Jean Menezes de Aguiar. Blogo, logo existo, ou devo existir. Os artigos semanais dos jornais virão pra cá, mais alguns resmungos ou amorosidades.
domingo, 23 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Violência e futuro nas manifestações
Jean Menezes de Aguiar
A questão da violência por parte de vândalos integrantes da sociedade é um outro capítulo. Não há duas sociedades, uma de ordeiros e uma de agressivos. Todos pertencem à mesma sociedade. Daqui a pouco começará uma desconfiança sobre o futuro das manifestações. Se ela ultrapassar o ápice e começar a cair pode representar um desastre histórico gravíssimo para o país no sentido de a sociedade não acreditar mais na sociedade, em termos de manifestações, reivindicações e protestos. Apenas uma pauta deveria existir, não de matéria, mas de tempo. Vamos protestar durante todo o ano de 2013, ou até o final do mês. Isso pode representar estoque de munição social. Políticos e “autoridades” estão esperando a poeira baixar. Ela não pode baixar. Contra este cinismo da omissão das “autoridades” regado a uísque 18 anos nos “palácios” virão reações mais violentas e talvez em maior número.
Os protestos atuais não são as velhas “correntes” de dinheiro que inflamaram e depois se percebeu que tudo era um logro. Não há logro no conteúdo das reivindicações, há justiça aos nacos traduzida pela revolta popular, pelo repúdio e asco a políticos, “autoridades” e partidos políticos. Partidos começam a querer se infiltrar a força nos movimentos. Será um estupro. Este espaço não lhes pertence. Todos os partidos aí são espúrios e mal-vindos. Políticos são safados (quem contesta?), e suas “juventudes partidárias” ideologicamente lobotomizadas – os tais meninos e meninas com bandeiras do Pt, Psdb, Pstu, Psol, Dem, Psc e outras coisas péssimas iguais – que não representam mais nada a não ser os próprios interesses financeiros, também são, quando não são extremamente violentas.
Se “revolta” era coisa de baderneiros, o conceito se renova com 99% da população em estado pacífico. Mas ainda é pouco. Ideólogos dos movimentos precisam conversar e dar um mínimo rumo a esta força popular. Todos dependemos dela para um país melhor. Parabéns a todos. Se perdermos esta chance, pode não haver outra. O cansaço pode tomar conta por uma geração, como se deu no pós-Collor, aquela única vergonha nacional a sofrer impedimento. Não podemos deixar isso parar. Ou morrer.
Brasil ame-o e mude-o.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Acorda governo
Jean Menezes de Aguiar
Como “ler” o povo? Esta equação nunca teve resposta
exata na ciência, até porque as ciências da área não são exatas. Observadores
qualificados vêm tateando interpretações plausíveis. Buscam respostas para os
protestos no país. O protesto está mais que vivo, parecendo se replicar. O assunto
não é mais o aumento de preço dos ônibus. Reacionários, conservadores e
autoritários de plantão dirão, em sanha “ordeira” que o movimento é baderna. Não
é. O fato é que o povo parece ter acordado. Se não o povo, grande parte dele. A
ponto de mobilizar a imprensa nacional e mundial.
O protesto
não foi um momento; está sendo um processo. Coisas bem diferentes. É como se a
sociedade descobrisse que é mais forte que a polícia, aí o primeiro degrau. A
coisa do “povo unido” foi testada. Não pela primeira vez, pouco importa, mas o
sabor da vitória está crescendo. De novo, há o ingrediente da internet que
torna fácil reunir a “galera”. Se os manifestantes “descobrirem” que são também
mais forte que o Estado, podem querer “tomá-lo”. O nome disso? Um velho nome em
desuso: “revolução”. Claro que nada é tão simples assim. Mas o país está
sacudido e governantes perderam o sono. Muito bom isso.
O filósofo com a cabeça na guilhotina, na França,
dispara: “Ó carrasco, de onde vem o seu poder sobre mim, se todo poder emana do
povo?” O caso é que no Brasil, os governos e suas “autoridades”, há décadas,
são carrascos do povo. Vitalícios ou perpétuos. Remunerados como reis num país historicamente
humilde. Com evolução patrimonial pessoal jamais fiscalizada. Frequentadores de
coquetéis nababescos em “palácios”. Com meses, no plural, de férias legais (e
imorais) por ano. Com poder de aumentar os próprios salários. E muita, muita
impunidade. São também filhos e netos beneficiados, herdando e sucedendo cargos
e postos. Ou pelo voto ou por concursos arranjados.
