ambos os pedidos eram iguais. A gentileza de Philippe cedeu a primeira escolha, ela se encantou.

Não havia horário de verão e a tarde era gentil com o anoitecer, cedia espaço rápido e saía correndo para se refazer, cansada de tantos que insistem em viver de dia, usando-a até a última gota de claridade. Após 3 doses mantidamente idênticas de bebida o olhar deles revelou um amor diverso, compromissável, e um silêncio alvissareiro. Os rostos foram se aproximando em quietude, lentamente, até ficar a milímetros um do outro, e ouvindo as respirações, como se quisessem conhecer cheiros, ritmos, gostos e hálitos. Tudo agradou e se tornou mais emocionante. Temiam o beijar, mas havia invencibilidade ali. Ele veio, caudaloso como um gozar litral, reservado, lento, ininterrupto, total e suculento, escondido numa quina da sala do café, como se canto de sala fosse tapume. Foi só entre eles, só para eles, secretamente escandaloso e denso em sabor e sensações. As bocas buscavam mais e mais se encaixar e elas próprias se incumbiam de tapar o movimento ritmado das línguas que se mostravam largas e abertas, desapressadas nos toques inteiros, prazerosas, íntimos, entregues às mordidas do outro como que querendo serem prendidas para sempre, permitindo sons de respiração quase que inaudíveis para eles próprios, havia uma darwiniana produção de saliva lubrificando o beijar e enganando a evolução como se a reprodução fosse o próximo passo, mas eles brincavam de felicidade com as bocas naquele beijar único que desafiava o tempo e um pudor retrógrado qualquer como se a busca por um clitóris beijal fosse um delito, como se beijar como se come uma fruta aguada, mas não gulosamente e com a paciência própria do amor, fosse o escândalo obsceno que não podia ser revelado. Aquele beijo assistido por outrem seria um escândalo, filmado seria uma grande história de amor. As bocas não se tocavam apenas, prometiam amor eterno após aquilo que chamaram de “nosso beijo”.

Mas o beijo era um mau agouro e eles o pressentiram por tanto amor que sentiram naquele beijar. Foi como se não quisessem que tivesse dado tanto certo, porque a perda ser-lhes-ia fatal. Certamente por isso insistiram tanto em marcar território em um único e possível beijar, com cheiros, sabores, sentimentos, ruídos, paladares e sensações. O desastre é silencioso e imundo. Sua chegada às vezes é suave. Como já lamentou Hölderlin, que estranha mania essa de Deus de separar as pessoas que foram tocadas pelo amor. Não havia um Deus confiável ali, absolutamente, ou se tivesse havido algum, ele começara a dar as costas, numa traição infame e antropofagicamente agnóstica do próprio Deus para com o amor, invejoso por nunca ter dado um beijo assim.

Christine se levantou suavemente e disse baixo: - vou embora. Não precisava razão. Eles não combinaram nenhuma razão, para nada. Philippe apenas aceitou quieto e sábio. Uma Christine gentil anunciou: um dia nos encontraremos de novo, não é possível que um amor assim possa acabar. Pegou uma nota de maior valor que havia no país, pôs sobre a mesa e delicadamente se despediu. Pediu que ele se mantivesse sentado. Uma lágrima tentou marcar o rosto de Philippe, mas lágrimas não marcam. Um aperto no peito prometeu lhe causar um dano futuro, esse sim, a saudade. A percepção da definitividade da despedida lhe cortou a realidade, lentamente. Ele tentou dar o telefone, num desespero de menino, ela recusou. Sussurrou um endereço na cidade vizinha e contou que vez em quando andava por lá. Saiu com a certeza de que ele a encontraria, e a João. Naquele dia o conceito de amor mudou para nunca mais voltar a ser o mesmo. Jean Menezes de Aguiar.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Jesus na História: existiu mesmo?

 O maravilhoso Cristo Redentor da linda Cidade Maravilhosa.


[História. Metodologia científica. Fundamentalismo religioso. Jesus versus o chamado "Cristo da Fé"]

Obs. O texto não se baseia em "fé" e, informa-se respeitosamente, não são aceitos comentários cuja base seja a fé/dogma, mas a ciência, a metodologia e as lógicas que as apoiam. Atenciosamente, JMA.

1 Generalidades

Parece faltar isenção e objetividade em muitos que tentam discutir a hipótese ou o questionamento de Jesus Cristo ter mesmo existido ou não. Já o questionamento em si afugenta e assusta os que não conseguem debater com objetividade. De plano, há que se saber que a História com seus estudiosos do setor ligados a uma busca científica trabalha do seguinte modo: Jesus é objeto de investigação, e não uma verdade acabada e inquestionável, como “pregam” as narrativas bíblicas e como “querem” os que creem. Para a História as narrativas bíblicas inclusive parecem ter uma força muito reduzida, relativamente ao questionamento. O conceito de “sagrado” para o historiador, por exemplo, é muito diferente do mesmo conceito para o antropólogo. O historiador busca por “documentos” e as ditas narrativas veem-se bastante comprometidas em termos de credibilidade quanto a ser, no questionamento, um documento histórico. Três pontos de ordem metodológica são necessários: um sobre isenção e objetividade; outro sobre o conceito de ônus da prova; e o último sobre a sabida intangibilidade de um texto por mais lógico, exato e demonstrativo que seja fazer um fundamentalista religioso mudar de ideia; não muda. Este terceiro ponto busca, francamente, demonstrar a incompossibilidade de um diálogo de cunho científico, cujo norte são a metodologia, a objetividade e a lógica que as embasa, com qualquer fundamentalista religioso cujo ferramental “metodológico” para o referido diálogo fosse a fé e a vontade inabalável de crer, mesmo diante de qualquer argumento razoavelmente irrefutável.

