domingo, 2 de outubro de 2011

A neoclandestinidade

A neoclandestinidade

No meu artigo semanal de jornal de 19.5.2011, citei Einstein sobre a importância de falarmos coisas profundas: “Vivemos numa época de tamanha insegurança externa e interna, e de tamanha carência de objetivos firmes, que a simples confissão de nossas convicções pode ser importante, mesmo que essas convicções, como todo julgamento de valor, não possam ser provadas por deduções lógicas”. Nesses tempos pasteurizados de globalização e imbecis de politicamente correto é necessário ouvir essas figuras insuspeitas para que olhemos os nossos tempos com espírito crítico, ainda que isso possa “adiantar” nada, eu sei; ainda que um texto desses aqui possa adiantar nada, eu sei; ou servir, isso sim, de uma forma canalhinha para esconder erudição de quem escreve, também não descarto esse viés. Mas, quebrando-se então essa tal erudição só há um algo a dizer, lento, poético e soberano: foda-se. Parece que ninguém mais quer falar de suas convicções mais profundas, apenas das perfunctórias, indeléveis, palatáveis, digeríveis e bem etéreas. Não diria fúteis, mas é claro que chega a isso. É um sinal dos tempos, não se falar profundamente? Talvez não, ou talvez nem isso. Intelectuais e teóricos sempre supuseram isso em seus textos. Voltaire foi preso duas vezes por essa insistência, cunhou a célebre frase “O segredo de aborrecer é falar tudo” e depois precisou fugir do próprio país. Algumas situações históricas beiraram limites paradoxais e cruciantes, como a descrita por Sartre: “Jamais fomos mais livres do que sob a Ocupação alemã” (La Républic du Silence), fazendo referência a que ali perdeu-se tudo, todos os direitos e a cada vez que o veneno nazista descia ao pensamento, cada pensamento justo era uma conquista. Pois é, atualmente não queremos mais conquistas, nem escaladas, nem desafios. Com o mundo lânguido e lúdico, com o ensino falsificado vendido na TV como “produto” e a educação obedecendo exclusivamente à ética do eu-quero-me-dar-bem-e-você-que-se-foda, qualquer um mais “profundo” (parece palavrão rábico, anal...) experimentará uma neoclandestinidade.
Esta neoclandestinidade pode ser identificada às avessas, não mais pelo cerceamento físico, patrulhado ou censurado da produção intelectual ou artística, mas pela tragédia da inexistência de interlocutor. É a sociologia do não, da não existência, não de uma “defeituosa” e, por isso, espetacularmente estudável, mas de uma nihilizada, sequer abortada, uma desmaiêutica, imparturizável. Assim, perguntarão o violonista virtuose ou um estudioso profissional: Com quem converso? Para quem produzo? Há no Brasil, nas letras, na cultura, nas artes, hoje, um Zeitgeist (espírito de tempo) completamente outro do vivido noutros lugares. Imitamos mal o conceito de auto-ajuda na literatura e tudo ficou assim. Quando Padre Marcelo é eleito o melhor cantor do ano (porra, isso é sacanagem!) por uma plateia sertanejo-jeans-diesel que parece viver em trenzinhos sexuais infinitos, temos a certeza de que a neoclandestinidade está vitimando intelectuais, artistas verdadeiros, pensadores, cientistas e gênios que não têm espaço para respirar. Até se “referir” a essas categorias é complicado, porque se é taxado de arrogante, pedante, ou sabe-se lá que merda mais os complexados e incompetentes inventam para nivelar tudo por baixo. Aí algum filho da puta de plantão, politicamente correto e com um discurso esgarçado para fazer média, nivelando de novo por baixo, em espelho à própria incompetência dirá, patrulhando: “– Mas não existe isso de artista verdadeiro! Todo artista é artista!” E foi em cima desse discurso engodado com peixe podre num pós-modernismo baratinho que simplesmente desapareceram todos os grandes ícones da MPB e uma horda desqualificada de vaidosos com cabelo penteado para frente e falsamente desarrumados, invadiu a TV. Dê-se um violão a um Milton Nascimento ou um piano a um Ivan Lins e ouça o que sai dali; aí depois dê-se um instrumento qualquer a um desses sujeitos por aí parecendo cantar em prisão de ventre, fazendo força para fingir que interpreta, e quem tiver competência que compare a qualidade musical. Isso mesmo, compare. Essa palavra odiosa e maléfica, proibida e patrulhada que alguns filósofos ousam querem proscrever: