quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O fenômeno Anápolis

Não é montagem: é um Mirage na praça. Isto é Anápolis.

Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS(GO) - 18.out.2012

                Números e análises na cidade de Anápolis, Goiás, da eleição havida semana passada podem permitir leituras sociais com surpresas ou paradoxos interessantes para todo o país. Leituras são interpretações sempre válidas, sem a tirania cartesiana do certo e do errado. Alguns fatores autorizam determinada leitura e por isso ela se torna legítima. Há uma lógica nisso e para a lógica só interessa a relação funcional entre as premissas e conclusões, não as verdades envolvidas. Cada observador social  pode chegar a resultados lógicos diferentes, e todos eles legítimos.

                O grande gancho a ser explorado da eleição de Anápolis é o inusitado percentual de 88,4% de votos para reeleição do prefeito, um recorde nacional. E mais, em época de Mensalão, um prefeito do PT. O mesmo que na primeira eleição abriu os trabalhos com míseros 3% nas pesquisas. Há leituras aí.

                Uma primeira interpretação que contraria a alguns simplistas de plantão é o fato de o PT ser um partido de esquerda. Não se precisa estudar Norberto Bobbio, Direita e esquerda, para se concluir que os conceitos de direita e esquerda não morreram. Ainda que possam ter sido razoável e historicamente alterados. Nem se diz que esquerdistas seriam jacobinos e direitistas seriam reacionários. O fato é que o PT jamais foi um partido “de direita”. Isso ofenderia tanto ao povo da esquerda quanto ao da direita. E uma “conclusão” já sairia daí, desses 88,4%: a de que, “então”, a sociedade de Anápolis é “de esquerda”. Agora posso ter comprado briga com a cidade inteira.

                João Marcos Feitosa, em trabalho publicado na internet, intitulado A influência evangélica na sociedade Anapolina, aponta para uma “tradição inventada de que Anápolis seria a cidade mais evangélica do Brasil”. Mas onde há fumaça há fogo e a quantidade de igrejas por metro quadrado em Anápolis parece não deixar mentir essa tal tradição. Aí, pula-se para a reportagem da revista Isto É, 1.748, intitulada Religião e voto: “Os partidos escolhidos pelos políticos evangélicos são, em sua imensa maioria, os de direita”, e “A comunidade evangélica brasileira está longe de ser de esquerda”. O tônus conservador se revela, corretamente, com toda nitidez na reportagem.

                Se Anápolis é tão evangélica assim e se a dita religião é “própria” dos partidos de direita, remanesce um paradoxo interessante de 88% dessa sociedade ter optado por um prefeito do PT.

                Haverá uma quadra teórica aí. Ou 1) esta sociedade teria “se tornado” de esquerda, o que é bastante improvável; ou 2) o conceito de esquerda para esta sociedade não foi tão ideologicamente ofensivo ou repugnante a ponto de impedir o voto na esquerda; ou 3) a carga teórica direita-esquerda não importou para esta sociedade; ou 4) a carga não existe mais em nenhum lugar, consideradas as sociedades em geral como consumistas que só querem resultados imediatos, pragmáticos, utilitarísticos, sem ideologias e substratos culturais profundos.

                Ainda, é claro que a gestão anterior do prefeito reeleito considerada de sucesso por quase 90% do eleitorado é um ponto primeiro e imensamente importante. E aqui outro embate teórico: a gestão de sucesso versus a ideologia do gestor, no caso de esquerda. Mesmo sendo Anápolis, presumivelmente, de direita –admita-se a “classificação” genérica –, a sociedade não titubeou, “capitulou” a uma gestão boa e deu de ombros a discussões “teóricas” de direita e esquerda. Disse em alto e bom tom: às favas com a ideologia. Falta esclarecer se isso poderia ter querido dizer uma “mudança” do tipo quem “era” de direita passou a ser de esquerda. Nada é tão direto assim, mas que é instigante não há dúvida.

                No caso de prefeitos e vereadores avultam os reflexos imediatos no asfalto das ruas; na limpeza urbana; na construção de praças de embelezamento, esporte e lazer nos bairros de todos; nos semáforos funcionando em cruzamentos para evitar acidentes; numa guarda municipal ativa e presente. Note-se que isso tudo é direito do povo, jamais é favor do gestor público. É claro que nem tudo isso é atendido em Anápolis. Não se está a dizer que a cidade possa ser um “modelo” de impecabilidade e sem problemas. Infelizmente não é. Mas o fato é a população votou olhando certas mudanças e isso não foi um imediatismo criticável, afinal quem vai cuidar dessas coisas na porta de casa de cada um?

                Mesmo sob um feitio conservador – como de resto é bem nítido no país todo, que fique bem claro –, os bolsões quantitativos de pobreza em Anápolis reelegeram o prefeito maciçamente. Mas para esse percentual tão alto é claro que também a chamada classe média (que passou a envolver a alta) entrou na dança. E parece que todos estão felizes.