2 Isenção e objetividade

Isenção e objetividade absolutas são um sonho, se sabe muito bem e gritaria Paul Feyerabend. Mas alguma isenção e uma boa dose de objetividade para se conseguir produzir algo prestável, em qualquer questão, é uma exigência mínima para um texto que se queira razoável. Assim, duas posições extremadas são de cara afastadas: os crentes fundamentalistas de qualquer espécie e os ateus convictos. Devem ser afastadas essas posições porque elas e suas “ferramentas” estão metodologicamente “contaminadas”. As narrativas bíblicas, ensinam os historiadores, não são um documento válido em termos históricos, como, por exemplo, o Código de Hamurabi, a Magna Carta inglesa ou o AI-5 brasileiro. Ela não trabalha com um “relato documental”, mas com uma “pregação”. Esse “método” é até válido para quem busca doutrinação, mas perde muita validade para a pesquisa histórica que diga respeito à questão da existência ou não de Jesus. Onde há pregação, doutrinação e dogma expressos não há fidedignidade, confiabilidade histórica, isso é absoluto e inquestionável.

3 Ônus da prova

Em segundo, a questão da prova, o ato de se provar algo. Jamais se busca provar sobre a negativa, a inexistência de qualquer coisa, isso simplesmente não existe. Toda e qualquer prova se dá sobre a existências, nunca sobre a inexistência de algo. No estudo lógico do ônus da prova se alguém quer dizer que algo não perceptivelmente sensorial, visível existe, é esse alguém que deve fazer a prova da existência. Não pode ele pretender que o negador prove a inexistência. Por isso é totalmente falacioso o desafio vulgar e primário que certos fundamentalistas fazem: prove que deus não existe! Ora, não pode haver prova de negativas.

4 A insuficiência da inteligência para mudar um espírito obscurantista

O mesmo Paul Feyerabend (Adeus à razão), o grande detrator da ciência, que dispara que “o Iluminismo é um slogan, não uma realidade”, afrontando uma visão histórica bastante sedimentada, num esgarçamento totalitário de sua tese infinitizante sobre o tudo relativizado, e aceitável, em outra obra (A ciência em uma sociedade livre) dispara: “Uma regra importante de argumentaçao é que um argumento não revela as ‘verdadeiras crenças’ de seu autor. Um argumento não é uma confissão é um instrumento destinado a fazer o oponente mudar de ideia.” Primeiro, no uso aqui dos termos “obscurantismo” ou “fundamentalismo religioso” não se “reclama” de sua ultrapassabilidade histórica pelo Iluminismo: o Iluminismo não teve a força material de destruir o obscurantismo que vive no presente como um neo-obscurantismo até mais paradoxal, porque numa época de novas luzes a expectativa seria de um menor grau de obscurantismo, e isso parece não cessar, ao contrário, crescer. Efetivamente não cresce, apenas não acompanha a rapidez do conhecimento e por isso parece aumentar no mesmo ritmo. Mas de qualquer sorte continua sendo impressionante. Segundo, o texto não dialoga e não quer dialogar com o fundamentalista religioso, daí o aqui argumento histórico e nitidamente metodológico não se lhe prestar para nada. Do mesmo jeito que não se conversa com uma porta cujo movimento depende do vento ou da mão, não se conversa com o fundamentalista, cujo ato de pensar é obnubilado pela fé, banda epistemológica imprestável para um diálogo objetivo.

Esta terceira questão - a insuficiência da inteligência para mudar um espírito obscurantista -, de ordem organizatório-metodológica é interessante. Não há lógica, demonstração, inteligência, equação, argumento ou mostra científica que faça um fundamentalista religioso deixar de crer. Não deixa. Há relatos de pessoas que dizem que se estivessem diante de uma prova cabal, mesmo assim continuariam crendo, porque querem crer. Isso falicita, sobremaneira, a discussão, porque para este fundamentalista, pouco importa a ideia correta da existência ou não de Jesus. Ele quer crer, sente-se bem assim, é um direito seu. É como a criança que é feliz crendo no emocionante conto de Papai Noel. A conversa com uma pessoa assim é muito mais fácil porque se sabe, de antemão que ela não mudará de opinião. Talvez o recomendável para um objetivista seja nunca iniciar uma conversa dessas - sua objetividade e lógica, nem a de nenhuma demonstração, jamais farão o fundamentalista mudar de ideia-. Será, isso sim, esse objetivista um tolo se pensar que a demonstração inteligencial pode tudo. Não pode e a prova viva está aí, com o fundamentalista religioso.

