quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Relação duradoura - é possível

Bauman e Janina, lindos.

 Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS em 13.9.12

                Por que casais se aturam? Por que não se separam? O que leva duas pessoas a viverem juntas mesmo sem condições “ideais”? As implicações são de ordem vária. Advogados que trabalham com família, dando consultoria técnica e profissional a casais conhecem idas e vindas de uma vida a dois. Tanto conselhos prévios valem e evitam confrontos sérios, como bons remendos e curativos na relação podem ter um efeito maravilhoso. A consultoria familiar deve contar com experiência de vida; observação; sensibilidade, inteligência e bom lastro em Negociação, cuja literatura especializada é vasta. Negociar visa, por um lado, a evitar conflitos, e por outro, a obter soluções para situações difíceis, ou mesmo conflitos já estabelecidos.

                Duas situações são importantes, aceitando até elaboração de gráficos. Uma, a que estuda como se dá a saturação da relação a dois, como a relação se satura, adoece e pode até morrer. A outra é como e quando o casal entra no tempo de se aturar; como se dá a aturação mútua do casal.

                Primeiramente, tanto é certo que relações saturam, considerada a ultrapassagem de uma fase “inicial” de novidade, paixão, amor, encanto ou que nome se dê; como é certo que casais, a partir de um determinado momento, também passam a se aturar. Não se deve ver aí apenas um juízo de valor negativo. Como se quer aqui, a saturação e a aturação podem ser vistas como uma acomodação boa, razoavelmente natural da vida a dois, que a maturidade saberá aconchegar.

                Depois, o momento ao qual uma relação satura e o momento ao qual o casal passa a se aturar, podem ser totalmente distintos. Momentos são termos temporais, inícios de fases. Em Direito processual, por exemplo, chamar-se-á momento de “termo inicial”, o relativo ao início de um prazo. Está-se falando aí, indubitavelmente, do fator tempo. A literatura especializada em Negociação ensina que três são os seus fatores básicos: informação, poder e tempo. Na investigação de saturação de uma relação e aturação das partes envolvidas, parece não haver dúvida que o tempo é o grande fator. O responsável por corrosões, cansaços, mudanças de atitude e novas visões. Mas também é o tempo o responsável pela aquisição da maturidade, um recheio que altera a visão de mundo de cada agente envolvido.

                Entretanto, ainda que se tenha certeza que o tempo age, em todas as relações, não se pode criar uma ideia precisa de quanto tempo é necessário para que os fenômenos da saturação e da aturação comecem a se fazer presente. Tipos de educação, cultura, hábitos, sociedade, problemas enfrentados no passado, conflitos resolvidos ou abafados, histórico da relação, são, todos eles, elementos essencialmente abertos e difíceis de quantificar, precisar. Terão que ser analisados com responsabilidade e destreza pelo consultor para compor com segurança um retrato da situação.

                Muitas vezes é simplesmente inacessível aos próprios envolvidos chegarem a um retrato correto da situação. As emoções, as reações, os desejos, as ideias de conserto, os manejos e tratamento dos problemas, tudo está envolvido em sua análise que, então, se verá bastante parcial e comprometida. Há quem, mesmo vivendo a crise, consegue mapear a situação com isenção e equilíbrio, mas não é a regra. Pessoas que têm orgulho de se dizer emocionais, passionais, densas e intensas mesmo na resolução de um problema devem concluir que jamais são as indicadas para compreender com equilíbrio, um conflito.

                Há quem diga que a relação a dois passa por um “teste” que seria a “crise dos 7 anos”. Nos Estados Unidos há até uma expressão para essa “coceirinha” dos 7 anos: seven year itch. Estudos americanos tentaram mapear quanto dura o amor ou o que se possa conceber que ele seja.  A Universidade de Wisconsin após ouvir mais de 10 mil famílias bateu o martelo em 3 anos. Mas há que se levar em conta o imenso e desesperado consumismo americano, este que muitos brasileiros tentam imitar a todo custo em algumas cidades grandes.

                Aceitar que a saturação de uma relação se dê em 3 ou 7 anos é negar a possibilidade do amor em todo seu poder de sonhar. Mesmo considerando-se conservadora a ideia da relação “eterna”, este sonho é real e possível. A jornalista jovenzinha perguntou ao doce sociólogo polonês Zygmunt Bauman “como” ele estava casado há quase 70 anos com a mesma mulher. Ele sorriu pacientemente e disse que a geração dela não deveria saber a beleza que é isso. A mocinha podia dormir sem essa resposta. É claro que Bauman e sua mulher constroem essa convivência apoiados na sabedoria, um fator raro.

                A sabedoria, quando cultivada a dois, talvez faça a aturação entre um casal ficar mais doce, menos danosa e tornar a vida muito mais bela. Não se trata apenas de dizer que na velhice “não se separa mais”. Essa seria uma aturação mais ou menos normal. Mas há a aturação ainda jovem, dos planos e sonhos, passeios e companhia ativa e, claro, momentos sexuais poderosos. A sabedoria pode estar em se viver plenamente, sem clichês, sem modismos, mas com amizade intensa e lúcida, cumplicidade e vontade de viver um amor. Talvez a mágica da vontade de viver um amor, mesmo que sem o romantismo do cinema de olhar o luar, mas amor em seu conceito mais aberto e grandioso, seja o grande óleo essencial para uma relação a dois.

                Casais inteligentes criarão em cumplicidade essa vontade mágica. Pegarão a saturação e a aturação e as reinventarão. Discutirão lucidamente como podem ser amigos amorosos por toda a vida, hora com mais amor, hora com mais amizade. Verão que não podem jogar tudo fora, seria burrice, e a partir exatamente dessa visão, construirão uma nova relação saudável, ou seja: inteligente. Esta é a palavra. É claro que aí se imagina uma relação onde não haja ódio, e um mínimo de inteligência consiga “organizar” os problemas. Os fenômenos saturação e aturação podem não ser o fim de tudo. De novo, casais inteligentes terão esses fenômenos conscientes e a beleza da relação poderá estar nessa consciência e em como eles lidarão com as dificuldades. A inteligência salva.