Roberto Romano, professor de ética da Unicamp, ensina
que o Brasil vive uma “autocracia”, um modelo imposto pelo Estado e seus
agentes à sociedade. Mas a falência do modelo mostra os caninos, com cáries. A
questão passa exatamente por isso: de um lado “autoridades” inatingíveis e
chafurdando na corrupção, do outro o “mero cidadão”. Não houve diálogo na imposição
desse desenho autocrático.
Se
a sociedade “perceber” o custo social desse Estado desonesto, somado ao custo
social das “escolhas” que ele faz, por exemplo com o gasto de bilhões de reais
na Copa, tudo comparado à míngua em atendimento público, pode, sim, haver
rompimentos sistêmicos graves.
Talvez os protestos tenham uma resposta paradoxalmente
complexa e simples. A náusea social. O não aguentar mais do povo brasileiro
para com o modelo institucionalmente corrupto do Estado. Fica clara a erupção
de uma revolta do povo sofrido há décadas que percebe que poderia ter condições
sociais infinitamente melhores. Saúde, transporte, educação, segurança e
felicidade social poderiam pertencer ordinariamente aos lares brasileiros. Não
há isso por um problema única e exclusivamente de gestão. Ou melhor, má gestão,
aliada à endêmica e antropológica corrupção oficial. A desculpa da falta de
dinheiro não convence mais ninguém.
Com a internet o mundo ficou menor. Sabe-se aqui que
na Noruega há bicicletas para todo mundo. Sabe-se aqui que na França os pontos
de ônibus têm hora e minuto de chegada do coletivo, e ele chega. Sabe-se aqui
que deputados em diversos países têm um sala-e-dois-quartos para viver. Se não
quiser, dane-se. Ou chore. Se as comparações não servem como um modelo para “imitação”,
servem como inspiração. Se não são esses modelos precisamente, há inúmeros
outros.
Quanto à atuação da polícia nos protestos, é um caso
à parte. A autonomia da polícia, percebeu-se, é zero. Ou ela atende a uma ordem
direta de um secretário de segurança autoritário de baixar o sarrafo, como
cumpre cegamente e baixou; ou atende a uma ordem de um governador também
autoritário que percebeu a besteira na gestão e determina, então, uma leniência
promíscua, e ela também cumpre. Vira a polícia chuchu, insossa e omissa, além
de errada. Mais uma vez a polícia foi usada, em SP na primeira manifestação,
como o ex-delegado carioca Hélio Luz se referiu no maravilhoso documentário Notícias de uma guerra particular: um
mero e típico instrumento de repressão a favor das elites.
O fato de não haver uma direção nem uma pauta
definida nos protestos foi percebida por não poucos observadores como uma
deficiência. Mas exatamente isso pode ser o que de mais legítimo há.
Considere-se a frustração que foi o último grande sonho nacional, a
Constituição de 1988, em termos de efetivar o tal “país do futuro” como país do
presente. Some-se isso à corrupção e à impunidade. O resultado pode ter
começado com estes protestos. Nas ruas. Esta semana.
Poderá ser fogo de palha? Poderá. Já se cantou que
bastava um jogo de domingo no Maracanã para que o povo esquecesse a ditadura e
as dificuldades. Mas o certo é que muita coisa mudou. Aí está a esperança.
Pelo lado do Estado, viram-se “autoridades” visivelmente
contrariadas, porque em xeque com sua gestão desmoralizada, experimentando um
cinismo prêt-à-porter. Tentando demonstrar
“gostar” das manifestações. Dilma, num segundo momento orientada por Lula, ensaiou
capitalizar sobre a situação. O Psdb profetizou que quem fizer isso sofrerá um
sinistro “preço de retorno”. Todos quiseram tirar casquinha. O fato é que
políticos não sabem viver sem pensar nos próprios umbigos e currais eleitorais.
Não fazem pelo país e pela sociedade. A reeleição é um crack eleitoral. Até
Feliciano aproveitou e aprovou sua “cura gay” na comissão de direitos humanos.
Pelo lado dos manifestantes, pacíficos e poderosos, a
nota é 9,9. Parece não haver outra. Vem sendo tudo espetacular. Pelo menos no
plano numérico. Se vinte imbecis, vagabundos, ou criminosos, em uma passeata de
200 mil manifestantes têm força física para incendiar automóveis e quebrar
portões, atraindo uma imprensa que, percebe-se, adora um fogaréu na noite, é
parcela ínfima. Isso borra o movimento e exporta essas imagens para o mundo. Mas
o saldo no país é inegavelmente positivo. Nem apenas porque diversas
prefeituras e governos já começaram a baixar tarifas, de pressinha. Mas a
própria conscientização democrática de se manifestar.