5. Desenvolvimento

Alguns questionamentos são muito alvissareiros para pesquisadores sérios e objetivos. Por que o nome de Jesus não aparece em nenhum documento extrabíblico? Filósofos e personalidades da Antiguidade são referidos em vários textos oficiais, de Governos, ou extraoficiais. Mas o nome de Jesus não aparece em lugar nenhum. Seria um “complô” histórico, espiritual ou do destino para que só pudesse aparecer seu nome nas narrativas bíblicas? Totalmente descartável essa hipótese, e estranha quando se considera a questão de Jesus ter existido. Historiadores revelam que mesmo documentos recentes à época de Jesus citam diversos nomes, mas nunca o de Jesus. É citado o nome de Jesus numa obra de Flávio Josefo, havendo quem considere a citação falsa, e em dois historiadores romanos: Tácito e Suetônio (O livro das religiões). Por outro lado, não é porque o nome de alguém não é citado que esse alguém não existiu. O pasmo é porque Jesus passou a ser uma figura muito famosa e mesmo assim não aparecer em praticamente nenhum texto, nenhum documento.

Paralelamente, os 4 evangelistas, totalmente desconhecidos, nenhum deles conheceu Jesus, conforme estudiosos, o que tornam as narrativas bíblicas um texto de reduzida confiabilidade histórica, sem se falar que inúmeras propostas de Bíblia houve, aceitando a Igreja apenas uma, e recusando outras várias. Até a imagem de Jesus feita por um alemão é apontada por profissionais como eurocêntrica (claro, louro de olhos azuis), quando se sabe que ele deveria viver no sol e ter a pele queimada.

Ainda, a História não discute o chamado “Cristo da fé”, este é uma realidade para milhões de pessoas. Mas o problema é casá-lo a Jesus. Na excelente obra O livro das religiões, de Victor Hellern, Henry Notaker e Jostein Gaarder, p. 153 e 154, nos capítulos Quem foi Jesus? e O Jesus da história, são apresentadas questões interessantes e objetivas. É indagado se Jesus foi um missionário religioso ou um homem pio que queria ensinar a seus companheiros como viver? Ali também se vê que as narrativas bíblicas se assentam sobre a fé na ressurreição do Filho de Deus, a pedra fundamental do cristianismo. Mas conclui que Jesus existiu efetivamente e não foi um personagem de ficção. A conclusão do capítulo é bastante interessante:

É fundamental manter a distinção entre os evangelhos e a ciência histórica. Os historiadores, empregando métodos científicos, podem dizer que Jesus foi provavelmente um homem que insistia em ser investido de autoridade divina, e que mais tarde houve um grupo de pessoas que acreditaram que ele ressuscitou. Os evangelhos e a Igreja, por sua vez, proclamam que Jesus de fato tinha autoridade divina e que de fato ressuscitou. Ninguém pode justificar a fé cristã ou qualquer que se seja por meios científicos, nem refutá-la com base nesses métodos.

Parece que a maioria dos historiadores não nega a existência de Jesus na História, nem discute a fé, totalmente legítima enquanto sentimento pessoal. Outra questão será Jesus como Cristo da Fé, também válido, repita-se, para crentes no segmento, mas efetivamente desconstituído pela História enquanto o elemento central do cristianismo. Dentro da História talvez o estudo de Jesus seja o mais interessante dado ao paradoxo de sua importância, pela fé, para muitos, confrontada com uma inexistência tão radical de referências históricas extrabíblicas. Que numa análise serena e objetiva essa ausência de referência em documentos históricos de Jesus inquieta qualquer pesquisador é um fato que jamais pode ser menosprezado numa investigação que se queira minimamente séria.


6. Conclusões

                       
                        Nenhum questionamento pode ser solapado para a ciência. Não há áreas proibidas em tabu. Qualquer tentativa de blindar uma discussão apenas demonstra um obscurantismo crasso ou medo para com a verdade.

                        Em textos aos quais sentimentalismos, desejos, ideologias, fés, crenças e quaisquer fatores que possam ser utilizados radicalizadamente, a grande preocupação para o pesquisador será com uma declarada e objetiva metodologização do tema, buscando sempre uma maior objetividade.

                        A fé religiosa é um direito comum e indiscutível de qualquer pessoa, ainda que ela em si (a fé) não seja sagrada, tão-somente porque o objeto de crença - este sim-, para o crente, seja sagrado. Não há que se confundir. Usa-se a fé (não religiosa) para futebol, ideologia política e para o que se quiser. Fé é crença e não apenas a religião demanda crença. Para pessoas adultas, livres e dotadas de inteligência normal, a fé é uma opção, não há uma força irresistível, invisível, uma dependência química, orgânica, física ou mental que obrigue alguém a ter fé. Não há relatos psiquiátricos de gente querendo se “curar” da fé, daí ser ela uma opção. Conquanto opção individual, a fé é totalmente válida.

                        A fé admite divisões. Uma é a fé a que se crê numa conduta íntima e privada de cada um. Outra será a fé panfletária, anunciada para o outro, tentando converter e atrair. Nesta entra o subproduto da fé enquanto negócio comercial, nitidamente pervertida e propiciadora de vida rica para poucos.

                        A Bíblia enquanto texto de pregação e crença se mostra um dos “livros sagrados” (são 8, Wikipédia) mais poderosos e eficientes, mas não é considerado por historiadores um documento histórico confiável exatamente porque utiliza o viés da convicção e do dogmatismo, além de ter sido “escolhida” pela Igreja em uma versão de tantas outras existentes.