comparação. Qualquer músico de saída de metrô em Nova Iorque (que eu particularmente não conheço, mas colegas meus músicos brasileiros que lá trabalharam relatam entusiasmados), é melhor 20 vezes do que essas Justin Bibas brasileiras que enchem as rádios e as TVs. Na ciência, a mesma coisa. Pulula a pseudo-ciência como jamais foi na história da ciência. Charlatães, safados, pregadores, endinheirados e toda uma quadrilha desconexa de adivinhadores cósmicos, gente já referida por Carl Sagan (O mundo assombrado pelos demônios) que parece que veio toda para o Brasil. Nossos pesquisadores praticamente pararam de conversar com a sociedade brasileira. Ou estão em projetos próprios sobrevivenciais de pesquisa para poder trabalhar ou voltam-se exclusivamente para o estrangeiro. O nosso binômio C&T (Ciência & Tecnologia) de ponta não tem interlocutores sociais, não queremos o estudo sério, só o estudo-produto, aquele ao qual a repetência é “fora de moda” e aquele em que quem “avalia” o Mestre é o aluno, não mais as bancas de iniciados, cientistas e notáveis. Os exemplos se amontoam e o risco da repetição se aproxima.
Até nossa violência é pobre culturalmente. Sartre e Camus tiveram como mote central de suas existências intelectuais a violência. Aquele, tratando-a como uma prova do tornar-se real. Este, Camus, digladiando o quanto pôde contra sua existência, os danos que ela causa. Nós, brasileiros, temos Datena com salário de 500 mil reais por mês. O que diria Sartre disso? Perdoe-se o meu questionamento infame e prostituto. Há-se esticar essa corda sim, ao máximo, e ver o quanto de nós embutidos pode haver ocultos aí, nessa trama, nesses fios. Por que queremos Datena e um ensino infantil lúdico e somente de brincadeira? Quem queremos alijar? Manter sob essa neoclandestinidade? Preciso me informar mais, sei muito pouco ainda sobre certas estruturas. Preciso visitar escolas infantis chamadas “de ponta” no Brasil para ver se há um ensino verdadeiro ou mentiroso. Não confio nas diretoras classudas e gostosonas, quarentonas e malhadésimas que nas férias veem-se em Nova Iorque anunciando suavemente a apenas um aluno (não precisa de mais) no Facebox que “coincidentemente” estão lá e que tudo é “simpatiquinho” e que “adoooram” NY. NY deve ser adorável sim, não adiro simplistamente às críticas baudrillardianas sobre o “paraíso mítico da simulação” que são os Estados Unidos. Eles são, mas noutro ponto da investigação, um bastante teorético e isso não está em pauta aqui. Mas preciso conhecer as academias de música de lá, as de dança, os teatros, as universidades e alguns guetos e submundos. Descircularizo o discurso, eu sei e assumo, e se preciso torno-o mimético, mas certamente por defeito e preguiça na manutenção de um fio condutor lógico. Assumo desavergonhadamente. Já cansei e esse texto-ensaio já chega ao fim. Subencerro com uma fala [audaciosa?] de Simone de Beauvoir sobre o movimento da Resistência, “Aquela falaciosa entidade”. Estudamos tanto quanto possível a Resistência, nos vieses praticamente antagônicos de Camus e Sartre, para encontrar uma Simone apta à “náusea” e lindamente apaixonada por Sartre a ponto de “comprometer” uma visão então imediata num vitorioso pós-Guerra e assinar falaciosidade à Resistência. Não me apedreje achando que reduzo Simone ao primarismo do amor, isso se lhe foi impossível, ainda que biógrafos refiram-se a ela em Sartre como sendo seu “amor transatlântico” (isso sim é poder!), mas assumo que essa vitória tola do amor, vagínica e carnal, “gozosa” como falava Darcy Ribeiro, é dos melhores da vida. Meu deus. E enquanto eles trepam,  uma possível neoclandestinidade espera comportada e científica no sala, com licor e torradinhas. Enquanto no quarto se brinca de papai e mamãe, ou de primo e prima. E só assim se percebe que a vida tem salvação. Mas quando passa o efeito do suor e gozo e se volta à sala, a chata da neoclandestinidade está pacientemente a cobrar seu preço de solidão e azedume. Faz lembrar Kierkegaard: “Eu acabei de retornar de uma festa na qual eu era a vida e a alma; palavras espirituosas fluíam dos meus lábios, todos riam e me admiravam – mas fui embora – e a frustração seria tão pronunciada quanto a órbita da Terra [...] e eu desejei atirar em mim mesmo.” (Journals, p. 50-51). Aqui, fim. Jean Menezes de Aguiar.