Há um hiato abissal entre o legítimo anseio da
população, o desejo social, e a obrigação de atendimento público pelo Estado.
Vive-se um neocoronelismo urbano atualmente mais agudizado pelo recrudescimento
de um “estamento burocrático”, nas palavras de Raymundo Faoro. O Estado,
historicamente, só cuidou bem “dos seus”. Afora a raia miúda de funcionários
públicos, invariavelmente também explorada, os escalões de mando e gestão sempre
zombaram de quem lhes paga, o povo.
Praticamente
toda a sociedade parece ter desenvolvido uma ojeriza uniforme por políticos, e
não só estes. Nada que ver com anarquia. Os protestos podem mostrar que é o
povo que manda. Tomara que seja assim. Jean Menezes de Aguiar.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Mulher?
A
matéria de hoje é sobre o melhor do mundo, de novo, a mulher. Carlinhos
Cachoeira, o banqueiro, que o diga. Sim, banqueiro, palavra sinônima de
bicheiro, é a mesma coisa. Esta semana Carlinhos desafiou o governador de Goiás
para um duelo, porque sua belíssima teria sido desrespeitada. Viva Andressa,
que espetáculo. É claro que o governador não encarou. Sobre Cachoeira, passou-se
a desconfiar que atrás daquele coração mafioso há um homem sensível. Desses que
faz poesia em guardanapo de restaurante. Bingo. Andressa que se cuide. A
mulherada do Brasil se encantou com Cachoeira, a versão real do “esse cara sou
eu”.
A interrogação
no título se refere à dúvida que certos elogios e “reconhecimentos” feitos à
mulher despertam. Se são verdadeiros ou escondem uma ponta de machismo e
tentativa de superioridade por parte de certos (muitos) homens. Também se
refere à reação que algumas mulheres, as “poderosas”, têm quando desconfiam de
um machismo camuflado. A mulher forte é um espetáculo. Isso mesmo,
considerando-se que há homens e mulheres fortes e fracos. Já os conceitos de
força e fraqueza são uma discussão relativa e infinita.
Um exemplo simples de mulher forte seria
aquela que, ao ouvir um desaforo masculino, “nem” responde, gargalha, verdadeiramente
alto, e imprime uma desmoralização no ofensor. Pela segurança, pela
superioridade pessoal. Essas são as temidas. Embates intelectuais com as
portadoras de útero e amamentadoras em potencial têm uma psicobiologia
diferente. Dois homens disputando qualquer coisa sabem que no fim último podem
resolver na tapa. Já com a mulher não é assim. Isso refina o embate,
sensibilizando-o.
É por isso que
muitos homens simplesmente “não aguentam” discutir com a mulher. Mas também é
por isso que algumas mulheres se valem disso para desacatar, às vezes
deliciosamente, um marmanjo.
Passaram a existir, em sociedades
como a brasileira, novas maneiras de se relacionar com grupos desfavorecidos e discriminados.
São novos modos no tratamento social para com o Outro. Às vezes modos mentirosos
e cínicos. Muita gente “descolada” passou a se dizer salvadora do planeta, da
humanidade, do oxigênio etc. Alguns desses, com um baseado de 20 centímetros na
boca, mas tudo bem.
Na lista de discriminados, a
mulher conseguiu ter a preferência. Seu lobby
natural venceu índios, nordestinos, sem-terra, negros etc. Venceu até os gays.
A força feminina atualmente quase que não precisa mais se afirmar. Sua igualdade
compensadora ao homem se entranhou na cultura de modo orgânico. Passou a ser
até “bacana” defender a mulher.
Reconhecer o valor da mulher, continua
pontuando. Ora verdadeiramente, ora cinicamente. Continua fazendo do homem um
sensível, um “fofo”, como muitas gostam de falar. E muito marmanjo aprendeu que
ser sensível garante a posição e, claro, gera proveito. O problema é quando o
tratamento correto é apenas estético, de boca para fora. Ou se mostra como um
biombo para disfarçar alguma personalidade perversa. Daqueles que se travestem
(ops) como alguns representantes de direitos humanos por aí.
A mulher, por seu turno, se
beneficia de todo esse mimo e gentileza masculina. Gentileza, até “interesseira”,
mas tudo bem. À mulher é sempre confortante o carinho. Mas ela precisa
desconfiar do discurso. Por trás de nomes, títulos, compensações e agrados
públicos pode haver uma intenção machista, calhorda. Um intuito camuflado de “bater
o ponto” com o politicamente correto.