                        A razão, a inteligência, a demonstração e o dado objetivo funcionalmente na ciência, com a lógica que os guarnece são totalmente insuficientes para vencer a fé fundamentalista. Será mera perda de tempo um diálogo que queira usar a epistemologia da objetividade para convencer a um fundamentalista. Primeiro porque em regra o fundamentalista não busca um conhecimento objetivo no assunto, segundo porque ele não se vê mudando de opinião. É o que ensina o grande Gaston Bachelard (Ensaio sobre o conhecimento aproximado): “Não se acredita porque é simples, é simples porque se acredita.”

                        Dessacralizar Jesus ou qualquer deus não é, para o pesquisador, qualquer modalidade de desrespeito. A ciência e a filosofia não trabalham, relativamente a um objeto de pesquisa, com o conceito de “desrespeito”, muito menos como impeditivo da investigação.

                        Não se há pedir da ciência ou de qualquer instância de conhecimento uma tal “prova de inexistência” de quem quer ou qualquer objeto que sejam. Não se provam inexistências, só existências, isto é óbvio.
                       
                        O nome de Jesus Cristo só aparecer em 3 documentos históricos, em relação à grande importante que teve, quase que não gera prova de sua existência, mas a suspeição sobre esses documentos: por que somente 3 referências? É diante dessa  paradoxal ausência de citações críveis que historiadores edificam sua dúvida metodológica, de todo pertinente.

                        Se, em não poucos historiadores, para Jesus há a dúvida sobre sua existência em termos da História, parecendo, entretanto, que uma maioria de profissionais da área confere efetiva existência a Jesus, enquanto homem daquele tempo, outra será a investigação do chamado “Cristo da Fé”, figura que não encontra referência em documentos históricos confiáveis extrabíblicos, o que faz circunscrever a "conversa" a seus fiéis e devotos, porque baseada no dogma, na revelação e na fé, elementos estranhos para uma investigação sobre a existência de Jesus, relativamente ao cientista e ao filósofo. Jean Menezes de Aguiar.


PS. A utilização de Paul Feyerabend no texto é proposital, porque ele, mais do que qualquer outro filósofo da ciência, é o inviabilizador mor da ciência e da razão, dois "balcões" ou "tradições" (na linguagem do autor) usados o tempo todo aqui no texto; por todas com sua obra clássica Contra o método.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os honorários


[Inveja. Honorários. Marcio Thomaz Bastos. Advocacia criminal]

                A inveja é dos temas mais interessantes numa filosofia primária. Um conceito barato seria que a inveja representa a pedestalização do outro, no sentido de se ver o outro num pedestal, num plano incomodamente acima. Quem inveja alguém, em muitos casos, gostaria de ser esse alguém, claro que matando-o seria melhor, assim pensará o invejoso. A pedestalização é tão primária e filosoficamente perceptível que qualquer um compreende rápido. A inveja é uma projeção de incômodo com o outro. O outro cresce e isso incomoda a quem é assim.

                Talvez tenha que ver com “complexo de inferioridade”, na psicanálise. Mas Freud (Dicionário, verbete inferioridade) ensina que o conceito é escassamente usado na área psi, ao mesmo tempo que adverte que esse fato não é algo que se deva considerar “como simples, quanto mais, elementar”. Inferioridades são famintas, figadais, calculistas e, por isso tudo, operosas. Desprezá-las às vezes é um erro que a história mostrou.

                No mundo jurídico percebem-se deliciosas hierarquias pseudo-secretas, às vezes suaves e sutis como a “ordem decrescente” que se vê em cartazes de cínicos e só lucrativos “simpósios” de direito: juiz, promotor e advogado. Às vezes, a grosseria espuma e despudora: desembargadores, juízes, promotores, defensores, delegados, serventuários, auxiliares, oficiais de justiça, advogados e estudantes. A taxonomia para esses bichos, nós - a biologia é tão democrática-, usada de forma farisaica não consegue abrir as portas à “dignidade do escândalo”, expressão de Emil Cioran. Ela não consegue pôr o advogado por último (mas que vontade!). Precisa mostrar que ainda há alguém abaixo dele. Mesmo que seja um estudante. No último há uma degradação, mas no penúltimo, há outra, talvez melhor. De toda sorte, esse filosofar já transcendeu os autores de cartazes de “simpósios”.

                As hierarquias geram expectativas. Como um mero advogado pode ganhar milhão? Soltem os cães! Aticem os procuradores! Para explicar essa funcionalidade, ninguém menos que Joaquim Falcão, o intelectual que dirige a FGV. Na obra Poder econômico, p. 57, num colóquio cheio de “autoridades”, comentando que todo mundo baixa música pirata, diz Joaquim: “Não vou perguntar para os senhores, porque aqui há pessoas ilustres que talvez não queiram se denunciar, mas todos os senhores são também, provavelmente ilegais. Quer dizer, ninguém resiste a um procurador ensandecido.” Poético.