Ciência, mito, antropologia, crédulos e saco cheio de gente chata.

Ciência, mito, antropologia, crédulos e saco cheio de gente chata.

por Jean Menezes de Aguiar, quarta, 8 de junho de 2011 às 00:43

Quem não lida com ciência acha que ela é sinônimo de “verdade absoluta”. Um saco isso. Já ouvi muito isso de pessoas boas e verdadeiras, e que creem nessa coisa como se fosse um dogma. A imprensa “vende” essa ideia, por meio da mídia e da publicidade, e também vende produtos, claro. Ouve-se da boca de pessoas inocentes na TV comercial o horror do “está provado cientificamente”. Daí, todo mundo acha que essa tralha de prova científica é sinônimo de verdade absoluta. Fazer o quê? Este é um grande equívoco cometido por muitos. Para a filosofia da ciência essa equação, verdade absoluta, é uma piada gargalhática. Na área da metodologia científica aprendemos que há 4 níveis de conhecimento: o vulgar ou empírico; o científico; o filosófico; e o teológico. Isto está em Cervo, Bervian & Silva, na ótima obra Metodologia científica (o livro que adoto). E também aprendemos que o único conhecimento que produz verdades absolutas é o conhecimento teológico. Isso mesmo, e não adianta se espantar. Verdade absoluta é coisa de conhecimento teológico, o dado “revelado”. Mas não vou entrar muito nisso. O mito e o milagre são estudados tanto na metodologia quanto na antropologia, profundamente. Mas o fato de eles serem “estudados” não quer dizer que cientistas e filósofos o “adotem” como um rumo pessoal. Jamais. A ciência não tem qualquer preconceito em “estudar” o mito, o milagre ou o clásper (pênis) do tubarão. Já passar a “acreditar” nessas estruturas é outra coisa. Quanto mais se lida com ciência mais se fica “científico” e menos propenso a “acreditar” em conhecimentos “fáceis”, atalhos e simplificações da mente humana (aqueles conhecimentos que não demandam formação, livros, horas, meses, anos de estudo, nada, apenas alguém “falando” e alguém “crendo”). Nem se precisa entrar numa avaliação do mito, da fé, das manifestações culturais. Eles são validados e reconhecidos pela antropologia enquanto traços culturais de uma gente, de um povo, de uma sociedade. São reconhecidos assim, deste modo, e assim devem ficar organizados e classificados, no lugar deles.
O grande antropólogo Clifford Geertz (Nova luz sobre a antropologia, p. 111 e ss.), quando tenta apartar a deliciosa briga entre historiadores e antropólogos, informa com elegância e isenção que os historiadores se dedicam a movimentos grandiosos que mudaram o mundo – a Ascensão do Capitalismo, a Queda de Roma –, já os antropólogos se dedicam a pequenas e bem delimitadas comunidades – o Mundo Tewa (qual?), o Povo de Alor (quem?). As perguntas irônicas entre parênteses, qual e quem, são do próprio Geertz. Mas o fato é que a identificação das culturas, ainda que delimitadamente circunscritas e “extravagantes” se nos é muito importante. Talvez tiremos delas, para uma metodologia comparatória valiosa um “excesso” de mitos, crenças, crendices próprios de povos rudimentares e quando aproximemos o mesmo “sistema” de mitos, crenças e crendices de povos “evoluídos” – e eles existem – consigamos ver que “mesmo” os povos evoluídos têm seus padrões de mitos, crenças e crendices. Daí tiram-se duas “conclusões” (atenção às aspas!): Ou os povos “atrasados” que utilizavam seus mitos não eram atrasados porque os povos “evoluídos” também utilizam mitos, e então a utilização de mitos não será uma “sistemática” atrasada; ou os povos “modernos” quando utilizam mitos mostram-se atrasados [nisso] porque a sistemática de mitos é [seria] própria de povos atrasados. Tudo bem que esse método balanceado possa ter alguma “lógica”, mas tem em mente a visão distendida de um resultado que beira ao cartesianismo, ainda que – advirta-se! – no caso não de todo imprestável. Mitos, crenças e crendices sempre existiram e fizeram parte das culturas e das gentes. Não se bate contra isso, o mito é um traço cultural dos povos. O problema é uma investigação que busque esgarçá-lo num confronto “com a ciência”. E aí ele tem que “apanhar”, não há como ele não apanhar. O mito é atávico a muitos, reconheça-se, mas também é um atalho (merdosial e espúrio) em termos de episteme cognoscitiva. A ciência trabalha com repetibilidade, experimentabilidade e demonstrabilidade. Não se trata de “crer”, por exemplo, que Peróxido de Hidrogênio seja composto como H2O2, cuja solução aquosa é conhecida por água oxigenada. Não há mitos e crenças aí, nem “teses”. Há uma redução científica que “descobre” que a fórmula x é a substância y em qualquer lugar e sob qualquer condição (não vou abordar aqui como a filosofia da ciência enxerga a “redução”, isso é outra coisa). Não há como se “contestar” isso. Quando se trabalha com este tipo de estrutura está-se demonstrando, repetindo e experimentando. Cem alunos em um laboratório têm, obrigatoriamente, que concluir a mesma coisa, o mesmo resultado, por meio da mesma equação. Sabemos que a ciência evolui no tempo (muda conceitos), mas isso também é outra coisa. Passei alguns anos enfiado em laboratório de química, quando estudante, recordo que a turma inteira, no início, ficava perguntando ao professor como o ácido podia “fazer fumaça”; como era possível dar um nó numa pipeta (tubinho de vidro) aquecida no bico de bunsen (chama), aquilo tudo parecia mágica, mas as explicações científicas calmas e exatas existiam, e nos maravilhavam. Fiquei tão empolgado que montei um laboratório de verdade em casa, pesquisando e misturando as coisas mais loucas (que perigo).
