terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quase Poesia




Semana passada (9.11.12) o pessoal da Antaq, em Brasília, me convidou prum Sarau Cultural com poesias. Não pude ir, estava cansado mesmo, mas eles o sabem. Publico aqui, pra esses amigos (alguns já no meu Facebox), o que levaria pra eles, uma gente brasileira modesta e trabalhadora que cuida de rios e embarcações, e muito mais, onde esperanças são deslizadas e uma gente humilde tanto precisa deles para lhes cuidar a segurança do navegar, como quase que cuidar de suas vidas. O Sarau foi um sucesso; eu levaria isso com um beijo para todos:


    “Derrete dela, para mim, como se me tocasse
     Passasse num caminho em que eu estivesse
     Aquecesse pela fervura meu corpo que não se aquece
     E eu melasse a boca na água do seu corpo que me enlouquece.

     Contenho-me em não me perder e dar o nome dela
     Que meu coração insiste e não esquece
     Ele próprio se aguando se derrete
     Indo-se de mim atrás dela, agora peito vazio que já não me aquece.”

                                                                                                                         JMA

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Classe média, educação baixa

Classe média. É média, não pode ser imensa...


 Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) 8.11.12


                Recebi da arquiteta e cenógrafa mineira Giselle Morais, convertida a paulistana há anos um e-mail com o vídeo da filósofa paulista Marilena Chaui em memorável encontro na USP intitulado Ascensão Conservadora. Um presentão. Está no Youtube. Chaui está ótima, por vezes cínica, leve e tempestuosa. Certeira contra essa classe média, como ela mesmo ensina: conservadora e agressiva.

                Conta a professora titular da USP que não consegue juntar a comportada civilidade na vida doméstica dessa classe média de São Paulo com o grau de brutalidade e autoritarismo na vida pública. Cita um amigo que diz que a classe média paulistana é um “mistério”: convida amigos e recebe bem. Mas basta 1) subir num carro; 2) entrar numa fila; ou 3) estar em algum espaço compartilhado que se transforma em “bestas selvagens”. Exata a leitura. A pensadora conta um episódio havido com ela em que o sujeito estaciona o veículo ocupando três vagas à porta de um caixa eletrônico e, questionado, responde: - você acha que vou estacionar meu Mercedes em qualquer lugar? De aí há um bate-boca, claro “conduzido” pela intelectual, em que a estupidez do só-riquinho vê-se sua purulência. Chaui remata: “Igual a São Paulo não há. É uma coisa de uma violência extrema”.

                Esse gancho vindo de uma das deusas da filosofia brasileira bem pode se juntar ao recém falecido Eric Hobsbawn (A era dos extremos, p. 24), quando registra: “Essa sociedade, formada por um conjunto de indivíduos egocentrados sem outra conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação (o lucro, o prazer ou seja lá o que for) consubstancia uma característica sempre implícita na teoria capitalista.” Que preocupante a sociedade atual merecer, com toda razão, essas leituras de estupidez, violência e egoísmo.

Daí se tiram traços críticos em educação, ética, sociedade, consumismo, conservadorismo, falta de sabedoria etc. Também se tiram comparações ou projeções. Não é de todo errado dizer que de São Paulo são “exportados” visões e valores para algumas “províncias” – cidades pequenas, ou grandes, do país. Sempre foi assim, quem tem “poder” é imitado. Mas em relação a imitações, emendas costumam sair piores que sonetos.

                O Rio de Janeiro já “foi” a capital cultural do país, quando cultura não representava “indústria” cultural. Naquele Rio, de tijolo maciço e pedras, há a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras, o Arquivo Nacional, o Museu Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Theatro Municipal, além de ter sido a capital da República. Mas aí um consumismo pré-fabricado sentenciou que capital cultural é sinônimo de dinheiro para “produção” de eventos, casas de shows etc. Mesmo que de gosto duvidoso. Bem, na questão dinheiro, o Rio é “falido” se comparado à São Paulo das nouveaux riches Ferraris e mais carros blindados do mundo. O problema é que essa dimensão de cultura estuprada pelo vil metal quase que fez o próprio conceito de cultura “mudar”. Passar a ser uma produção industrializada e não mais “um modo de resumir as maneiras distintas dos grupos”, conforme o sociólogo Michael Denning.
               
                Do mesmo jeito que o dinheiro arrombou a cultura, tornando-a “fácil” e imediata – basta ter dinheiro –, embruteceu a ética, a educação, a convivência, a gentileza e o olhar de afeto para o outro. É claro que também embruteceu o romantismo, o encanto e o próprio amor. Não que o dinheiro seja uma coisa ruim, é óbvio que não é, mas quando o seu poder de dano e corrupção de valores se mostra espumoso em conceitos e sentidos humanos, aí os próprios conceitos se mostram socialmente doentes. É nesta fenda teórica que sociólogos como Zygmunt Bauman escrevem livros como Amor líquido e Vida líquida.

                Talvez o problema nem esteja em cidades já “decaídas” como Rio ou São Paulo, em termos de parirem suas bandidagens a seus modos. O tráfico carioca; o trânsito-com-motoboy paulistano; e a estupidez de uma classe média conservadora e violenta como ensina Chaui. Essas sociedades que se danem, berrará o intelectual desesperançado com um “conserto”. O problema é quando esse baixo clero axiológico chega a cidades que macaqueiam São Paulo sem ser São Paulo. Se o poder paulistano lhe garante certa blindagem, a ausência desse mesmo poder noutros lugares expõe um outro viés patético, que é o ridículo da imitação: o eu não quero ser eu, quero ser ele.

                É por exemplo a mocinha “totalmente” bonitinha, esticadinha, magrinha, grudada num celular brilhante-rosáceo, em seu carrão, “naturalmente” produzida e louro-alisada num preparo que leva semanas, com um andar altivo e, claro, autoritário e conservador. Reacionário. Esse modelito tem se repercutido para províncias são-pauliformes. Pode-se até arriscar que o próprio ridículo seja mais aceitável numa sociedade naturalmente ridícula, do que numa apenas desejosamente ridícula. A síntese é que essas últimas, interioranas, têm “salvação”. Aqui começo a apanhar dos antropólogos, se é que a surra não começou lá em cima.