                Certas verdades são assim, há que serem pegadas por empréstimo. Aí têm mais efeito. “Quanto” seria de honorários que o grande Marcio Thomaz Bastos não teria “chateação”, ou será publicidade gratuita?  100 mil? 500 mil? 1 milhão? Quanto seria que os incomodados não se incomodariam? O problema não é a existência de honorários, mas o quantum. Talvez hoje, no país, a grife advocatícia mais “cara” seja, efetivamente a de MTB. Primeiro porque um dos insuperáveis em experiência advocatícia de mais de meio século; MTB não é um qualquer que se aposentou e “virou” advogado, com cabeça retrógrada de autoridade. A velha advocacia é outra pipa. Segundo, por ter tido uma passagenzinha como ministro da Justiça que lhe pôs na crista da onda.

                Mas do mesmo jeito que há os “ofendíveis” (veja o texto "Ofendíveis"), há os “incomodáveis”. E é claro que o casal lascivo de plantão “ética & moral” será erguido, como o efeito de um Viagra da honestidade mental para justificar tudo. Na época da ditadura os cínicos diziam que “as instituições estão sendo ameaçadas”. Agora na época do formalismo-corporativo invoca-se a balela da ética e da moral. A espuma do conservadorismo é conhecida. Milhares de advogados no país defendem bandidos, mas MTB cobrar 15 milhões, só aí é que há problema.

                Nunca se perguntou a advogados criminais a fonte material, a origem do dinheiro de seus clientes. Se os clientes de advogados criminais não têm carteira assinada, uma presunção natural, pode-se presumir que a fonte não seja lícita. Se isso é imoral, a Receita Federal do Brasil e todas as Receitas estaduais e municipais também o são. Para o “fato gerador” do imposto e taxa, por exemplo, nunca se quis e continua não se querendo saber de onde saiu o dinheiro. O bandido que compra um imóvel paga imposto e, numa hipótese absurda, se declarar renda, o fisco aceitará a sua beirada de muito bom grado.

                O problema agora foi terem “anunciado” a quantia de honorários. Imagine-se que o tal cliente aí tivesse juntado, por exemplo, 1 bilhão de reais durante a vida. Aí, nos últimos 3 anos inventa essa “parceria” com políticos contrários aos interesses da polícia que se zanga e grava tudo. Imagine-se também que a dívida de desonestidade do tal cliente fosse de “apenas” 50 milhões. É claro que estamos diante de dois “imagine-se”. O que os “incomodados” estão fazendo? Partindo duma “premissa” (!) que honorários advocatícios constituem objeto de crime, mesmo que tivessem saído da parte lícita, imagine-se 3, do dinheiro do cliente.

                A lei 9613, art. 1º, par. 1º, inciso II, utilizada na suposição contra MTB diz que incorre na mesma pena quem, “para ocultar ou dissimular a utilização de bens...” Repare: “para”. Há uma finalidade aí que precisa estar configurada. Honorários profissionais não podem admitir a presunção inicial de que são utilizados “para ocultar” nada. Isso é um absurdo e sempre foi. Ou então se acha que MTB não teria “cacife” para cobrar 15 milhões? É claro que Cachoeira quis uma grife, a maior delas do momento e, para isso, tem que pagar sim e muito bem.

                Essa discussão entre advogado e cliente do crime é velha de guerra. Velha e malandra. Ou a Defesa é uma instituição universal que representa um dos pilares da democracia ou se quer um Estado Policial, retrógrado e juridicamente violento. Qualquer pessoa pode cometer crime, advogado, juiz, promotor, médico etc. Mas suposições “fáceis”, ligadas a uma ética e a uma moral de plantão compostas para explicar um furor inquisitorial que de quebra tenta manchar o nome de um profissional com mais de 50 anos de profissão devem ser melhor cuidadas. Realmente, a questão transcende a esfera jurídica e infelizmente Freud não está mais entre os vivos para explicar, mas o cheiro não é bom. Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Senso comum e ciência em Boaventura S.S.

 Não há qualquer ciência nesta delícia aí. Há emoção, ginga e uma deliciosa sabedoria popular.


O sociólogo do direito Boaventura de Souza Santos é um gigante em filosofia da ciência. Sua obra Um discurso sobre as ciências é uma delícia pela deslinealidade, juntividade (isso é Morin) e manejo heterodoxo de questões fundantes e organizatórias da ciência. Mas sua quíntupla hipótese de trabalho contém 1 vertente que a filosofia da ciência provavelmente concorde, mas a ciência em si torceria a cara seriamente - particularmente gosto dessa dicotomia e ela é bem perceptível nos autores.

