quarta-feira, 3 de abril de 2013

Passivo trabalhista



É uma festa

 Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 4.3.13

                Com o acesso à informação, a “sensação” de conhecimento aumentou muito. Conhecimento é um traço de poder. Todos querem. Muitos acham que basta o Google para conseguir. Mas não é bem assim. Conhecimento é a possibilidade de interpretar um dado, ou mesmo transformá-lo. Para isso, são necessários princípios e regras específicos de cada área. Alguns são bem difíceis. Em setores “populares” como o Direito, isso vira uma maluquice. Todo mundo opina e “acha” um monte de coisa.

                Nas relações de emprego há 3 grupos de patrões. Os corretos, os ingênuos e os malandros. Os corretos pagam os direitos dos empregados normalmente. Os ingênuos não cumprem alguns deveres porque não buscaram informação certa. Tudo bem que o inferno está cheio de bem-intencionados. Por fim há os malandros, os que acham que conseguem driblar a lei, inventar coisas que  Direito ainda não pensou. Aqui está a piada jurídica.

                O Direito é secular, não nasceu anteontem. Gerações inteiras de juristas que vão se sucedendo já pensaram todos os tipos de relações sociais que envolvem direitos trabalhistas. As relações já foram objeto de discussão em algum livro, em algum tribunal. Assim, um patrão imaginar que pode “inventar” algo ou enganar a lei é de um primarismo mental absoluto.

Como se não bastasse, no Direito do Trabalho existe o princípio do “contrato realidade”. Com ele, as relações simuladas ou ilegalmente impostas, todas, caem por terra. Basta, na audiência, o juiz ouvir por 20 segundos o empregado e fazer as perguntas corretas, o que não é difícil. Uma relação de emprego não é o que o empregador “quer” que ela seja, ou “acha” que ela é. Será o que o Direito extrai dela. Por isso as simulações e imposições ilegais nas relações são tão facilmente percebidas nos tribunais.

                Muitos contratam um empregado tentando “disfarçar” a relação de emprego. Modernamente, gurus de autoajuda de empresários, sem o menor conhecimento com o bom e velho Direito do Trabalho, descobriram uma “nova maravilha” na contratação de empregados. Inventaram até um nome cínico para o disfarce: “colaboradores”. Só rindo. Falar “empregado” agora é feio ou politicamente incorreto. Tem que ser colaborador. Exigem do empregado inscrição de “autônomo”, para pagar por RPA – recibo de pagamento de autônomo. Ou pior, a abertura de uma empresa individual, para remunerar mediante nota fiscal.

                A consequência disso num processo judicial é, no mínimo, um passivo trabalhista certo. O passivo trabalhista é o acúmulo dos direitos não corretamente pagos ao empregado. É também o não recolhimento de encargos sociais que tocam ao empregador. Isso pode se tornar extremamente vultoso.

                O bom para o polo fraco da relação, o empregado, é que ele não precisa brigar ou se insurgir contra a situação danosa. Ela se mantém no tempo a seu favor. Ele pode simplesmente ficar quieto, por anos. Depois, salvo algumas exceções, recebe tudo na justiça do trabalho.

Uma relação de emprego para ser caracterizada como tal tem seus requisitos que, basicamente são: trabalho por pessoa física; não-eventualidade; onerosidade; subordinação jurídica; alteridade.
                Esses requisitos permitem o princípio do “contrato realidade”. A relação de emprego é “perceptível” pela existência dos requisitos. Não adianta o empregador “querer” disfarçar ou “supor” que não é bem assim. Se para o Direito a percepção for de relação de emprego e os direitos e deveres não estiverem corretos, dá-se o passivo trabalhista. Uma ação judicial do empregado forçado a se travestir de “prestador de serviço” ou de “empresa” deverá gerar, sem problema, uma sentença de procedência a favor do empregado.

                Em Direito, os polos jurídicos fracos são protegidos. Na relação pública é o cidadão em relação ao Estado. Na rua é o pedestre em relação ao automóvel. No consumo é o consumidor em relação à empresa. Na relação de emprego é o empregado em relação ao patrão. Isso não é invenção brasileira. É lógica jurídica. Por isso o contrato realidade é um fenômeno que vale “mesmo” contra algumas provas que poderiam ser “objetivas” a favor do empregador, como uma declaração ou confissão do empregado.
 