Será que a mulher precisa ser reconhecida
“pelo homem”? Como se fosse uma outorga? Como um chefe que reconhece um
inferior? Para muitos homens, “no fundo”, é assim.
Li um texto atribuído a Pedro Bial
(pois é, quem mandou?) esta semana. Bial deve ser para inúmeras beldades um
“fofo”. Bonito, rico, da Globo, gentil etc., tudo bem. Mas o pequeno texto de oito
linhas poderia ser usado por uma feminista no sentido de que Bial teria deixado
a mulher à deriva, à “escolha” de um lobo mau. Como se não tivesse vontade
própria. Bial recomenda que o homem vá lá e “passe a mão nos cabelos dela” e
questiona: “Agora,
eu te pergunto: tem dado valor? Muitos invejam você e estão só de olho,
esperando seu primeiro vacilo para atacar. E aí, amigo, vai esperar vê-la nos
braços de outro?”
Um dos traços da mulher, se é que
se pode comparar, é ser bem menos volúvel que o homem. Mulheres não costumam mudar
de galho simplesmente porque não foram acarinhadas. A paciência da mulher com o
desamor parece ser muito maior que a do homem. Elas costumam dar inúmeros
sinais ao longo de um tempo muito razoável, longo, de que estão infelizes. A mulher
sonha; o homem consuma. Esta diferença também parece ser bem clara. E mulheres
adoram homens que sonham junto. Aí um dos segredos.
Mulheres têm coisas chatas, estão
longe de ser perfeitas. Buzinam mais no trânsito; não dão a vez em cruzamentos;
são complicadas em filas – ficam empurrando quem está na frente –. Mas
mulher continua sendo a melhor coisa do mundo. Se a mulher é uma leoa na defesa
da prole, o homem é um rinoceronte na defesa de sua leoa. Se o ciúme feminino é
ácido e corrosivo para o homem; o ciúme masculino é mortal ao próprio homem.
Alguns fatores se equiparam, percebe-se, apenas com características diferentes.
Também não se pode confundir a tal
mulher “poderosa”, que supostamente se basta, com o prazer que qualquer mulher
terá em ver seu companheiro lhe defendo. O feminismo conquistou coisas muito
boas. Mas nada supera a harmonia do casal, seja ela qual for. No fundo, quem
sabe o que é bom para o casal é o próprio casal. Mulher? Ainda não inventaram
nada melhor. Jean Menezes de Aguiar.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Pela liberdade do tripé
Jean Menezes de Aguiar (celular)
Artigo publicado nos Jornais O Dia SP e O Anápolis, GO - semana de 6.6.13
Há coisas que,
juro por deus, parecem totalmente ilógicas. Aliás, a possibilidade de os
humanos produzirem coisas ilógicas parece mesmo ser ilimitada.
Certos lugares
“deixam” você tirar fotos, à vontade. Mas não a máquina num tripé. Não
estranhe, é isso mesmo que você acaba de ler. E há mais, essa não é uma
invenção brasileira. Ao contrário, nós imitamos isso dos Estados Unidos. E
também não só lá. Como imitar faz muito sucesso pelas terras do continente
sul-americano, continuamos com esse desejo louco de ser o outro.
A referência à
proibição ao uso do tripé está na espetacular coleção de Scott Kelby, Fotografia digital na prática, vol. 1,
p. 172. Em linguagem descontraída e brincalhona o autor chega quase que a
zombar da proibição oferecendo uma “saída”, digamos, cartesiana ou positivista,
para os que interpretam tudo ao pé da letra.
Lê-se no livro: “O
truque do monopé. Atualmente, vários locais fechados simplesmente não permitem
armar um tripé (por exemplo, tente armar um tripé em algum lugar como a Grand
Central Station. Você pode contar os segundos antes da chegada dos seguranças).
Mas, eis a parte esquisita: embora muitos lugares imponham uma política estrita
em relação a tripés, tais locais não têm uma diretiva para monopés (versão de
tripé de uma única perna, muito utilizado na fotografia esportiva com lentes de
longo alcance. Embora não sejam tão estáveis quanto um bom tripé, os monopés
são bem mais estáveis do que segurar a câmera com a mão). Então, o truque é este: se reclamarem
do uso de um monopé, você sempre poderá dizer: ‘veja, isso não é um tripé’. Esse
tipo de comentário costuma acalmar os seguranças... Meu palpite é que ninguém o
incomodará.” (p. 172).