Ei-las todas: 1) término da distinção entre ciências naturais e sociais; 2) o polo catalisador para a síntese será as ciências sociais; 3) para isso, as ciências sociais rejeitarão todo o positivismo lógico ou empírico ou de mecanicismo materialista ou idealista mais a revalorização das humanidades; 4) não se visa a uma ciência geral unificada, mas conjunto de galerias temáticas convergentes; e 5) à medida que se der a síntese tenderá a desaparecer a distinção hierárquica entre conhecimento científico e vulgar e a prática será o fazer e o dizer da filosofia da prática. O calcanhar de Aquiles e talvez deixado por último no grande professor Boaventura é o quinto item. Meio difícil de engolir. Metodólogos, tanto “saídos” da física teórica como Mario Bunge e Thomas Kuhn, como da Biologia, como Ernst Mayr (a rigor este reclama uma metodologia própria, biológica) e Paulo Vanzolini parecem ser unânimes, a tantos outros, em não “conseguir” “misturar”, um tanto quanto “pós-modernamente”, os conhecimentos científico e vulgar. O pós-novo e mesmo a mania do tal do “pós”, num pós-tudo, em querer relativizar ao máximo coarctando o método quantitativo, comparativo e outros que serão chamados de positivistas não pode desconsiderar apenas os manejos, apenas eles. Os “olhares” do senso comum com sua “aceitação” domesticada ou domesticável, sua não inquirição, e do outro lado a busca incessante pela exatidão e quantificação do senso científico parecem jamais se quietar, compor ou se mimetizar, se é que a expressão pode aí. De toda sorte, o 5º item do grande professor parece ser o mais difícil. Jean Menezes de Aguiar

Investigação na área médica



É fascinante a influência das “crenças” na ciência. Na medicina (cf. Investigação científica na área médica, Alvaro Oscar Campana e outros 5 autores), disciplina que filósofos da ciência discutem ser ciência ou prática, encontramos 6 momentos: 1) há 5 mil anos, o “reducionismo”, no qual as doenças eram causadas por deuses e buscavam-se as causas em níveis inferiores, físico ou químico; 2) nos séc. 16 e 17, o “vitalismo”, vendo-se o corpo como uma máquina, recebendo influência da alma; 3) no séc. 19, o “determinismo”, no qual para cada efeito havia uma causa determinante; 4) no séc. 20 o “holismo”, em que o ser vivo é um todo; 5) nos anos 1940 e 50 com a teoria dos sistemas, surge o “emergentismo”, em que as diversas partes do corpo interagem umas com as outras dando uma funcionalidade sistêmica; 6) por fim a “convergência de análises” em que se tenta harmonizar o reducionismo com o emergentismo, analisando simultaneamente o simples e o complexo.

A área médica é simplesmente fascinante, seja pela evolução da metodologia empregada, seja pelo aporte tecnológico praticamente insuperável ao lidar com o material humano. Os médicos são tão nobres... Jean Menezes de Aguiar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma sociologia do escândalo



 Artigo publicado no Jornal O DIA SP em 31.5.2012

                Tudo bem que a imprensa precisa viver e vender jornal e revista. Mas a festa com dinheiro público não precisava ajudar tanto. Vive-se uma era do escândalo no Brasil. São crises espasmódicas, sem a menor previsão ser estancada a inércia do absurdo.  Parece que gestores públicos e autoridades se mancomunaram para produzir um escândalo a cada semana. Maquiavelicamente, poder-se-ia dizer que essa seria a intenção, visando a um abafamento sucessivo e interminável do bafafá imediatamente anterior. Mal começou um escândalo e um novo golpe já é anunciado. É o Brasil do escândalo inercial.

                A coisa é tão grotesca, ou geral, que o presidente da investigação é flagrado em delito e passa a ser ao mesmo tempo investigador e investigado. É a superafetação da causa e do motivo. É Goethe quando dá a síntese entre poder público e privado simbolizando a união de Mefistófeles, o pirata e predador privado, e Fausto, o administrador público, que dirige o trabalho como um todo.

                Mas os “manuais” de TGR, “teoria geral da roubalheira”, mostram que elas não são iguais. A roubalheira no setor público é diferente da que há no setor privado. Ambas têm em comum o número de cinco interessados, mas eles variam no tipo e na intensidade. Na roubalheira privada interagem a vítima, o agressor, a polícia, o MP e o judiciário. Já a roubalheira havida no setor público entrará na ciranda como vítima toda a sociedade. Com a legitimação da sociedade algumas coisas mudam, e novos atores e cenários são diferentes.

                Ainda, a comparação entre roubalheira privada e pública admite outras leituras. Na roubalheira privada, a indignação se restringe à vítima que é personalizada em alguém específico. Na pública há um sentimento indivisível legítimo, todos da sociedade, efetivamente, podem e devem se indignar. Na safadeza privada pensa-se mais na polícia, fala-se que “isso é caso de polícia”. Há aí uma estrutura psicanalítica voltada para a repressão, punição, mas o problema “é da vítima”. Na roubalheira pública há uma psicanálise da indignação, o sentimento começa com pasmo e parece se concentrar não na punição, mas na desonestidade que não deveria ser tão comum e ordinária com o gestor público.

                Numa terceira via, a situação ganha contornos de esbórnia moral e tende a explodir quando se mancomunam agentes públicos com privados. Por todos, o emblemático caso de Carlinhos Cachoeira que alugou políticos, órgãos e autoridades e vem resistindo a novos casos que parecem estar sendo criados para abafar a CPI-riacho.

                Nessa psicossociologia da roubalheira, parte considerável da sociedade se mostra ávida por informação. Precisamente aí, cabem ainda mais leituras.
               
                Será que é possível se perceber uma “sociologia do escândalo”, entendida como a notícia incessante de escândalos com dinheiro público? Talvez sim. Se com a Constituição da República de 1988 garantindo a liberdade de imprensa, a mídia passou somente a “revelar” as falcatruas do setor público, não se vive nada novo. Nesta primeira hipótese tem-se a possibilidade, pelo fim da mordaça, de se informar ao público o que apenas existe. Por aqui, ainda, tudo sempre existiu, e o novo é que se passou a informar e discutir.

