quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A impaciência

Tem coisa melhor que uma introspecção? Fala sério!

Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS, semana de 6.12.12

                Uma das formas de autoritarismo é a impaciência. O impaciente é, por essência, um pequeno ditador. Esta forma de egocentrismo deita raízes em uma desastrada educação infantil. Criado de forma mimada, o impaciente foi acostumado a ser atendido em tudo e na hora de sua manha. A obter o quanto berrasse, e incomodasse o mundo. O impaciente não sabe dividir, compartilhar. Dividir o tempo, o espaço, as expectativas, as oportunidades. Ele acha que a sociedade lhe deve dar a vez para que tudo ande no seu ritmo. Não no ritmo natural das coisas. Mesmo que ele, da vida, só tenha dinheiro e não saiba analisar ritmos e coisas.

                É previsível que nenhum impaciente reconhece seu defeito. Esta criatura parece ter um baixo nível de reflexão. Um filosofar mais acurado ser-lhe-ia um parto. Ou uma intangibilidade. Ele sempre tem uma desculpa de plantão, culpando, por transferência, seu semelhante. Talvez, uma das melhores maneiras de se identificar a impaciência seja no trânsito. A profissão me impôs, há décadas, viajar constantemente a todos os estados do país, sem parar. Numa observação assistemática, dá para se dizer que a classe média paulistana é uma das mais impacientes em trânsito urbano. Já o goiano na estrada parece bater todos os recordes de desespero automobilístico.

                Publiquei aqui, há anos sobre a buzina de 3 segundos, como uma forma impaciente de se buzinar. Tento mapear há muito tempo quem mais utiliza essa buzina nervosa, às vezes histérica: se homens ou mulheres. Omiti naquele artigo quem seria. É o mesmo gênero de motoristas que jamais dá a vez para alguém passar a sua frente. Homens ou mulheres? Observe e conclua. Esta impaciência, pela buzina, parece ser bastante urbana de São Paulo. Com um trânsito ao qual os sucessivos governos insistem em deixar caótico e uma sociedade bastante incapaz de gentilezas, se você reduzir a velocidade para tossir, por exemplo, o motorista que de trás buzina impiedosamente.

                Outra forma de impaciência é na estrada. Morei 10 anos em Petrópolis e trabalhava no Rio. Percorria diariamente os 60 quilômetros de estrada. Aprendi coisas. Uma delas é que quando a estrada está cheia, há um ritmo próprio, que até pode ser “dividido” entre as pistas da direita, mais lento, e da esquerda. Nesta situação de estrada cheia, a sanha da ultrapassagem, com a tal setinha da esquerda piscando – que modismo! –, simplesmente não funciona. A menos que alguém suponha que tem direito de pegar a pista da esquerda e centenas de carros à frente terem que sair para a “princesa” passar.

                Marilena Chaui arrola 3 situações em que a falta de educação urbana do paulistano de classe média transborda, ela fala em “selvageria”: a fila; o automóvel; e o espaço público em geral. A professora é lapidar. E a gradação pode ir de uma simples buzina nervosa à energúmena ultrapassagem pela direita no acostamento, em alta velocidade, expondo vidas em risco. Educação não é sinônimo de automóvel caro e sorrir bem arrumado na foto de Natal.

                Outra forma de impaciência é a aérea, ou de aviação. Parece que as alturas mexem com as bichas das pessoas. Quem viaja sempre de avião já reparou. Após taxiar e o avião chegar ao finger, a passarela telescópica de saída, parece que todo mundo é assolado por um desespero aeronáutico. Se você estiver na poltrona do corredor e se levantar para pegar a mala no teto é bom deixar um livro ou celular na poltrona, guardando lugar. Se não, o aflito da poltrona do meio corre para sentar no seu lugar. Certamente ele imagina que passou a ter direito porque, afinal de contas, você se levantou. Há mais.

                Se você estiver, por exemplo, na poltrona 20 e for educado, suporá que quem está nas 19 fileiras à sua frente tem o direito óbvio de sair de sua poltrona para pegar o corredor visando a sair da aeronave. Ledo engano. O ser aflito que vem imediatamente atrás de você, já lhe cutucando porque não sabe manter espaço em fila, tentará lhe empurrar ou lhe cutucar de novo para que não permita que outros passageiros entrem no corredor, afinal, a fila dele tem que obedecer ao ritmo dele, não ao da gentileza ou da educação.