                A chamada classe média enfrenta diversas visões. A primeira é que há um disfarce cínico. Muitas vezes quando se fala em classe média se está mentindo descaradamente: fala-se numa elite poderosa que de média tem pouco. Aí o mesmo Denning (A cultura na era dos 3 mundos, p. 228) “confirma” Chaui: “As elites capitalistas não são partidárias da democracia”. Ora, onde não há desejo democrático há a vontade de a minha escolha ou valor valerem mais do que o do outro. Entram em cena o autoritarismo e a violência.

                Não há de o que se orgulhar de uma classe média, ou elite que seja, com esses padrões conservadores e violentos como os descritos por Chaui. O interessante é que esses senhores e senhoras se dizem educados e polidos. Acham que saber ler palavras em inglês ou possuir um carrão faz de qualquer um uma pessoa educada. Não faz. Educação é dar a vez com prazer. Educação é saber esperar com paciência e sem zanguinhas. Educação é reclamar menos por tudo. Educação é negociar em vez de “procurar os direitos”. Educação é querer bem ao outro. Educação é afeto gratuito. Educação é ensinar ao filho mimadinho que ele não é o umbigo do mundo e que se berrar incomodará sim os outros.

Para ser simplista e rápido, o nó górdio está na educação. A crise da classe média, dos mocinhos e mocinhas irritadiços em seus carrões passa diretamente por aí. O problema é que grande parte da classe média entende que educação é conquistar dinheiro; cargos em empresas; cursos da moda; tudo para comprar o tal do carrão e poder estacioná-lo ocupando três vagas. Aí quando são lidos como conservadores, reacionários e violentos, ou estúpidos e boçais, abrem um sorriso semi-nervoso de negação. Mas o príncipe não se faz pela roupa, pode estar aos trapos e sentado ao meio fio, será príncipe. Chaui é a nossa vingança. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Revisão da menoridade penal


 Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) 25.out.12

                Há uma famosa “direita penal”. Grandes estudiosos do direito como Nilo Batista, já mostraram as faces e as máscaras dessa corrente. Se há uma modernidade e um atraso; um progresso e um conservadorismo, a direita penal sempre representou o atraso. Para criminalidade pensam em presídios, em vez de educação. Para estupros, pensam que a mulher provoca ou se insinua e por isso tem culpa. Para violência do tipo Carandiru, querem violência e não inteligência. Para drogas e seus doentes, querem punição, em vez de tratamento e educação. Sobre a pena de morte, nem precisa dizer que se derretem a favor.

                Ditadores, conservadores e reacionários em geral sempre se refestelaram nas categorias icônicas da direita penal. Ora sob uma desculpa, ora sob outra. O direito mundial caminhou em direção a uma melhor garantização da pessoa humana. Proteção, educação, reabilitação, atenção e considerações compuseram todas as constituições dos países avançados. Mas quando não se resolve uma questão social pela educação o atalho mais cínico e fácil a governantes imediatistas é construir prisões e agravar as penas do sistema jurídico.

                Fui aluno de Alyrio Cavallieri, hoje com 92 anos, chamado de “O anjo protetor das crianças” pelo Jornal do Brasil. Com esse internacionalmente conhecido jurista especializado em direito do menor se aprendia que a menoridade deveria ser aumentada e não reduzida. Era um espanto, mas o ensinamento era totalmente sedutor e lógico, no sentido de que um jovem com 19 anos, por exemplo, ainda pode ser reeducado e consertado. E é verdade. Mas talvez no Brasil do consumo e da crise ética, o mero passar do tempo corroeu alguns sonhos e teorias. A brutalidade bateu às portas e vitimou maciçamente. Mata-se pelo tênis, pelo dinheiro dos próprios pais, pelo ciúme da namoradinha. Inventou-se a morte sem motivo, vácua, ou a morte por diversão.

                Esse despudor ganhou status de educação criminosa. O ótimo filme Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, documentário sobre o tráfico no Rio, mostra a infância pré-perdida. Meninos de 9, 10 anos de idade iniciados no manejo de matar.

                Recente pesquisa de um letárgico Senado Federal que praticamente nada produz, mostra 89% da população a favor de se reduzir a menoridade penal. Mas tudo fica muito na classificação do “achismo”, da “achologia” e dos “achólogos”, palavras do mesmo Cavallieri. Nessa pesquisa feita “por telefone” (imagine só), 20% dos entrevistados querem a prisão das pessoas de qualquer idade. 16% acham que a maioridade penal deve começar aos 12 anos. 18% pensam que deveria começar aos 14 anos. E 35% opinaram que 16 anos é a idade limite para a menoridade penal. Só 7% concordam com a atual regra, da maioridade penal a partir dos 18 anos.

                Percentuais impressionantes. 20% aceitam que a criança de 8 anos de idade, por exemplo, deve ir para a cadeia. Outros 16% querem uma criança de 12 anos presa. Isso é uma forma de “consumismo”, achar que cadeia resolve. Dane-se a educação, o importante é cadeia. Políticos paulistas têm pensado assim e São Paulo, só neste ano, já perdeu quase 80 policiais assassinados.

                Há um critério cientificamente equivocado que muitos usam para querer reduzir a menoridade. É o chamado “critério do discernimento”: dizer que o jovem de 16 anos de idade “pode” ir para a cadeia porque sabe o que está fazendo. “Saber” o de 15 anos de 11 meses também saberá identicamente. Vê-se que o critério do discernimento é imprestável. Por outro lado, há novidades na sociedade como um todo. Talvez “conceitos” tenham mudado através dos tempos. Conceitos como “educação de rua”, “ética”, “respeito”, “maturidade”, “nível de informação”, “acesso ilimitado a informações”, “convivência em harmonia”, “obter vantagem em tudo” etc.

                Se esses conceitos puderem ter influência direta na “formação” de um jovem, talvez a menoridade possa ser reduzida. A revolução tecnológica, a informação etc. podem ser responsáveis a que um garoto de 16 anos da atualidade seja incomparável a um igual, 80 anos atrás. Mas como se chegar a uma idade “certa” para a menoridade penal? Não há essa resposta na ciência exata. O direito utiliza um critério inteligente chamado “política legislativa”. Por esse critério, o sistema legal escolhe uma idade e ponto final. Escolheu 18 anos no Brasil e pronto. Isso gera segurança jurídica. Por esta mesma lógica (não pelo discernimento!) pode-se construir que talvez uma redução na atualidade, para 16 anos, que seja, pela coincidência com o voto, possa ser “razoável”.

