terça-feira, 27 de março de 2012

Linguagem defeituosa impede inteligência?




A prática, o modismo, o gosto ou a mania mesmo de se optar (!) por falar erradamente em plurais, concordância verbal e nominal, antropologicamente identificado como “regionalismos” ou modo cultural, que seja, gera atrofia de inteligência ou empecilho a um pensamento genial?

Os processos sinápticos e neurais são tão interligados com a exteriorização linguística – dos fatores da linguagem, Fonação, Articulação e Fala, essencialmente este último – que quando se atrofiam símbolos, por meio da falência da linguagem (Fala), se atrofiam significados, gerando um empobrecimento no processo inteligencial da comunicação?

A pessoa que é “educada” por modelo familiar, que é um modelo de valor fortíssimo, talvez superior em força ao modelo formal da escola (Judith Harris, citada por Steven Pinker, Como a mente funciona, p. 472, afirma que “em todos os lugares as crianças são socializadas por seu grupo de iguais, e não pelos pais.”), a falar pauperrimamente “nóis vai”, “nóis quer”, “ele vai mais nóis”, teria alguma forma de comprometimento com o processo mental ou percepcional de sistemas “inteligentes” (abstratos, filosóficos)?

Essas questões podem ser a princípio absurdas, mas a neurociência e a linguística talvez deem sujestões em algum sentido preocupante no que diga respeito à lesão linguística no viés último, da Fala, enquanto dificultadoras de uma fluência não apenas nela, fala, mas no aspecto mental. Das 3 manifestações patológicas conhecidas (Jorge Martins de Oliveira e Júlio Rocha do Amaral, Princípios de neurociência, p. 235), Disfonia, Disartria e Disfasia (Afasia), esta última apresenta 6 modalidades, sendo a Afasia de Condução a capacidade do sujeito de falar de forma fluente utilizando, porém, muitas palavras erradas (claro que aqui, nada ainda ligado a regionalismos do “nóis vai”); ficando comprometida a expressão por meio da escrita, com omissões, transposições ou trocas de letras. Há aí déficits na capacidade de repetir palavras, nomear objetos e ler em voz alta.

Numa subsunção rápida e primária, professores estão mais ou menos acostumados a encontrar em salas de aula pessoas aparentemente assim, com esse “comprometimento”, ainda que o modelo típico da Afasia de Condução possa ser muito mais complexo envolvendo lesões corticais ou lesões produzidas por origem vascular. É interessante que fatores como fluência em neologismos sejam apontados como um diagnosticador de lesões no núcleo caudado ou o putamen esquerdos (Oliveira e Amaral, op. cit. p. 237) – acho que aqui, brincaria eu, todos os meus ídolos da filosofia sofrem desse mal em razão da deliciosa fluência nos neologismos –. Diz-se isso, da “exterioridade” do neologismo, ou sua não “importância material” porque a percepção da neurociência pode se dedicar a fatores quase que desperceptíveis, como, vê-se aí, uma “singela” fluência em neologismos.

Se o transtorno com o léxico e mesmo com as emoções advindas de um envolvimento na comunicação estiverem presentes, poderá haver afetação na Prosódia, que é a capacidade da linguagem falada de exprimir os aspectos emocionais que capacitam o ouvinte a determinar se uma oração é declarativa ou interrogativa, dando-se o nome de Aprosódia a esse transtorno. 

Aqui, em certa medida, pode estar em jogo uma conexão referida pelo professor de Harvard, John J. Ratey, O cérebro – um guia para o usuário, p. 282, que é a existente entre Pensamento, Linguagem e Ação, como uma das conexões mais debatidas no curso da história. Se houver comprometimento com a linguagem, haverá não apenas dificuldade na comunicação, mas também no planejamento e na orientação de ações. Afirma Ratey que “a linguagem melhora e refina os nossos pensamentos”. Importante isso.

Tudo bem que linguagem seja uma “equação” complexa, ainda que de adquirência com “tão pequeno esforço que nem nos apercebemos do seu pleno impacto em nossas vidas” (Ratey), ou como na famosa passagem de Noam Chomsky no sentido de que o ser humano nasce com um “dispositivo de aquisição de linguagem” (Language acquisition divice), mas o que se discute aqui é se o sinal “exterior” dessa linguagem, a Fala, e mesmo assim os seus sinais de comunicação e pensamento, num plano "defeituoso", aí sim, são empecilho para uma inteligibilidade, uma intelectibilidade do dado, uma decodificabilidade dele (viva o neologismo!).

Advirta-se que na primeira linha do primeiro parágrafo lê-se “opção” em se falar errado. Há aqui uma ideia de “atrofia” ou apequenamento buscado, pretendido, por modismo ou desejo de imitar o capiau, o sitiante, o sem educação formal de escola (Godfrey Lienhardt, Antropologia social, p.163, nega existir diversas culturas unitárias, orgânicas; aqui no sentido de que a cultura do capiau pudesse ser um sistema fechado).