                Mas se, coincidentemente, com todas as garantias constitucionais e a redemocratização muitos gestores públicos aumentaram nitidamente os assaltos aos cofres, sabendo-se de uma nítida redução da ética na sociedade como um todo, aí sim, está-se diante de algo novo. Ao que parece, nas últimas décadas a coisa da roubalheira descarou irremediavelmente, em quantidade e qualidade. E ao lado da roubalheira, deu-se a construção de novas lógicas, algumas perversas, outras inconcebíveis. Uma delas, por exemplo, é a de que alguns salários públicos precisam ser vultosíssimos, “para que o funcionário não seja corrompido”. Só rindo. Por essa lógica pode entrar bandido, mas o salário “consertará” sua personalidade.

                Talvez na atualidade, dessa tal lógica só tenham sobrado os salários altíssimos. Ninguém mais em sã consciência consegue sustentar a teoria velhaca de que salário alto num concurso gera honestidade ou impede roubalheira. Isso que já se repetiu muito caiu por terra exatamente com sedimentadíssimas autoridades em seus inatingíveis gabinetes super oficiais em final de carreira, ou início de cova. O mau exemplo veio, historicamente, de cima. E funcionou certinho como ética pedagógica para novatos que não fizeram pouco caso da TGR.

                A impressão é que a roubalheira se organizou. Outra impressão é que os órgãos apuradores, correcionais, fiscalizadores do setor público só agem quando a mídia os oprime, com manchetes. Aí no dia seguinte “será aberta uma sindicância rigorosa para apurar o caso” que, invariavelmente não apura nada. Se todos, por exemplo, recebem “verba indenizatória” (VI) como um segundo salário, que é um descarado “por fora” oficial, quem vai reclamar disso? O pagador? O fiscal? O diretor? O auditor? O bagrinho? Mas todos recebem... Quem também vai querer discutir a “natureza jurídica” dessas VIs?

                O problema ético da Vi, e esse é apenas um exemplo isolado, é que sua imoralidade se espraia e força uma percepção mancomunada de quadrilha entre todo um segmento, até originariamente inocente. Ninguém revela que ganha, ninguém conta para ninguém. E “se recomenda” que a informação fique “reservada”. Por que tanta resistência agora com a divulgação dos salários que são pú-bli-cos?

                Vão acabar criando uma “lógica” totalmente safada de que salário público é protegido por “intimidade”. Só rindo-2. Esses exemplos dão um tom ético dos piores num sistema jurídico. Fica difícil saber se qualquer um que recebe um “por fora” oficial, mensal e regular pode reclamar de dedo em riste de um Cachoeira. Admita-se a força do esgarçamento do exemplo, mas para a pureza ética não há muita diferença. Forma-se assim uma endoética em alguns setores públicos onde o “conseguir algum” passa a ser a regra, inclusive e se possível, sob a forma de pagamento regular e ordinário com um desses nomes sem-vergonháticos: verba indenizatória, remuneratória, diligenciatória etc.

                A crítica não pega, por exemplo e obviedade, a querida professora municipal, de Aguiarnópolis, interior do Tocantins, com cruel salário de 700 reais por mês, que, com certeza, é socialmente mais digna e importante que muita “autoridade”. Vê-se que não se tratam de riachinhos, mas de mares, rios caudalosos, grandes lagos e imensas “quedas d’água”. E como o rio não cessa de correr, por que os escândalos haveriam de parar? Reage sociedade. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Ofendíveis


Algumas pessoas são como grama, se magoam. Ou grama também não é um ser humano (igual a essas aí?)

Artigo publicado no Jornal O DIA SP, 24.5.2012


                Há um tipo de gente no mundo, bastante conhecida, que “se ofende”. É uma gente chata que se sente desrespeitada por qualquer coisa, se magoa, se vitima e tem problema com tudo. Vive patrulhando os outros, querendo que qualquer coisa negativa dita, ainda que em tese, tenha sido contra a sua pessoa. Esse chato adora vestir carapuças, claro, até porque elas lhe cabem perfeitamente.

Neste comportamento em ode à vitimização do sentimento, há um nítido pendor ao autoritarismo, ao conservadorismo e ao formalismo. O “respeito” reverencial e tradicionalista, no tratamento, será, para o ofendível, e invariavelmente cerimonioso, uma beleza estética de conduta. Uma verdadeira flâmula mental de um escoteirismo filosófico. O filósofo Luiz Felipe Pondé, na obra Contra um mundo melhor, mostra que “o normal é ser inseguro, mentiroso, covarde, e não santo ou corajoso”. Mas vá dizer isso a um ofendível. Ele baterá no peito e contestará enérgico: - isso pode ser você, eu não sou assim! Afirmará. Ok...

                Não adianta o ofendível ler um artiguinho desses aqui em 10 minutos, concordar, se ajeitar na cadeira, produzir um pigarro e dizer - “é isso mesmo!” Não funciona. O comportamento de se sentir ofendido ou desrespeitado do chato não se endireita com uma leiturinha dessas.

