sábado, 8 de outubro de 2011

"Cultura" e amor.


[Era do pós-consumo. Mercadorização. Amor verdadeiro. Deus bondoso ateu e generoso]

O incômodo do fim ou da libertação da história, iniciado em 1989, gerando a fatídica década de 90 com a pós-história ou o pós-consumo, inventa um amor híbrido, semi lascivo, estético mas extremamente engajado a um nihilismo doloso inconceptual. Uma merda sequer dotada de cheiro, um nada perceptível com as contradições aporéticas até para os intelectuais.

A mercadorização de tudo transforma a cultura em imagem plásmica e o amor em exposição-parada, em que a reivindicação precisa ser feita como que se para legitimar o que seria natural.

O Amante verdadeiro desaparece, dorme um sono sequer masturbativo, politicamente correto numa poética da insurreição, jamais teorizada por Ranajit Guha ou seus 3 rivais.

Tentemos o Amor verdadeiro, delicado, precioso, mesmo que mortal e dolorosamente solitário, sartreano em sua existencialidade doída, ou por fim somente teorético.

Que Fukuyama esteja certo "hoje", numa pós-aplicação de sua visão para que o Amor renasça urgente, até 2010.

Que a vida mantenha suas imperfeições e artesanalidades defeituosas para a chance do amor não desapareça. Que um Deus (ateu e bondoso), meta-existencial nos dê o sonho da paixão e a plenitude do amor. Sorte para todos nós, mesmo os falsos pensadores que vivem tormentosamente. Jean Menezes de Aguair

Freud, a psique, a sexualidade, o sonho e o amor.

 [Amor. Sonho. Freud. Sexo. Sonhar-com-você]

O que subjaz da perda do amor sequer verificado? Um ao qual a percetibilidade não tenha logrado aderir nas paredes do coração? A psique em Freud, antes de ser uma entidade física, é uma estrutura de significado que tem a ver com processos simbólicos, que cobra interpretação, até para ser reconhecida como vida psíquica, um modelo behaviorista.

Não procedem as críticas de que o estudioso houvera sido influenciado por um positivismo e por um vitalismo sexualista, já que grande parte de sua produção está ligada à sexualidade. Em Interpretação dos sonhos, vê-se um Freud ligando o sonho a um desejo, em termos de realização, no sentido de que o desejo não fosse compreendido num nível de seu conteúdo manifesto.

Se todo sonho contém, como ensinado, uma mensagem escondida relacionada à sexualidade do sonhador, por que não se sonha cotidianamente com o ser amado? Seria porque o amor é negado no plano da sexualidade ou porque o amor é insuficiente?

Freud também ensina e define o conceito de deslocamento, uma das formas de se sonhar sob disfarce da mensagem inconsciente que, juntamente com o conceito de condensação, é um dos lados primários do sonhar. Pela condensação, o sonhar é pobre, é aquém de o que a mente consegue abstrair, por outro lado é um sinal de realidade efetiva, já que ligado ao desejo.

Às vezes sonhar com “você” é tão bom, é tão juntivo, perfectibilizador, justo e gozal... Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O paradigma Eliana Calmon

Publicado no jornal em 6.9.2011
http://www.jornalodiasp.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=51&Itemid=58


[Judiciário. CNJ. Jô Soares. Chico Anysio. Transparência]

                A juíza Eliana Calmon, corregedora nacional de justiça tem uma personalidade forte. Sua declaração sobre “bandidos de toga” não deixa qualquer dúvida. Nalguns ouvidos isso foi mel, noutros foi picada de abelha. Houve quem se sentisse “ofendido”, e houve quem tivesse a alma lavada. Eliana atirou no que viu e acertou o que viu e o que talvez nem tivesse ideia que existisse. Mas toda depuração é bem-vinda. Viva Eliana Calmon.

                Sempre houve certo tabu em se criticar o Judiciário, porque em primeira ou última análise é-se julgado por ele. A imprensa o poupa, os outros Poderes também. Numa observação sistemática e sociológica isso fica bem nítido. Todos deitam falação aos “políticos”; é fácil falar mal de deputados, senadores, governadores, prefeitos, presidente, afinal eles estão “longe” de uma potencial afetação no plano pessoal. Mas a figura do juiz é um pouco diferente. Ou era.