                Isso sem se falar nos celulares que não são desligados sob as desculpas mais patifes do mundo. No desespero de precisar se falar com o mundo pelo celular até o último segundo possível, na decolagem; e já desde o primeiro segundo possível na aterrissagem. A impaciência se revela em todos os níveis de descontrole e falta de educação humana.

                Época de Natal; época de 25 de Março ou shopping; época de mais impaciência. As pessoas deveriam se programar para passear felizes em compras para o Natal, para seus entes queridos e amigos. Querer fazer surpresas, agrados e mimos. Mas não é isso que ocorre com uma maioria imensa. A impaciência baba pelo canto da boca. A mãe vai à loja com uma filha, isso eu vi, e na hora de pagar, põe a filha para “reservar” um lugar em outra fila. A fila que andar mais rápido recebe a que está na fila mais lenta. O nome disso é desonestidade (ética) com o mundo. Se essa mãe tivesse 5 filhos, poria um em cada fila. Essa mamífera ambulante não percebe que está violentando a educação do próprio filho, com um desastre ético.

                O antagonismo da impaciência é a gentileza, o carinho, o querer bem ao outro. Mas isso cada vez é mais raro numa sociedade consumista. Qual a saída? O pensar, a reflexão. Saber e perceber que uma vida impaciente é pior (muito pior!). Gera doenças, estresses, é um nítido sintoma de falta de inteligência. Mudar, a partir daí, será um sintoma de sabedoria. Tudo pode começar pela mera observação. Um exercício interessante é reparar as feições de quem é impaciente, pode ser no trânsito, nas filas etc. O impaciente invariavelmente tem uma feição contrita, fechada, reclamona e vive resmungando de muita coisa, o tempo todo. De novo, todo impaciente nega isso e consegue um milhão de desculpas, mas este ser é um transtorno vivo e ambulante.

                Se a inteligência vale para alguma coisa, deveria ser utilizada, com força, para se observar, concluir e tentar francamente mudar hábitos que são ruins ao próprio agente. Costumo dizer que adoro trânsito engarrafado, filas e ter que esperar pessoas. É verdade. Com essas situações, estudo, meu grande prazer. Outro dia escolhi ficar no aeroporto de Vitória de meio dia às 19 horas, sem qualquer problema, fazendo o que mais gosto de fazer: esperar. Quando se tem o que “produzir”, esperar é um prazer. Coisas são feitas, pensadas, escritas e adiantadas. Mas atenção: precisa ter prazer. Já com os impacientes, tudo é um problema. Uma vida assim deve ser bem ruim. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ex-amor

Eles voltam depois.

 Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) - 29.nov.2012

                Há um chavão por aí, bem comum, no sentido de que ex-amor é carta fora do baralho. Alguns, mais “violentos” chegam a assassiná-lo: chamam-no de “falecido”. Será? Como clichê, pode até impressionar. Mas a vida mostra situações bem diversas. Ulysses Guimarães que o diga. Após anos separado de sua Mora, acabou literalmente seus dias com ela, no trágico acidente. Inclusive certa vez respondeu a uma indagação da companheira dizendo que o amor máximo de um homem por uma mulher é morrer junto, quando ela se vai. O fatídico acidente se incumbiu da triste poesia.

                O que nos faz ser “humanos”? Aperfeiçoar instrumentos; identificar a tragédia; enterrar nossos mortos. Há diversas teorias. Mas a forma do amor que “inventamos” ao curso da evolução pode ser uma delas.  Aí entra o reapaixonar-se. Muitos o inadmitem, outros vivem a ideia.

Se a volta parece impossível para uns, não se pode achar que o seja para o resto da humanidade. Quando se fala em ex-amor, não se fala em ex-peguete, ex-ficante. Ex-amor é aquela pessoa que deu sonhos, planos e olhares de entrega. É claro que ex-ficantes podem voltar e até produzir amor, em outra época. Tudo é possível. Querer que “tudo” não seja possível é um defeito da maturidade.

                Também, a volta é legítima. Não se pode “julgar” alguém porque voltou com um ex-amor. Com a maioridade, que presume “juízo” nas pessoas, a própria vida é decidida por cada um. Sempre haverá bobalhões de 20 ou 30 anos obedecendo papai & mamãe. Mas isso não conta. Também haverá culturas atrasadas e religiões fundamentalistas que tentam domesticar o amor e adestrar o interesse do jovem. Quanta violência.