                Não há aqui uma ode boba à relação eterna, de forma ditatorial e burra, no sentido que se tenha que “aguentar tudo”. Mas veem-se relações serem destruídas por questões pequenas, menores e por falta de um canal de inteligência e lógica; lucidez e destreza. Mas sobretudo a rainha de tudo: a teimosia.

                O consumismo nas relações; o “ficar”; a utopia da perfeição; a busca do prazer autoritariamente constante e outras mazelas urbanoides têm feito pessoas menos humildes, menos observadoras, menos cuidadosas, menos amigas, menos éticas e, óbvio, menos inteligentes. Experimente, de vez em quando, viver a emoção, solitária que seja, em algum momento só seu, de querer sentir alegria por ter o seu companheiro com você. Aí pode estar o remédio para que desgastes naturais da relação se tornem muito mais fáceis. Baumam, o grande professor, deve fazer isso há décadas. Jean Menezes de Aguiar  


domingo, 9 de setembro de 2012

O romance, a paixão e o amor


O amor, em O encantador de cavalos. Thomas, suntuosa e linda,
Redford com sua insuperável delicadeza de Homem.
 

A recente obra de Regina Navarro Lins, O livro do amor, da BestSeller, é uma fonte segura tanto para historiadores e teóricos do amor, quanto para o público em geral que busca saber como é que o sentimento se desenvolveu ao longo dos séculos e mesmo milênios.

Isso mesmo. O conceito de amor não é e nem nunca foi algo bruto e imutável, original e alheio a sensações culturais.  Vê-se no livro que há 5000 anos, a mulher era considerada indigna de amor, vivia encarcerada, à espera do marido. Pode-se perceber aí uma das manifestações embrionárias do machismo em que a sobrepujação da força física masculina impunha padrões de conduta.

Também se vê  que o amor é uma construção social, em cada época de um jeito e modo. Isso afastará a ideia de pureza do sentimento, de originalidade dele como pertencente soberanamente ao ser humano enquanto fator próprio de um sentir puro. Se o amor é também influenciado por uma construção social, essa constatação por si só mostra que padrões culturais diversos, de grupos sociais, por exemplo, rechearão diferententemente o sentimento. Uma gente de uma espécie ou padrão cultural amará "diferentemente" de outra.

Também se aprende que com a vinda do Cristianismo, o amor só podia ser a Deus, uma violência cultural própria dos povos atrasados e religiosamente fundamentalistas, como, todavia, ainda há hoje em dia, nesse sistema bancário da fé. Assim, até o século 12 o amor físico foi inviabilizado, havia pesada repressão à sexualidade. Ou seja, era o reino da mentira em que o sentir amoroso e sexual precisava ser contido, mentido e negado. De novo, como se vê em padrões religiosos atuais castradores e que optam por uma contramão da história, da ciência, do conhecimento e do progresso social.

Em Roma, o amor passou a ser algo perigoso. Desenvolveu-se a ideia do homem prudente, que não se deixava levar pelas emoções. Se se interessava demais por uma mulher, procurava ver seus defeitos, como o fato de os seios balançarem demais, ou de ela suar muito. Estranha época em que seios e suor feminino pudessem ser feiúras ou defeitos na mulher. De novo, o que está em pauta nada mais é se não o atraso de uma época. Pensar nos seios a balançar como um defeito é uma visão que só expõe o pior dos defeitos do próprio homem: ter restrições à mulher como ela é; idealizar uma mulher “perfeita”; querer que a mulher não "incomode" a vaidade masculina de uma suposta beleza macha que só existirá para a mulher, nunca para o homem verdadeiro. Não se trata de um machismo às avessas, de uma entronização da mulher, mas qualquer homem que se preza não tem o menor problema com as partes, os fatores, os líquidos da mulher, sejam quais forem, até a urina. E aí as próprias mulheres têm que perdoar esses homens devotos e verdadeiros fiéis. Como achar o suor da mulher um defeito? O que sustenta isso? Evolua-se. Como achar a menstruação da mulher um defeito, se ela é o lubrificante natural e perfeito para o ato sexual? Além de ser também um contraceptivo natural? Como achar os pelos pubianos da mulher que ornam a vagina em caichinhos de amor compondo um Triângulo das Bermudas do amor - ali se vai, ali se some, ali se morre, só que de prazer - um defeito? Quem não endeusa todas essas partes, detalhes, aromas, paladares, visões das mulheres, que me perdoe, mas é um boiola mal resolvido e emputecido, enganando uma deusa que está ao seu lado. E ela que aprenda a ver.

Também na Idade Média, o marido tinha o direito de espancar a esposa.Ôh imbecilidade masculina, esses histéricos e incompetentes que não sabem domar a mulher pelo afeto, amizade, amor, delicadeza e sonho. Sim, domar, a poesia do verbo é essa, como a mulher doma o seu macho a seu perfil e a relação se equilibra. Lei galesa dizia que o instrumento de “correção” seria um bastão não maior que o braço do marido e não mais grosso que o dedo médio dele. Amor e casamento nunca andaram juntos.

Já na Idade da Razão, século 18, o amor se torna ridículo, os ricos “educados” detestavam a ideia de serem escravizados pela emoção. Esses “ricos educados” na história do mundo sempre foram assim, Voltaire que tanto os conheceu, soube zombar com maestria dessa firula de personalidade. Ser escravizado pela mulher. O que pode haver de mal nisso, sem qualquer bobajada cafona e pobretona desses falsos tarados de internet que se auto-intitulam mazoquistas. Mulheres descobrirão o “verdadeiro” homem, nesse mar de vaidosos e fakes machos quando disser que vai escravizá-lo e seu acompanhante não segurar o sorriso de emoção, e imediatamente se acercar a ela, passar a respirar o mesmo ar que ela, juntinho, roçar o rosto em seu rosto e se oferecer docemente àquela forma de amor poético, onírico e delicado. Não se trata de uma ode construída à mulher como discurso politicamente correto, mas de uma invencibilidade: o quanto um homem pode resistir à mulher? O quanto puder é sua parcela de não homem.