                Sob essas reservas da crítica ao Judiciário vai sendo tecida uma mentira social à qual matérias jornalísticas, reportagens e imputações contra este Poder são suavizadas. Jô Soares e Chico Anysio, por exemplo, já demoliram pela comédia, políticos, figuras públicas oficiais, generais, delegados e outros tantos. Mas não há lembrança de terem brincado com o Judiciário. Aí se nos aparece Eliana Calmon e, parafraseando Voltaire, se ela não existisse, precisaria ser inventada.

                Longe de representar qualquer brincadeira, a corregedora diz publicamente de sua corporação o que nenhuma corporação gosta de ouvir. É o famoso sprit des corps, o corporativismo que protege e blinda, e não quer que críticas saiam para o público que “se aproveitará” delas. O filósofo Jacques Ellul afirmou no Le Monde: “começo por criticar tudo que me é simpático. Assim, não critico a direita porque não tenho nada em comum com ela, mas a esquerda, onde tenho amizades e afinidades”. A invejável Calmon cumpriu esse importante papel da crítica, falou de sua corporação. E cada um que fale da sua, o quanto queira.

                Críticas à própria corporação só fazem bem, são saudáveis e dignificam uma instituição. O Judiciário não é mambembe a uma fala de Eliana; ele aguenta e deve eticamente refletir. O que não pode e representa um vexame é apressarem-se agoniados defensores querendo tapar sóis com peneiras. Essa atitude é que gera suspeição e, sim, esta, é que expõe uma instituição a olhos críticos de observadores inteligentes.

                Eliana ganha o colo, o respeito e a admiração da intelectualidade. Para virar Cult, agora, é um pulinho, ainda que, obviamente, essa jamais tenha sido sua intenção. Para ser convidada por Jô Soares para uma noitada divertida no programa do Gordo não falta mais nada. Eliana Calmon virou pauta, no jornalismo. Não porque tenha falado mal, não se há ser primário aqui. Mas porque teve uma bela coragem uterina de dizer coisas sérias e responsáveis com um olhar técnico e de dentro, visando a depurar publicamente a magistratura, que é pública, existe sob dinheiro público.

                Mas por que Eliana fez assim, publicamente? Por que pede, nitidamente, socorro à imprensa, à OAB e principalmente à sociedade – quem banca o Estado e pode, com todas as letras, fiscalizar suas entranhas. O Judiciário ganha respeito qualificado com a fala de Eliana Calmon porque se estima que haja ali quem não tema a crítica, até goste; quem não se curve ao politicamente correto de achar que não pode criticar. O coro de apoio à magistrada certamente será engrossado, saudavelmente.

                Que bom seria se cada instituição, as vaidosas, as que se escondem, as que buscam a TV nas investigações e tantas outras, tivesse uma Eliana Calmon para revelar suas situações publicamente. A essência de democracia passa pela publicidade e discussão dos problemas, não pelo disfarce malandro deles. O setor público deve satisfações constantes e a crítica interna é um tipo de satisfação.

                O paradigma Eliana Calmon é um marco. Não por dar de presente manchetes lucrativas à imprensa; não para motivar vinganças primárias de invejosos que gostam de dizer: “– tá vendo?” O caso é que corregedores devem corrigir.  Ainda que isso não envolva, obviamente, escândalos, mas envolve satisfação pública. A campanha de esvaziar o CNJ é conservadora e cínica. Como se ele não pertencesse constitucionalmente ao Poder Judiciário. Querem-no como um filho espúrio. Mas ele está apenas abaixo do Supremo.

                O Judiciário não perdeu com a crítica de Calmon, ainda que com seu jeitão de mãezonha ríspida que se precisar bate corretamente no filho que ama, sem o modismo de que palmada traumatiza. Esta visão de que o Judiciário não perdeu pode ser, reconheça-se, uma visão romântica ou esperançosa, vá lá; que seja. Mas esperam-se novas vozes sérias e firmes a agir na transparência da instituição.