                O prefeito pode ter matado dois coelhos com uma cajadada só: agradado à parcela efetivamente desfavorecida e ao mesmo tempo a classe média, com embelezamentos e funcionalidades na cidade. Daí pode ter advindo o “às favas com a balela de direita e esquerda”. Se é que isso chegou a ocupar as cabeças votantes.

                Com esses 88,4% Anápolis deu inveja a muito marmanjo político velho de guerra em cidades vaidosamente tidas como uber urbanas e sofisticadas. Mas também mostrou ao país que é possível “ser feliz”. Se a unanimidade é burra, como teorizava Nelson Rodrigues, a coesão pode ser genial, e mesmo feliz. Não se chega a uma coesão de reeleição em níveis de 88,4% com enganação, mentira e apenas publicidade de candidato. Há uma parceria invejável entre gestor e sociedade. Politólogos vão estudar o fenômeno Anápolis seriamente. Mais, um fenômeno bastante difícil de se reproduzir, mas desejável que houvesse sempre. Daí, as lições valiosas.

                O problema classificatório de direita e esquerda, que parece ocioso ou teoricamente fútil, nas sociedades da pressa, do consumismo, do resultado e da falta de ética, envolve contornos graves. Parece haver um certo “disfarce” com esse discurso, mas observadores atentos distinguem facilmente quem é quem. Para alegria dos lulistas ou desespero dos contrários, Lula já chamou esse recordista Antonio Gomide para um “conversa”. Tomara que Anápolis não perca seu prefeito para um ministeriozinho aí qualquer.

                A revolução tão esperada pode começar no interior e não nas cidades tidas como “politizadas”. Um modelo brasileiro poderia denotar preocupações com atendimento verdadeiro ao social, como parece que já há. Bem diferente do mero slogan de Zé Sarney em 1985 “tudo pelo social”. Agradar a gregos e troianos sempre foi uma charada. Parece que o nosso alcaide aí descobriu uma fórmula. Agora é a sociedade manter viva a cobrança e a parceria. E o resto do país se interessar por saber como isso foi conseguido. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 13 de outubro de 2012

Gentileza, superproduto da inteligência


Todo olhar de encanto é um olhar gentil
 
                O que é gentileza? Pode ser entendida a gentileza como a elegância no comportamento de querer bem ao outro, no sentido de proporcionar-lhe algo de bom. Não é meramente abrir a porta do carro para a mulher entrar; não é qualquer comportamento ligado tão-somente à etiqueta, a uma conduta afetada ou muito menos a qualquer padrão de futilidade ou fraqueza. Gentileza pode ser, também, um poderoso traço de personalidade negocial, como se vê em Linda Kaplan Thaler e Robim Koval, no livro O poder da gentileza, com ótimos resultados perante pessoas inteligentes.

                Gentileza é um típico padrão de inteligência*, havendo a gentileza oriunda da humildade e outra oriunda da inteligência pura e construída – ambas são totalmente válidas.

                Haverá a gentileza oriunda da humildade nos comportamentos em que a pessoa simples, pode-se imaginar até o capiau, por exemplo, por se sentir honrado em receber alguém para ele “importante” em sua casa se desdobre em atitudes positivas de educação. Assim, por exemplo, cede o melhor lugar da casa para o convidado se sentar e demonstra na efusividade do olhar de felicidade a alegria e honra de ter aquela pessoa ali. Percebe-se que todos os atos gentis oriundos da humildade poderiam ser considerados “simplórios” para um analista acostumado a relações urbanas complexas, mas representam uma essência verdadeira do bem querer daquele anfitrião. A esse bem querer pode-se dar o nome de “aderência”. Todo ser aderido ao outro estará sendo, naturalmente, gentil.

                Haverá a gentileza oriunda da inteligência quando o agente conhecer ou for capaz de identificar a variedade de atos de uma determinada cultura, uma visão essencialmente bem informada e complexa, tendo, daí, à sua disposição um menu de comportamentos que varie entre o totalmente gentil e o totalmente rude e opte, conscientemente, por atos gentis. A gentileza oriunda da inteligência não terá nada de falso ou de menos “pura” se comparada à gentileza oriunda da humildade. O próprio conceito de gentileza já envolve uma humildade perante o outro no sentido de que o agente queira “dar” coisas boas suas – comportamentos e atenções aderidas – a alguém que ele entenda merecedor. O simples ato de querer agradar é um dos mais fortes padrões de gentileza.

                A gentileza é uma sinergia nas relações que só gera coisas boas, produz efeitos sempre positivos e o seu uso será em todos os casos bem-vindo. Perceber esse padrão consequencial é uma análise própria das pessoas inteligentes que, cada vez mais lançarão mão da gentileza a seu prol, visando a obter resultados favoráveis. Esse uso da gentileza inteligente tanto melhorará o mundo, nas relações comuns e corriqueiras, quanto trará benefícios diretos e imediatos para o próprio agente.