                Mas todo cuidado com essa conjetura é necessário. Há sanhas pelo cadeísmo, pelo penitenciarismo, pelo punitivismo, pelo reducionismo da menoridade. A Constituição da República de 1988 tem como mote central a dignidade da pessoa humana. Dizer que as vítimas de crimes não têm direitos humanos é, tecnicamente, das afirmações mais boçais que há. Quem quer pensar assim não merece atenção, porque os direitos humanos são para todos indistintamente, inclusive para os assassinos e criminosos em geral que a sociedade de bem não quer soltos, com toda razão.

                Desgraçadamente falta isenção e estudo para o tema entre leigos, sem se falar que a sociedade, se puder, lincha, pratica o justiçamento. Perguntar a uma pessoa de bem qual é a menoridade “correta” é o mesmo que perguntar qual é a melhor anestesia para uma cirurgia de apêndice a um motorista de táxi. A diferença é que o direito é falsamente “apreendido” por qualquer um da rua. E aí, todo mundo opina, sabe, afirma e “acha”.

                Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro podem encabeçar algum movimento científico sobre a redução da menoridade. Por outro lado, essas 2 cidades não são o retrato antropológico do Brasil, ainda que 80% da mídia e da opinião “publicada” possam estar aí. Tomar o Brasil apenas por essas 2 cidades pode ser um grande erro. A menoridade protegida até os 18 anos parece começar a fazer água. O problema é se arrombar o furo e não se considerar os diversos povos existentes no país, conforme dizia o mestre Darcy Ribeiro. Isso tudo sem falar na vedação constitucional de mudança chamada cláusula pétrea. Há um nó górdio aí. Jean Menezes de Aguiar

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

José Claudio das Neves, professor do coração


Imagem provisória. depois virá uma de Claudio.
 

                Pelo dia do Professor. Este texto é uma homenagem a um grande professor de piano que tive, José Claudio das Neves (UFRJ e Teatro Municipal do RJ). Fui seu único aluno particular, em razão da longa amizade dele com meu pai desde os tempos de solteiro, quando meu pai ainda era músico. Claudio nunca cobrou um tostão pelos anos de aulas. Era pura amizade. Uma tia tentou que ele desse aula a um primo meu, ele gentilmente negou. Essse grande “rabugento”, inigualável admirador do uísque, meio ateu, inteligentíssimo e estudioso de primeira hora, contribuiu para a formação do meu caráter como um inesquecível professor.

                Meus pais me forçaram a aprender piano, entendiam que este aprendizado era importante. Graças ao piano, depois trabalhando profissionalmente como músico pude conhecer muitos países. Só posso agradecer a meus pais por terem sido “autoritários” comigo, como diriam pais idiotas dessa atualidade viadinha.

                Comecei a estudar piano com 4 ou 5 anos de idade e passei por várias professoras, além dos cursos de iniciação na UFRJ, no Passeio Público, RJ. Com um razoável ouvido, conseguia “enganar” às bondosas professoras em leitura e teoria musicais e reproduzir as peças de ouvido. Ou elas se deixavam enganar por carinho. Como eu poderia, por exemplo, driblar uma Deusnice Guerra, professora que em sua sala no apartamento em Ipanema tinha não apenas um, mas dois pianos de cauda? Um para os simples mortais, seus alunos, e outro que ela usava para seus concertos. Quando eu chegava com minha mãe para aula, ficávamos do lado de fora ouvindo boquiabertos concertos e estudos explendorosos que ela imediatamente parava quando entrávamos.

                Passei por diversas professoras queridas. Uma delas, Aida Erlich veio a mim, eu já adulto, certa vez, num show em que eu acompanhava Eliana Pittman, no Hotel Sheraton, no Rio, e emocionada me abraçou muito e disse coisas lindas sobre como eu estava tocando que, claro, ela era uma das responsáveis.

                Aí topei com a muralha musical: Claudio, o velho amigo de meu pai. Claudio era violinista por formação (olha que encrenca), depois pianista e percussionista, além de exímio vibrafonista. Quanto mais uísque melhor tocava, dizia meu pai. Custei a entender isso, mas depois adorei entender. Seu método como professor de apenas um aluno particular era meio russo, ou seja, sério. Não tinha nada de “lúdico”, essa coisa safada muito usada atualmente para enganar tolinhos. Pianistas russos têm uma piada para quando o sujeito não executa muito bem alguma coisa no piano, dizem que é um pianista que estuda “somente” 6 horas por dia, e não 8 ou 10. Claudio pensava mais ou menos assim. Aí meus problemas começaram. Eu era um adolescente basicamente farsante no piano e os anos que passei com Claudio, ou mudava eu, com 15 anos de idade, ou ele, com 40. Como a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, devo a ele muito de o que aprendi.

                Nas vezes que ia à minha casa para jogar conversa fora com meu pai, de vez em quando me tratava como “vagabundo” perante meu pai, num misto de carinho e reprimenda, próprio de quem sabe que tem que trans-formar aquela pessoa tola e tonta que custava a tomar jeito, eu. Também, antigamente, os pais não iam querer “processar” um professor que chamasse seu filho de vagabundo. Antigamente os pais acreditavam na verdade do professor, hoje acreditam na mentira do filho mimado. Eu ficava mudo ouvindo ele tocar, com meu pai, com acordes geniais e complexos, incapaz de atrapalhar. Cláudio espetacularmente rabugento e intelectual não tinha tempo para um pirralho de 15 anos, certamente chato, eu, que provavelmente só teria bobagens para falar e tentar me afirmar. Na casa de meus pais, não dava muita conversa a mim. Vez em quando, dizia que eu não seria um pianista, porque não levava a coisa a sério. Era de uma austeridade de uma professora de balé clássico de Varsóvia.