Só em 1940 é que o casamento por amor se generaliza, por influência dos filmes de Hollywood, ainda que na década de 1950 as mocinhas ainda insistissem em se casar virgens. Tadinhas, quanto sacaneadas foram. A membrana himenal continuou por muitas décadas a incomodar a mulher. Ainda incomoda. Passou a ser fonte de preocupação para a moça que nem exercícios “violentos” podia fazer, com medo estúpido de se romper o tímpano vagínico, o que consegue ouvir quando um homem está às portas de transformar a menina em mulher.

Todas essas visões poéticas ou bobas, cartesianas ou urbanoides, melosas ou refinadas de sentir, de amar, de se relacionar, veem-se, tiveram fortíssima influência no conceito de amor. Uma saída é se ouvir o coração e perguntar a ele o que é, para cada um, o amor. Ele responderá, mas uma coisa é importante: há que se estabelecer um diálogo racional com o coração, e com o próprio amor. Amar não é fazer loucuras ou enfrentar consequências não inteligentes. Amar pode ser querer voar e quando se descobre o segredo do outro, que ele também gostaria de voar com você, aí tem-se a certeza que se está diante do amor. E toda a teoria pode ficar reservada para estudiosos. Qualquer um ama, essa democracia do amor é das melhores. Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O preconceituoso, o autoritário e o formalista


 

O preconceito envolve o objeto e o olhar. É sobre o objeto que o olhar repousa. Se o objeto é doente e a leitura revela a doença, não há preconceito, mas relação simétrica da leitura que apenas acompanha, conhece e identifica uma doença existente. Mas se o objeto é são e a leitura continua doente pode ter havido preconceito, como pode ter havido apenas um equívoco. Objetos sãos podem disparar equívocos e preconceitos. Haverá equívocos quando a produção da leitura se dê em deformação, oriunda da 1) falta de conhecimento - a ignorância -; ou 2) truculência na análise - a imbecilidade-. Já o preconceito poderá ser 1) desejado e consciente - quando se nutre e se mantém a leitura preconceituosa sobre um objeto-; bem como 2) imperceptível para o próprio agente - quando a leitura é fruto de uma má formação cultural, educacional, social etc.

Nalguns casos o preconceito chega a consubstanciar uma crença, uma ideologia ou um corpo homogêneo e sistêmico de visão de mundo do agente que comporá feições potencialmente genéricas sobre a própria personalidade como 1) conservador ou retrógrado; 2) machista; 3) radical; 4) autoritário; 5) formalista e outras. É interessante que cada uma dessas visões representam gêneros abertos de traços personalísticos que recepcionam subgêneros, espécies e subespécies de preconceitos. Assim, por exemplo, o gênero conservador deverá primar, na esfera familiar pelo casamento virgem da filha; na política por um modelo autoritário de direita ou contrário a direitos humanos; nas artes, um padrão que coíba o que possa ser classificado por indecente, imoral, mundano, como se a arte fosse contível.

A análise exauriente afasta tanto o radicalismo quanto o preconceito. Ela não se compraz apenas com o pictórico, o superficial ou o aparente. A busca pela ilimitude do aprofundamento na identificação de o que possa ser o objeto é uma garantia metodológica de que o agente não lida nem com o radicalismo - uma forma de parar a análise somente no ponto da leitura doente por agravamento que se quer, mas sem exauriência -, nem com o preconceito - uma forma de não permitir o aprofundamento na leitura, mantendo-a superficial, quando se atinge um atalho cognitivo para se pular a uma ilha conceitual que abrevia o sentido da coisa, exatamente aí o preconceito.

O avesso do preconceito não é a permissividade, a anarquia, a desordem ou a deficiência na análise. Não garante não ser preconceito quem acha que tudo pode e de qualquer jeito; que uma visão anárquica esgarçada da autoridade é a correta; que a ausência de uma ordem sistêmica é a garantidora da liberdade de pensar; e que a análise ametódica é a correta. O não preconceito não tem que ver com insuficiência de forma, de análise, de método e de quantidade de cultura (padrões sociais) que saiba separar o certo do errado, o bom do mau, ainda que isso possa ser bastante relativo. Em condições e padrões sociais considerados normais, ninguém aceitará valores como incesto, pena de morte, pedofilia, abortamento a partir do 3º mês de gravidez e outros núcleos duros aceitos por uma grande maioria lúcida da sociedade ocidental e evoluída. Assim, será totalmente falaciosa, por exemplo, a pecha de preconceituoso a quem defender a proibição da pedofilia ou do incesto. Elas têm que continuar proibidas. Há núcleos certos e errados, e a defesa do certo e condenação do errado não têm nada que ver com preconceito. Anular essas fronteiras nem é liberdade, nem modernidade, nem garantia de não preconceito, apenas afetação a um sistema cultural que se quer não afetável. Como a pecha do preconceito é perigosa e pode gerar um tumor autóctone na personalidade, uma imanência viral que pode acompanhar o agente, será uma baixa esperteza apontar alguém como preconceituoso quando ele efetivamente não seja. Ao mesmo tempo que a falácia desse método será facilmente percebida.

O preconceito é invariavelmente autoritário, além do que um formalista, porquanto não adepto da análise exauriente. Tanto o agente autoritário deverá ser um preconceituoso e formalista; como um preconceituoso deverá ser um autoritário e formalista; quanto um formalista deverá ser um preconceituoso e autoritário. O fluxo de forças nessa tríade - preconceituoso, autoritário e formalista - parece ser bastante nítido e intenso.