Parece surreal,
mas é assim. A coisa é globalizada. A explicação? É que com tripé a fotografia
“pode” ser para uso profissional, leia-se comercial. E aí, ou querem um jabá,
uma beirada no lucro, dinheiro para autorizarem, chamado pomposamente de
participação nos direitos comerciais e/ou autorais, ou apenas são autoritários
e querem exercer o gozo e a delícia do poder.
Imaginando-se um
local privado, particular, o proprietário pode querer inventar regras para exposição e
captação de imagens. Mas a coisa ficará crítica quando se pensa em um local público,
com natureza jurídica de “res publica”, ou seja coisa do povo, daí a palavra
república (em latim “re, res, rei, rem”, prefixos que querem dizer “coisa”).
Ou seja,
fotografar pode, com a máquina na mão ou, imagine-se, com um monopé. A
implicância é com o tripé. Autores como Kelby, citado, têm outra explicação
ainda. Dizem que a diferença entre um fotógrafo amador e um profissional é o
uso do tripé. Em muitos casos sim, por exemplo, para fotos de paisagens e
estúdio. Mas o fotojornalismo e a fotografia de esportes, por exemplo, o máximo
que se pensa, em muitos casos, é um monopé.
Nos esportes, por
exemplo, uma quadra de basquete ou de volei, o tripé próximo ao jogo poderia
ser uma fonte de acidentes com atletas. Este tipo de explicação é lógica e
razoável. Mas o “ciúme” com a imagem “com tripé”, até porque sem tripé todo
mundo capta nos celulares e maquininhas, parece mesmo bem esquisito. Isso
quando não chega ao arbítrio, à ilegalidade.
Durmam com este
barulho. O ex-prefeito de São Paulo, por ocasião da Virada Cultural, tentou
proibir o uso de tripé ... nas ruas. Deve ter achado que o solo urbano lhe pertencia.
Uma tal “secretaria municipal de segurança urbana” (eles adoram inventar
instâncias oficiais) em concerto com a
subsecretaria da Sé baixou alguma coisa – portaria, parecer, imposição, ordem,
sabe-se lá o quê, “regulando” o uso do tripé em “solo público” paulista. Tomou
uma saraivada de desaforos e ridicularizações nas redes sociais e de pressinha
voltou atrás. Mas espera: não é Virada Cultural? Qual o problema de as imagens
serem captadas? Ou será que é porque a segurança do povo é sabidamente falha e
os esfaqueamentos, roubos e assassinatos seriam registrados? Pois é.
Toda ditadura, na
história, implicou com a imprensa livre e as diversas formas de captação de
imagem, som e registros em geral. Mas arte e cultura é uma exorbitância.
Embarcando outro
dia no aeroporto de Confins, Belo Horizonte, com um casal de professores da
FGV, a sirene do raio xis apitou para o amigo que certamente possuía moedas no
bolso. Almir, um grande gozador e chefe aposentado da Secretaria da Receita
Federal sorriu e levou a coisa na brincadeira. Voltou várias vezes, mas o apito do
raio xis não parava. Daí, prontamente saquei a máquina para fotografá-lo,
quando ele iniciava o procedimento de quase ficar nu: tirar cinto e suspensório.
Fui advertido energicamente pela moça da Infraero. Eu estava cometendo um
ilícito. Fotos eram proibidas. Mas por que? Resposta sentencial: “norma da Infraero”. (Infraero tem
norma?)
Proibir. Proibir é
uma sanha onírica que assola chefes, diretores, superintendentes, “autoridades”
e adoradores de “autoridades”. Proibir é orgásmico. Não tente usar a razão contra
a proibição. Perderá. É óbvio que eu “questionei” o porquê da proibição. A
“moça” disse que se eu insistisse ela chamaria o “supervisor”. Eu queria que
ela chamasse a polícia federal, mundial ou interplanetária. Veio somente o
supervisor. Ele não era autoritário, era triste. Talvez percebesse o patético
que era a ordem. Ou pior, a “crença” da moça na ordem. Mas não podemos pedir
que ela “questione” a ordem. Isso é coisa de subversivos e marginais. Neste
mundo corporativo sem Nietzsche, coisa de terroristas.
Criou-se
o imbróglio fotográfico. Eu queria o Almir pelado. Bem, fotograficamente
apenas. Não consegui porque “liberaram” o professor com a deliciosa confusão.
Nessa escala, se eu armasse um tripé seria algemado pelo delegado da Infraero.
Ou o equivalente em ordenações e controles.