                Quando passei no exame teórico e prático da Ordem dos Músicos do Brasil, em 1976, e obtive a carteira de Músico Profissional, o que para mim era muito, Claudio fez uma cara misto de desdém e obviedade. Eu tinha que passar, não havia hipótese de eu não ser aprovado, primeiro porque ele houvera me preparado não para um mero exame apenas, mas para ser músico. Ainda porque com o seu nível musical elevadíssimo, certamente via aquela prova como um mero rito de passagem meio óbvio, ou bobo.

                Aí fui para noite carioca trabalhar como músico, ainda totalmente imaturo musicalmente. Graças exclusivamente à boa vontade de grandes músicos, todos mais velhos, que me aturaram por algum tempo. Depois comecei a viajar com artistas e saí da noite. Depois a noite acabou. Essas referências históricas são importantes para mostrar o distanciamento que então se deu entre mim e esse amado professor.

                A vida de adulto e profissional nos distanciou. Meu pai continuou grande amigo de Claudio, mas eu mesmo tive que cuidar de mim e isso me ocupou muito. Sempre tinha referências daquele Claudio querido, mas uma coisa e outra, acabava não encontrando-o. Muitos e muitos anos depois, já em dezembro de 2000, uma cantora carioca Dayse Baqui me chamou para um trabalho avulso numa casa noturna em frente ao Canecão, no Rio. Eu tinha acabado de me mudar para São Paulo, bastante encantado com a cidade paulista. A formação da banda que iria acompanhar Dayse era poderosa, com músicos realmente bons, aceitei na hora e fui ao Rio.

                Aí o marcante da história. Meu pai e companheiro das todas as minhas noitadas de músico até sua morte há um mês, é claro que compareceria nesse trabalho meu. Mas para minha surpresa levou um convidado mais que especial, Claudio. Foi um dos grandes presentes de meu pai.

                Acho que Claudio contava ali com 64 anos de idade, mas não perdera seu jeito de músico, era um "senhor" mas quebrava essa característica. Usava uma pulseirinha e um anel no dedo mindinho, coisa que conservadores idiotas diriam não se coadunar com a idade. Aquilo me chamou muito a atenção, talvez porque eu sempre tenha usado bugigangas assim. Foi como se eu tivesse tido uma resposta do meu professor: é possível. Gostei muito de ver aquilo.

                Claudio encontrou seu aluno já homem feito, com marcas no rosto de uma vida modesta e dedicada ao estudo, uma barba meio marxista e talvez o mesmo olhar de insegurança e respeito diante do professor-deus. Tive a impressão de ele gostar de o que viu, num primeiro momento. Eu, de minha parte, estava encantado e sabia que teria que tocar para o professor, tarefa das mais difíceis, muito mais do que as apresentações nacionais e internacionais. Ele foi muito gentil e amável, curioso e como um pai querendo saber do filho distante que não vê há anos. Talvez nossa separação aí beirasse coisa de 20 anos. São os absurdos da vida.

                Ali estava o mesmo Claudio, sério, mas já me dando atenção, certamente com seu uísque, suas piadas ácidas e inteligentes, seu quase-humor intelectual e uma mente ligeira e sacana. Andava estudando cosmologia e cosmogonia, coisas que meu pai achava estranhas; eu adorei saber. Há poucos anos eu houvera sabido por meu pai que Claudio finalmente experimentou maconha em casa. Encheu o cachimbo de erva e fumou tudo de uma vez só. Capotou, claro. Disse que dormiu e achou uma merda. Revelou que seguia fiel ao uísque. Adorei saber daquela experiência pessoal científica. Claudio era um cientista.

                Esse professor sempre foi um ícone para mim, quando “tirava” músicas no piano. Sua harmonia era complexa, densa, mas correta. Não seria ele um pianista velocista, como eu busquei ser, mas um harmonizador poderoso. Ele mesmo não se dizia um pianista, mas formado em Orquestração e Regência, era o cara. Contou a meu pai que certa vez em Volta Redonda, onde eles moravam quando jovens, um senhor veio a ele pedindo que ele ensinasse piano à sua filha, uma criança, chamada Tânia Maria. Ele ouviu a moça e fez pouco caso. Muitos anos depois ligou a TV, e viu a já grande pianista de jazz apresentando-se, totalmente famosa, na França. Disse que chorou de emoção.

                Montamos os instrumentos no palco e cada passo meu e plug que ligava, pensava em como o professor estaria me olhando e medindo, fiscalizando, ele tinha o direito, afinal era o trabalho musical que ele me preparara. Fizemos a apresentação, sob olhos atentos musicais de meu pai, olhar este que eu me acostumei por toda minha vida. Mas também de um Claudio, que finalmente me dava o “direito de defesa”: mostrar a ele que o pupilo houvera aprendido alguma coisa. A formação do show era bateria, baixo, guitarra, cantora e eu de piano elétrico, instrumento que peguei emprestado com o querido amigo e grande Anselmo Mazzoni. O trabalho rolou redondo, e, com ajuda de uísque, deu prazer a todos. Os músicos que tive a sorte de tocar ali eram realmente muito bons. Tudo deu certo. Dayse está no meu Facebox, acho que ela deve se recordar de quanto aquele dia foi importante para mim.

                Saí do palco como um garoto que faz sua primeira apresentação para um pai austero e fiscal, querendo ouvir alguma coisa daquele Claudio ali caladão e atencioso. Fui indisfarçavelmente direto na direção dele e, claro, disparei: –  e aí, errei muito? E nesse momento ouvi uma das coisas que talvez mais tenham marcado a minha vida. Com a mesma franqueza e objetividade de sempre, Claudio disparou meio concordante: “é, o vagabundo aprendeu a tocar”. Aquilo para mim foi um ato de amor, mas também uma avaliação espetacular. Não seria do seu perfil falar se não fosse verdade. Meu pai deu um riso de vitória e gozo. Eu devo ter concordado com aquele professor a quem ja houvera feito uma música com letra para ele. Estávamos aí no final de dezembro de 2000, acho que dia 29 ou 30. E essas foram as últimas palavras que eu ouvi daquele “professor do coração”, título da minha música. Quatro meses depois ele morreu. E ficou um buraco surdo na minha vida.