O preconceituoso nega a exauriência geradora do deslumbramento. O autoritário constroi sua própria ilha que não o liga ao continente. O formalista nega o método libertador e nitidamente empaca. Nos 3 casos há estanqueização forçada de um melhor tônus cognoscitivo. Se o preconceituoso baba preconceito, o autoritário e o formalista suam, o que dá no mesmo. Os três requerem cuidados especiais no trato social, no manejo diário, na simples convivência. São pessoas perigosas e difíceis. Invariavelmente escondem invejas e mediocridades bastante nítidas. Muitas vezes maquilam suas perversidades e problemas com fundamentalismos religiosos e outros disfarces de invocação com o sobrenatural para invocar uma bondade cristã totalmente mentirosa ao observador atento. O preconceituoso, o autoritário e o formalista só são confiáveis até o ponto em que suas ideias possam não ser confrontadas, discutidas ou afastadas. É por isso que intelectuais, cientistas e pensadores famosos optam por não entrar em embates públicos com essa gente. A honestidade não é a tônica ou o manejo das conversas, mas um ponto escondido preconcebido que será revelado, como um xeque mate, em qualquer esquina do diálogo. Um xeque mate imbecil, sabe-se, mas para o energúmeno inventar uma imbecilidade assim deve ser algo genial. É uma gente a se manter sob vigilância eterna, ou longe. E esse cuidado à saúde mental não tem nada que ver com preconceito. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Lições de um pai


Eu e o homem da minha vida, década de 1970
 
Artigo publicado nos jornais O DIA SP e O ANÁPOLIS
 
                Semana passada cogitei com uma das minhas filhas de escrever uma matéria aqui sobre o meu pai. Seria algo parcial, puxar a sardinha para minha brasa, difícil, reconheço. A filha achou a ideia ótima, claro. Mas não deu tempo de ele ler a matéria, ele lia todas e vibrava, mas esta não deu. Ele resolveu surpreender. O jeito é tirar algumas lições da situação, aproveitando, claro, para encher a sua bola e que sirva um pouquinho para outros pais.

                Lições de vida são como um investimento, para sempre. Quando achamos que não será preciso, elas próprias se fazem presentes, delicadamente, cuidando de quem as coleciona e as trata bem. Grande parte dessas lições se aprende com uma educação familiar poderosa e ética; qualificada e com autoridade; recheada de valores saudáveis e amorosos. Confesso que esse grande prêmio da vida, para mim o maior de todos, meu pai deixou, sem qualquer dúvida. Sem exagerar um milímetro sobre suas qualidades ligadas à inteligência e à educação, ele seria um ótimo modelo para tantos pais perdidos dessa atualidade vocacionada para a futilidade.

                Uma primeira lição que ele deixou foi a da previdência, a previsão das coisas, calcular o futuro. Essa lição me ajudou por toda a vida, inclusive quando meu telefone tocou em São Paulo e minha irmã me deu a notícia. Se é que é possível, eu estava “preparado”, e mais: como ele queria. Experimentar essa lição dele, para ele com sua própria morte foi uma prova de fogo que, parece, funcionou como um relógio no meu emocional. Os momentos difíceis vieram-me com total equilíbrio, lucidez e paz. Pessoas tolas diriam que é frieza. Meu pai era um misto raro de lógica calculada e emoção ardente. Talvez por isso esse meio ateu, aposentado do Banco do Brasil e gaitista inveterado que tocou até a véspera de sua morte, conduzindo seu próprio automóvel aos 83, não tenha causado em mim um estrago emocional que ele próprio não gostaria de causar. Até isso devo a ele.

                Outra lição foi a autoridade, como pessoa e na educação, que jamais pode ser confundida com autoritarismo ou violência.  Ao mesmo tempo que amoroso, totalmente informal, brincalhão, presente e meloso com os filhos, meu pai soube ser austero quando tinha que ser. Os filhos, tínhamos orgulho de “congelar” com apenas um olhar dele. “Limite”, palavra da moda, para ele não era ter que falar 2 vezes com o filho. Muito menos 17 como é hoje. Digo que foram erradas as palmadas sérias que não pegaram em mim. Querer que quem mais ama não possa dar palmadas para educar é “coisa de fraco”, como dizia esse pai. O maravilhoso ator Clint Eastwood, quem ele gostava, já disparou que no seu tempo “dava um soco na barriga do cara e tudo se resolvia, hoje em dia querem perguntar como se lidar psicologicamente com a coisa, daí uma geração de maricas”. Aí a fôrma do meu pai.

                Uma terceira lição foi a densidade, a intensidade na forma de viver. Meu pai não poupou vida. Viveu bem até sua última noitada. Na última década, passou por alguns AVCs e cirurgias e nunca se abateu. Trocou de carro aos 80 anos e quinzenalmente dirigia até Arraial do Cabo. Ele inventava energia. Na véspera de sua morte, último domingo, foi tocar no Panorama Piano Bar, no Hotel Mercure, Rua João Lira, Leblon, no Rio, onde sempre ia dar canjas com Antenor Luz, grande violonista, e um grupo de cantoras lindas & maravilhosas, e cantores os melhores do mundo. Assim são esses espaços culturais maravilhosos, infelizmente raros atualmente. Espaços para felicidade musical da alma.

                Nunca fui ao Panorama com meu pai, recusei inúmeros convites dele. Assumo o erro. Quando soube que lá tem um piano de cauda que, como quase todo hotel desse estranho Brasil, pianistas, mesmo profissionais como eu, não podem tocar, criei uma antipatia fomentada corretamente pelo meu próprio pai. Infames os gerentes que mentem dizendo que “o pianista levou a chave” para justificar o piano trancado. Quanta violência cultural se perpetra nessa país. Devem achar que o piano será estuprado. Só no Hilton de Belém que, por sinal, possui um inacreditável Steinway & Sons, o melhor piano do mundo, pode-se tocar. Registro um beijo para os músicos e cantores amigos de meu pai.