Com o espetacular livre arbítrio, esse traço maravilhoso da humanidade, relações amorosas podem ser retomadas desde que se decida assim, e ponto final. Há pesquisas mostrando que quando um casal volta, de verdade, o grau de separação posterior é ínfimo. Parece que voltar pode não ser o bicho papão ou uma burrice que muitos dizem ser.

                É claro que poderá haver voltas burras e trôpegas; sem o sonho do amor. Poderá haver também voltas arranjadas e convenientes. As voltas trôpegas, envolvendo o emocional, têm tudo para não dar certo. Já as voltas arranjadas, entre pessoas inteligentes que negociam com carinho e amizade uma situação de conforto mútuo podem dar certo, ainda que sem, aí, a tirania do amor. Exigir a “pureza” do amor como legitimador da relação pode ser um conservadorismo. Não poucos casamentos “de véu e grinalda” em altares elegantes mostram-se, visivelmente sem o grande amor. Uns andam, outros desandam.

                Às vezes um grande rompimento, por meses ou anos, serve como cura. Entram novas pessoas por direito e isto sereniza ciúmes e inseguranças. É como se ambos fossem equiparados a novos parceiros. Esta visão requer pessoas lúcidas e inteligentes, com boa-fé e amizade. Mas em muitos casos funciona.

                O fato é que certos desenhos da vida não são feitos pela mão do homem, mas exclusivamente pelo destino. Doenças, acidentes, perdas, mudanças etc. A vida dá voltas, algumas desconcertantes e não se estar preparado para elas, aí sim é alguma falta de maturidade. Ex-amores também se apaixonam por outrem e se vão de vez. O destino prega peças.

Numa relação de volta, a boa-fé, a amizade e a franqueza amorosas parecem ser, no mínimo, o grande dínamo de força e energia para o sucesso. Sucesso aí será uma relação na qual uma mínima harmonia gostosa de se viver impere e gere alguma felicidade.

Filósofos da atualidade como Roland Jaccard (Entrevistas do Le Monde – O indivíduo, p. 7),  mostram que “O homem da época moderna, quando não é esquizofrênico, é basicamente esquizoide.” Utiliza palavras-chaves como “solidão, tédio, melancolia e desgosto”. Também, paradoxalmente, paramos de nos comunicar “verdadeiramente” com o próximo-aqui. Pessoas no bar, por exemplo, não conversam entre si, mantêm relações secretíssimas no celular. Impera esta modalidade gritante de falta de educação. É como se o amigo “aqui” já estivesse “faturado”; vou tentar faturar o que está distante. Essa gula consumista criou novas formas de “ficar”, namorar, viver e sentir. Criou também novas formas de voltar. Descarta-se o amor com muito mais facilidade em troca de um projeto até híbrido, para esta noite, este final de semana, ou até o Carnaval. É a sociedade do desespero.

Com a invenção da solidão em massa, disfarçada em bares de pegação instantânea, talvez o ex-amor possa ser uma “garantia” de bom convívio. O defeito já conhecido do outro pode passar a ser “bonito” se cuidado de uma forma mais afetuosa ou diferente. A intimidade gera beleza. Mas só o tempo pode mostra que cara terá essa volta; se é de verdade ou não. O cinema já cansou de mostrar voltas, de todos os jeitos. A volta é uma realidade, pode ser algo muito inteligente, se manejada com sinceridade e carinho.

Isto não quer dizer que a vida não deva “andar”; a expressão popular de a “fila anda”. Separações, como tudo, devem ser vividas naturalmente, sem artificialismos. Dores também são para serem sentidas e racionalizadas de frente. Uma coisa que não adianta aí são fingimentos, escapismos ou disfarces. Se houver um novo amor ou novo interesse que se viva intensamente. Se não houver, que se viva o hiato com amigos queridos e agarrados. O colo é poderoso. Mas se houver a cogitação da volta, se for razoável, verdadeira e o coração quiser, não há o menor problema e os mesmos amigos devem ter a sensibilidade de orientar com harmonia.

                Como já diziam Aldacir Louro, Aloísio Marins e José Macedo, autores da marchinha de carnaval de 1957, “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”. Na teoria da volta, se a pessoa sonhar, pode estar diante de um “novo” amor, e a volta pode ser um grande e belo presente do destino. Jean Menezes de Aguiar

sábado, 24 de novembro de 2012

CBF autoritária

O presidente da CBF "guardando" uma medalhinha pra ele. Que tragédia...