                Qualquer documento ou declaração que o empregado assine para ter seus direitos diminuídos ou afetados, diante do princípio do contrato realidade, simplesmente não vale. 

                Há casos de escolas e hospitais que exigem dos empregados uma declaração assinada por eles de que desejam reduzir carga horária, reduzir salário, não tirar férias etc. Há também quem exija declaração do empregado dizendo-se não empregado, mas mero prestador de serviço. O empregado pode assinar toda esta tralha. O passivo trabalhista estará crescendo em desfavor da empresa. Essa é a regra do jogo.

                Também registros em sindicatos, associações, polícia, ou mesmo falta de regularização de uma ou outra atividade não afastam relações de emprego. A regra geral é: ter alguém trabalhando, fazendo “coisinhas” para quem lhe paga, com habitualidade e remuneração combinadas, gera relação de emprego. 

                A professora Marilena Chaui, na obra Cultura e democracia, p. 353, ensina que o Brasil conservou “as marcas da sociedade colonial escravista”. O escravo não era pessoa, era uma coisa, vendível. A visão da relação de emprego guarda certo vício daí. Veja a empregada doméstica, que a hipocrisia social chama de “secretária”. Somente esta semana passaram a ter direitos trabalhistas plenos. 

                Há tônicas bem conservadoras com a visão da relação de emprego. Peripécias são feitas em contabilidade, contratos, estatutos sociais, contratos de gaveta, tudo para se disfarçar e desconfigurar relações de emprego. Mas o passivo trabalhista é imune a isso tudo. A saída é cuidar com profissionalismo e correção dessas relações. Vida longa e tranquilidade aos bons patrões. Justiça do trabalho aos outros. Jean Menezes de Aguiar.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pec 99 entidades religiosas

Em homenagem ao Carlos Eduardo B. Nascimento: uma imagem  brazuca séria. Né verdade?


Atenção: fiz este textinho em cima da perna, sem qualquer reflexão profunda. Reservo-me o direito de mudar radicalmente de opinião se alguém menos cru que eu no tema me der argumentos menos piores que os meus.

O querido amigo Carlos Eduardo B. Nascimento, do meu Facebox, pede um comentário sobre a Pec 99, dum deputado de Goiás que inclui entidades religiosas de âmbito nacional entre as previstas na CR, art. 103, que podem propor ação direta de inconstitucionalidade e declaratória de constitucionalidade no STF. Há algumas leituras aí.

O mundo jurídico é indissociável do mundo social. A religião por uma entidade verdadeiramente nacional (não essas denominações corporativas risíveis, interplanetárias, globais, mundiais, internacionais, multimundiais, como se a fé fosse exportável, negociável, uma commodity; daqui a pouco vai ter neguinho vendendo igreja “com” 40 mil fiéis, 300 mil fiéis etc. – ja deve ter, claro), é um fato.

Se um grande número de pessoas se reúne em torno de alguém que acorda um dia e “se” intitula apóstolo, santo, empossado, despachande, procurador, bispo de algum Deus, há o fato social aí de quererem (esses) isso. E se fundam uma associação, sem problema.

Não é isso que “afeta” a sistemática laica do Estado. O uso do fator Deus no preâmbulo da Constituição afeta (qual é a natureza jurídica de Deus aí?); o crucifixo em sala de audiência afeta; o mesmo fator Deus na nota de dinheiro emitida pelo Estado afeta; religiosos cínicos querendo tomar o poder estatal sempre com salários indecentes oficiais (de todos) pelo uso da religião, crença, fé, diabos, exorcismos, como essas tais “bancadas, ou desta ou daquela religião afeta.

Mas um bolsão de gente religiosa que efetivamente funda uma associação em nível nacional pode ter a legitimidade de discutir a validade duma lei. O problema será o instituto jurídico da pertinência temática. Que leis essas entidades (que jamais serão essas igrejas-empresas com nomes de multimundiais etc.) poderão discutir.

O que está em jogo aí seria a legitimidade que um antropólogo, por exemplo, veria. São entidades produzidas pelo tecido social. O caso é saber se são legítimas “para entrar” na CR, art. 103. Esta é outra investigação.