                Talvez, mais degradante do que a mazela e a falcatrua, coisas próprias do ser humano desviado, e esses seres há em qualquer instituição, sejam as tentativas de se encobrir, pelo corporativismo, os erros. A sociedade não quer funcionários públicos assim. Tentar sugerir ou passar a imagem, de que uma instituição é imune, estéril ou isenta de maus profissionais é o que não se quer ouvir. Em tempos de Twitter e informações instantâneas, um corporativismo que não acompanhe o perfil social do consumidor de um Estado honesto, essencialmente honesto, não se sustenta. Mesmo que este consumidor ou sociedade com o seu dinheiro e em sua vida privada não ostente esta honestidade cobrada do Estado.

                Vivas a Eliana Calmon por sua coragem. Atraiu olhos de repulsa suspeitos, mas virou a queridinha de, certamente, a maioria da sociedade brasileira. Eliana Calmon merece um beijo de muitos. E o Judiciário está de parabéns pela escolha de sua corregodora. Que outras entidades saibam fazer igual. Jean Menezes de Aguiar

Pais de filhas

[Filhas. Amor de pai. História de pais]

por Jean Menezes de Aguiar, quinta, 22 de setembro de 2011 às 14:58

Ser pai de filhas, só filhas, deve ser um espetáculo em todos os casos, sem um homem para atrapalhar o agarramento com seu tolo complexo trofeico de macho que um dia será eretizado e um dia deixará de ser, humilhando-o pela perda da tal potência. Filhas são especiais, no reino felino são as leoas que caçam, correm, golpeiam e matam. O matar fêmeo é belíssimo, visa a alimentar a prole e o próprio macho. O ocaso das filhas pode se dar por sua morte, certamente a dor máxima de um pai, visitar um túmulo de filho em prantos surdos ou berrados de um pedaço seu que foi arrancado quando ele talvez desse a vida para aquela não extirpação.

Há outras perdas, severas e impiedosas a matar um pai aos poucos e silenciosamente, seja num momento de alegria que ele daria tudo para dividi-lo com as filhas, seja em momentos de conquista, paladares novos, descobertas, tristezas, inseguranças, bebedeiras, cansaços, doenças e vitórias. A relação filha pai deve ser a mais séria que há, a mais profunda e mais densa. Filhos não são criados para o amor, nessa sociedade boçal, só para fuder meninas. Só as filhas o são, e pagam preço alto pela ignorância desses sujeitinhos aí assim. O Édipo poda a mãe em cobrar amor do filho, já a carência estimula o pai a buscar colinho no pequeno e frágil colo da filha. Se o menino não aguenta o pai porque entre eles há o jogo disputal da força, a menina com a doçura aguenta totalmente, é o que o pai necessita, já que contra ela ele jamais oporá a força. Ser pais de filhas, o máximo está aí.

Passei a conversar com amigos como é ser pai de filhas, pergunto e ouço longos e amorosos relatos, atentamente. Vejo os olhos brilharem infinitamente em pais de filhas, pelo orgulho, pelo mimo e pela esperança. Filha é geradora de esperança, porque um dia emprenhará e fará o pai um avô, de seu próprio ventre. Filha compõe-se em véu no altar, uma estrela única no casamento, já o filho se perde no meio da multidão com tantos iguais a ele, o noive não vale nada, só a noiva é brilhante. Há anos coleciono histórias de pais de filhas, lindas, poéticas, densas e doces. Admito que raros pais sejam efetivamente profundos na criação, no sentido de agudizarem o diálogo ao infinito, sem pudores, sem cerimônias, sem meias palavras, esses são os melhores, os mais amados. Pais que olham pras filhas e cobram – diz eu te amo, vai, diz 5 vezes só pra mim!