A CBF não se pertence totalmente, no sentido de que teria direito a decisões imbecis ou patéticas de forma impune. Pode tomar as tais decisões, mas sofrerá no mínimo a consequência de ser vista como uma entidade não inteligente e, no caso da demissão de Mano Menezes, autoritária e ditatorial. Essa visão acusativa pertence legitimamente ao povo brasileiro como torcedor primeiro dos destinos, tinos e desatinos dessa entidade. Mano Menezes era odiado por parte significativa da imprensa, tudo bem. A imprensa fez de tudo para ridicularizá-lo e expô-lo covardemente à execração pública. Mas paralelamente todos opinaram que a seleção estava muito melhor. O último jogo justamente com a Argentina deu alegrias a todos os brasileiros. Curioso é que os mesmos Galvões Buenos e outros que tanto elogiaram Mano, agora se calam. Rei morto rei posto. Uma ova. “Exigimos” (que infantilidade a minha, exigimos, como se a minha sociedade fosse politizada e exigisse alguma porra) uma explicação da CBF. Romário tá feliz. Mas que se dane Romário. Essa decisão da CBF foi uma lástima. A menos que alguém apresente uma explicação objetiva e concreta, tenho o direito de xingar à vontade essa CBF.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Direito pela TV

Jurista alemão prof. Claus Roxin

Artigo Publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS - 22.nov.12


                O Supremo Tribunal Federal é, salvo engano, a única corte judicial do planeta a se mostrar, ou se expor, pela TV em julgamento ao vivo. Chamam isso de “transparência”. Pois é, modismos são assim. A sociedade cobra, exige e quer usar até o osso. Pode ser. Mas essas demonstrações descaradamente midiáticas têm efeitos. Talvez hoje haja juízes do Supremo com um gosto ruim na boca do tipo o tiro saiu pela culatra. Ou, que monstro criamos?

O STF não se tornou sociologicamente pop, como talvez supusessem. Foi “apropriado” de forma mundana e legítima por uma sociedade sedenta, dessas que se deixar, lincha o suspeito. Que somos bestiais assim já sabemos. Esse STF também precisa se preparar para, então e quando esta mesma sociedade quiser, ser linchado. Chamar isso de transparência talvez seja um preço alto, não por uma suposta intocabilidade da corte, mas pela ameaça ao Direito que pode representar. Aí o problema.

Imagine-se, em nome da mesma “transparência”, transmitirem-se, de hospitais públicos, cirurgias ao vivo para a população. Será que a Medicina também “pública” o admitiria? Publicidade jurídica, processual, prevista na Constituição e Códigos de Processo é uma coisa, TV é outra.

            Dois efeitos dessa tal transparência se mostraram venenosos. Efeitos ao mesmo tempo sociologicamente interessantes e juridicamente nevrálgicos.

O primeiro é a possibilidade de os julgamentos televisionados representarem uma floresta de árvores para a fogueira faminta da imprensa. Com a habilidade, técnica e uma pitada óbvia de sensacionalismo, a grande imprensa & jornalões facilmente transformam simples debates em crises institucionais; burocráticas recusas de depoimento de um réu em desrespeito à Justiça; presunção constitucional de inocência em afronta ao Judiciário, e vendem isso.

                É claro que o viés midiático dos julgamentos televisionados fornece uma lenha não apenas ao povo em geral que “lerá” de forma simples o fato social transmitido. Quem receberá esse mesmo fato será o jornalista, profissional que buscará em entrelinhas, coisas que não foram ditas, ou, pior, que ele imagina que não o foram. Nesta receita, entretanto, entra um ingrediente dos mais complexos que é o próprio Direito. Muitos sem um “mínimo” de estudo no Direito (para não falar “formação”) não conseguem distinguir denúncia ou recebimento, substantivos, com denúncia e recebimento da denúncia, atos processuais. Como outros também “querem” se horrorizar com o direito do réu de permanecer calado.

                Haverá daí informações imprecisas no campo do Direito, equívocos sendo difundidos. Ou por ignorância jurídica ou, o que é pior, por descarada ideologia. Não são poucos os intelectuais e pensadores seniores que vêm trabalhando com a hipótese de a mídia ter conseguido forçar o STF a condenar no Mensalão.

O segundo nefasto efeito se dá por uma apreensão do Direito de forma popular e atécnica. Não há aqui qualquer bobajada de “reserva de mercado”. A febre das faculdades de Direito no país chegou a mais de 1000; só em SP são inacreditáveis 200. Ou seja, qualquer um pode fazer um cursinho ou um cursão. Ou estudar a sério e não difundir bobagens. Mas parece que a difusão não se dá pelo tônus da pura ignorância. O Direito complexo, epistemológico, científico, interpretado, zetético, principiologizado é sobremaneira difícil mesmo a profissionais com pouco estudo. As salas de aula de pós-graduação o comprovam. Que se dirá de pessoas alheias a essas técnicas com detalhes tão profundos?