Mas qual é a
natureza jurídica da Infraero? Ah, deixemos essa chatice para lá. Saúde e paz
para a moça que “crê” na ordem.
Em tempo, em outra viajem armei um tripé numa
área totalmente vazia e quase esquecida do aeroporto de Congonhas para
fotografar pousos e aterrisagens. Veio um funcionário da Infraerro, ops,
Infraero, e com toda gentileza me advertiu que sem tripé pode. Mas com tripé
não pode. Sabe o que mais, deve haver algo de sexual ou fálico com a implicância do tripé. Só
pode ser. Jean Menezes de Aguiar.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
O soco do prefeito
Jean Menezes de Aguiar
Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS - semana de 30.5.13
“No meu tempo dava um soco na barriga do cara e tudo se resolvia, hoje em
dia querem perguntar como se lidar psicologicamente com a coisa, daí uma
geração de maricas.” Clint Eastwood.
O agora já
suposto soco que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, teria desferido no músico Bernardo Botkay,
foi notícia até no New
York Times. Mas há ingredientes para o escândalo. O soco não é um soco
qualquer. É um soco oficial, afinal se trata do prefeito da cidade mais
turística de todo o Continente sul-americano. O agredido é músico, ou seja,
queridinho da imprensa. A agressão, como qualquer ato violento, é
injustificável. Qualquer? Talvez aí haja reflexões interessantes.
Há agressões físicas
perfeitamente admitidas no direito. Há até mortes admitidas. A legítima defesa
é apenas uma delas. Fora isso, a sociedade, no dia a dia, também escolhe quem
merece ser “punido” com umas boas tapas, como se diz vulgarmente, e quem não
merece. O caso mais emblemático está no “bom” e velho cassetete da polícia.
Curioso que ninguém reclama de sua existência. Mas repare, apenas o cassetete
da PM, que faz parte do uniforme. Se um investigador da Polícia Civil, a
paisana, descer da viatura com um porrete na mão, será outra visão. E muita
gente se assustará.
Qual é a natureza jurídica do
cassetete? Esta pergunta parece brincadeira, mas não é. Todo artefato,
equipamento ou ato público tem, no direito, o que se chama de “natureza
jurídica”. A arma, o sangue e o esperma do crime, o veículo, o contrato, o
gabinete da “autoridade”, tudo para o direito tem natureza jurídica.
Como classificar o cassetete?
Será que este bastão de madeira, ou o já há muito proibido cassetete de
borracha que gerava uma queimadura perversa no agredido, podem ser pensados
como um instrumento de “defesa”? Jamais. O cassetete é, em cem por cento de seu
uso, um instrumento de agressão, exclusivamente agressão. Bem diferente é a
“tonfa”, o bastão atual da PM paulista em formato de T. O cabo curto da tonfa
permite que sua parte longa seja usada como instrumento de defesa, como um
escudo. Mesmo assim, o cassetete é aceito pela sociedade. Então algumas
“agressões” são aceitas pela sociedade. Legitimadas mesmo.
Começa a se perceber que há
agressões e agressões. Quando a PM faz vibrar, com toda força possível, os
cassetetes em torcedores boçais que brigam e invadem, nos estádios de futebol,
em vez de algemar todos e prendê-los em flagrante pelo crime de tumulto e
violência, lei 10.671, artigo 41-B, com pena de reclusão de 1 a 2 anos e multa,
não se ouve crítica à PM.
Nenhum delegado de polícia vai
querer receber em “sua” delegacia, no final de um expediente de domingo, por
exemplo, 50 pessoas presas para que sejam lavrados 50 flagrantes delitos.
Muitos e a sociedade aceitam a pancadaria oficial da PM no estádio, agindo, os
soldados, com nítida raiva, para com os torcedores infames. Em regra o serviço
policial é este, meramente repressor, contentor e organizador do estrupo (com r
mesmo). A sociedade gosta do revide oficial e ainda pede mais.
Ninguém menos que a professora Marilena Chaui para
revelar as diversas formas de violência, patologia e agressividade urbanas da
sociedade chamada educada, loura, com óculos de marca e carrões SUV. Há uma
formidável hipocrisia social nessa chamada “educação” e gente “do bem”. Mas o
soco do prefeito foi a manchete da semana.
Tinha que ser. Prefeito é uma “autoridade” remunerada
pelo povo. Não pode dar soco em ninguém. Mas também ninguém pode ter a
arrogância de xingar dezesseis vezes uma pessoa perante sua família e amigos,
desacatar, retornar para ofender mais ainda, humilhar, e querer que que essa
pessoa tenha sangue de barata.