                Claudio nessa época já estava casado com uma moça bem mais nova que ele. Claudio casou “tarde”, e teve 3 filhas. Meu pai dizia que a esposa devia ser uma santa para aguentar aquele rabugento, como se meu pai não fosse um. Mas o amor é assim, as santas e os rabugentos. Nos muitos anos de separação, acabei não fazendo contato com a família de Claudio, só meu pai fazia. Por fim, perdi totalmente a direção da esposa e filhas que nunca cheguei a conhecer. Adoraria dizer àquelas meninas o quanto aquele cara foi maravilhoso e importante para mim, um homem que me ensinou a ver as coisas sérias e difíceis ligadas à música e ao piano. Este foi o meu querido professor que homenageio. Talvez ele mesmo não tenha sabido dessa importância, um dos defeitos da vida, um dos meus muitos defeitos. Gostaria que meu pai também tivesse lido esse texto, mas no mês passado ele resolveu se ir. Agora eles estão juntos. Um beijo para ambos. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O fenômeno Anápolis

Não é montagem: é um Mirage na praça. Isto é Anápolis.

Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS(GO) - 18.out.2012

                Números e análises na cidade de Anápolis, Goiás, da eleição havida semana passada podem permitir leituras sociais com surpresas ou paradoxos interessantes para todo o país. Leituras são interpretações sempre válidas, sem a tirania cartesiana do certo e do errado. Alguns fatores autorizam determinada leitura e por isso ela se torna legítima. Há uma lógica nisso e para a lógica só interessa a relação funcional entre as premissas e conclusões, não as verdades envolvidas. Cada observador social  pode chegar a resultados lógicos diferentes, e todos eles legítimos.

                O grande gancho a ser explorado da eleição de Anápolis é o inusitado percentual de 88,4% de votos para reeleição do prefeito, um recorde nacional. E mais, em época de Mensalão, um prefeito do PT. O mesmo que na primeira eleição abriu os trabalhos com míseros 3% nas pesquisas. Há leituras aí.

                Uma primeira interpretação que contraria a alguns simplistas de plantão é o fato de o PT ser um partido de esquerda. Não se precisa estudar Norberto Bobbio, Direita e esquerda, para se concluir que os conceitos de direita e esquerda não morreram. Ainda que possam ter sido razoável e historicamente alterados. Nem se diz que esquerdistas seriam jacobinos e direitistas seriam reacionários. O fato é que o PT jamais foi um partido “de direita”. Isso ofenderia tanto ao povo da esquerda quanto ao da direita. E uma “conclusão” já sairia daí, desses 88,4%: a de que, “então”, a sociedade de Anápolis é “de esquerda”. Agora posso ter comprado briga com a cidade inteira.

                João Marcos Feitosa, em trabalho publicado na internet, intitulado A influência evangélica na sociedade Anapolina, aponta para uma “tradição inventada de que Anápolis seria a cidade mais evangélica do Brasil”. Mas onde há fumaça há fogo e a quantidade de igrejas por metro quadrado em Anápolis parece não deixar mentir essa tal tradição. Aí, pula-se para a reportagem da revista Isto É, 1.748, intitulada Religião e voto: “Os partidos escolhidos pelos políticos evangélicos são, em sua imensa maioria, os de direita”, e “A comunidade evangélica brasileira está longe de ser de esquerda”. O tônus conservador se revela, corretamente, com toda nitidez na reportagem.

                Se Anápolis é tão evangélica assim e se a dita religião é “própria” dos partidos de direita, remanesce um paradoxo interessante de 88% dessa sociedade ter optado por um prefeito do PT.

                Haverá uma quadra teórica aí. Ou 1) esta sociedade teria “se tornado” de esquerda, o que é bastante improvável; ou 2) o conceito de esquerda para esta sociedade não foi tão ideologicamente ofensivo ou repugnante a ponto de impedir o voto na esquerda; ou 3) a carga teórica direita-esquerda não importou para esta sociedade; ou 4) a carga não existe mais em nenhum lugar, consideradas as sociedades em geral como consumistas que só querem resultados imediatos, pragmáticos, utilitarísticos, sem ideologias e substratos culturais profundos.

                Ainda, é claro que a gestão anterior do prefeito reeleito considerada de sucesso por quase 90% do eleitorado é um ponto primeiro e imensamente importante. E aqui outro embate teórico: a gestão de sucesso versus a ideologia do gestor, no caso de esquerda. Mesmo sendo Anápolis, presumivelmente, de direita –admita-se a “classificação” genérica –, a sociedade não titubeou, “capitulou” a uma gestão boa e deu de ombros a discussões “teóricas” de direita e esquerda. Disse em alto e bom tom: às favas com a ideologia. Falta esclarecer se isso poderia ter querido dizer uma “mudança” do tipo quem “era” de direita passou a ser de esquerda. Nada é tão direto assim, mas que é instigante não há dúvida.

                No caso de prefeitos e vereadores avultam os reflexos imediatos no asfalto das ruas; na limpeza urbana; na construção de praças de embelezamento, esporte e lazer nos bairros de todos; nos semáforos funcionando em cruzamentos para evitar acidentes; numa guarda municipal ativa e presente. Note-se que isso tudo é direito do povo, jamais é favor do gestor público. É claro que nem tudo isso é atendido em Anápolis. Não se está a dizer que a cidade possa ser um “modelo” de impecabilidade e sem problemas. Infelizmente não é. Mas o fato é a população votou olhando certas mudanças e isso não foi um imediatismo criticável, afinal quem vai cuidar dessas coisas na porta de casa de cada um?

                Mesmo sob um feitio conservador – como de resto é bem nítido no país todo, que fique bem claro –, os bolsões quantitativos de pobreza em Anápolis reelegeram o prefeito maciçamente. Mas para esse percentual tão alto é claro que também a chamada classe média (que passou a envolver a alta) entrou na dança. E parece que todos estão felizes.

                O prefeito pode ter matado dois coelhos com uma cajadada só: agradado à parcela efetivamente desfavorecida e ao mesmo tempo a classe média, com embelezamentos e funcionalidades na cidade. Daí pode ter advindo o “às favas com a balela de direita e esquerda”. Se é que isso chegou a ocupar as cabeças votantes.