                Mas se gentileza é algo estudável e aprendível em livros de relações, com padrões e classificações; e se também obedece a modelos de personalidade em que a inteligência esteja presente, é certo que em pessoas com baixo padrão de percepção; ausência de sintonia fina nas coisas e manejos que faz; pouco conhecimento de relações e hábitos culturais complexos, a gentileza seja coisa rara, ou até inexistente. Aqui haverá a ausência da gentileza pela falta do conhecimento. Há uma outra ausência da gentileza: a oriunda da mediocridade, que não é necessariamente ausência de conhecimento, mas a presença de um querer negativo ao outro; a constante disputa mental comparativa de que o outro poderá estar levando mais vantagem e outras ideias semelhantes. Será a frase – não sou gentil e não vou ser. Mas essa escolha do homem intelectualmente rude e de baixo padrão cultural não lhe será impune. A vida ser-lhe-á efetivamente muito mais pesada e com contornos desagradáveis.

                No primeiro caso - baixo padrão de percepção/ falta de conhecimento-, poderá haver gentileza por exceção, onde possa o comportamento manifestar, ao seu modo, algum comportamento gentil. Já no segundo, com a mediocridade, a gentileza se houver será invariavlmente falsa, visando a uma obtenibilidade barata, interesseira exclusivamente. Há aqui um crédulo na ociosidade da gentileza

                É interessante observar as pessoas refratárias à gentileza. Com o passar do tempo vê-se uma “opção” nelas por uma vida piorada, com resultados menos vantajosos e felizes. Não há como negar que esse modelo de vida é desastroso para o próprio agente, mas sua falta de inteligência não reage. O não usurário da gentileza não pode, jamais, aí, ser considerado um ser inteligente. Ao mesmo passo que essa pessoa não concebe ser aderida a alguém, no sentido de dar coisas boas ao outro.

                O não gentil vive um eterno incômodo com sua própria falta de carinho ao outro, sabendo-se que o preço pessoal que se paga pela falta de carinho para com o outro é efetivamente muito maior para si mesmo. O carinho – uma forma de gentileza – faz circular sensações poderosamente positivas que beneficiam o próprio agente, seja com retornos inesperados, todos positivos, seja com pequenas ou grandes manifestações vindas na direção do próprio agente que cataliza coisas boas.

                A gentileza é um misto de atividade cultural com uma situação inata do agente. Há quem aprenda a ser gentil e goste; busque aprender novas e criativas formas de gentileza, já que o retorno é sempre dos melhores. Há também quem nasce gentil e nem perceba.

                Por fim, do mesmo modo que a gentileza se liga à inteligência, ela também se liga muito nitidamente à boa-fé. Pessoas gentis manejam um tipo de boa-fé, quando querem bem ao outro, quando praticam aderência. Não há como se ligar a gentileza à má-fé ou a suspeita de qualquer porção negativa de comportamento. Deixam-se de fora da análise aquelas pessoas que não merecem ser analisadas que vivem jurando “odiar falsidade” e distilam um olhar medíocre e invejoso, perceptível a qualquer observador atento.

                16 passagens tiradas da obra O Poder da Gentileza :

1. Agir corretamente faz com que a pessoa se sinta melhor.

2. Mesmo que você se envolva num acidente de carro, as companhias de seguro poderão lhe recomendar que não se desculpe. O conselho é que se você se desculpar, 9 entre 10 pessoas ficarão gratas e, provavelmente, serão mais generosas com relação a um compensação pelo prejuízo.

3. Pesquisas mostram:
Pessoas gentis têm mais sorte no amor (Universidade de Toronto)
Pessoas gentis são mais saudáveis (Universidade de Michigan)
Pessoas gentis perdem menos tempo nos tribunais (Malcolm Gladwell, Blink – a decisão num
piscar de olhos)

4. Pessoas gentis ganham mais dinheiro.

5. Impressões positivas são como sementes; você as planta e esquece delas, mas elas crescem de maneira notável.

6. Impressões negativas são como germes

7. A vida não é um jogo em que, se a outra pessoa ganha, eu perco, ou vice-versa. Não há necessidade de discutir quem fica com o pedaço maior do bolo, só precisamos fazer um bolo maior.

8. Quando a pessoa aprende a se libertar da mentalidade do “ou eu ou você”, cria oportunidades para todos.

9. Tendemos a pensar que o mundo natural é duro, cruel e implacável. O comportamento no mundo dos negócio é, muitas vezes, regido pela “lei da selva”. Mas a cooperação é uma estratégia tão bem-sucedida para a sala da diretoria quanto para compartilhar uma presa.