                Outra lição que aprendi com ele foi a crítica. Meu pai foi “o sujeito mais crítico do mundo”. Mas nunca perdeu a ternura, a poesia e a sensibilidade. O olhar crítico faz ver a vida de uma forma mais realista.     Devo o pouco ou muito de crítica que tenho à filosofia e a meu pai é claro. Ele zombava do mundo, ria, gargalhava, se divertia, adorava uma piada. Mas nunca teve um único arranhão ético ou de honestidade em toda sua vida, coisa rara. Passou isso para os filhos seriamente. Nos últimos tempos ficou bastante emotivo, uma manteiga derretida. Se uma vida foi vitoriosa e inteligente, foi essa.

                Uma das formas de inteligência dele foi no ótimo trato com os filhos. Quem dera eu ter sido como pai um terço de o que ele foi para seus filhos. As viagens, os passeios, as caçadas e pescarias, as aventuras, os esportes, o apoio infinito a tudo que eu inventava quando criança e adolescente. Como dizia um primo meu, ele topava tudo, e era totalmente parceiro. Isso é ser pai, e sem ser piegas ou frouxo. Era um herói. O Fusca e o Impala, os carros que me serviram de aprendizado na direção que, todavia começou transgressivamente aos 15 anos de idade, por incentivo dele, totalmente seguro e confiante.  O poderoso modelo musical, com um gosto refinado para o jazz e a MPB. As amizades verdadeiras que o amavam e viam nele um conselheiro maravilhoso, honesto e sensível. É claro que meu pai teve defeitos, todo mundo tem, mas ele sabia voltar atrás, desfazia coisas, recomeçava e sempre foi totalmente humilde.

                Foi um “virador”, como ele mesmo dizia. Trabalhou no Banco do Brasil à noite, na compensação e de dia fez de tudo um pouco, de loja de chocolate a transporte escolar, com Kombis e depois ônibus, no meu Colégio Zaccaria, no Catete; de oficina mecânica a uma ilha cheia de gado no Rio Paraíba em Vassouras; de músico profissional em solteiro, baterista com o grande amigo e cantor Miltinho, a amante da gaita nas noites do Rio.

                O pai de ninguém é um pai qualquer, todos são lindos e especiais, assim é a figura do pai, ou deveria ser. Há pais de todos os jeitos, formas e tipos. Às vezes vejo filhos se esfregando lindamente nos pais, é a poesia viva, corporal, do amor e do carinho familiar. O pai talvez seja mais “carente” que a mãe. Todos enaltecem o amor e a primazia da mãe, e às vezes parece que nós, pais, ficamos meio esquecidos. Há que se cuidar disso. Pais “falham” tremendamente por excesso de responsabilidade, trabalho, formação, sucesso, dinheiro e falta de vagabundagem, da melhor qualidade e delícia com os filhos. A impressão é que meu pai não falhou em nada e, objetivamente, foi sim o melhor pai do mundo. Mesmo que não fosse o meu. Espero que outros pais possam se espelhar no exemplo desse cara, a minha grande sorte da vida. Esse foi o homem da minha vida. Cuide muito do seu. (Zeca, do Jornal, não precisa mais mandar exemplares semanais para o Rio. Meu pai lhe adorava).

                Hoje apenas Jean, o filho do Eugenio Carlos de Aguiar.

sábado, 1 de setembro de 2012

A periguetização da mulher



Uma das coisas mais bonitas da mulher, e soberanas, é o dar. Sim, dar no sentido de transar. Não há vulgaridade com o verbo dar, mas poesia, afinal toda doação é uma coisa bela. Homens poderiam reclamar, até em certa inveja e neste contexto original, que somente a mulher dá, e esse dar envolve prazer para ela própria, ou seja, além de ser um dar, algo belo, ela tem o prazer máximo, o gozo. Entretanto, o filósofo Roland Barthes já observava, numa comparação dolorosa entre o amor e o sexo, que o sexo era sinal de vida saudável, e o amor uma coisa incômoda, difícil de mostrar, uma exceção. Assim "o amor seria antes uma doença, uma fraqueza, uma fragilidade e uma ferida" (Café philo, p. 38, apud André Comte-Sponville). Curioso que Nelson Rodrigues reclmará da mesma coisa: "Eu me sentia violado quando professor falava em Sexo (e, de amor, nenhuma palavra)... E nunca ninguém se dispôs a ensaiar uma Educação Amorosa" (A última mulher fatal, 4.1.1968). Não há qualquer incômoco e não pode haver com o que a mulher faz com seu corpo, quantas vezes faz e com quem faz. O tema do texto aqui é contra uma sociedade conservadora que discrimina prostitutas, mas inventa um termo "periguete" para moças "da sociedade" que, no fundo, parece que a única diferença será o fator dinheiro, aí a baba do preconceito e da discriminação.

Falar de mulher é mais que um prazer. Mas um artigo como esse, estima-se, sempre desagradará a alguma menina por aí, um beijo antecipado para quem não gostar. Há conceitos que a própria mulher tenta esconder, não assumir ou fingir que “não são bem assim”. Coisas esdrúxulas ou fora de uma padrão determinado usualmente, todo mundo quer deixar longe da própria vida, é natural. Por exemplo, a vulgaridade ou até a prostituição. Se para muitas mulheres isso é tranquilo, manter longe, para outras será um disfarce que, todavia, não conseguem esconder, ainda que ser vulgar possa ser um direito de cada um.