Mas quando se fala em “redução”, desafia-se a ira de certos filósofos da ciência (eles a chamarão de fisicalismo), principalmente a “nova” filosofia da ciência que vem pretendendo alargar conceitos e princípios científicos como se tudo fosse uma zona, um vale tudo, por isso que se diz que o pós-modernismo é o irracional da ciência, uma construção intragável para cientistas. Esses relativistas totalitários vão dizer que por séculos verdades se mantiveram estáveis e depois caíram; é verdade. Sabemos disso. Mas não podemos tornar “tudo” infinitamente relativizável, não podemos nulificar o todo, dizer que não há mais nenhum núcleo duro ou lógico na ciência. A mecânica não se alterou com a física quântica. A evolução de Darwin deixou de ser uma teoria e se tornou um fato para todos os biólogos, segundo Ernst Mayr e ele pode falar por todos. Assim, há princípios que não oscilaram, não experimentaram viragens ou câmbios conceituais.
O inteligente filósofo Luiz Felipe Pondé, na boa obra Contra um mundo melhor, que declara gastar seu tempo para humilhar as almas científicas, certamente diria que essa ode à ciência é das maiores boçalidades já vistas. Mas ele talvez se situe numa quadra de filósofos “desarrumadores” genéricos da ciência. Noutro plano, mundial, há a figura mítica de Paul Feyerabend com sua densa obra Adeus à razão. Mas não só ele, há inúmeros “anarquistas” (gosto muito desse termo, não tenho problema psicológico nenhum com ele, e o emprego aqui de forma dócil), tanto que SoKal e Bricmont na obra Imposturas intelectuais deitaram e rolaram, dando nome a alguns bois, filósofos da ciência que vilipendiaram a própria ciência com terminologia confusa e demente. Mas essa conversa interna entre filosofia e ciência é pra outra hora.
Quero, ou queria (...) discutir as pessoas que creem [apenas!] e consideram a sua crença como “conhecimento” a ponto de opor suas crenças ao conhecimento científico. Este é o ponto. As pessoas, não o mito ou a ciência. Vou verter uma baba nojenta e asquerosa a partir daqui em defesa da ciência. Como meus textos não valem nada mesmo e isso tudo é mera brincadeirinha de Facebox, qualquer um que chegou até aqui pode parar de ler e me mandar pro inferno (soube que lá tem mulher bonita & gostosa; alvissareiro!). Aprendemos na antropologia que as religiões são manifestações válidas e “legais” das sociedades. Ok, tudo bem. Só não podemos confundir os vendedores e pregadores desses “conhecimentos” com quem simplesmente estuda, seja um oceanógrafo, um paleoantropólogo, um astronauta, um biólogo, um musicista (este ainda precisa de dom que é um troço meio inexplicável- deístico? Ou biológico?). Só precisamos combinar: há conhecimento, há informação, há notícia, há fofoca e há pseudo-ciência, como astrologia, por exemplo. Só precisamos organizar em que plano vamos conversar. Oceanógrafos produzem conhecimento, lento, acumulado. O tempo de vida máximo ideal do tubarão branco (Carcharodon carcharias) fora da água para colocação de rastreador, recebendo água mecanicamente pela boca para que não morra é de 20 minutos (basta ver no canal Animal Planet). Conseguiu-se reduzir para 15. Outro dia vi na mesma emissora de TV que a tentativa para redução para 10 minutos falhou. Essas cronometrizações são a maravilha chamada “fazer ciência”. Calculam-se quantos homens são necessários, quais as ferramentas etc. Isso é cumulativo. E é inscrito, publicado e “até” divulgado pela TV. Ninguém ali crê em porra nenhuma, a não ser nas medidas precisas e calculadas que precisam ter e operar para que o grande branco não morra quando tirado da água. Aí me aparece um sujeito qualquer, com um curso de correspondência em márquetíngue religioso, com um bíblia na TV faturando trilhões de reais. Fodam-se os seus trilhões, se eu estou discutindo conhecimento não é e nunca poderá ser aquilo, aquele pastelão comercial e descarado. O mundo é muito grande e tem espaço pra muita gente, só não venha querer dizer que aquilo tem como explicar a idade da Terra, o formato dela, o surgimento da vida, a evolução humana, e o sistema galáctico. Todo mundo é livre para crer em alguma coisa, Deus, Buda, Alá, Maomé, Thor, Jesus, Oxossi, Iemanjá etc. E digo isso com respeito, sem qualquer problema psicológico com os deuses e santos. O grande problema é terreno – é o homem que “apenas” crê, querer desfazer o conhecimento científico de um biólogo, de um químico quando falam da vida. Talvez seja por isso que Carl Sagan e Isaac Asimov ficaram cada vez mais severos (emputecidos mesmo) em suas divulgações científicas. Asimov (Antologias) chega a dizer – você acha que estou fazendo muita propaganda da ciência, então compare os países que produzem ciência com os que ficam de joelho gemendo em adoração oficial a um deus. Sei que muitos detestam comparação, odeiam, querem que tudo seja possível em nome da “cultura”. Tudo bem. Mas há se retomar: pode haver toda “cultura” do mundo, só deixe a ciência em paz. Isso está tão conturbado que em aulas do inocente Direito, área que se principiologiza cientificamente, os alunos não querem aceitar qualquer dado científico. São expostos princípios lógicos no quadro e a lógica “não convence” mais. É assustador. Assim, quem gostar de um bom mito, duende, papai Noel, coelhinho da páscoa, tudo bem. Que seja feliz com sua visão de mundo. Só não encha o saco querendo doutrinar quem lida com ciência, dura, exata, básica, social, humana, dúctil, axiomatizada, cliometricizada etc. Vamos para a corruptela do gosto não se discute. No máximo se pode lamentar. O meu gosto, por exemplo, deve ser péssimo e fedorento para muita gente que odeia a ciência e a filosofia da ciência. Mas é, “é gosto.” Jean Menezes de Aguiar