                Com esses 88,4% Anápolis deu inveja a muito marmanjo político velho de guerra em cidades vaidosamente tidas como uber urbanas e sofisticadas. Mas também mostrou ao país que é possível “ser feliz”. Se a unanimidade é burra, como teorizava Nelson Rodrigues, a coesão pode ser genial, e mesmo feliz. Não se chega a uma coesão de reeleição em níveis de 88,4% com enganação, mentira e apenas publicidade de candidato. Há uma parceria invejável entre gestor e sociedade. Politólogos vão estudar o fenômeno Anápolis seriamente. Mais, um fenômeno bastante difícil de se reproduzir, mas desejável que houvesse sempre. Daí, as lições valiosas.

                O problema classificatório de direita e esquerda, que parece ocioso ou teoricamente fútil, nas sociedades da pressa, do consumismo, do resultado e da falta de ética, envolve contornos graves. Parece haver um certo “disfarce” com esse discurso, mas observadores atentos distinguem facilmente quem é quem. Para alegria dos lulistas ou desespero dos contrários, Lula já chamou esse recordista Antonio Gomide para um “conversa”. Tomara que Anápolis não perca seu prefeito para um ministeriozinho aí qualquer.

                A revolução tão esperada pode começar no interior e não nas cidades tidas como “politizadas”. Um modelo brasileiro poderia denotar preocupações com atendimento verdadeiro ao social, como parece que já há. Bem diferente do mero slogan de Zé Sarney em 1985 “tudo pelo social”. Agradar a gregos e troianos sempre foi uma charada. Parece que o nosso alcaide aí descobriu uma fórmula. Agora é a sociedade manter viva a cobrança e a parceria. E o resto do país se interessar por saber como isso foi conseguido. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Gentileza, superproduto da inteligência


Todo olhar de encanto é um olhar gentil
 
                O que é gentileza? Pode ser entendida a gentileza como a elegância no comportamento de querer bem ao outro, no sentido de proporcionar-lhe algo de bom. Não é meramente abrir a porta do carro para a mulher entrar; não é qualquer comportamento ligado tão-somente à etiqueta, a uma conduta afetada ou muito menos a qualquer padrão de futilidade ou fraqueza. Gentileza pode ser, também, um poderoso traço de personalidade negocial, como se vê em Linda Kaplan Thaler e Robim Koval, no livro O poder da gentileza, com ótimos resultados perante pessoas inteligentes.

                Gentileza é um típico padrão de inteligência*, havendo a gentileza oriunda da humildade e outra oriunda da inteligência pura e construída – ambas são totalmente válidas.

                Haverá a gentileza oriunda da humildade nos comportamentos em que a pessoa simples, pode-se imaginar até o capiau, por exemplo, por se sentir honrado em receber alguém para ele “importante” em sua casa se desdobre em atitudes positivas de educação. Assim, por exemplo, cede o melhor lugar da casa para o convidado se sentar e demonstra na efusividade do olhar de felicidade a alegria e honra de ter aquela pessoa ali. Percebe-se que todos os atos gentis oriundos da humildade poderiam ser considerados “simplórios” para um analista acostumado a relações urbanas complexas, mas representam uma essência verdadeira do bem querer daquele anfitrião. A esse bem querer pode-se dar o nome de “aderência”. Todo ser aderido ao outro estará sendo, naturalmente, gentil.

                Haverá a gentileza oriunda da inteligência quando o agente conhecer ou for capaz de identificar a variedade de atos de uma determinada cultura, uma visão essencialmente bem informada e complexa, tendo, daí, à sua disposição um menu de comportamentos que varie entre o totalmente gentil e o totalmente rude e opte, conscientemente, por atos gentis. A gentileza oriunda da inteligência não terá nada de falso ou de menos “pura” se comparada à gentileza oriunda da humildade. O próprio conceito de gentileza já envolve uma humildade perante o outro no sentido de que o agente queira “dar” coisas boas suas – comportamentos e atenções aderidas – a alguém que ele entenda merecedor. O simples ato de querer agradar é um dos mais fortes padrões de gentileza.

                A gentileza é uma sinergia nas relações que só gera coisas boas, produz efeitos sempre positivos e o seu uso será em todos os casos bem-vindo. Perceber esse padrão consequencial é uma análise própria das pessoas inteligentes que, cada vez mais lançarão mão da gentileza a seu prol, visando a obter resultados favoráveis. Esse uso da gentileza inteligente tanto melhorará o mundo, nas relações comuns e corriqueiras, quanto trará benefícios diretos e imediatos para o próprio agente.

                Mas se gentileza é algo estudável e aprendível em livros de relações, com padrões e classificações; e se também obedece a modelos de personalidade em que a inteligência esteja presente, é certo que em pessoas com baixo padrão de percepção; ausência de sintonia fina nas coisas e manejos que faz; pouco conhecimento de relações e hábitos culturais complexos, a gentileza seja coisa rara, ou até inexistente. Aqui haverá a ausência da gentileza pela falta do conhecimento. Há uma outra ausência da gentileza: a oriunda da mediocridade, que não é necessariamente ausência de conhecimento, mas a presença de um querer negativo ao outro; a constante disputa mental comparativa de que o outro poderá estar levando mais vantagem e outras ideias semelhantes. Será a frase – não sou gentil e não vou ser. Mas essa escolha do homem intelectualmente rude e de baixo padrão cultural não lhe será impune. A vida ser-lhe-á efetivamente muito mais pesada e com contornos desagradáveis.

                No primeiro caso - baixo padrão de percepção/ falta de conhecimento-, poderá haver gentileza por exceção, onde possa o comportamento manifestar, ao seu modo, algum comportamento gentil. Já no segundo, com a mediocridade, a gentileza se houver será invariavlmente falsa, visando a uma obtenibilidade barata, interesseira exclusivamente. Há aqui um crédulo na ociosidade da gentileza

                É interessante observar as pessoas refratárias à gentileza. Com o passar do tempo vê-se uma “opção” nelas por uma vida piorada, com resultados menos vantajosos e felizes. Não há como negar que esse modelo de vida é desastroso para o próprio agente, mas sua falta de inteligência não reage. O não usurário da gentileza não pode, jamais, aí, ser considerado um ser inteligente. Ao mesmo passo que essa pessoa não concebe ser aderida a alguém, no sentido de dar coisas boas ao outro.