Muitas mulheres, e não somente os cafonas executivos fantasiados de “homens de preto” no aeroporto de Congonhas, SP, são influenciadas por ondas e modismo sociais. O que é ou pode ser a mulher periguete? É uma forma de neoprostituta? É um eufemismo para o que sempre se chamou de vida "fácil"? É um conceito intermediário entre a recatada e a puta (puta sem qualquer sentido ofensivo!)? É a “putinha”, no diminutivo, uma forma de prostituta amadora, exatamente porque não cobra dinheiro? Uma moça da “sociedade” admitiria facilmente para o pai ser periguete, entre risos e brincadeiras, invocando uma licença eufemística social, mas não admite ser uma prostitutazinha amadora? Pois é, há questões difíceis e limítrofes aí, a começar pela terminologia, que o preconceituoso não aceitará e dirá que se está esgarçando o conceito. Mas isso são apenas questionamentos e não ainda um conceito.

Uma coisa é certa, o tema desagrada a várias categorias, como se explica. 1) A prostituta legítima e  respeitável, trabalhadora e consciente de sua situação em regra ruim, poderá ver na periguete uma concorrente desleal; uma que não se “sindicaliza” e dá de graça, ou dá pelo preço de uma entrada vip na boate “chique”, e dá o que a prostituta precisa vender, muitas vezes sem qualquer prazer e disposição. 2) A “santa” ou puritana - admitindo-se a hipótese dessa existência meio ridícula que só agrada a papais cegos-, quererá ver, com seu olhar preconceituoso, na periguete uma rampeira desavergonhada, mas uma que consegue homens que no fundo, talvez, a santa gostaria de conseguir. 3) A coroa, já supostamente vencida a idade de periguetear, verá na periguete uma concorrente em vantagem, em razão da “tenra” idade. 4) A jovem “comum”, mas baladeira talvez queira aprender alguma “coisinha”, superficial, de relance, de como periguetear, mas sem ser carimbada, jamais, de periguete, afinal garantir um parceiro na noitada é a meta de muitas, ainda que sem vulgaridades (é o brincar com o perigo da vulgaridade, mas só brincar). 5) Por fim a assumidamente periguete terá uma auto-visão condescendente, legitimada é claro; justificará que toda mulher tem sua periguete para rodar e ela apenas “brinca” com o conceito (essa pode ser mentira mãe); ou é autêntica; ou faz o que muitas gostariam de fazer e não tem coragem; ou dirá que não há qualquer problema com o fato de ser considerada periguete; ou dirá que periguete é apenas um estado de espírito, não se convertendo em nenhuma atitude efetiva de comportamento para o mundo. Há um festival de mentiras aí. Parece que todo mundo terá sua justificativa, ora mais conservadora, ora mais “descolada”.

Paralelamente alguns setores, como imprensa e boates, lucram com a nova moda inventada, da periguete, talvez um tipo de mulher fácil que a sociedade conservadora aceite um pouco “mais” que a legítima puta, esta francamente discriminada pela mesma sociedade, inclusive feminina.

Mas uma primeira dificuldade se apresenta: o que é ser periguete. No interessantíssimo Dicionário do sexo e da prostituta, de Émerson Ribeiro Oliveira, de 2001, editora Scortecci, o termo periguete não aparece. Há uma coleção espetacular de nomes com seus sinônimos regionais de todo o país para: viado (Locró), prostituta (Girafa, Leona), corno (Esporado, Aspudo), vagina (Gongolô, Lasca), traidora (Lavar roupa fora), pênis (Macaxeira de homem, Manjeroba), nádegas (Mapa-múndi, Padaria) etc., e nada de periguete. Em 2001 o termo não havia.

Por outro lado, também nesse dicionário há um aparentemente perfeito sinônimo brasileiro para periguete, de uso cearense, é a Murixiba - “mulher de quem se fala sem respeito; mulher jovem que busca atrair os homens. Uso sertanejo, não muito extenso.” A periguete parece ser uma murixiba.

Confirme-se no Dicionário informal, na internet. Homens opinam sobre o conceito de periguete. Ainda que com uma visão potencialmente machista ou não, os conceituadores precisam ser ouvidos e podem não estar errados, já que aparentam ter algum conhecimento de causa. Seguem os conceitos.

Primeiro: "Corruptela de "perigoso" = aquele que causa perigo mais "guete"= boca mole, aquele que fala demais, tegarrela: rameira, prostituta, piranha, pistoleira; perua; fofoqueira, bisbilhoteira, fuxiqueira, mexeriqueira; mulher que frequenta bares noturnos em busca de namorado. A minha vizinha é uma periguete, porque fala mal de todo mundo! Cuidado com as periguetes que fazem ponto noturno nas ruas. Sinônimos: putinha prostituta, piranha, perua, caça homem, fofoqueira, mulher da vida, biscate, vulgar, safadinha. Antônimos: mulher pura, santa, pura, santa, pura, inocente. Relacionadas: baladeira, safada, perigo, faladeira, tagarela, aventureira, perigosa."

Segundo: "Garota que sai para as baladas ou para as festas para se divertir, dançar, beber e ficar com vários caras quase ao mesmo tempo; baladeira; vulgar no modo de se vestir, no modo de falar, no modo de andar, no modo de agir; o mesmo que pirigueti ou piri. Já vai aquela periguete em busca de mais um otário que a banque na balada! "
Terceiro: "Mulher aventureira, da vida. Ela é uma periguete."  enviar nova definição enviar nova imagem denunciar abuso
Quarto: "Putinha da noite. Ontem eu peguei uma periguete na balada."
Já no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa há: "Periguete s. f. (origem duvidosa, talvez de perigo) [Brasil. Informal] Mulher considerada desavergonhada ou demasiado liberal. = PIRIGUETE."
s. f.[Brasil, Informal] O mais interessante é que a mesma mídia um tanto quanto preconceituosa com as prostitutas resolveu aceitar as periguetes como uma coisa normal, inclusive validando comportamentos e atitudes que talvez nem as prostitutas tivessem. Uma casa noturna, por exemplo, receberá uma periguete sem qualquer problema, mas rechaçará uma prostituta profissional, mesmo uma bem vestida e arrumada. É como se o elemento dinheiro e apenas ele alterasse toda a honradez da conduta sexual. Por esta lógica reducionista, se uma casa noturna souber de uma mulher que transe no banheiro com 3 homens seguidos, mas sem cobrar, pode não expulsá-la do ambiente - será a periguete -, mas se souber de uma que foi "contratada" por dinheiro para transar, mesmo depois do expediente da boate, não quererá mais aquela profissional por ali, pois isso representa uma ameaça ao “nome” da casa.