Tenho na memória um certo pai que amava suas filhas, apenas filhas,  tão intensamente quando podia, afinal ele era um homem dos mais densos que conheci, um advogado batalhador e guerreiro. Trago este amigo perdido nos idos da vida no coração. Vejo seu sorriso mais velho neste Facebox e busco suas filhas e me maravilho. Ele conseguiu fazer delas o espelho de o que ele é, tenho certeza que sim. Cada uma das suas mais lindas que a outra, e todas, a cara daquele pai amoroso, denso, entregue e necessitado delas. Lembro de certos momentos da adolescência de uma ou de outra aos quais ele, rabugento, reclamava de uma ou outra, mas o pano de fundo era apenas um, o amor. Suas quatro filhas são o exemplo da vitória que qualquer pai gostaria de ser e ter. Acompanhei de perto por um bom tempo a criação dessas meninas e aquela relação ficou em mim como se eu pudesse ser aquele pai, quem dera, aquele homem tão amado quanto este exemplo de pai que foi e continua sendo.

Sonho pelo sonho dos outros e me sinto feliz. Minha felicidade quieta e particular neste momento talvez seja parecida à retratada no poema A alegria dos peixes, a vida de Chuang Tzu, quando ele e Hui Tzu atravessavam o rio Hao. Após um diálogo, Tzu interrompe e afirma: “O que você me perguntou foi ‘Como você sabe o que torna os peixes felizes?’ Dos termos da pergunta você sabe evidentemente que eu sei o que torna os peixes felizes. Conheço as alegrias dos peixes no rio através da minha própria alegria, à medida que vou caminhando à beira do mesmo rio”. É isso. Consigo criar uma felicidade ouvindo histórias de pais sobre suas filhas e lembrando daquele amigo. Por essas filhas e por esses pais consigo conhecer as alegrias deles através da minha própria alegria, à medida que ouço suas histórias.

A “poesia” aí, ramo que Nietzsche reserva para o quarto dos fundos de alguma moral (A gaia ciência) se me apresenta como um pano morno para uma felicidade que se mostra fria e somente esse pano consegue aquecê-la a ponto de se tornar um linimento. Essa a beleza da vida, ter amigos para ouvir as histórias de filhas, orgulhosos, seguros e vencedores. Histórias de filhas para contar, esses pais têm e quanto são pedidas as histórias mais eles as contam. Experimente pedir a um pai alguma história de filha e verá. Alguns riem do interesse de porque se querer saber das filhas, mas nunca vi um pai se cansar de contar histórias de filhas.

Trabalhei com um coronel que perdeu uma filha com 17 anos numa situação simplesmente inenarrável. Encontrei aquele pai uma semana depois. O andar e o olhar dele me marcaram a vida profundamente, nem preciso detalhar. Nunca esquecerei. É a antítese de quem tem histórias de filhas. Este pai terá e contará as histórias de sua menina por toda a vida, mas até o décimo sétimo ano da vida dela, quando então as histórias param, simplesmente param. Ele não tem mais o que contar dela. Ficou outra, mas aquela se foi. A vida não é composta apenas de histórias vitoriosas das filhas, mas de outras também.

Este texto passa por incontáveis clichês, mas falar de filhas é assim. Não vejo os pais aos quais coleciono minhas histórias de filhas se importarem a mínima para clichês, eles não estão filosofando, não estão numa banca de exame. Eles apenas vivem a experiência máxima de serem pais de filhas. Outro dia estava vendo um pai que tem um filho e duas filhas. Quando eles se foram do nosso encontro, as meninas o abraçaram como duas moças a proprietarizar o pai, uma de cada lado, há dominialidade ali, coisa que o menino não vive. Elas só admitem dividir o pai entre ambas, já que a relação com a mãe é outra. Enquanto pai elas reinam absolutas num código que talvez nem ele saiba, ou nem elas confessem. Assim é a vida de pais de filhas.

Certa vez fui instado diretamente por um pai a cuidar bem das suas três filhas pelo tempo que eu fosse viver com elas. Comprometi meu coração e minha razão na jura de fiel cumprir a missão. Naqueles anos, desenvolvi carinhos, mas elas não eram minhas filhas, não sei, por ali, nem de longe, o que é a experiência. Quando tento comparar o brilho dos olhos das histórias dos pais às que tenho daquele tempo não restou nada comparável em mim ao que vejo na força dos pais. A força. A força dos pais. Se da física o conceito de “força” é um dos mais difíceis, nas relações de pais e filhas há uma força oculta que move outras forças ostensivas e visíveis e tudo se torna poderoso e denso. “Quem dera que eu dera um certo amor”, escrevi outro dia numa letra de música com certa licença poética, imaginando que há amores que simplesmente não se vão, apenas ficam, adormecidos ou mortos, mas ficam.