Aí o objeto do texto – haveria uma desconexão ao dado “inteligente” oriunda dessa opção por se "defeitualizar" a fala, ou melhor o padrão correto do idioma, a afetação ao léxico? Se a questão posta assim se mostra positivista, o plano “inverso” pode facilitar o sentido: quando se estuda filosofia por anos, por exemplo, melhora-se no nível de pensamento, abstração, raciocínio complexo, jogos e inferências; já na malfadada opção por falar errado, na mesma quantidade de muitos anos, dar-se-ia uma atrofia da inteligência ou da lógica ou da abstração complexas?

Pelo mero risco de uma resposta positiva que possas existir à questão, parece não haver dúvida sobre a pressuposição de que nenhum educador solaparia o tema a ponto de dar de ombros para a educação formal da criança em idade de alfabetização e construção de visão de mundo, no sentido de que “tanto fizesse”: ensinar a fala correta ou a fala errada, principalmente por uma opção do adulto “chique” que identifique na fala errada – “nóis quer”, “nóis faz”, nóis compra”, “nóis vai” – uma forma de gíria roceira, capiau ou sertaneja. 

Se à opção adulta pelo erro na fala há se respeitar totalmente – se o adulto acha lindo imitar analfabeto (ou mesmo o boçal, aí já com o pensamento agressivo) é problema soberanamente dele; a inoculação desse modo simplista de “raciocínio” (?) para com a criança pode ser de todo condenável e perigoso. Pode estar essa criança sendo vitimidada, não em termos de lesão afásica clássica, mas com algum tipo de embotamento cultural ou minimamente o não exercitamento de raciocínios complexos e abstratos que poderiam ser tão necessários para a vida adulta.

No grande livro Cem bilhões de neurônios - conceitos fundamentais de neurociência, de Roberto Lent, p. 627, vê-se que os psicolinguistas entendem haver um "dicionário interno", que dão o nome de léxicon mental, onde são arquivados vários elementos da linguagem, num grande sistema mnemônico. Assim, quando o sujeito fala, o cérebro consulta esse léxicon "em busca de informações semânticas, sintáticas e fonológicas necessárias à expressão verbal de seus pensamentos". Este léxicon semântico em um "adulto educado" (Lent), pode conter cerca de 50 mil palavras, podendo o reconhecimento e produção atingir a marca de 3 palavras por segundo, ou 200 por minuto.

Se no processo típico de educação da criança, houver uma minimalidade ou pobreza construtivista em relação a esse dicionário interno, talvez suas inferências e conexões também sejam deficientes em relação a uma criança "exemplarmente" educada com riqueza de substratos semânticos, figurativos, percepcionais, de criação, comparação e de valor.

Seria o caso de se dizer que filhos de pais inteligentes são mais inteligentes? Talvez. Essa mera suposição é bastante alvissareira e por si só merecedora de atenção para com a criança que está recebendo nutrientes inferenciais, de valor, de percepção, de olhares e de modos e culturas de ser. Mas afinal o que é se “estimular” uma criança, se não puxar por sua “inteligência”? Jean Menezes de Aguiar.

sexta-feira, 23 de março de 2012

II Congresso nacional contra a corrupção

Plenário da Câmara Municipal de SP

Matéria publicada no Jornal O DIA SP em 22.3.12

                A corrupção está na moda. Mas a sua oposição também está. A cobrança por um Estado menos desonesto está virando uma consciência, principalmente do jovem. Movimentos populares, capitaneados pelo já grandioso Nasruas, atuante em mais de 70 cidades com 70 mil filiados, utilizando o Facebook como instrumento, estão batendo no tema. Ou melhor, detonando-o. O “resultado efetivo” talvez importe pouco. Antropólogos dirão que a marola cultural já é valida. Abrir o debate é o melhor.

                No último dia 17 de março de 2012, o Nasruas realizou o II Congresso, no plenário da Câmara Municipal de São Paulo. Conseguiu mais nomes nacionalmente famosos. Na abertura falaram Ives Gandra da Silva e Ada Pelegrini Grinover, e no fechamento ninguém menos que Hélio Bicudo, sim, ele, de novo. Tive o prazer de participar também deste Congresso, em algumas mesas de debate.

                Os temas foram assim organizados: A Prescritibilidade dos crimes de corrupção e possíveis mecanismos de Celeridade, com Luiz Flávio Gomes, Jean Menezes de Aguiar, Joel Formiga (cientista político) e o promotor Roberto Tardelli (MPSP). Crime Hediondo versus Lei Nacional da Corrupção, com Dircêo Torrecillas, Luciano Santos, Joel Formiga e o promotor Affonso Ghizzo (MPSC). Foro Privilegiado e a Imunidade Parlamentar, com Marcelo Nerling (USP), Thais Cavalcanti, Joel Formiga, Jean Menezes de Aguiar e Janice Ascari (MP). Aqui registre-se a presença de Milton Jung, da CBN.