Enquanto a Europa se desreligiosiza: a ciência vem mostrando àquela sociedade que muitas verdades sagradas são pura invencionice e ilogicidades, por métodos objetivos, racionais e lógicos, e eles confiam no “conhecimento”, o Cone Sul se radicaliza, se fundamentaliza, se afunda em dogmas. Mas até esse baixo clero intelectual que é um delírio religioso é legítimo. É isso que querem? Então que tenham isso.


Vejo inúmeras tragédias sociais com a opção do atraso religioso. Mas até ela é “legítima”. E antes que algum “relativista” de plantão diga que “tudo é relativo” (ó, que decoberta!), declino meus parâmetros aí, para termos como "delírio, método objetivo, racionalidade, e atraso": Richard Dawkins, Carl Sagan, Nietzsche, Asimov e tantos outros. Está tudo nos livros deles.
O "primeiro" rombo visível na laicidade estatal é esse sujeito que odeia negros e gays (agora diz que ama né?) presidir a Comissão de DH na câmara. Patético. Mas a câmara dos deputados também né? Quem valida aquilo? Amor e beijo em todos. JMA.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Piada com direitos humanos


 
 



 Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 27.3.2013

                 Assiste-se à estapafúrdia escolha de um desejosamente fundamentalista, sabidamente contrário aos direitos humanos para presidir o tema. Pelo menos na “Casa do Povo”, a câmara dos deputados. O problema não é mais a criatura, mas o seu criador. Quem o alugou como tampão de última hora. 

                O deputado que aceitou o oba-oba politiqueiro da presidência da Comissão praticamente não tem culpa. É um subproduto de um sistema diabólico de conchavos, domínios e feudos partidários que acaba parindo escolhas absurdas assim. Não tem o religioso profissional qualquer poder político de influir em uma escolha tão nevrálgica e representativa. “Ninguém” nunca tinha ouvido falar nesse deputado até seus desastres orais em xingar e justificar ódios e racismos. Agora, em ser usado nessa presidência da Comissão que até o presidente da câmara já não quer mais. 

                Em uma análise mais fria, o sujeito poderia ser digno de pena, em relação à trituração política e pessoal que lhe impôs uma câmara ligada ao qualquer-um-serve-para-qualquer-coisa aqui. Exatamente como se deu com a escolha para esse cargo. Ele estava quieto em sua igreja do interior, rezando, fazendo milagres, curas e exorcismos na madrugada. Talvez tentando ser um Edir Macedo, o sonho de todos. 

                Aí a Câmara o atira aos leões da crítica social, da intelectualidade e da cultura, da mídia, da imprensa e da modernidade. É claro que o temente não tem como se defender dessa turma mentalmente “descolada”, artistas, comediantes, acadêmicos, pensadores, ativistas etc. Um grande saco de gatos agindo como carrascos sociais das escolhas estapafúrdias. 

                O problema é: como a câmara dos deputados não pensou nisso antes? Como se expôs, mais uma vez, à execração pública desse modo? Por que a câmara se especializou em atrair tantas críticas e desconfianças? Já não bastam os 50 salários por ano? Algum corretinho de plantão berrará: não são 50, são somente 15. É a mesma coisa. Fora o que não tem nome de salário. 

                Está faltando à câmara uma inteligência para mediar seus atos, suas ações e evitar essas colisões frontais com a sociedade. Alguém para dizer: não faça isso, isso exporá toda a classe política. Por outro lado, esse sonho é impossível. Ali ninguém se controla, ninguém manda em ninguém. Todo mundo é excelência e há inúmeras fogueiras de vaidade política acesas. 

                Um outro problema é que isso tudo é patrocinado pela sociedade. A mesma sociedade que precisa de atendimentos urgentes em Direitos Humanos. Mas, no caso brasileiro, admitindo-se a redução doméstica apenas por ilustração, o que são os tais Direitos Humanos? 

                Historicamente o Brasil vive um momento ligado a determinadas pautas e discussões críticas. Ciclistas nas ruas; relações homoafetivas; mudanças de sexo; liberdade da maconha; problema social do crack, todos os CRMs do país e mesmo o Conselho Federal de Medicina reconhecendo a validade do aborto e outras questões.  

                Se alguém, por exemplo, afirma que lugar de ciclista é em parque de diversões aos domingos está, apenas, na contramão da história atual. Nada mais que isso. Um ser pensante assim não pode representar a minoria, os ciclistas. Do mesmo jeito que se alguém declara que uma relação homoafetiva justifica o ódio e as agressões perpetradas contra os gays, como o atual presidente da Comissão de direitos humanos declarou, não tem a mínima condição e equilíbrio para ocupar o cargo.  