Tudo bem que Eduardo “Zona-Sul” Paes parece um
surfista aposentado, um descolado ator de novela fantasiado de “simples” com
havaianas nos pés, ou um ex-hippie-paz-e-amor. Mas chegar às vias de fato
ultrapassa o credo parecido com o alcaide budista-zen-vamos-salvar-o-planeta. O
fato é: qual sujeito comum numa situação igual à do prefeito não quereria dar
um soco no estúpido agressor originário? Repita-se: nenhum soco é válido (viva
o chatissimamente correto), mas alguns são merecidos.
Por outro lado, onde há político há mentira. Terá
havido mesmo o tal soco? O soco foi no músico mesmo? O delegado ex-futuro-quase
encarregado do caso disse que a história toda está muito estranha e mal
contada. Quem passou por exame de corpo de delito não foi o músico. Isso mesmo,
foi a namorada, que feriu de leve o joelho. Na delegacia o músico não falou
nada de soco, apareceu como “testemunha”. Ainda, o músico que parecia ter tanto
ódio e problema com o prefeito, quando teve a faca e o queijo na mão desistiu
da representação criminal.
Já o prefeito correu a público para viver uma culpa
quase que publicitária em auto-degradação desejada, com pedido de perdão e
expiação generalizada à sociedade carioca. Parece solução de divã
psicanalítico. Mas se isso faz as pazes com uma imprensa que poderia cozê-lo
até esturricá-lo, tudo bem.
Agressão originária tem seus
preços. Se é verdade que o músico tomou dois socos na cara desferidos pelo
prefeito, isso deve ter doído um bocado. Além da rinha própria dos machos, de
um apanhar do outro, que em criança se vive, mas como adulto deve doer mais. O
músico entrou pelo cano e teve a cara amassada. Noutra análise, pode ter feito
o seu comercial e ficar para o resto da vida conhecido como “o músico que tomou
soco do prefeito”. Pode ter banda que se interesse por essa marca.
Ninguém deveria ofender, xingar, agredir ninguém. Mas a exasperação e a intolerância parecem ser a tônica nessa sociedade do consumo. Por outro lado, apanhar na cara deve ser algo bem ruim. O músico teve que dormir com essa, se é que dormiu. Jean Menezes de Aguiar.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
A jurisprudência defensiva é honesta?
Luz vermelha na entrada
Artigo publicado no Jornal O DIA e no O ANÁPOLIS, semana de 23.5.2013
Ouve-se muita reclamação de advogados, sobre o
sistemático juízo negativo de admissibilidade dos recursos extraordinários. Há
até nome para isso: jurisprudência defensiva. É a prática utilizada por
tribunais para dificultar recursos judiciais. Parece não haver dúvida que a
esmagadora maioria dos recursos para o STF, recurso extraordinário, e para o
STJ, recurso especial, não é admitida. Será que a também esmagadora maioria dos
advogados não sabe recorrer?
Na
sociedade consumista e da intolerância, todo mundo quer encontrar imperfeições
e defeitos nos outros. Mas aqui, a reclamação dos advogados procede. Essa
jurisprudência defensiva parece mostrar caninos e causar estragos generalizados
a cada dez minutos.
O falecido Humberto Gomes de Barros, no discurso a presidente do STJ, em 2008, em franqueza desconcertante, ressaltou preocupação com o destino do tribunal. Afirmou que para escapar ao papel de “reles
terceira instância” o STJ adotou a “jurisprudência defensiva, consistente na
criação de entraves e pretextos para impedir a chegada e o conhecimento dos
recursos que lhe são dirigidos”. Site do STJ, 9.6.12.
“Entraves e
pretextos”. Só por aí se percebe que o problema é sério. Essa nova cultura
oficial de entraves e pretextos nos recursos vê-se recheada de uma para lá de discutida
legitimidade. Isso para dizer o mínimo. A coisa parece estar difundida tanto em
cabeças judicantes, como em cabeças assistentes, secretariais etc. Busca-se legalizar
a ilegalidade dos tais entraves e pretextos por meio, apenas, do poder oficial.
Em épocas de “o governo pode
até declarar guerra desde que os consumidores estejam felizes”, na crítica do
sociólogo Zygmunt Bauman (Vida líquida),
um verdadeiro
o-Estado-pode-tudo, o discurso oficial é pouquíssimo contestado.