10. Quando você cria uma empresa pretende que os créditos de suas coisas sejam dados a ela. Tente relaxar e não se preocupar com quem recebe o crédito – queira continuar construindo o seu negócio, fazendo o bolo crescer. Como disse Harry Truman, “é surpreendente o que você consegue quando não se importa com quem leva o crédito”.

11. Pare de contar vantagens. Minha irmã ganhou um novo bebê, mas eu tenho uma vida social mais ativa. Minha melhor amiga ganha mais dinheiro, mas eu tenho um trabalho mais interessante. Se estiver ardendo de inveja por causa da promoção de alguém, mande-lhe flores. Quando você começa a agir como se vivesse na abundância, começa a ter a sensação de fartura. Quando começa a experimentar essa fartura, você não se preocupa tanto com o que os vizinhos têm.

12. Elevar o moral das pessoas pode resultar em inesperadas recompensas. Adoce a negociação.

13. Da próxima vez que alguém próximo a você estiver mal-humorado ou irritadiço, tente dar-lhe uns chocolates ou uns bombons.

14. Quando sorri para outras pessoas, você as “contamina”, literalmente, com felicidade.

15. Sorria - estudos mostram que o simples ato de sorrir fará com que você se sinta realmente mais feliz, o que acontecerá também com as pessoas à sua volta. Então tente adquirir o hábito de sorrir mais. Sorria para estranhos. Se você mora em uma cidade muito populosa, onde há constantemente gente passando, escolha uma pessoa em cada quarteirão. Comece com crianças. Depois, sorria para adultos que parecerem amistosos e receptivos. Após algum tempo você estará preparado para sorrir até para as pessoas com um ar antipático. Ele ou ela podem ou não retribuir o sorriso, mas a questão não é essa. Você quer chegar ao ponto em que, para você, sorrir seja tão natural quanto respirar.

16. O inimigo - Mate-o com a gentileza.

                A gentileza no caso dos humanos não é uma dávida ou traço biológico. Tem que ver com o conceito de empatia, conforme pesquisado nos primatas, por Frans de Waal na obra de biologia A era da empatia. Gentileza é algo que se pode passar a ter, passar a querer ser e passar a receber os benefícios dela. Por isso é tão intimamente ligada a pessoas com melhor padrão de inteligência. Já o resto, é como diz Nietzsche no prefácio à obra O Anticristo – maldição do cristianismo: “O resto é simplesmente a humanidade”. Jean Menezes de Aguiar.
 

* Nenhuma definição da inteligência é satisfatória (e jamais será), porque o termo  cobre um conjunto de faculdades interdependentes, ainda difíceis de serem percebidas no plano experimental.  Sua aparição no adulto resulta de um desenvolvimento lento e progressivo, em constante interação com o mundo exterior (Jean Pierre Changeux, diretor da unidade de neurobiologia molecular no Instituto Pasteur).  /  Já Albert Jacquard, geneticista, professor na Universidade de Paris-VI, ensina que a inteligência é uma qualidade polivalente: ela diz respeito à imaginação, à capacidade de responder depressa, de inventar novas perguntas, criar raciocínios lógicos.  Os testes de QI refletem a capacidade de responder “sim”, enquanto a inteligência é a capacidade de dizer “não”. 

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Legislativos da Roça II

Saudade... Gonçalves, MG


Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) - 11.out.2012

                Na década de 1990 publiquei um artigo em Petrópolis, RJ, que hoje é carinhosamente requentado. Por primeiro, “roça” é o sonho de consumo de muitos urbanos. O texto originário era aberto com Millôr Fernandes: "Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita." Anos se passam e a matéria se mantém; pouco melhorou. A “classificação” dos vereadores em muitos casos; sua subserviência ao Executivo; a ainda grande inércia da sociedade. O poder público já tentou dar às eleições o ar de “festa”. Depois tentou dar o ar de “culpa” social, atrelando consequências da má escolha ao eleitor. Publicidades discutíveis.

                Continua a ser triste a existência de vereadores, por esse Brasil afora que não sabem para que serve o Legislativo. O raciocínio, a lógica, a razão e a racionalidade se veem bastante comprometidos. Berrará o antropólogo: é o retrato do Brasil! Tudo bem, mas é uma desgraça, exatamente para um povo que padece tanto. Isso não quer sugerir uma “tecnocracia”, à qual somente diplomados pudessem ser eleitos. Nada que ver com diploma.

                O problema é que um sem número de vereadores continua a achar que o Legislativo é um Poder que deve existir para intermediar obras do prefeito. Falando em Legislativos municipais, principalmente os que não estão em cidades grandes, qual deles fiscaliza, de verdade, o Município? Quem controla o prefeito? Quem cumpre as obrigações mínimas da Constituição da República, art. 31? Daí vem perguntas: qual é o prefeito, nesse contexto, que respeita o Legislativo? Muitos legislativos só sabem dizer sim e publicar monótonas páginas em jornais locais reproduzindo discursos grávidos de vedetismos e referências enaltecedoras. Fecha-se um círculo vicioso terrível para o cidadão, porque seus representantes-fiscais pouco representam, muito menos fiscalizam.