                Direitos Humanos continuam a ser uma hemorragia cultural no Brasil. Muita gente boa não consegue entender o que são (conceito) os Direitos Humanos. Figuras ilustres já propuseram, por exemplo, que a anistia fosse “bilateral”, como se tudo fosse “igual”. 

                Nem tudo é “comparável”, nem tudo é “a mesma coisa”. O assassinato cometido pelos nazistas na Segunda Guerra foi um assassinato “pior” que outros assassinatos. Há, sim, gradação nos crimes. Direitos Humanos são uma qualificação atribuída a um crime ou agressão praticados pelo Estado, pelo polo forte das relações em que há um desamparado, um hipossuficiente, uma minoria. Quem entende e defende que as minorias devem apanhar na rua porque provocam ódio com seu próprio jeito de ser não pode ocupar um cargo público de defesa de minorias. 

                O bandido mata e é uma tragédia. Mas isso se chama criminalidade. Já o Estado não pode matar ou agredir. A menos que o Estado se insira no conceito de uma entidade criminosa, o que é absurdo. Assim, seus responsáveis, ou “autoridades” como gostam de pensar, não podem agredir, discriminar, aceitar preconceitos em nome de um ou outro livro que acreditem ser sagrado. O Estado recebe dinheiro da sociedade não para matar ou violar, discriminar ou difundir preconceitos. Igrejas ou “denominações”, atividades privadas que são, financiadas por quem as aceita e quer, “podem” ter seus preconceitos contra minorias. Mas nunca o Estado. 

                A Comissão de Direitos Humanos da câmara dos deputados vai perder toda a “possibilidade” de pujança, força e representação. Seu presidente está condenado até por entidades religiosas e instituições globais como a Anistia Internacional. O retrocesso não é apenas “implicância”, é fato. Esta Comissão é para andar para frente, não para ser defendida de acusação de que está andando para trás.
 
                  O excesso de politicagem e conchavo que permeia a política brasileira, e muita gente acha isso “saudável”, ou “normal”, acaba gerando este cenário: uma câmara dos deputados e mesmo a classe política, salvo raríssimas exceções, totalmente desrespeitadas por deméritos próprios. Tudo bem que “somos” a câmara, esses monstros são nossos, nos pertencem, saem das nossas entranhas. Mas estamos horrorizados com a qualidade de veneno que produzem. Por favor, reduzam a picaretagem. Jean Menezes de Aguiar.

 


segunda-feira, 25 de março de 2013

As duas visões


 

 
 
1

Duas são, para mim, as mais importantes teorizações filosóficas existentes, na atualidade. A primeira está em O discurso filosófico da modernidade, de Jürgen Habermas, no capítulo O conteúdo normativo da modernidade, p. 467 e seguintes. A segunda em Cultura e democracia – o discurso competente e outras falas, de Marilena Chaui, no capítulo Ética, violência e política, p. 340 e seguintes.

Habermas finalmente relativiza a “relativização” que se instaurou um tanto quanto ditatorialmente com um certo “metadiscurso” filosófico acerca da modernidade e o que lhe diga respeito. Questiona, utilizando como paradigmas, expressamente, a dialética negativa, a genealogia e a desconstrução. Inclua-se aí um de seus professores diretos, Adorno. 

Reclama que esse novo discurso nem é ciência, nem filosofia. Nem é moral, nem é literatura ou arte, nem um novo padrão jurídico. Assimétricos a seus próis, exigem autoritariamente uma compreensão acrítica, patrulhando o que discrepe da pura e simples aceitação. Não se refere expressamente, nem o precisaria, mas um modelo esgarçado, talvez o grande marco, pode ser Sokal e Bricmont, em Imposturas intelectuais.

Fala em “simbiose de incompatibilidades”, perda de segurança nos “critérios institucionalizados do falibilismo” e o jogo sujo de que se permitem recorrer a um argumento apelativo final: “que o oponente entendeu mal o sentido do jogo de linguagem no seu todo, que em seu modo de responder cometeu um erro categorial”.