Vejo o amor dos pais por suas filhas assim. Há berros, zangas, brigas, xingamentos, insultos, há o que tiver de haver, de pais para filhas; tenho ouvido isso.  Mas há o pano de fundo de um amor infinito, eterno que não quebra, mesmo que as filhas o reneguem, o amaldiçoem, o escorracem e se separem dele. Ouvi uma história assim, dilaceradora e à pergunta se aquele pai ainda amava suas filhas a resposta foi imediata. Faço esse texto misto de piegas com bobo, dirão uns, em homenagem aos pais que têm filhas. O escritor não acerta em tudo, escreve bobagens também e certamente esta é mais uma bobagem, isso quando o que ele considera bobagem é o único que se presta de sua produção. Devemos viver nossas bobagens publicamente, aí sim é vivê-las. Há quem "não tenha" bobagens para viver, talvez haja, não é o meu caso.

Agradeço aos pais pela alegria que eles me dão, deixando eu ouvir as histórias de suas filhas, suas infinitas, perfeitas, maravilhosas, lindas e eternas filhas. Para eles elas são mais que isso, mas o léxico ainda não inventou palavras e eu não estou sabendo descrever muito bem a sensação. Jean Menezes de Aguiar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A irreverência assusta. Mas por quê?

[palavrão. neoescravidão salárica. homem-chorinho. homem-rock. "cocô com alcacuz". Nietzsche.]


Por que a irreverência assusta. E assusta a quem? E o que é irreverência? Em primeiro, assusta, sai do padrãozinho, sai do comum, sai do ordeiro, do domesticado, do obediente e do cumpridor de normas, inclusive a de não falar “errado” (= falar merda). A irreverência sai fora desses padrões. O palavrão como superproduto da irreverência é um brasão diplomador do irreverente. Óbvio que não só ele, e ele às vezes se torna até algo bobo, quando não sinérgico a uma poesia episódica que o explique, ou comova. Não que o irreverente “tenha” que falar palavrão, não que ele “faça força” para falar transgressivamente, mas porque se lhe é natural a fala livre, liberta de argolas de aço no pensamento e na fruição do léxico. Assim, há quem ache que o palavrão não é “de bom tom” (viva Calcanhoto com a música Senhas), não é coisa de gente “educada”, como se educação pudesse ser ligada à estética da palavra dita, ou a uma semântica. É claro que se intromete aí o preconceito. Do nada, aparece a coisa do preconceito fazendo presença.
Depois, já fica fácil supor “quem” se assusta, ora, os assustáveis. Nessa sociedade atual, quebradiça e mundo-corporativada (a neoescravidão salárica), parece que muita gente “quer” ser assustável. Homens grandes, velhos de guerra, se assustam com frases e palavras ditas (coisas que jamais os estupraria, mas os caras se assustam). É meio patético ver um marmanjo (ou uma marmanja! Que fique muito bem claro!) se assustando com... palavras. Mas, gosto não se discute, quer viver “em sustinhos”, siga em frente. Opção de cada um. Talvez seja a comparação entre o homem-chorinho e o homen-rock, lembrando que há chorinhos suntuosos e rocks miseráveis.
Quanto à irreverência em si, jamais pode ser “calculada”. Não se tolera o “que faz força para ser irreverente”. Esse sujeito é um saco, é o famoso “metido a...”. E tem mais, irreverência sem conteúdo também é uma tragédia, meio parecida com o que Habermas sugere, citando que o amigo Marcuse classificaria os trejeitos da geração berlinense: “cocô com alcaçuz” (Era das transições). A filosofia sempre estudou a transgressão, infinitamente,  antes mesmo de Erasmo com sua “loucura” famosa (Elogio); passando por Baudelaire (Ges. Schriften) conceituando o chatismo do “dândi” (ô gentinha provinciana que frequenta desfiles de moda fantasiada para aparecer, entre faniquitos e surtos histéricos), e Nietzsche, delicioso e absoluto em A gaia ciência, falando que “foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos...”. A irreverência a se respeitar não é a da aparência, mas aquela que se fecha o olho e simplesmente ouve o discurso, e há discurso, há conteúdo, há intelectualidade. Esteja com que roupa, indumentária, fantasia ou adereço estiver. O conteúdo, esse é o segredo. Nada mais que ele. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Eu amo vcs.

recado geral...