                Há fenômenos interessantes aí. Clientelismo, paroquialismo e até coronelismo. Alguns se superafetando em outros. Na década de 1990, falava-se em neo-chaguismo, em referência a Chagas Freitas, governador carioca. Fincam-se relações praticamente comerciais de toma-lá-dá-cá. Se antes os rótulos teóricos como esses ainda envergonhavam ou até ofendiam, porque classificavam, hoje não causam mais. A desfaçatez é imune à palavra e mesmo ao xingamento. Os panos caíram, as quadrilhas se organizaram e aprenderam a não fazer marola. O Mensalão é fato isolado e pseudo-emblemático.

Com o continuado baixo nível de candidatos por todo o país, há um olhar vesgo para o próprio umbigo nas pretensões de quem quer “chegar lá”. Qualquer 10 minutos de fama num Bbb já garante a loucura de se candidatar. Fora isso, há os “profissionais”. Vereadores mancomunados com prefeitos, loteiam as cidades para funcionar como despachantes de obras. É a consumação duma política menor, uma que acha graça em outorgar diplomas e comendas de mentirinha.

                Inauguram quadras de esporte nas comunidades, sempre pedindo apoio da mídia. Haverá o vereador-ponte, o vereador-quadra-de-esporte, o vereador-asfalto-de-rua, o vereador-licença-de-igreja, o vereador-vaga-em-escola-pública, o vereador-botijão-de-gás, o vereador-leito-hospitalar, o vereador-baba-ovo-de-prefeito, o vereador-boy-de-presidente-da-câmara ou o vereador-vota-em-tudo-que-o-prefeito-mandar. E ainda há quem diga que isso é “normal” ou é “fazer política”. Há também quem diga que se o vereador consegue a vaga no hospital ele fez uma “boa ação”. O problema é que esse leito hospitalar custará um valor altíssimo. E será devidamente cobrado.

                Ninguém engana a todos o tempo todo. A informação acessível vem mudando bastante a cara, ou o cinismo, da política brasileira. Há muita gente lúcida na sociedade. Em todo lugar, inclusive nas invejáveis roças humildes, mesmo as que não gostam de ser chamadas assim. Há cidadãos inteligentes, observadores e instruídos. E os espertalhões da política começam a ter mais dificuldade.

                Um tônus que parece faltar é “oposição”, conceito ligado, historicamente, à esquerda. Por outro lado, no caso brasileiro, a diva canhota, o PT, conseguiu desagradar até a um inocente Joaquim Barbosa do Supremo, convicto eleitor, agora convicto frustrado. San Tiago Dantas teorizou que as esquerdas dividiam-se em "negativas" e "positivas", foi um reboliço. Brizola, contestando-o, foi mais preciso: dividiu-as em "fisiológicas" ou "idealistas", outra encrenca. De toda sorte “até” nas clássicas oposições que deveriam ser “puristas”, sempre se visualizou o lado negativo ou fisiológico.

                Um belíssimo exemplar vivo da direita brasileira essa semana foi finalmente condenado a devolver 21 milhões, o já quase pop Maluf. Os próceres da esquerda na mesma semana foram condenados pelo Supremo. Não sobra lado nenhum. Darcy Ribeiro na obra, Confissões, p. 298, instigava: "Sou de esquerda e acho que ela é a salvação do mundo. Fora da esquerda só há a indiferença, que é imbecil demais, ou a direita, que é sagaz demais... Existe uma intelectualidade vadia pregando que a direita é burra. Não é não." Darcy era um poeta.

                Se em exemplos maiores e de 1º escalão de todos os partidos brasileiros veem-se problemas sérios, imaginem-se os legislativos miúdos espalhados por esse Brasil que precisa de um leito hospitalar ou de uma vaga na escola pública. É a pandemia da roubalheira. Muita da responsabilidade de o Brasil não ser um país espetacularmente melhor não está em presidentes ou senadores, mas em vereadores. Por outro lado, o refogado disso é revirado na frigideira da sociedade.

                Pausa. Apenas alguns candidatos deste 2012: Andréa Van Escolar; Serginho Escapamento; Sem Camisa; Burrinho da Oficina; Cagado;  Claudete – o poder tem que menstruar;  Ninguém;  Pé de Cana; Para mudar é chana com chana – Simone Bandeira; Zezinho Merda; Cornelson Chega de Traição; Xota Oi Meu Bem.

                O termo “roça” é sublime demais para a esperteza política. Quantos Mensalinhos não há nos milhares de Municípios do Brasil. Já disseram que a política é a arte do possível. Por aqui ainda é a arte da safadeza possível.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Palestra

Novos Dez Mandamentos





Novos Dez Mandamentos
Uma versão da inteligência, da democracia, do não autoritarismo e da liberdade (ou alguém é contra isso?)