O cipoal de ideias, ismos, teorias, e visões de mundo outras, que já dura pouco mais de um século – por todos e o mais antigo referido, a Genealogia –, mutilou a cabeça de muita gente que se sentiu na “obrigação” de acompanhar pautas disformes de interpretação do mundo e da sociedade, aceitando a desconexidade auto-culpativa por não poder entendê-la razoavelmente a não ser com uma boa dose de LSD filosófico. Habermas é música aos ouvidos nesse segmento e nós, simples mortais que tanto nos maravilhamos com um Michel Serres diurno, em Entrevistas do Le Monde, e nos punimos tanto pela insuficiência intelectual com um Michel Serres noturno, em Os cinco sentidos – filosofia dos corpos misturados, só podemos comemorar.

 

2

A segunda grande lição está em Marilena Chaui. A pensadora desenha o farisaísmo do discurso piegas, do discurso violento, do discurso patrulhador e, por que não, da simbiose de todos eles, do discurso canalha quando se veem invocações de “ética” e de “retorno à ética”, num sabor totalmente neoliberal e protegido por uma violência tácita, clivando a própria ética para admiti-la segmentarizadamente em porções exclusivistas – ética política, ética familiar, ética profissional –, sem o liame da universalidade, podendo-se supor inclusive, a partir daí, a não-ética no segmento não previamente nominado ou “escolhido”. Esta alienação não é totalmente imperceptível, mas é cômoda, a partir de uma sociedade também fragmentada.

A podridão da ideologia ética exigirá a violência para poder se firmar como linimento. Aqui Chaui invoca Alain Badiou (Sur le mal), no sentido de que enquanto a ética encarnará o bem, a ideologia da ética será a imagem do mal que precisará da imagem do mal para ser o não-mal. Aí surgem o piegas, o passivo reativo totalmente falso próprio das religiões manejantes do Diabo e outras estapafurdices e boçalidades, o que hasteia a bandeira da compaixão e da indignação para, por culpa invocada, teatralizar sua benemerência portátil e ética a preço de liquidação.

De novo, é sempre reconfortante encontrar e reler temáticas insuspeitas e superiores como essas apresentadas por Habermas e Chaui. Jean Menezes de Aguiar.

 