                O não gentil vive um eterno incômodo com sua própria falta de carinho ao outro, sabendo-se que o preço pessoal que se paga pela falta de carinho para com o outro é efetivamente muito maior para si mesmo. O carinho – uma forma de gentileza – faz circular sensações poderosamente positivas que beneficiam o próprio agente, seja com retornos inesperados, todos positivos, seja com pequenas ou grandes manifestações vindas na direção do próprio agente que cataliza coisas boas.

                A gentileza é um misto de atividade cultural com uma situação inata do agente. Há quem aprenda a ser gentil e goste; busque aprender novas e criativas formas de gentileza, já que o retorno é sempre dos melhores. Há também quem nasce gentil e nem perceba.

                Por fim, do mesmo modo que a gentileza se liga à inteligência, ela também se liga muito nitidamente à boa-fé. Pessoas gentis manejam um tipo de boa-fé, quando querem bem ao outro, quando praticam aderência. Não há como se ligar a gentileza à má-fé ou a suspeita de qualquer porção negativa de comportamento. Deixam-se de fora da análise aquelas pessoas que não merecem ser analisadas que vivem jurando “odiar falsidade” e distilam um olhar medíocre e invejoso, perceptível a qualquer observador atento.

                16 passagens tiradas da obra O Poder da Gentileza :

1. Agir corretamente faz com que a pessoa se sinta melhor.

2. Mesmo que você se envolva num acidente de carro, as companhias de seguro poderão lhe recomendar que não se desculpe. O conselho é que se você se desculpar, 9 entre 10 pessoas ficarão gratas e, provavelmente, serão mais generosas com relação a um compensação pelo prejuízo.

3. Pesquisas mostram:
Pessoas gentis têm mais sorte no amor (Universidade de Toronto)
Pessoas gentis são mais saudáveis (Universidade de Michigan)
Pessoas gentis perdem menos tempo nos tribunais (Malcolm Gladwell, Blink – a decisão num
piscar de olhos)

4. Pessoas gentis ganham mais dinheiro.

5. Impressões positivas são como sementes; você as planta e esquece delas, mas elas crescem de maneira notável.

6. Impressões negativas são como germes

7. A vida não é um jogo em que, se a outra pessoa ganha, eu perco, ou vice-versa. Não há necessidade de discutir quem fica com o pedaço maior do bolo, só precisamos fazer um bolo maior.

8. Quando a pessoa aprende a se libertar da mentalidade do “ou eu ou você”, cria oportunidades para todos.

9. Tendemos a pensar que o mundo natural é duro, cruel e implacável. O comportamento no mundo dos negócio é, muitas vezes, regido pela “lei da selva”. Mas a cooperação é uma estratégia tão bem-sucedida para a sala da diretoria quanto para compartilhar uma presa.

10. Quando você cria uma empresa pretende que os créditos de suas coisas sejam dados a ela. Tente relaxar e não se preocupar com quem recebe o crédito – queira continuar construindo o seu negócio, fazendo o bolo crescer. Como disse Harry Truman, “é surpreendente o que você consegue quando não se importa com quem leva o crédito”.

11. Pare de contar vantagens. Minha irmã ganhou um novo bebê, mas eu tenho uma vida social mais ativa. Minha melhor amiga ganha mais dinheiro, mas eu tenho um trabalho mais interessante. Se estiver ardendo de inveja por causa da promoção de alguém, mande-lhe flores. Quando você começa a agir como se vivesse na abundância, começa a ter a sensação de fartura. Quando começa a experimentar essa fartura, você não se preocupa tanto com o que os vizinhos têm.

12. Elevar o moral das pessoas pode resultar em inesperadas recompensas. Adoce a negociação.

13. Da próxima vez que alguém próximo a você estiver mal-humorado ou irritadiço, tente dar-lhe uns chocolates ou uns bombons.

14. Quando sorri para outras pessoas, você as “contamina”, literalmente, com felicidade.

15. Sorria - estudos mostram que o simples ato de sorrir fará com que você se sinta realmente mais feliz, o que acontecerá também com as pessoas à sua volta. Então tente adquirir o hábito de sorrir mais. Sorria para estranhos. Se você mora em uma cidade muito populosa, onde há constantemente gente passando, escolha uma pessoa em cada quarteirão. Comece com crianças. Depois, sorria para adultos que parecerem amistosos e receptivos. Após algum tempo você estará preparado para sorrir até para as pessoas com um ar antipático. Ele ou ela podem ou não retribuir o sorriso, mas a questão não é essa. Você quer chegar ao ponto em que, para você, sorrir seja tão natural quanto respirar.

16. O inimigo - Mate-o com a gentileza.

                A gentileza no caso dos humanos não é uma dávida ou traço biológico. Tem que ver com o conceito de empatia, conforme pesquisado nos primatas, por Frans de Waal na obra de biologia A era da empatia. Gentileza é algo que se pode passar a ter, passar a querer ser e passar a receber os benefícios dela. Por isso é tão intimamente ligada a pessoas com melhor padrão de inteligência. Já o resto, é como diz Nietzsche no prefácio à obra O Anticristo – maldição do cristianismo: “O resto é simplesmente a humanidade”. Jean Menezes de Aguiar.
 

* Nenhuma definição da inteligência é satisfatória (e jamais será), porque o termo  cobre um conjunto de faculdades interdependentes, ainda difíceis de serem percebidas no plano experimental.  Sua aparição no adulto resulta de um desenvolvimento lento e progressivo, em constante interação com o mundo exterior (Jean Pierre Changeux, diretor da unidade de neurobiologia molecular no Instituto Pasteur).  /  Já Albert Jacquard, geneticista, professor na Universidade de Paris-VI, ensina que a inteligência é uma qualidade polivalente: ela diz respeito à imaginação, à capacidade de responder depressa, de inventar novas perguntas, criar raciocínios lógicos.  Os testes de QI refletem a capacidade de responder “sim”, enquanto a inteligência é a capacidade de dizer “não”. 