1. Não faça aos outros o que não quer que façam com você.

2. Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal.

3. Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito.

4. Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade.

5. Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento.

6. Sempre tente aprender algo de novo.

7. Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles.

8. Jamais se autocensure ou fuja da dissidência. Sempre respeite o direito dos outros de discordar de você.

9. Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros.

10. Questione tudo.


www.ebonmusings.org/
Indexado na obra de Richard Dawkins, Deus um delírio, ps. 339-340.


Dawkins acrescenta (p. 341): "Não doutrine seus filhos. Ensine-os a pensar por si mesmos, a avaliar as provas e a discordar de você".
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Para quem vive batendo no peito alegando ser religioso, crente, fiel, ovelha, fala em Deus e vive sacaneando os outros e tirando proveito de tudo quando pode, em desonestidade e falta de ética descaradas, seria muito melhor ser um Brilhante (Ateu) e seguir esses mandamentos aí. A vida em sociedade seria mil vezes melhor. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eleição & religião

Rebanho religioso
 
Matéria publicada nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) 4.10.12
 
                        Há clichês repetidos como se fossem verdades absolutas. Um deles é: “religião, futebol e política não se discute”. Será? Entre pessoas agressivas e sem educação até pode ser assim. Mas qualquer tema pode ser debatido, basta gentileza e inteligência. Já misturar certos temas sempre foi fonte de tragédia na história da humanidade. Religião e política é uma mistura assim, ruim e atrasada, sempre geradora de fundamentalismos. Se a religião prega, ou deveria pregar, ética, harmonia, tolerância, amor e paz; a política tem como credo coisas bem antagônicas a isso como disputas aguerridas, luta por poder, implementação de ideologias com derrota de adversários etc.

                Não é por outra razão que todos os países considerados avançados não têm religião oficial. Uma religião, qualquer que seja, com pretensões políticas se desnuda, tira a fantasia num descarado “projeto de conquista política”, o que é pernicioso por si só. Deveria haver uma proibição de a religião pretender, enquanto representação religiosa, obter cargos públicos, eleitos etc. O Estado é laico e essa imposição é constitucional. O que justifica uma “bancada religiosa” em qualquer dos Poderes do Estado? Nem Fernandinho Beira Mar é mais suspeito que isso.

                Se isso é “razoável”, ou vão dizer que é meramente a lídima “representatividade” de uma parcela social, que se tivesse a bancada de juízes, promotores, prefeitos e governadores dessa ou daquela religião. Cada uma delas em seus Poderes e entidades. Absurdo. Isso é uma hipótese calhorda. A vontade de tomada de poder por qualquer um é normal. Mas com religião fica tudo fora de cogitação. É um sintoma do atraso.

                O título da matéria da Veja de 26.9.12 é: “A perigosa aliança da fé”. Olha aí. A revista não falou bobagem. É perigosa, é danosa, é errada e o poder pela religião, além de no Brasil ser inconstitucional, não tem como dar certo. É o loteamento da cidadania; o curral da visão de mundo; a lobotomia ideológica a serviço de o que não ser presta a ser um projeto de obtenção de poder oficial.

                Irretorquivelmente correto está o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, quando na entrevista sentenciou: “Não se pode usar religião para voto de cabresto”. Perfeito. Veja-se o pavoroso que é isso: voto de cabresto. Já o próprio eleitor deveria se envergonhar, se sentir humilhado em votar num candidato quem alguém lhe ordenha a escolha. Eleições manejam a soberania do voto livre, lúcido, comparado, refletido, questionado, feito por alguém que pensa ativamente. Não alguém que age como um boi manso e obediente num curral.

                Escolher um candidato requer análise, questionamentos e, sobretudo razão. Mas “razão” é precisamente o que ninguém menos que Martinho Lutero mais temia, ou odiava. São deles as famosas frases: “Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos da razão”; e “A razão deve ser destruída em todos os cristãos”. Ou ainda “A razão é o maior inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as coisas espirituais, mas com frequência entra em confronto com a Palavra divina, tratando com desdém tudo o que emana de Deus.” Parece não haver dúvida que esse estranho “método” da não-razão não é o mais indicado para se escolher um candidato.

                Um exemplo de país atrasado é Israel. Calma. Não se pode medir o “progresso” de Israel pelo poderio bélico de massacrar seus inimigos fundamentalistas religiosos, sob o seu também fundamentalismo religioso. O maravilhoso livro do professor de história da universidade de Tel-Aviv, Shlomo Sand, intitulado A invenção do povo judeu, com 570 páginas é cabal. Israel é um modelo  ditatorial de religião oficial, tendo obrigado até a ateus a terem inscrita nas suas identidades a religião “judeu” (p. 17), que violência. Nas escolas, a história do judeu é um departamento próprio, não pertencente ao setor de história (p. 41), que absurdo. 5% dos nascidos em Israel não são judeus, ainda que paguem impostos, mas a discriminação contra eles, que nem universidade podem cursar, é total (p. 532), que preconceito. Assim, esse violento Estado de Israel não é de todos os “seus cidadãos” (p. 530), mas só dos judeus. Como é bom o meu Brasil.