quarta-feira, 20 de março de 2013

JB cowboy



Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 20.3.13

Joaquim Barbosa, presidente do Supremo quer ser julgado por suas declarações fortíssimas. Gestores públicos em cargos ímpares, como o de JB, costumam primar por falas políticas. Fazem declarações mil vezes mais suaves. Em muitas vezes mentirosas. Mas como a mentira passou a ser a regra em declarações públicas de “autoridades” e a sociedade brasileira desenvolveu um anestésico contínuo em relação a ela, tudo se organizou. Praticamente todo o setor público de primeiro escalão mente com salários falsos; mordomias; casas, meninas e meninos de prazer; projetos e obras elaborados em mutretas financeiras e todo tipo de festa com o dinheiro público. Contam com a inesgotável paciência e falta de reação da sociedade brasileira.
Fica a imprensa feito louca, berrando sozinha, mais algumas ongs e tentando sacodir uma sociedade sonolenta. Tudo sem grandes eficácias. Pela sociedade, só se vê algum movimento quando um interesse próprio ou corporativo é afetado. Assim, 130 ciclistas se reúnem para reclamar a morte de um deles na Av. Paulista. 250 motoboys param a cidade de São Paulo para continuar impunes à fiscalização. E continuam. Mas Joaquim Barbosa é diferente.
Parece que as “taras antropológicas” que o perseguem, conforme ele confessou, vivem fazendo sua baiana rodar. Constantemente. Daí, cessam os eufemismos. Vêm as bravatas. Mas o que seria a sociedade sem um ícone assim? JB presta um grande serviço. Não interessa se está ou não em palanque eleitoral para ser o primeiro presidente da República negro dessa brazuca desvairada. Como todos estão acostumados a presidentes do Supremo Tribunal Federal híbridos em termos de declarações, compostos, polidos, políticos no sentido de contidos, um JB destrambelhado – para muitos é assim –  é o que de melhor pode haver para essa sociedade adormecida.
                O curioso é que quem passou a pisar em ovos, para não dar o verdadeiro tom de toda a potência das falas de JB foi exatamente a imprensa, sempre ávida atrás de um rentável escândalo. Parece que ela vem reagindo assim: espera aí, isso é muito forte, deixa eu suavizar um pouco. O fato é que JB, esteja ou não “jogando para a plateia”, começou a contrariar a lição de Voltaire, quando ensinava que “o segredo de aborrecer é falar tudo”. JB é um radical e isso é sua virtude. Chega de fingidos e engomadinhos, a praticamente totalidade.
                Outra leitura que poderia haver é a da “compensação”. Como JB talvez ganhasse a antipatia de uma larga fatia da imprensa, quando mandou o jornalista do Estadão chafurdar no lixo – que descontrole admirável –, chamando-o de palhaço – que grosseria brasileira interessante –, teria resolvido presentear a imprensa. Dar uma temporada de escândalo com as falas e críticas últimas. É um bom presente. Mas pouco importa. JB está “causando”. E isto não é ruim para a democracia que precisa de transparência.
Na última terça-feira (19) o ministro falou de relações oficiais para lá de espúrias. Afirmou que "o conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso" e que há muitos magistrados "para colocar para fora". A falação ocorreu durante reunião do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), presidida por Joaquim Barbosa. No episódio, foi aposentado um juiz do Piauí acusado de relação indevida com advogados. Além de ter liberado 1 milhão para um morto, o excelência lá também recebia caronas. Caronas?
Não parou aí. Jb também afirmou:  "sabemos que há decisões graciosas, condescendentes e fora das regras". Foi retrucado pelo desembargador Tourinho Neto na sessão do CNJ, dizendo que JB estava “endeusado”, mas os juízes se veem acovardados. Acovardados? Tadinhos. Ainda, Tourinho lembrou o episódio do ministro Dias Toffoli: "Tem juiz que viaja para o exterior com festa na Itália paga por advogado e ai não acontece nada". Mas aí Barbosa não retrucou. E Tourinho prosseguiu: "Se for para colocar juiz analfabeto para fora, tem que botar muita gente, inclusive juiz de tribunais superiores". Admitamos: a democracia não é um tesão?
Chama a atenção o presidente de um dos Poderes com declarações e diálogos tão fortes e incisivos. É claro que entidades como associação de juízes e OAB se manifestam, mas o fazem formalmente. No máximo dizem que “não é bem assim” e que “não se pode generalizar”. Essas falas educadas têm o condão de não deixar um vazio. Veem-se corretas. Mas a crítica continua ardendo, exatamente por ser inusual, fora do padrão do “bom gosto”, como reclama a grande pensadora Adriana Calcanhoto, na música “Senhas”.

No mérito e de sabido, relações espúrias entre juízes e advogados pertencem à categoria do mau profissional. Isso existe em todo lugar, em toda profissão, em todo cargo público. Uma vitória processual obtida pela compra de um juiz é um jogo vil, desrespeitável. As falas de Barbosa poderiam “influenciar” mais as corregedorias. Sonhar também é bom. O que é novo na engrenagem é que nunca se falou abertamente assim. Os espíritos de corpos costumam ser vingativos e devastadores. No caso dos magistrados ainda há outra confusão mental: há quem ache que eles não erram. Agora, como se trata do presidente do Supremo, uma reflexão maior pode existir. Ou não haver nada, claro.

Joaquim Barbosa está entre o céu e o inferno. Precisa aprender a viver mais no lado do céu, talvez. Quando chama o jornalista de palhaço está no inferno e sua vida pode se transformar num caos. Se for verdade que ele é “namorado de uma advogada”, como foi noticiado, suas falas ganham “espanto”. Mas quando ele fala das entranhas do Judiciário, em nítida transparência, ele vai para o céu. Falar o que se sabe e deve, mas ninguém fala é ponto positivo.
A sociedade precisará desse Batman, como ficou apelidado nas redes sociais, avocando uma autoridade moral para deitar falação da boa. Sua máscara de carnaval popularizada na festa deste ano não foi em tom de crítica, mas de aprovação. Há muitos vespeiros para serem tocados. Vamos ver quais o ministro vai escolher para mexer. Vem turbulência por aí. Vida longa a JB. Sem gelo, cowboy, por favor. Jean Menezes de Aguiar

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os 10 tipos mais chatos na internet

Ela é lindinha, mas diante de um chato, só com careta mesmo...