Admissibilidade de recursos é matéria de
ordem pública, não pode ficar como biruta ao vento da vontade de quem lhe
examina e afere. Na visão inversa, de manejo processual de recursos, a
sociedade não deveria ficar exposta a um “te peguei” processual no sentido de
que se os advogados esquecerem uma vírgula terão os seus recursos judiciais
energicamente inadmitidos. Isso não é socialmente saudável, mas também não é nada
legal.
Ninguém
esquece que se vive a adoração às ações judiciais. Com o fim da gentileza, da
fraternidade, da amizade humilde em que problemas poderiam ser resolvidos fraternalmente
e com carinho social, todo mundo parece querer acionar todo mundo na justiça. O
Estado, que no momento da Constituição de 1988, chegou a “estimular” essa onda
tribunalesca, como um sinal de cidadania avançada, percebeu que entrou pelo
cano. Vê-se hoje refém de uma avalanche de ações e recursos.
No informativo do escritório Wambier & Arruda
Alvim Wambier, IX:17:julho/2012, por exemplo, sobre a jurisprudência defensiva,
leem-se expressões como “verdadeiras armadilhas” e “séria dúvida sobre a
legalidade e legitimidade dessa prática como meio de atenuação da sobrecarga de
trabalho dos tribunais”. Perfeito.
Apenas dois exemplos grotescos. O STJ não conheceu recursos especiais, ao fundamento de
que “as guias” de recolhimento das custas estavam preenchidas sem o número “de
origem” do processo (ED em Resp 850.355-RJ), ou porque preenchidas “a caneta”
(AI 1.155.821-MG). Parece piada, mas não é.
Nesta
guerra absurda que passou a ser a admissibilidade de recursos, com funcionários
fiscais da admissibilidade como inimigos – que tristeza –, todo cuidado é
pouco. Nas petições de recursos, então, passa a ser recomendável um tópico
inicial, didático e bem formalista, com a demonstração da possível
admissibilidade. É o vulgar “esfregar na cara”, no sentido de que o recurso não
apresenta defeitos e esdruxularias admissionais. Depois, rezar e torcer para
ser sorteado não será pedir muito.
No recurso extraordinário,
por exemplo, além dos requisitos comuns que podem estar “demonstrados” um a um
na petição, como cabimento; legitimação; interesse; tempestividade;
regularidade formal; inexistência de fato impeditivo ou extintivo; preparo e
porte-retorno; prequestionamento (cuidado com essa neurose processual);
repercussão geral; ser decisão de última instância, há uma lista de outros argumentos
prévios. Tudo isso pode “inibir” o furor inadmissional. Tudo em síntese na 1ª
página do recurso.
Ainda, relativamente
às súmulas pode conter: não é reexame de prova (279); não é ofensa a direito
local (280); a situação está “ventilada” (282); foram atacados “todos” os
fundamentos (283); está delineada a “exata compreensão da controvérsia” (284);
não se trata de arguição de inconstitucionalidade, ou se se tratar, é
“razoável” (285); o plenário do STF não se firmou como a decisão recorrida
(286); a matéria vê-se prequestionada (356); o pagamento anexo é “preparo do
recurso” e a guia de pagamento está totalmente identificada. Mais um pouco de
reza e torcida ajudarão.
Recurso é direito
fundamental consagrado na Convenção Americana sobre Direitos Humanos, art. 8o,
h; promulgada no Brasil pelo Decreto 678/92. O problema é que com o
remendo inventado conhecido como jurisprudência defensiva, concebida como
“entraves e pretextos” visando à inadmissão de recursos, senta-se, há que se
admitir, francamente, no colo da ilegalidade. E o Judiciário não pode aceitar
esse modo.
Não se trata de um
subjetivismo ou apego ao direito das partes, em recorrer, com um “danem-se os
tribunais se eles ficarem [mais] entupidos”. A jurisprudência defensiva está
sendo utilizada de forma mutiladora. Direitos graves, sensíveis, de pessoas de
bem estão sendo solapados por um “te peguei” processual, tudo para se festejar menos
um recurso em trâmite.
A mesma sociedade
que reclama, muito genericamente, da Justiça, no sentido de achar que o sistema
recursal é neurótico, que advogados recorrem indefinidamente, está sendo
prejudicada. Os filtros constitucionais, legais ou de súmulas, como repercussão
geral, prequestionamento etc., não ofendem ao sistema de recursos. É a regra do
jogo. Mas antipatias, implicâncias e pretextos para não se admitir um recurso
em que até ilegalidades ou inconstitucionalidades veem-se aparentes, é ofensa à
Constituição e à cidadania. Estão sobrando resmungos em fila de supermercado e
faltando reclamações institucionais e sérias. Jean Menezes de Aguiar.
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