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Legislativos da Roça II

Saudade... Gonçalves, MG


Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) - 11.out.2012

                Na década de 1990 publiquei um artigo em Petrópolis, RJ, que hoje é carinhosamente requentado. Por primeiro, “roça” é o sonho de consumo de muitos urbanos. O texto originário era aberto com Millôr Fernandes: "Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita." Anos se passam e a matéria se mantém; pouco melhorou. A “classificação” dos vereadores em muitos casos; sua subserviência ao Executivo; a ainda grande inércia da sociedade. O poder público já tentou dar às eleições o ar de “festa”. Depois tentou dar o ar de “culpa” social, atrelando consequências da má escolha ao eleitor. Publicidades discutíveis.

                Continua a ser triste a existência de vereadores, por esse Brasil afora que não sabem para que serve o Legislativo. O raciocínio, a lógica, a razão e a racionalidade se veem bastante comprometidos. Berrará o antropólogo: é o retrato do Brasil! Tudo bem, mas é uma desgraça, exatamente para um povo que padece tanto. Isso não quer sugerir uma “tecnocracia”, à qual somente diplomados pudessem ser eleitos. Nada que ver com diploma.

                O problema é que um sem número de vereadores continua a achar que o Legislativo é um Poder que deve existir para intermediar obras do prefeito. Falando em Legislativos municipais, principalmente os que não estão em cidades grandes, qual deles fiscaliza, de verdade, o Município? Quem controla o prefeito? Quem cumpre as obrigações mínimas da Constituição da República, art. 31? Daí vem perguntas: qual é o prefeito, nesse contexto, que respeita o Legislativo? Muitos legislativos só sabem dizer sim e publicar monótonas páginas em jornais locais reproduzindo discursos grávidos de vedetismos e referências enaltecedoras. Fecha-se um círculo vicioso terrível para o cidadão, porque seus representantes-fiscais pouco representam, muito menos fiscalizam.

                Há fenômenos interessantes aí. Clientelismo, paroquialismo e até coronelismo. Alguns se superafetando em outros. Na década de 1990, falava-se em neo-chaguismo, em referência a Chagas Freitas, governador carioca. Fincam-se relações praticamente comerciais de toma-lá-dá-cá. Se antes os rótulos teóricos como esses ainda envergonhavam ou até ofendiam, porque classificavam, hoje não causam mais. A desfaçatez é imune à palavra e mesmo ao xingamento. Os panos caíram, as quadrilhas se organizaram e aprenderam a não fazer marola. O Mensalão é fato isolado e pseudo-emblemático.

Com o continuado baixo nível de candidatos por todo o país, há um olhar vesgo para o próprio umbigo nas pretensões de quem quer “chegar lá”. Qualquer 10 minutos de fama num Bbb já garante a loucura de se candidatar. Fora isso, há os “profissionais”. Vereadores mancomunados com prefeitos, loteiam as cidades para funcionar como despachantes de obras. É a consumação duma política menor, uma que acha graça em outorgar diplomas e comendas de mentirinha.

                Inauguram quadras de esporte nas comunidades, sempre pedindo apoio da mídia. Haverá o vereador-ponte, o vereador-quadra-de-esporte, o vereador-asfalto-de-rua, o vereador-licença-de-igreja, o vereador-vaga-em-escola-pública, o vereador-botijão-de-gás, o vereador-leito-hospitalar, o vereador-baba-ovo-de-prefeito, o vereador-boy-de-presidente-da-câmara ou o vereador-vota-em-tudo-que-o-prefeito-mandar. E ainda há quem diga que isso é “normal” ou é “fazer política”. Há também quem diga que se o vereador consegue a vaga no hospital ele fez uma “boa ação”. O problema é que esse leito hospitalar custará um valor altíssimo. E será devidamente cobrado.

                Ninguém engana a todos o tempo todo. A informação acessível vem mudando bastante a cara, ou o cinismo, da política brasileira. Há muita gente lúcida na sociedade. Em todo lugar, inclusive nas invejáveis roças humildes, mesmo as que não gostam de ser chamadas assim. Há cidadãos inteligentes, observadores e instruídos. E os espertalhões da política começam a ter mais dificuldade.

                Um tônus que parece faltar é “oposição”, conceito ligado, historicamente, à esquerda. Por outro lado, no caso brasileiro, a diva canhota, o PT, conseguiu desagradar até a um inocente Joaquim Barbosa do Supremo, convicto eleitor, agora convicto frustrado. San Tiago Dantas teorizou que as esquerdas dividiam-se em "negativas" e "positivas", foi um reboliço. Brizola, contestando-o, foi mais preciso: dividiu-as em "fisiológicas" ou "idealistas", outra encrenca. De toda sorte “até” nas clássicas oposições que deveriam ser “puristas”, sempre se visualizou o lado negativo ou fisiológico.

                Um belíssimo exemplar vivo da direita brasileira essa semana foi finalmente condenado a devolver 21 milhões, o já quase pop Maluf. Os próceres da esquerda na mesma semana foram condenados pelo Supremo. Não sobra lado nenhum. Darcy Ribeiro na obra, Confissões, p. 298, instigava: "Sou de esquerda e acho que ela é a salvação do mundo. Fora da esquerda só há a indiferença, que é imbecil demais, ou a direita, que é sagaz demais... Existe uma intelectualidade vadia pregando que a direita é burra. Não é não." Darcy era um poeta.

                Se em exemplos maiores e de 1º escalão de todos os partidos brasileiros veem-se problemas sérios, imaginem-se os legislativos miúdos espalhados por esse Brasil que precisa de um leito hospitalar ou de uma vaga na escola pública. É a pandemia da roubalheira. Muita da responsabilidade de o Brasil não ser um país espetacularmente melhor não está em presidentes ou senadores, mas em vereadores. Por outro lado, o refogado disso é revirado na frigideira da sociedade.

                Pausa. Apenas alguns candidatos deste 2012: Andréa Van Escolar; Serginho Escapamento; Sem Camisa; Burrinho da Oficina; Cagado;  Claudete – o poder tem que menstruar;  Ninguém;  Pé de Cana; Para mudar é chana com chana – Simone Bandeira; Zezinho Merda; Cornelson Chega de Traição; Xota Oi Meu Bem.

                O termo “roça” é sublime demais para a esperteza política. Quantos Mensalinhos não há nos milhares de Municípios do Brasil. Já disseram que a política é a arte do possível. Por aqui ainda é a arte da safadeza possível.