Sobre a ditadura da Razão

Sobre a ditadura da Razão.
por Jean Menezes de Aguiar, terça, 3 de maio de 2011 às 21:57
Há uma linha que passou a ser esticadíssima, para filósofos primordialmente; secundariamente para cientistas, sobre o conceito e prestabilidade da Razão. O paradigma aqui é Paul Feyerabend, com a obra Adeus à razão. Criticado e odiado por não poucos e endeusado por outros, Feyerabend é um marco inegável. Uma acusação sedutora chama a atenção na centralidade de sua tese: a da vitória de um grupo então majoritário que acabou impondo e legitimando um establshment sobre o conceito de razão. Com isso, o Iluminismo teria sido tão-somente um slogan e não uma realidade; a afirmação de Kant sobre o Iluminismo ter libertado o homem da imaturidade, é outro dado falso; e, pelo conceito usual de Iluminismo, hoje em dia não se pode considerar a sociedade "iluminada", já que ela depende de "especialistas" sendo que, no caso da brasileira (que vergonha), cada vez mais de gurus, pregadores de plantão e orientadores espirituais com carnês. Ainda aí, Kant afirmou que o Iluminismo era a capacidade humana de fazer uso de sua compreensão sem orientação de um outro. Chegamos a isso? Pois é...
Não vou entrar em clichês tipologicamente dementes e piegas, repetidos como verdades científicas de que as crianças de hoje em dia são "mais inteligentes que as crianças de antigamente". Esse tipo de esdruxularia própria de pais hipermodais urbanos que frequentam padarias aos domingos com cachorrinhos histéricos e criancinhas feias & chatas, interativas & participativas, buscando, os pais, superqualificar os dândis manhosos não entra em cena. Nem precisa. Não se mede uma sociedade por uma afirmação patética e inquantificável (viva Galileu) como essa. Ainda que numa interpretação forçada, reconheço, ninguém menos que Clifford Geertz (Nova Luz sobre a antropologia, p. 169) já disparava "Os bebês, como se constatou, eram muito mais inteligentes, mais dotados de iniciativa do que reativos em termos de cognição, e mais atentos ao mundo social imediato a seu redor do que se suspeitara anteriormente." Ocorre que esse dado não se historiciza numa metodologia comparada entre o bebê de hoje e o de antigamente, apenas porque o de hoje tem computador e Iphone, o que representam apenas "informação" e "notícia", nunca conhecimento e percepção refletida. Se se quiser aí, a criança de antigamente "inventava" brinquedos numa criatividade que a ataraxia debilóide criançal de hoje simplesmente não sabe o que é. Mas deixemos esse orgulho jactancioso de pais hiperpreocupados em que seus filhos mimados sejam CEOs aos 15 anos de idade e partamos para discussões menos fúteis e mais suculentas, efetivamente selvagens, afinal não tô experimentando o meu facebox pra brincadeirinha de criança e elas não são bem-vindas aqui.(nem-fudendo.com.br)
Será que uma sociedade com essa preocupação ruptural com filhos mimados, modas e tendências, cantores sertanejos e baianos desqualificados às centenas é uma sociedade minimamente "iluminada"? E será que ser iluminada quer dizer ter a capacidade de compreensão sem necessidade de orientação do outro? Complicado isso.
É de todo preocupante a acusação original de Feyerabend, nada pontual, de que uma maioria ocidental (isso é por minha conta) implantou o Iluminismo e, aposteristicamente, a noção (aí sim) de que a ocidentalidade é o jeito correto de ser e viver. Passamos a ver o oriental, todo ele, como estranho, abstrato, fora do padrão e, claro, fora duma razão "nossa", como se fôssemos os síndicos da razão. Obama faz essa merda de mandar matar o cara e sumir com o corpo e nem responde por homicídio, formação de quadrilha e ocultação de cadáver, sendo que nesse ato em que impera (de imperialismo mesmo) uma razão-EUA vê-se uma aderência putarial do resto do mundo a essa tão razão, ou american way. E mais! Aqui, pela natureza jurídica do ato estatal envolvido declaradamente o serviço secreto, todo e qualquer historiador dirá que a presunção de suspeição vale contra o Estado americano no sentido de: matou mesmo? sumiu com o corpo mesmo? era o cara mesmo? Isso está longe de ser uma suspeita escatológica ou uma daquelas teorias usadas na ditadura em que o desconfiar era a moda.  