Essa divisão - dinheiro / não-dinheiro - parece ser a única bastante problemática. Outras considerações sempre entram em jogo, acusações de prostitutas serem violentas, rodarem a baiana, serem vulgares, como se uma periguete, cujo termo deriva de perigo, não aceitasse todas essas suposições.

Haverá quem negue ser a periguete uma prostituta amadora (amadora apenas porque não cobra dinheiro). Mas nessa análise parece ficar exposta uma hipocrisia social tremenda. Parece que arrumaram um nome aceitável e “engraçadinho” para as nossa putinhas, as que podemos ter e aceitamos dentro de casa, e que não precisam do dinheiro do sexo para comprar remédio para o filho e para sobreviver. Isso mantém e faz continuar a discriminação com as prostitutas legítimas, em muitos e muitos casos pessoas muito mais vividas, experientes, com percepções finas sobre o ser humano, sobre o homem e sobre a vida. Em não poucos casos verdadeiras conhecedoras da dor que é o simples e próprio viver.

Minha grande amiga antropóloga e professora da Universidade Federal da Bahia, Alinne Bonetti, coordenou com Soraya Fleischer, o livro Entre saias justas e jogos de cintura, no qual diversas antropólogas relatam suas experiências de campo, nas pesquisas, com prostitutas, travestis e outros. Acredito que o olhar do estudioso social até possa criar um "compartimento" de estudo para as periguetes. Mas também acredito que a aproximidade dessa "espécie" esteja bastante ligada à tipologia da chamada vida vulgar., que a sociedade rechaça vorazmente.

Particularmente, admito, se me fosse dado escolher entre passar a noite numa mesa de bar conversando até o amanhecer com uma prostituta e uma periguete eu não exitaria um minuto: mil vezes a prostituta (um beijo, moças). As histórias das profissionais não são mentidas, não são disfarçadas, muito menos suas tragédias. Essa verdade lacerada na prostituição é, pelo menos para o estudioso, atraente e culturalmente rica.  Já uma periguete que não sei bem o que possa ser isso, imagino que culturalmente seja um fracasso em qualquer conversa, um tonto e semibêbado fracasso. Jean Menezes de Aguiar

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mensalão o escândalo tampão

A geometria do mensalão, sobe se divide e desce.
 
Artigo publicado no Jornal O DIA SP e O ANÁPOLIS (GO)
 
                O nobre e digno Mensalão não é isso tudo que falam dele por aí. Parece não haver dúvida que existiu. Ou a poderosa grande imprensa conseguiu dar existência a ele. Daí, um Supremo sob holofotes não tem como ir contra “o povo brasileiro” ou a opinião pública. Ou, como reagem, até com lucidez: opinião publicada. Tanto faz, no final das contas pouca “mudança” haverá. Não é ter existido ou não, o mensalão, o objeto do artigo de hoje. Mas isso abre ótimos questionamentos. Repare, se o Supremo condenar, dará “existência” a ele, ou seja, aí ele existiu. Se o Supremo absolver ele não terá “existido”. Repare-se o poder de um único julgamento sem chance de recurso: a existência ou não de um fato. Em filosofia chama-se reificar, ou seja, dar tratamento de coisa, no caso ao mensalão.

                Enquanto isso, gente da ativa, oficial, envolvida em escândalos outros - por exemplo, a indecência dos salários acima do teto -, está dando graças a Deus com a fama do mensalão. Para essa gente, milhares, o mensalão é um escândalo tampão. Um que cobre os outros infindáveis escândalos do país. O certo é que no Brasil deu-se uma sociologia rítmica do escândalo: um vai encobrindo o outro.

                É claro que há desvios na iniciativa privada e não só no setor público. Mas aí é um problema de quem foi lesado. Se uma empresa contratou mal, pagará o preço pela escolha, o que em direito se chama error em eligendo. Se tinha um gerente ou diretor que sangrou o cofre, houve falha na fiscalização, o que terá o nome também latino de error in vigilando. A sociedade e a iniciativa privada nunca foram santas. Não há essa oponibilidade entre o santo e o demônio, o honesto e o desonesto. Só um detalhe: no setor público “haveria” a obrigação de se ser honesto porque o dinheiro é público e a autoridade “jura” que será honesta.Isso está exemplarmente nos regimentos, corregedorias, estatutos. Só não está na prática.

                O mensalão, chega a berrar grande parte da imprensa, é o maior escândalo brasileiro julgado. Pode ser, em termos de réus no Supremo. Mas o maior escândalo é a “cultura” que autoriza o que se fez no mensalão. A privatização do dinheiro público ou dos interesses públicos.

                Aí, fomenta-se a ideia de que se o Supremo condenar o mensalão, o país será “outro”, querendo-se dizer melhor. O mesmo pensamento maniqueísta já rondou a sociedade em 1988, com a Constituição da República. Mas não é, infelizmente, uma Constituição ou uma condenação que faz um país mudar. O mensalão será apenas mais um no calmo e ordinário caldo cultural de corrupção política, eleitoral, financeira, administrativa, oficial, bancária e pública do Brasil.