Os 10 mais chatos na internet, segundo pesquisa da loja britânica de artigos esportivos Sweatband:

1. Viciado em dieta e exercício - Acreditam que, por serem importantes, calorias perdidas merecem ser compartilhadas e cada novo exercício feito na academia é uma ótima oportunidade para uma foto.

2. Aficionados por comida - Não iniciam uma única refeição sem antes mostrar para todos os contatos que pizza de dois queijos e mel podem ser uma ótima combinação. Mas se for pão-de-queijo, a liturgia é respeitada também.

3. Polemistas de sofá - Postam mensagens vagas questionando seus contatos a entrarem em um interminável vórtice de opiniões duvidosas e fatos questionáveis.

4. Social gamers - Colocam lado a lado entre as prioridades a eleição do Papa e a doação de vaquinhas para a horta no Farmville. Se você não jogar, convite não falta.

5. Pais orgulhosos - Babões de plantão informam aos amigos, via rede, cada movimento dos filhos - desde o ultrassom.

6. Compartilhadores compulsivos - Não têm medo de dividir detalhes de suas vidas pessoais, um livro aberto, sem censura e com notas de rodapé picante.

7. Batedores de ponto - Dizem onde, quando e por quê estiveram em um estabelecimento comercial. Sempre. Dar ‘check-in’ é preciso.

8. Spammers de balada - Com eles, a vida é uma festa e você não pode perder. Por isso, enviam convite a todos - mesmo aos que não estão na mesma cidade ou no mesmo país.

9. Stalker Big Brother - Eles estão de olho. Em tudo. Comentam, curtem, compartilham e retuítam cada foto, atualização de status, post e novo recorde quebrado no Banana Kong.

10. Promotores de si mesmo - Donos de pequenos negócios que tratam amigos como clientes em potencial. Cada conversa é uma prospecção de negócio

A venda em loja

 


 
Artigo publicado no jornal O DIA SP, semana de 14.3.2013
 
                Pode-se sustentar que há diferenças entre negociação e venda. A venda seria um momento; a negociação um processo. A venda seria uma obtenção; a negociação uma relação. Em termos de “tamanho do processo”, a venda seria mais rápida e menos elaborada do que a negociação que exige, em praticamente todos os casos, elaborações, planejamentos e análises.

                É claro que houve influxos aí. Os conceitos acabaram se interpenetrando bastante. Há quem considere venda e negociação partes de um mesmo processo relacional. Toda venda envolve alguma negociação, mas nem toda negociação envolve uma venda. Pelo menos a venda de um objeto material, como um sapato, o que quero tratar aqui. Pode haver, claro, um “produto” envolvido na negociação, inclusive imaterial, como uma ideia, ou um serviço. Assim, negociação poderia ser considerada gênero de que venda seria uma espécie.

                A literatura especializada é extensa, apenas alguns: Eugenio Carvalhal e outros: Negociação e administração de conflitos; e Negociação - fortalecendo o processo. Carlos Alberto Carvalho Filho: A azeitona da empada - negociação em vendas. Brian Clegg: Negociação - como conseguir acordos com as pessoas já. Herb Cohen: Você pode negociar qualquer coisa - dicas do melhor negociador do mundo. Henrique Sérgio Gutierrez da Costa: Negociando para o sucesso. Barry Farber: Negócio fechado! 12 clichês de vendas que sempre funcionam. Roger Fisher, Willian Ury e Bruce Patton: A negociação de acordos sem concessões. G. Richard Shell: Negociar é preciso. Linda Kaplan Thaler e Robin Koval: O poder da gentileza.

                Em cursos de pós-graduação, como os que temos na FGV, nas disciplinas Negociação e Administração de Conflitos e Negociação Comercial, o assunto da “venda” no varejo, em loja, sempre aparece. Nossos alunos, diplomados em economia, administração, contabilidade, direito, engenharia etc., ocupam cargos de gerência e direção em todo tipo de empresa pelo país. Algumas princípios oriundos da observação rotineira parecem ser aceitos de uma forma bastante generalizada.


                Na venda de loja, uma situação valiosa é se tentar “conhecer” minimamente o cliente. Se ele, por exemplo, tem 50 anos de idade, vai a uma loja de ternos e diz ser um alfaiate, precisando de uma roupa pronta, qual deve ser a postura do vendedor? Será que o “treinamento” de “convencimento” para clientes “comuns” sobre pano, acabamento, costura, corte, maciez e qualidade terão, neste caso muita “importância”? Fica claro que o vendedor terá que relativizar o atendimento, afinal, este cliente parece saber bastante (ou muito mais do que o vendedor) daquele produto que está procurando.