                O triste episódio recente Folha de São Paulo x Professor Claus Roxin bem o demonstra. O famoso mestre alemão veio ao Rio para receber o título de doutor honoris causa da Universidade Gama Filho, quando foi entrevistado. Suas palavras foram tão deturpadas na imprensa, em falsos e proveitosos contextos sobre o Mensalão, que ele precisou mandar da Alemanha uma nota de esclarecimento, em 18/11/2012. Ou seja, uma vergonha brasileira com um velho professor ilustre que jamais quis se intrometer em assuntos do STF, Mensalão e Zé Dirceu e turma.

                Parece ter se tornado hábito essa “apreensão” do Direito pela imprensa, sendo o saldo lastimável. O pior é que do jeito que é apreendido, é difundido. O repórter Marcelo Rezende, por exemplo, pugna todo dia em seu programa pela pena de morte e prisão perpétua. Só cabe isso por meio de uma nova Constituição, hipótese tão absurda que parece golpe, uma palavra odiosa.

                Sempre comparei Direito à Medicina. São as duas maiores bibliotecas existentes no mundo. O Brasil chegou a ter um jurista como Pontes de Miranda que escreveu uma coleção com 61 volumes e outras várias com 15, chegando a ser considerado equivocadamente por argentinos como pessoa jurídica, de tanto que produzia. Aí qualquer um por aí pega isso tudo e “opina”, leve e solto.

                Uma coisa precisa ser repetida, nessa onda de sociedade pós-moderna à qual parece se poder tudo. Não se labora aqui com qualquer ideia de reserva de mercado. Qualquer um pode legítima e democraticamente se “apropriar” do conhecimento jurídico. Basta estudar. Não há necessidade de cursos ou formação. Galileu fugiu da faculdade e era um gênio. Mas há que se ser um gênio ou, pelo menos, não dizer bobagens de uma área específica, como se tem lido e ouvido todo dia no caso do Mensalão.

                 A responsabilidade de quem possui “palavra pública”, quem produz para a massa, passa por duas vertentes: ou ignorância ou ideologia. As grandes bobagens, estultices ou obscenidades ideológicas são até aceitas, afinal quis-se assim, e o agente assume. Mas isso não pode estar camuflado de conhecimento técnico, objetivo e imparcial. O filósofo Paul Feyerabend dizia que a razão é apenas uma das agências e há outras, como a bruxaria e a crendice. Mas foi voz isolada. Será que no Brasil queremos uma sociedade enganada por difusões malandras, ideológicas e safadas, e ainda mais travestidas de “jurídicas”? Este não é o Direito que ensinamos, nem no básico nem em cursos avançados.  Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Negociação extrema


Como se bandidos brasileiros tivessem uma Glock
 
 
Artigo publicado na semana de 15 nov, nos jornais O Dia SP e O Anápolis

Há alguma negociação possível com bandidos, dentro do instante criminoso, seja um assalto, seja sequestro. Parece surreal, mas há. Em cursos de pós-graduação da FGV temos a disciplina Negociação e Administração de Conflitos que, naturalmente, não se dedica a esse tema. Mas negociadores profissionais tiramos lições da literatura especializada e da vida. O assalto é um conflito extremo. Quem não conhece nada do crime e não lida com negociação resiste à ideia; cria um bloqueio simplista, diz que nada adianta. Entretanto a primeira forma de negociação é não reagir. Isso não quer dizer um comportamento congelado de pânico, mas um comportamento calculado. Diferentes pessoas, diferentes reações, algumas criativas e geniais.

O ato criminoso tem que ser totalmente evitado para não existir nunca. Um único ato criminoso pode ser fatal. Ou deixar uma sequela eterna: um estupro. Só a prevenção inteligente reduz o risco. Três coisas ornam a cabeça do idiota: ele acha que sabe tudo; tem resposta para tudo; e zomba das técnicas. Deixe esse infeliz de lado. Analistas seniores mostram que não há limite de cuidado e investimento com segurança, trata-se da vida. Isso não quer dizer se tornar um neurótico ou um recluso. Há o equilíbrio inteligente.