                Certamente por todos esses conhecimentos históricos sobre Estados com religiões oficiais e suas truculências, nem se precisando ir a países com burca, que a reportagem da Veja sobre religião e política foi categórica: “Em qualquer lugar do mundo, sua mistura é explosiva, deletéria e arriscada”.

                Mas o que ocorre com “candidatos”, esse ser que acorda um belo dia e resolve entrar para a política? Quer dizer, entrar não, tentar entrar. Afora a percentagem de zero vírgula qualquer coisa que efetivamente acredite fazer o bem, se é que chega a essa fração, o que manda é a sede. Sim, sede de poder, dinheiro, salário público, carteirada, motorista, mordomia, negociatas, arranjos, comissões, mulheres bonitas em casas suspeitas, aposentadorias imorais, empregos para os seus e um infindável rol de benefícios, prazeres e delícias.

                Esse mundo da política não deveria ser para um “religioso”, uma pessoa pacífica, um quase-santo. Por favor, não riam de mim. Assim como o mundo religioso não deveria ser “acessado” por candidatos & picaretas, politiqueiros para lá de profissionais e até bem intencionados. Qualquer um pode ir à religião e a Deus. Mas não qualquer um pode ir às eleições e à política.

                O grande historiador brasileiro Boris Fausto, da USP, afirma: “lamentavelmente o Estado laico perdeu a força”. Perder a força é se tornar Estado menos laico, ou, mais religioso. Que perigo. O cineasta Luis Buñuel diz: “Deus e a Pátria são um time imbatível; eles quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue.”

                São Paulo, não o santo, mas a cidade, parece ter sido loteada em termos de candidatos e “religiões”, conforme se lê na reportagem. Mas outras cidades, onde não há, por exemplo, livrarias para instruir o povo, devem aderir nas próximas eleições ao modelo de curral paulista. O problema é que o ser humano é, maravilhosamente um animal superior, não um ser mentalmente castrado que viva em baias ideológicas e currais de votação. A liberdade, o voto e a democracia custaram muito à humanidade e mesmo a brasileiros. As pessoas deveriam se informar muito e votar por uma escolha soberana sua, não um parto induzido. Jean Menezes de Aguiar

PS. quando falo em "religião" posso estar querendo falar em "igrejas".

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mensalão, Cachoeira e malhação

Aprovada: futura Deputada, Senadora e presidente do Brasil.

Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO) - 26.9.12

                Há lições a se tirar da situação atual? Sempre há. 1) O STF parece ter virado, de vez, programa de TV. 2) O mensalão recebeu status de novela, reservando José Dirceu para o capítulo final, quando se saberá se é o grande culpado ou não. 3) A grande imprensa que ridicularizava quem duvidasse da sua sentença condenatória do mensalão, agora abre fartos espaços a dúvidas até sobre a honestidade do Supremo. 4) Se no caso Cachoeira dizem haver provas cabais de corar senadores sérios, admitam-se, no caso mensalão parece só haver indícios, e mesmo assim a juizada suprema está enfiando a caneta. Seria isso a justiça “interativa” que faz o que o “soberano” povo quer? Preocupante.

                Há dias a imprensa parece se preparar para uma nova fase. Avalia que ganhou a condenação do mensalão. Mas ele deixará de ser notícia. Quem incinerar agora? Talvez o Supremo, bobinho que pode ter caído na esparrela da mídia. Espaços nobres de páginas inteiras começam a ocupar os jornalões discutindo, em palavras bem comportadas, a seriedade, a honestidade, a competência dos juízes do Supremo. Talvez seja o pedágio que um Supremo televisivo tenha que pagar pela fama. Isso se não sair arranhado. Essa popularização cobra o sabido e vulgar preço da intimidade: a perda de confiabilidade. Os ministros do Supremo passaram a frequentar nosso churrasco na laje, pela TV. Para a revista Caras e desfile na Marques de Sapucaí é um pulo. Viraram “gente como a gente”, sabemos que coçam o nariz e fazem xixi.

                Para quem ainda acredita que foro especial é a balela inculta do foro privilegiado, e luta contra essa suposta mazela, pode ser que aprenda uma lição. Cachoeira, longe desse foro especial (e dos holofotes) está quieto sem fazer marola e aparecer na mídia - o seu processo -. Teoricamente tem mais chances de ser “absolvido”, mesmo com mais provas contra si, do que um réu do mensalão, apenas com indícios. Se bobear seu procurador de justiça encarregado ainda será dotô Demóstenes. Que delícia.