Foda-se a moda. Não há se desconfiar para se "parecer" intelectual, para se tirar uma onda questionante de lançar um enigmático "será?" em tom blasé a la Paulo Francis. A desconfiança aqui passa dos pensamentos primários e secundários. Há sim, escachada possibilidade de não se crer no serviço secreto americano quando a história mostra que diversas coisas somente no trindecídio após veio a ser "verdadeiramente" revelada. Mas até aí muita gente se perdeu. Pois bem, essa é a "razão" desse hoje matador, esse hoje que aceita um presidente encomendar ao seu serviço secreto o assassinato. Foda-se Bin Laden, quer saber, o boçal islâmico de touca na cabeça, feio e narigudo, atrasado e gemendo pra Alá que morresse. Zero de pena desse idiota. Mas o que fica em pauta é a tal "razão". Daria tudo pra ver Baudrillard vociferando disso.
Aí está o problema da razão, a razão dos vencedores. Faz lembrar Darcy Ribeiro ao receber o título de Doutor Honoris Causa na Sorbonne, subindo para seu discurso e relatando ser um homem de 3 derrotas, vindo a ser ovacionado após dizer que não queria estar no lugar de quem lhe derrotou. Darcy era lindo e tesudo e a mulherada se abria inteira, mesmo velho, continuou a ser assim, morreu assim, o grande comedor de Copacabana, nunca perdeu a verve e a beleza, porque morreu intelectual e pensador. Mas sua razão andava na contramão, por vezes, com a segurança de um Feyerabend.
Assim, que razão vamos "sustentar"? (Mas que questionamento mais primário). Quase caí do cavalo ontem quando li em Ernst Mayr que Einstein praticamente não influenciou a biologia e as descobertas da década de 1920 foram hipertrofiadas pelos fisicalistas. Mas o mundo inteiro não mudou com a relatividade? Pois é, um Mayr velho e querendo criar uma verdadeira Filosofia da Biologia (ele não conseguiu, mas deixou semestes sérias) renega veementemente a prestabilidade disso para a biologia. Estarrecedor, inacreditável. Quem põe em xeque assim as razões historicamente assentes?
Por que a rapaziada dos 20 ou 30 anos de idade não tá mais se surpreendendo como se soubesse tudo? Que saber mal parido é esse que sai do notebook? Que conhecimento de merda que não reflete é esse que é manuseado como diamante, quando no fundo é um dejeto? Dominique Folscheid e Jean-Jacques Wunemburger na obra Metodologia filosófica reclamam que na França o ensino de filosofia nos 1o e 2o graus é "pouco". Esses caras tão de sacanagem... só podem estar, querem irritar os brasileiros. Aqui ninguém fala de filosofia. Um aluno meu de graduação há alguns anos me disse: - vc é o único cara que fala de "ciência" em sala de aula. Veja o nível da falência, isso numa "universidade". Em França os caras reclamam "mais" filo no primeiro e no segundo graus! É, certamente é por isso que o presidente frances corneado casa com a vedete tesuda (pra ele...) e as senhoras francesas não fazem greve de fome. Aqui se o Sarney largasse Marlysinha e casasse com Sabrina Sato (vc duvida?) a imprensa retrô, global & cia ia cair matando. 
Mas essas são as nossas "razões" reinantes. Prossigamos com elas. Somos ocidentais, acreditanos no Iluminismo, lemos ou tentamos ler Kant e pensar que não dependemos do outro para perceber (sacar), e no final do ano mandamos flores pra Iemanjá na praia de Copa ou Ipanema, outra qualquer do mundo será fake. Sim, somos preconceituosos e babamos nossos preconceitos. E vamos em frente nessa vida longa, que chega a cansar de tanto viver, com tantas variâncias e acontecimentos. Viva a Razão, afinal Feyerabend já cantou pra subir.
pós-escrito - passei a usar o facebox como um laboratório-berçário para textos meus, pois a publicidade obriga a um tipo de criação, que a produção interna não "causa". Peço desculpa aos amigos por tanta bobagem. Isso deve ter valor só pra mim e pra meia dúzia de caras. Parafraseio Vanzolini, o biólogo que disse isso perguntado por uma jornalista se não tinha que usar uma linguagem mais "acessível". O mestre disparou, faço o meu trabalho pra mim e pra meia dúzia de caras e cada um que faça o seu e me deixe em paz... Lindo o grande professor. Abraços gerais. Jean Menezes de Aguiar. (sem revisão)