                Valores não mudarão. As “assessoras” com os melhores corpos do planeta e lugar garantido na Playboy continuarão a ser cinicamente contratadas. Os filhos, genros e amantes continuarão a preencher o nepotismo cruzado, numa “meia” ou troca-troca cínica de nomeação entre “autoridades” quadrilheiras. E as comissões e “beiradas” continuarão a ser pagas.

                Entretanto, ser pedra, como se é aqui, exatamente neste artigo, num sistema como o brasileiro, é fácil. Berrará o corregedor mais austero e sisudo do país: ponha-me lá que eu conserto. E na semana seguinte descobrir-se-á que ele também mama um salário 2 vezes acima do teto. Nós somos assim, sempre quisemos isso para os nossos filhos. Essa é a desantropofagia que nos salva na roubalheira estatal. Cuidamos do próprio rabo e do rabinho dos rebentos. Triste sociedade.

                No ranking da alegria tesudo-visual, o mensalão perde em disparada para as Cpis. As Cpis pelo menos têm secretárias e assessoras de pedir em casamento com promessa de vários filhos. Já o mensalão, só aqueles advogados feiosos. O Supremo precisa se “modernizar”. Contratar uma capa de playboy para que os marmanjos se deliciem.

                Enquanto isso, o já domesticado mensalão trabalha com alguns segmentos. O primeiro do pódio, vencedor com facilidade é a imprensa. Ela apenas “revela” com seu “sagrado” dever de informar, ou fomenta, instiga, aumenta e, obviamente, garimpa lucro com toda a situação exagerando fatos e até plantando alguns? Parece que a resposta pelo comercial é das mais óbvias.

                Em segundo lugar no pódio vem o Poder Público incumbido de investigar, apurar e julgar os escândalos. Há diferenças aí. Polícias brazucas nunca gostaram muito de investigar. Parece que dá trabalho. Essa sempre foi a marca registrada nos inquéritos policiais. Mas um ingrediente mudou isso, de novo ela: a imprensa. Casos que têm holofote, parece que a polícia até põe roupa bonita para foto. Outros segmentos ainda aí serão o Judiciário, agora pop na Tv, e o recluso e quase secreto Ministério Público. Este nunca se conseguiu saber muita coisa dele.

                Em terceiro lugar no pódio vem a sociedade, consumista, noveleira, amante de Datena, Ratinho, Faustão, Banda Calipso e Gabriela, claro. Ávida por fofoca, notícia, bafafá e espuma de informação, assim é a nossa sociedade, a nossa cara.

                O que será que dá uma vitamina com esses ingredientes? A sociedade brasileira quer os mensalões. Este foi um BBB jurídico. Haverá tristeza e abandono dos ministros do Supremo quando o mensalão acabar. Peluso será o único a deixar o mensalão com chave de ouro: aposentar-se-á nele. Um escândalo como esse no fechamento da carreira é a glória última. Se bobear, haverá passeata na praia de Copacabana para um Peluso-Fica. Viúvas sociais dos ministros deveriam chorar nos corredores de um Supremo tristonho. A imprensa reforçará os jornalistas na sessão do último voto, que não pode ser “volto”, como o aparentemente eterno Lula. Nunca na história do Supremo um voto terá sido tão grávido de expectativa e emotividades. Não será um voto, será um adeus.

Já os outros ministros serão abandonados à própria sorte, tendo que continuar a trabalhar em casos nada televisivos; comunzinhos, cansativos e ordinários. Poderia ser pensado um novo filtro, ao lado da “repercussão geral” já prevista na Constituição: a repercussão geral televisiva. Só poderiam ser julgados no Supremo os processos que tivessem essa repercussão. O país seria mais alegre.

                O mensalão é o refogado de um escândalo. O quanto ele vai servir para “consertar” o país? Muito pouco. Talvez seja uma mera advertência para o restante que faz o mesmo, igualzinho. Mas pelo menos o Supremo “conseguiu” julgar este. Condenando ou absolvendo, parabéns pros caras.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os amores de Darcy Ribeiro


O retrato de um intelectual, lindo, inquieto, odiado, poderoso e inesquecível.
 
Os amores de Darcy Ribeiro, o senador, o cientista do ano pela SBPC e o grande homem amoroso, veja uma lista adjetivada por suas próprias palavras.

 
Berta dilacerou-o, pois seu corpo esplêndido de mulher escondia um homem, mesmo assim ele foi o único a que ela permitia amá-la.

A carioca, queimadíssima de sol, casada com um rapaz mais jovem que ela gostava muito, mas essas razões e desrazões nunca importaram ao mestre.

com 22 anos, bela, graciosa e lindíssima, e o mestre com 55, queria se casar com ele na Igreja da Glória; era muito intelectual e estudiosa, o que era chato.

Crau, bela, lindíssima,com quem casou e viveu por mais de 10 anos, foi a mulher que o mestre mais amou, cujo sogro era mais jovem que ele, e ela era 33 anos mais jovem que Darcy, o menino que enlouquecia tocando seus seios.

Lu, a paulistinha de joelhos belos que conversava antropologia na cama.

A preta, belíssima, talvez a mulher mais bonita do mundo.

, a ítala que ama com o saber de uma romana.

Desidéria, a que amava inigualavelmente, de corpo inteiro, não sabia beijar, aprendeu com o mestre, afrouxando bem as mandíbulas e dizendo “bu, bu, bu” e passando o dedo no lábio inferior para umedecer a boca; aprendeu também com ele a comer boca, a suprema forma de beijar.

Luciana, o grande amor carnal, quem o mestre invocava o santo Deus dos gozos que fez Luciana para ele. Em seu fim, Darcy disse que não tinha ciúme do Mister, que nunca soube dele (Darcy) e aí, em seu fim, ficou com vontade de contar ao marido, para saber que ele tinha uma grande mulher, ele não ambos, o dono oficial e Darcy, a mulher que ele se referiu como “nosso Sol Luminoso”, dividindo-a gentilmente com seu marido.