                É o Supremo um “Maria vai com as outras”? Artigo do jornalista Breno Altman, intitulado “De qual lado ficará o STF?” publicado na Folha de 24.9.2012 recorda falhas graves históricas do Supremo. Sugere instabilidade da corte, já no título da matéria. E afirma: “Os monopólios da comunicação exercem pressão para que a corte endosse sua versão e condene a qualquer custo. Mais que preocupação eleitoral imediata, a batalha se trava para legitimar a velha mídia, verdadeiro partido das elites, como senhora da opinião pública, além de impor gravame ético ao PT e ao governo Lula”. Conclui: “É um julgamento de exceção”. Olha que arranhão.

                No dia seguinte, 25.9, se vê em página inteira artistas e intelectuais famosos, e até Bresser Pereira, do galho tucano, condenarem a espetacularização do mensalão. Não falam eles, mas todos sabem que tudo começou na mídia. O STF é ponta do iceberg. Mas “artistas não entendem de direito”, berrará o positivista reacionário em tolo “argumento de autoridade”. É outro preço que o Supremo parece que vai pagar: o enfrentamento com uma intelligentsia. Se o Supremo quis ser pop, talvez não tenha conseguido. Por esta ele não esperava. Como a grande imprensa queria sangue, pareceu que o politicamente correto seria ter-se sangue. Nada como um dia após o outro.

                Quem lida com jornalismo sabe como é: "Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções", in Novo manual da redação, Folha de SP, 1992, p. 19. Tem mais, uma "tradição da imprensa de dar destaque apenas para notícias de caráter negativo", p. 125. Se o Supremo auscultou a opinião publicada, bem diferente de opinião pública, pode ter calculado errado.

                É claro que nenhum órgão de comunicação vai, hoje, confessar, que esse ódio todo por Zé Dirceu é porque ele tentou regular a imprensa e virou inimigo privado número 1. Regulação que, aliás, se vê nas Constituições da Espanha, Alemanha, França e Itália. Mas no Brasil isso virou infâmia sacra, pedofilia ideológica contra uma democracia menininha, de 20 anos de idade.

                As análises de “ondas”, como grandes oscilações, de Alvin Toffler, podem ser feitas nessas estruturas largas, como imprensa, direito, Supremo, Estado e sociedade, ainda que muito difíceis. Poderiam envolver algo de futurologia, o que é péssimo. Talvez o mensalão seja um divisor de águas, o Supremo não o admitirá abertamente.

                A direita (eterna vidraça blindada, coisa que lembra banco) ocupou legítima ou ditatorialmente o Estado brasileiro por praticamente todo o tempo do século 20. Roubou com perfeição milimétrica, ou lambança em muitos casos. A esquerda (pedra marxista pontiaguda) prometia castidade financeira, jurava que seus homens eram eunucos do capital e suas donzelas, guerrilheiras da moralidade. Dizem, agora, que a esquerda ladra opera o roubo com a mesma jactância da direita. Está na rua. Aí, tadinho, o Supremo no meio, ora acusado de omisso histórico por nunca ter condenado um “mísero” banqueiro; ora de fraco em ouvir uma mídia malandra e agora condenar sem provas.

                Está sendo interessante essa segunda ondinha no mensalão, a do jornalismo que começa a se precaver para a perda do sensacional com a condenação já anunciada. Por outro lado, juízes do Supremo que porventura não aprovaram os capítulos televisivos até aqui, podem querer absolver.

                Enquanto isso, Cachoeira dorme e lê. Sua Bela, que a todos nós pertence no imaginário, chora a ausência do amor preso na masmorra. O juiz trabalha sua burocracia processual. E a imprensa “esquece”, deixa Cachoeira em paz. Mas Cachoeira tratou bem a mídia, aceitou ser xingado de contraventor e não chamou o jornalista de pobretão invejoso. Se chamou, editaram.

                Há dúvidas se um processo judicial devia virar uma Malhação, no sentido novelesco. O lado emocional da exposição pública tira equilíbrio do juiz? A pressão cavalar da mídia - vulgo patrulhamento - com satanização imediata de quem pensa contrariamente pode afetar um julgamento? Deve-se estudar direito pela ciência, pela dogmática, pela zetética, pelos autores e livros ou pelo nome e ideologia de quem vai julgar?

                Talvez o Supremo queira mudar alguns paradigmas. Mas quem quer mesmo é a própria sociedade, agora “interativa”. Vive-se um direito mais pragmático, então “interativo”, como as TVs que no futebol “precisam” ouvir um torcedor com uma pergunta imbecil, de uma cozinha de quitinete, para dizer que são estão ligadas ao povão. Se um julgamento virar isso, a justiça além de cega, o que já é complicado, estará em coma. Jean Menezes de Aguiar