"Ele foi meu último bom amigo", Sartre.

"Ele foi meu último bom amigo"
por Jean Menezes de Aguiar, quarta, 4 de maio de 2011 às 21:51
Albert Camus. Sartre só "soube" que amava o amigo após sua morte. Mas aí já era tarde.


Sartre se fez amigo de Camus, na época da II Gerra. Foram assim de 1944 a 1952, até que se separaram. Cada um cunhou sua teoria e sua Escol, se é que podemos falar assim. Aí e efetivamente aí eles se separaram mesmo. Mas dois grandes homens com tantas teorias e visões de mundo não passariam incólumes pela vida. 


De Sartre ficam uma autêntica Teoria do Engajamento; a frase dita por Camus: "Sartre é um escritor do qual podemos esperar tudo"; a frase "O homem é uma paixão inútil" e tantas mais coisas incontáveis. De Camus, o Estrangeiro como passou a ser conhecido ficaram o "não" à oferta de Beauvoir de treparem; a frase dita em 1939 "O reino das bestas começou"; e o acidente de carro que o matou em 1960, dentre tantas coisas admiráveis. 


Após a ruptura da amizade, biógrafos narram que não houve mais qualquer contato e ambos teorizaram em sentidos opostos. Mas algum tempo depois da morte de Camus, numa entrevista, um verdadeiro Sartre admitia, após tantos anos de separação e total ausência de contato: "Ele foi meu último bom amigo" ("Self-Portrait at Seventy", in Life / Situations, Nova Iork, 1976, p. 107). A frase esconde uma confissão de dor e perda, a frase esconde um arrependimento talvez, desses que se optou por enfrentar após a assunção da tragédia de um parceiro de luta e olhares de vida que se foi por diferenças estruturais de visão de mundo. A perda é sempre mais que dolorosa, é reflexiva. 


Nietzsche dizia que o homem com a perda (sofrimento) ficava "apenas" mais reflexivo. É doloroso ler a amizade de Sartre e Camus e ver essa perda em vida, como é doloroso ver pessoas se perderem também em vida, indo cada um para um lado, amigos, parentes etc. Não há pieguismo na perda verdadeira, mas o esgarçamento da certeza do nunca-mais. 


Não deveríamos perder quem não morreu, mas perdemos, não deveríamos deixar ir, mas deixamos e não deveríamos ir, mas vamos. Essa frase de Sartre incomoda e certamente incomodou a tantos que o idolatraram e tentaram fazer algo por aquela amizade tão emblemática. Os amigos precisam saber que são amigos, ter a consciência de que são amigos e viver essa consciência. Mas amizade é uma coisa efetivamente difícil, rara e muito cara. E a sua perda é dilaceradora. Esta frase de Sartre incomodou e continua a incomodar e incomodará sempre. Ela tinha que deixar de existir e deixar de ter verificabilidade, mas sabemos que não é assim. É uma merda. Infelizmente é. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 1 de outubro de 2011

O casal

Em 14.8.83 Lemaire foi entrevistado pelo Le Monde. Este psiquiatra, professor de psicologia na Universidade de Paris-VI autor de O casal, tem idéias densas sobre essa simbiose de gente a dois. Uma primeira que aparece na entrevista é certamente um dístico: “Num casal, quanto mais de se exige do parceiro mais se corre o risco de se sentir invadido por ele.” É interessante e chama a atenção como os teóricos “organizam” o distanciamento da invasão psicanalítica do casal praticamente estigmatizando-a, em franca oposição com uma carência mundana bastante difundida de se permitir – na verdade se querer – a invasão, a rigor, efetivamente procurá-la. 


Essa distância entre a “organização” da invasão como algo negativo, e o desejo dela como subproduto de uma busca pelo parceiro ideal é uma disjunção que precisa ser analisada. Lemaire diz que atualmente as pessoas esperam muito do casal e da família, uma necessidade sem precedente. E liga isso à intolerância de nosso tempo e ao fracasso do próprio conceito de casal, tantos divórcios etc. Mas o paradoxal é que mesmo com o conhecimento acerca da invasão que o casal gera e o esfacelamento do conceito ante a tal vida moderna, o casal continua mais necessário do que nunca.