                E não se pense que isso é genuinamente brasileiro e fruto de uma observação fajuta. A filosofia clínica conhece essas criaturas. O mundialmente conhecido filósofo Lou Marinoff em seu livro Mais Platão, menos prozac – a filosofia aplicada ao cotidiano-, na página 70, ensina: “As pessoas que procuram se ofender sempre encontram motivo para isso; consequentemente, são elas que têm um problema.” Lindo. Ou como dizia Darcy Ribeiro: gozoso.

                É exatamente isso. Essa é uma gente que põe a mão no peito e se diz desrespeitada. Quer “se” dizer afetada para exibir uma vitimização como escudo e daí invocar o “direito” de reclamar do outro. Nesse comportamento espumoso sobra pieguice de segunda e falta honestidade. É o chato presunçoso que invoca uma “moral” para recriminar alguém, se dizendo ofendido: quer poder e atenção. Não é à toa que Nietzsche (A genealogia da moral) dispara: “Todas as morais são configurações do Poder”, ou (Crepúsculo dos ídolos) ainda: “nada é mais raro entre moralistas e santos do que a retidão”.

                Não há, para o ofendível, o senso de humor, a alegria de jogar conversa fora e rir das próprias mazelas ou bobagens. Tudo é levado para o “lado sério”; e chato. Esta figura é intelectualmente uma perdedora e socialmente uma vitimada. Quando é apenas isso, menos ruim. Muitos se tornam agressivos e ofensores. Por isso Oscar Wilde já disparava “Um chato é um homem que nunca é rude - sem querer.”

                Para o ofendível há palavras “proibidas” que ele patrulha nos outros. Compõem o seu menu de proscrição, por exemplo, palavras como “burro”, “ignorante” e “imbecil”. Mesmo quando usadas jocosamente e sem qualquer carga que não a de brincadeira. O ofendível procura se ofender “por procuração” da sociedade, uma que não tem. Reage dizendo que não é correto se usar termos assim. Mas falar que alguém é “burrinho” pode. O ofendível aceita a mentira do eufemismo. Às vezes se vê aí uma bolorenta mistura de provincianismo com uma busca pelo “bom gosto”, no sentido de parecer pós-moderno. Viva Adriana Calcanhoto na música Senhas.

                Há também temas preferidos dos ofendíveis. O famoso escritor inglês Douglas Adams, com o senso de humor que lhe era peculiar, dizia que se pode reclamar de partido político, dos impostos, da rainha e de tudo. Mas “não se pode” reclamar da religião e da fé.  E perguntava respondendo: “-Por que não? Porque não, e pronto.” É tabu para muitos, mas para os ofendíveis será ofensa à alma. Já o grande zoólogo Richard Dawkins afirma que “a fé é especialmente vulnerável às ofensas”. Foi criado esse tecido inflamado que reage mal e em patrulhamento a qualquer crítica. Há um exército em prontidão.

                A particularidade mais interessante no ofendível é que ele procura carapuças para vestir. Algo que seja dito totalmente em tese, sem qualquer referência à sua pessoa, servirá para que ele se apresse a se mostrar, reclamando, claro, sempre, ofendido, magoado. É o famoso “mala”.

                Do lado antagônico desses chatos estão os geniais e bem humorados de todo tipo. É uma gente gostosa, mil vezes melhor e imprevisível, que tanto diz qualquer coisa, como aguenta ouvir qualquer coisa e o último que diria seria essa monotonia mental do “me sinto desrespeitado”. Vale ouvir a inteligência, brincando de setorializá-la a seguir.

                Na literatura, Stendhal: “Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos.” Na intelectualidade, Paulo Francis: “As massas, como os leões romanos, jamais passarão fome por falta de detritos culturais.” Na ciência, o biólogo Michael Ghiselin: “Arranhe um altruísta e verá um hipócrita sangrar”. No cinema, Ernest Hemingway: “Você tem que ser irônico desde a hora em que sai da cama.” Nas relações, após recusar a mulher do amigo Sartre, Beauvoir, há Albert Camus: “Imagine o que ela diria no travesseiro depois. Que chatice seria - tagarela, uma completa sabichona, insuportável!” E no fechamento do baú, Alexandre Dumas, impiedoso: “Prefiro os canalhas aos imbecis. Os canalhas, pelo menos, descansam de vez em quando.”

                Qualquer dessas frases e tantas outras saídas de gênios maiores e ditas a um ofendível qualquer geraria reações de dor desejada; desrespeito reclamado; mágoa panfletária, e respostas autoritárias públicas, com acusações agressivas e imbecis, para usar a linguagem de Dumas. Mas a que sintetiza o ofendível é a frase acima do filósofo Lou Marinoff. Ali esstá a raiz de tudo, na própria pessoa, na própria personalidade. Não é nem tanto o elemento heterônomo, externo ao agente que o desestrutura, é a vontade de se dizer magoado, ou uma mediocridade ínsita, encrustada que se inflama e o leva ao ridículo de se dizer ofendido. Essa é uma gente trabalhosa e o melhor que há é mantê-la longe. Inclusive nos Faceboxs da vida. Que falta faz Nelson Rodrigues. Jean Menezes de Aguiar.