Uma negociação, dificílima, é algum diálogo ao nível do bandido. Primeiro há que se observar quem ele é. Malandros de rua e boêmios inveterados, por exemplo, que não são bandidos, costumam usar boas malandragens para escapar bem de assaltos. As histórias são inúmeras. Alguns bandidos gostam de ser “respeitados”, ou como se diz, um “papo responsa”. A atitude “cínica” de não reagir, querendo “comprar” o bandido com os bens às vezes não dá certo. Há registros de assaltantes se irritarem com o que acham “superioridade” da vítima.

Roberto Ohana, advogado carioca, conta que há muitos anos estava num ônibus quando entrou um grupo de bandidos em assalto. Foram nos passageiros pegando tudo. Quando um chegou nele, ele estava olhando para fora do veículo. Chamado pelo bandido virou-se e disse firme: pô cara, sou advogado da rapaziada! O sujeito então virou-se para o comparsa adiante e avisou alto: olha aí, o cara aqui tá limpo. Assaltaram todos, menos ele. Isto foi uma “negociação” de sucesso.

Com advogados que militam no crime há inúmeros casos assim. Diálogos inteligentes com alguma “aderência” estabelecem certa “consideração” ou “respeito”. Em muitos casos funcionam. Antigamente havia profissões “protegidas”. Padres, médicos e professores, sem falar no próprio advogado, apelidado de Alívio, nas prisões. Muito mudou e as “éticas” envolvidas também. Há quem não goste dessa realidade, mas ela existe.

Em livros de negociação e administração de conflitos, há 5 atitude estudadas a se tomar diante de um conflito: fuga ou indiferença; amaciamento ou acomodação; uso do poder ou dominação; barganha ou compromisso; cooperação ou integração. É claro esses livros não tratam do crime. Mas lições podem ser tiradas daí. Como a boa e velha sabedoria popular. Qualquer morador de favela dominada pelo tráfico, por exemplo, precisou aprender a transitar no meio de forma impune. Ouvir um desses moradores, em alguns casos, é uma aula de vida, afinal eles sobrevivem.

No evento criminoso, observar e não perder a lucidez são coisas necessárias para a vítima. Isso pode permitir algum diálogo inteligente. A palavra de ordem é só uma: frieza. Ainda que seja difícil. Viver assim é “neurótico”, diriam alguns, mas em cidades doentes como São Paulo, por exemplo, é o preço. E o pior, as tais cidades pacatas começam a desaparecer.

Algumas personalidades ou caricaturas podem ser lembradas para se imaginar reações. De um lado o malandro, o enturmado, o acostumado a rodas de rua e botequim, o boêmio, o artista de rua, o camelô, o usuário de gírias e palavrões e os profissionais que lidam com esses, sejam professores, advogados etc. De outro lado, o engomadinho, o formalista, o assustado, o autoritário, o conservador, o preconceituoso, o reacionário. Se o primeiro grupo se “assusta” menos, o segundo destila ódio reativo, com olhares visíveis de reprovação, o que pode ser perigoso. Por fim, não se quer dizer que uns aceitem bandidos e outros não. Levar para esse lado seria mais um simplismo.

Muita gente não admite a ideia de que alguns bandidos aceitam alguma conversa. É lógico que é o bandido que dá as cartas no assalto, mas em certos casos há chances de conversa. Há uma cartilha nos Estados Unidos para a mulher tentar evitar o estupro, usando um grande alfinete que leva preso à roupa. Há quem “zombe” disso, ou, de novo, diga que não adianta nada. Mas as pessoas que pensam em soluções são mais inteligentes que as que desacreditam tudo. Medidas preventivas sempre auxiliaram e geraram resultados ótimos. Além de a pessoa se sentir vitoriosa quando dá certo.

Uma síntese. Pontos negativos em residências: 1. situadas à beira de avenidas com fáceis rotas de fuga; 2. com mulheres no interior o que pode gerar estupros; 3. sem um alarme mudo e secreto que acione um vizinho; 4. sem vizinhança perto; 5. sem um “quarto de pânico”, para abrigar a família em caso de invasão. Os mitos pensados pelo idiota: 1. todo sistema de segurança é burro, nada adianta; 2. todo sistema de segurança atrai bandidos; 3. quando o bandido quer entrar, não tem jeito; 4. Um simples revólver ou espingarda transforma um bom pai de família num arguto e treinado caçador de bandidos. Há uma certa ode popular em pintar o bandido como alguém invencível e inteligente, o que não é verdade. Bandido brasileiro, esses de assaltos e sequestros, continua sendo uma anta falante, mal alimentado, mal criado, pobre e burro, vive sendo preso nas condições mais primárias e patéticas além de cometer crimes idiotas.
 