                Nestas situações, se o vendedor tiver a humildade, ou será inteligência, de até pedir dicas sobre, por exemplo, porque o tecido de lã fria super 80 “espeta” na pele de alguns clientes e o super 200 não, poderá  ganhar a simpatia do cliente. E num mundo de loja em que não poucos vendedores são chatos, insistentes e minimamente especializados, a simpatia e a verdadeira gentileza podem somar muito.

                Outra situação é o cliente que mostra, inequivocamente, logo no início, que não gostaria de ser incomodado. O vendedor deveria “acreditar” nisso. Há um traço de personalidade do cliente aí. Ele não quer andar na loja com um vendedor-sombra em suas costas, tentando empurrar cada peça que ele olhe ou examine. Não quer ficar ouvindo que as peças que olha são “lindas” e ficam muito bem nele. Este cliente pode sair da loja falando mal da empresa. Este pode ser um passivo de imagem péssimo para um negócio. Não saber analisar rapidamente que tipo de cliente está na loja pode criar desastres assim.

                Se a máxima “o cliente tem sempre razão” vale alguma coisa, há que se respeitar (mesmo) a vontade do cliente. Ainda que o vendedor estranhe e não entenda alguma coisa. Há uma equação: quanto a habilidade do vendedor consegue convencer um cliente a comprar. Mas pode haver um efeito colateral: conseguir empurrar um produto que o cliente não queria gerará satisfação ou arrependimento posterior? A “criação de valor”, que tanto se discute não se resume a “inventar” um valor falso e momentâneo para gerar a compra e danem-se as consequências. Um analista de pós-venda pode identificar nessa estratégia uma vitória de pirro.

                Outra situação é a do vendedor que mente. Na loja da Rolex, na 5ª Avenida, em Nova Iorque, uma vendedora para lá de veterana em termos etários e completamente vaidosa por ser vendedora da Rolex praticou este pecado mortal. Um cliente conhecedor de relógios entrou na loja e gentilmente perguntou onde era a loja da Tudor, um relógio fabricado pela Rolex que tem a marca Rolex na pulseira. A vendedora informou que o Tudor nada tem que ver com a Rolex, é um relógio sensivelmente inferior e que praticamente estava descontinuado pela fábrica. Em tempos de internet, uma consulta ali mesmo, no smartfone do cliente, ao site da Tudor, já desmentiria a senhora nitidamente de má-fé.

                Em tempos de Google é perfeitamente possível imaginar que haja clientes que saibam o que está pedindo, querendo comprar. Mesmo que sua roupa ou aparência possam não condizer, nos padrões preconceituosos de muita gente com o que se quer vender. Isso já é um outro caso.

                O preconceito visual e de percepção em alguns casos beira ao patético. Sabe-se de uma milionária que entrou numa grande loja de grife em São Paulo e perguntou o preço de um vestido. A vendedora olhou-a de cima abaixo e disparou: esse vestido é muito caro para a senhora. A cliente respondeu: “embrulhe dois”. Não se sabe qual foi o destino da vendedora depois disso.

                Tanto a venda como a negociação requerem inteligência e rapidez de raciocínio, se é que não são o mesmo. Há um famoso tripé a ser estudado nos livros indicados: tempo, informação e poder. O livro “O poder da gentileza” também é uma excepcional ferramenta para a negociação e a venda. O caso é que existe a gentileza falsa e a gentileza verdadeira. Clientes inteligentes percebem a diferença sem dificuldade. Uma gentileza apenas “treinada” e pronta para se transformar em implicância ou desprezo, raiva ou antipatia quando o cliente apenas não compra, pode ser uma marca negativa indelével para uma loja.

                Compradores em potencial podem dar “sinais de compra”. Vendedores dão “sinais de venda”, assim está nos livros e vale conhecer todos. Mas uma empresa mal concebida pode ter sinais difundidos negativos de atendimento. Isso é o pior que há. Há cursos até de curta duração para gestores empresariais. Sempre valem à pena. Na dúvida, ser extremamente simpático e gentil é o melhor. Aí não há erro. Jean Menezes de Aguiar.