E será no casal que haverá o maior reconhecimento pessoal, projetado no outro-imediato, que é o outro-doméstico, o outro-de-casa. Quem reconhecerá melhor a um homem comum e defeituoso que sua parceira e vice-versa? Essa auto-realimentação é sobrevivencial para o casal e mantenedora da própria pessoalidade isoladamente considerada, ainda que Lemaire diga que “O casal está vivo, o casal morde”, e morde mesmo e deve morder num uníssono de força legitimante, propositiva e sedimentadora. 


O casal passa a ser um todo sistêmico e visível pela sociedade. Essa ostentação é interessante, a apropriação pública do outro. O outro é meu e você não tem acesso, me pertence e eu posso usá-lo. Aí veem-se códigos de uso. É-se legitimado a imaginar os usos que os casais fazem entre si, mas nenhum deles será infame, porque esse uso é aceito e regulado. Eu uso a minha parceira e ela em circularidade me tem em uso.  E a sociedade tão envergonhada e promíscua em falsos pudores não se envergonha de publicizar o uso, principalmente o sexual. 


Todos sabem que o casal se come mutuamente, inclusive os casais caretas e “respeitáveis”. Gemem, gozam, suam e morrem de prazer. E esse uso é sabido. Os filhos também sabem que seus pais têm o uso e fazem uso desse uso e não apõem promiscuidade a isso, mas uma concordância tácita irrefletida e muda. Casais saem à rua imediatamente após o uso recíproco, suados ainda e despenteados e encontram no elevador ou no condomínio com um vizinho e não experimentam constrangimento, porque esse uso é igualizado pelo próprio vizinho. Em certas rodas é o uso que se torna objeto de conversação, estendendo-se detalhes “possíveis” dele, isso com a variação da intimidade e nível de transgressão dos utentes do discurso do uso. 


Mas nem todo agrupamento de dois consubstancia um casal. Vivemos uma nova era de novos casais e talvez tenhamos uma outra ainda com a pluralidade numérica do casal vindo por aí. A tipologia qualitativa do casal já foi afetada, com a admissão de identidade de sexos. A quantitativa ainda não. Cairá a monogamia intercasal no sentido de uma família se constituir a três? Sem se invocar futurologia (ela é chata) talvez essa seja a nova conquista da sociedade pós-gay (que já começa a se tornar cafona de tão panfletária que é). 


Mas o certo é que o casal é bom, não tem coisa melhor. Há amálgamas nele que os une e há dilacerações que os inviabilizam ou há as que simplesmente afastam seus conviventes. O casal precisa distinguir o que há em seu interior, espírito e aura de casal e avaliar a dificuldade de atualmente se constituir um casal verdadeiro. O consumismo atual de não se querer mais o casal em nome de uma felicidade experimental e instantânea, emparedada no banheiro da boate para a satisfação-ali-mesmo, em pé – cena que se vê reproduzida em inúmeros filmes –, denota nada mais que uma deficiência de avaliação na pujança e na possibilidade do casal.


O casal transcende a família e a própria morte. Perdura perene e olímpico, quando há-se em casal efetivamente, quando o seu bastar-se faz parte de sua concepção ontológica. O casal não saiu de moda mas não está conseguindo obter vantagens de uma sociedade que pós-teoriza, pós-conceitua, para somente neoaproveitar. O neoaproveitamento [primário, force-se] da sociedade é que está dando motivos a estudiosos sociais e humanistas como Lemaire para estudos assim. O retorno não está impossível, mas cada vez mais se sectariza em núcleos ortodoxos de constituição de núcleos de casais que descobrem a beleza de se viver o casal, fehado em si, um “para-si” [do casal!] que Sartre podia ter teorizado quando estudou o “ser-em-si”, ou uma efetiva selbstständigkeit (autossuficiência dos alemães). Aí abrem-se questões interessantes. O ser-em-si de Sartre é, como ele diz, um maciço, não tem segredo e não possui um dentro que se oponha a um fora. Mas o “para-si” do casal não pode ser estudado como compreensão pré-ontológica de Heidegger, porque o casal é uma criação e não uma existência eclodida como o ser. 


Essa criação é que deve ser mimada, cuidada e alimentada como um bebê, não pode ser descuidada como o ser, como a pessoa se permite descuidar. E aqui, no casal, ao contrário do “ser-em-si”, não se há em maciço e há contrários endógenos e internos, em tensão que precisam de constante atenção de quem compõe o casal. Mas o casal resiste a tudo, é gregário e sócio. E o casal, só ele, permite dormir em conchinha. E dormir em conchinha não é superável por qualquer teorização ou pensamento. Simplesmente não é. Jean Menezes de Aguiar