Por fim, quando se fala em segurança e negociação aqui, não se fala, obviamente, nos extermínios que têm havido em São Paulo. Esses eventos têm outras características, como rapidez e morte premeditada. Nem policiais treinados e armados têm conseguido escapar disso. Comparar situações incomparáveis é próprio do sujeito simplista. A pessoa inteligente busca se informar, aprender, mudar e agir. Basta um único evento ruim para se deparar com a tragédia. As palavras são prevenção, frieza e negociação, e evitar a todo custo o “fator surpresa”, esse o erro maior de quem acha que “tudo é bobagem”. Jean Menezes de Aguiar.
 

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quase Poesia




Semana passada (9.11.12) o pessoal da Antaq, em Brasília, me convidou prum Sarau Cultural com poesias. Não pude ir, estava cansado mesmo, mas eles o sabem. Publico aqui, pra esses amigos (alguns já no meu Facebox), o que levaria pra eles, uma gente brasileira modesta e trabalhadora que cuida de rios e embarcações, e muito mais, onde esperanças são deslizadas e uma gente humilde tanto precisa deles para lhes cuidar a segurança do navegar, como quase que cuidar de suas vidas. O Sarau foi um sucesso; eu levaria isso com um beijo para todos:


    “Derrete dela, para mim, como se me tocasse
     Passasse num caminho em que eu estivesse
     Aquecesse pela fervura meu corpo que não se aquece
     E eu melasse a boca na água do seu corpo que me enlouquece.

     Contenho-me em não me perder e dar o nome dela
     Que meu coração insiste e não esquece
     Ele próprio se aguando se derrete
     Indo-se de mim atrás dela, agora peito vazio que já não me aquece.”

                                                                                                                         JMA

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Classe média, educação baixa

Classe média. É média, não pode ser imensa...


 Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) 8.11.12


                Recebi da arquiteta e cenógrafa mineira Giselle Morais, convertida a paulistana há anos um e-mail com o vídeo da filósofa paulista Marilena Chaui em memorável encontro na USP intitulado Ascensão Conservadora. Um presentão. Está no Youtube. Chaui está ótima, por vezes cínica, leve e tempestuosa. Certeira contra essa classe média, como ela mesmo ensina: conservadora e agressiva.

                Conta a professora titular da USP que não consegue juntar a comportada civilidade na vida doméstica dessa classe média de São Paulo com o grau de brutalidade e autoritarismo na vida pública. Cita um amigo que diz que a classe média paulistana é um “mistério”: convida amigos e recebe bem. Mas basta 1) subir num carro; 2) entrar numa fila; ou 3) estar em algum espaço compartilhado que se transforma em “bestas selvagens”. Exata a leitura. A pensadora conta um episódio havido com ela em que o sujeito estaciona o veículo ocupando três vagas à porta de um caixa eletrônico e, questionado, responde: - você acha que vou estacionar meu Mercedes em qualquer lugar? De aí há um bate-boca, claro “conduzido” pela intelectual, em que a estupidez do só-riquinho vê-se sua purulência. Chaui remata: “Igual a São Paulo não há. É uma coisa de uma violência extrema”.

                Esse gancho vindo de uma das deusas da filosofia brasileira bem pode se juntar ao recém falecido Eric Hobsbawn (A era dos extremos, p. 24), quando registra: “Essa sociedade, formada por um conjunto de indivíduos egocentrados sem outra conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação (o lucro, o prazer ou seja lá o que for) consubstancia uma característica sempre implícita na teoria capitalista.” Que preocupante a sociedade atual merecer, com toda razão, essas leituras de estupidez, violência e egoísmo.

Daí se tiram traços críticos em educação, ética, sociedade, consumismo, conservadorismo, falta de sabedoria etc. Também se tiram comparações ou projeções. Não é de todo errado dizer que de São Paulo são “exportados” visões e valores para algumas “províncias” – cidades pequenas, ou grandes, do país. Sempre foi assim, quem tem “poder” é imitado. Mas em relação a imitações, emendas costumam sair piores que sonetos.