Eu amo vcs, mesmo quem eu nao conheço muito, aqui nao conheço nada, zeraço. Não consigo dar atenção a ninguém, não dá tempo! "Tenho" que "produzir" as minhas bobagens e o pior é que preciso de vcs pra me empurrar e continuar até o "fim". Fiz este BLOG, é de todo mundo, entrem baguncem, proponham temas, venham escrever em parceria comigo (só que eu falo bobagem né? rs), vamos aprender a errar menos, a ser menos pior e a sonhar em transformar o mundo. Se não for o sonho, pouco nos resta aqui, isso é "papo sério", né não? Obrigado a cada um de vcs que eu nem respondo, não é falta de amor em mim (não mesmo!), é a loucura e a demência da pressa urbana. 

As 5as feiras tenho uma coluna no O DIA SP, um jornal que existe há mais de 70 anos... quem tiver um tema "interessante" dá um alô, manda pra mim, de repente conseguimos fazer uma matéria legal sobre o assunto, de preferência nas áreas que eu tenho menos dificuldade né? Essa onda aqui do Blog tá muito legal e é isso aí. Sintam-se em casa, aqui, pra bater à vontade (claro que tem aquela paradinha da Terceira Lei de Newton, o tal do Princípio da Ação e Reação que diz que “Toda ação provoca uma reação de igual intensidade e direção, porém, em sentido contrário", ou seja, em termos de blog "deu, toma", mas é com carinho... sem ódio no coração, rs...).

ABRAÇO GERAL, Jean.

Liberal, liberdade e outras mentirinhas por aí...

Liberdade. Sociedade. Beijo lésbico. Ego.

"Liberal eu não sou! Não acredito na liberdade em si, e nem acredito na possibilidade de encontrar instituições que dariam forma para 'a' liberdade". Jacques Ellul, filósofo, sociólogo, etnólogo, em entrevista ao Le Monde. 13.9.81.

O que diria Ellul hoje duma sociedade que inventa uma culpa psicanalítica por criticar, meramente por isso, mas despecaminiza todas as faltas de éticas, inclusive as que seriam objeto imanente de crítica? A questão da liberdade transcendeu a possibilidade de ficar nu ou se masturbar onde se quisesse, um tônus anárquico clássico, para chegar à abstração teorética do patrulhamento. O cerceamento da liberdade nessa sociedade-mundo-corporativo é cem vezes mais nefasta que o velho e romântico poder andar nu pelas ruas, além de se pegar um resfriado. Nao levo a conversa para a arte onde a ontogênese daquela contextura é livre e aberta e será inautorizada qualquer tentativa de falação. Ops, menos falar bem de Hitler em Cannes, como foi o diretor de cinema que cumpriu seu papéu propagandístico personalista, um caminho com volta, claro. Como Rafinha Bastos será perdoado por essa leniência urbana aliada a um perdão cristão velhado e em desuso, salvo para os "nossos". Nossa sociedade não pune mais, nem as crianças detestáveis, nem os "jovens" matadores com 17 anos, nem os presidiários, cuja onda é pô-los na rua o mais rápido, e as vítimas e famílias que se lixem. A última moda é mocinhas de 15 anos experimentarem o beijo interfêmeo na boca, lingual, nem numa lesbianidade declarada, mas inocuidade mental da rapidificação da experiência verdadeira, homem mulher, só que pelo viés da transgressão. Nem elas se comem, nem dão, garantindo assim um consumo sociologicamente patético de relações vazias e semitolas. Isso não é liberdade esgarçada, é detraqueísmo mental, perda da reflexão com o Eu e o Outro e a vida pela subjacência, não pela superfície do belo. Depois continuo.