                O Rio de Janeiro já “foi” a capital cultural do país, quando cultura não representava “indústria” cultural. Naquele Rio, de tijolo maciço e pedras, há a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras, o Arquivo Nacional, o Museu Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Theatro Municipal, além de ter sido a capital da República. Mas aí um consumismo pré-fabricado sentenciou que capital cultural é sinônimo de dinheiro para “produção” de eventos, casas de shows etc. Mesmo que de gosto duvidoso. Bem, na questão dinheiro, o Rio é “falido” se comparado à São Paulo das nouveaux riches Ferraris e mais carros blindados do mundo. O problema é que essa dimensão de cultura estuprada pelo vil metal quase que fez o próprio conceito de cultura “mudar”. Passar a ser uma produção industrializada e não mais “um modo de resumir as maneiras distintas dos grupos”, conforme o sociólogo Michael Denning.
               
                Do mesmo jeito que o dinheiro arrombou a cultura, tornando-a “fácil” e imediata – basta ter dinheiro –, embruteceu a ética, a educação, a convivência, a gentileza e o olhar de afeto para o outro. É claro que também embruteceu o romantismo, o encanto e o próprio amor. Não que o dinheiro seja uma coisa ruim, é óbvio que não é, mas quando o seu poder de dano e corrupção de valores se mostra espumoso em conceitos e sentidos humanos, aí os próprios conceitos se mostram socialmente doentes. É nesta fenda teórica que sociólogos como Zygmunt Bauman escrevem livros como Amor líquido e Vida líquida.

                Talvez o problema nem esteja em cidades já “decaídas” como Rio ou São Paulo, em termos de parirem suas bandidagens a seus modos. O tráfico carioca; o trânsito-com-motoboy paulistano; e a estupidez de uma classe média conservadora e violenta como ensina Chaui. Essas sociedades que se danem, berrará o intelectual desesperançado com um “conserto”. O problema é quando esse baixo clero axiológico chega a cidades que macaqueiam São Paulo sem ser São Paulo. Se o poder paulistano lhe garante certa blindagem, a ausência desse mesmo poder noutros lugares expõe um outro viés patético, que é o ridículo da imitação: o eu não quero ser eu, quero ser ele.

                É por exemplo a mocinha “totalmente” bonitinha, esticadinha, magrinha, grudada num celular brilhante-rosáceo, em seu carrão, “naturalmente” produzida e louro-alisada num preparo que leva semanas, com um andar altivo e, claro, autoritário e conservador. Reacionário. Esse modelito tem se repercutido para províncias são-pauliformes. Pode-se até arriscar que o próprio ridículo seja mais aceitável numa sociedade naturalmente ridícula, do que numa apenas desejosamente ridícula. A síntese é que essas últimas, interioranas, têm “salvação”. Aqui começo a apanhar dos antropólogos, se é que a surra não começou lá em cima.

                A chamada classe média enfrenta diversas visões. A primeira é que há um disfarce cínico. Muitas vezes quando se fala em classe média se está mentindo descaradamente: fala-se numa elite poderosa que de média tem pouco. Aí o mesmo Denning (A cultura na era dos 3 mundos, p. 228) “confirma” Chaui: “As elites capitalistas não são partidárias da democracia”. Ora, onde não há desejo democrático há a vontade de a minha escolha ou valor valerem mais do que o do outro. Entram em cena o autoritarismo e a violência.

                Não há de o que se orgulhar de uma classe média, ou elite que seja, com esses padrões conservadores e violentos como os descritos por Chaui. O interessante é que esses senhores e senhoras se dizem educados e polidos. Acham que saber ler palavras em inglês ou possuir um carrão faz de qualquer um uma pessoa educada. Não faz. Educação é dar a vez com prazer. Educação é saber esperar com paciência e sem zanguinhas. Educação é reclamar menos por tudo. Educação é negociar em vez de “procurar os direitos”. Educação é querer bem ao outro. Educação é afeto gratuito. Educação é ensinar ao filho mimadinho que ele não é o umbigo do mundo e que se berrar incomodará sim os outros.

Para ser simplista e rápido, o nó górdio está na educação. A crise da classe média, dos mocinhos e mocinhas irritadiços em seus carrões passa diretamente por aí. O problema é que grande parte da classe média entende que educação é conquistar dinheiro; cargos em empresas; cursos da moda; tudo para comprar o tal do carrão e poder estacioná-lo ocupando três vagas. Aí quando são lidos como conservadores, reacionários e violentos, ou estúpidos e boçais, abrem um sorriso semi-nervoso de negação. Mas o príncipe não se faz pela roupa, pode estar aos trapos e sentado ao meio fio, será príncipe. Chaui é a nossa vingança. Jean Menezes de Aguiar.