Depois do almoço vieram Privilégios dos Servidores Públicos, com Rita Biason (cientista política), Jean Menezes de Aguiar, Affonso Ghizzo (MP SC) e Luis Fernando Otero (Contador). Cidadania, Ética e Educação Política, com Jairo Cruz Moreira, Thais Cavalcanti, Humberto Felipe da Silva, Mara Zumpa e Jorge Maranhão. Por fim, as considerações finais com Hélio Bicudo e Carla Zambelli (fundadora do Nasruas com Marcel Santos).

                Algumas impressões e análises são muito interessantes. Ives Gandra se posicionou favoravelmente ao foro especial, explicando que o juiz mais novo não teria experiência para julgar autoridades em situações complexas. O problema do foro especial admite outro enfoque talvez mais agudo e pragmático. Advogados de réus envolvidos em mensalões, por exemplo, adorariam, estima-se, que o processo de seus clientes tivessem início num juízo comum. Sim, de primeiro grau, na comarca da moradia ou da prática da infração. Demoraria muito mais para chegar ao Supremo. Essa “razão” parece ser boa para se manter o foro especial. Se com foro especial um processo já leva 5 anos pra ser julgado no Supremo, sem ele levaria 20, em todas as instâncias. Seria muito pior.

                Ada Pellegrini Grinover reclamou da continuada morosidade do Judiciário, pedindo reformas. Relatou que tem um processo já na qualidade de idosa, com a Lei do Idoso, e que está há 5 anos no Tribunal de Justiça de São Paulo e ninguém julga. Já a análise de Luiz Flávio Gomes foi das mais contundentes, não deixando pedra sobre pedra. Bateu corretamente na balela leiga defendida por imbecis de plantão de que cadeia é a solução. Apresentou várias estatísticas da ineficiência do sistema prisional que tem por ideologia a cadeia, esse modelo paulista e essencialmente burro de gestão criminal, além de conservador e ortodoxo.

                Do Amazonas veio o deputado federal Francisco Praciano, presidente da Frente Parlamentar Contra a Corrupção. Apresentou dados importantes e concretos de atividades que estão sendo tocadas por algumas poucas autoridades na capital mundial da corrupção, Brasília, comprometidas com o combate.

                No estudo da corrupção há passagens interessantes. Na obra Histórias do Brasil profundo, do saudoso jornalista Marcio Moreira Alves, na página 12, há um retrato: “Só rouba o Estado quem tem poder, sobretudo o poder de fiscalização. E ninguém rouba sozinho. São sempre escândalos em cadeia, que não produzem qualquer punição para os seus autores. Se os de cima roubam, os de baixo se sentem também autorizados a roubar. Mesmo quando condenados a multas milionárias, os larápios sempre conseguem evitá-las, através de chicanas dos advogados, que pagam a peso de ouro, ou de juízes também corruptos e impunes. Para a cadeia ninguém vai se puder pagar um bom um bom advogado.”
               
                Este quadro que não é somente brasileiro retrata com perfeição o que ocorre, tanto verticalmente, em termos da corrupção “exemplar” que difunde cultura para os de baixo, “legitimando” a corrupção inferior, quanto horizontalmente, numa análise tipológica da corrupção à qual o ato corrupcional não é isolado, mas sempre em difusão, cadeia ou orquestração.

                A corrupção no Brasil tem um viés provinciano e paroquial: a impunidade Só ela permite lambões guardando dinheiros em cuecas; elegendo filhos e netinhos em fraude; apropriando-se de paisagens inteiras do território nacional etc. O projeto de corrupção sempre pertenceu à direita, mas uma vez a esquerda no poder fez pós-doutorado no tema. Virou ágil e larápia igualzinha.

O prof. Luís Roberto Barroso da Uerj, ensina que o Brasil chegou à pós-modernidade sem ter conseguido ser liberal nem moderno, os estágios anteriores. Somos herdeiros duma tradição autoritária e populista, elitizada e excludente, seletiva entre amigos e inimigos, e chegamos ao 3º milênio atrasados e com pressa. É claro que a nossa corrupção também tinha que ser recordista e espetaculosa.

O Brasil precisa de mais uns 20 Congressos e alguns milhões de brasileiros engajados no tema. Só assim as “autoridades”, esse conceito sujo do direito administrativo, começarão a temer. Ives Gandra disse no Congresso que tudo está de ponta cabeça: só no dia que o presidente da República for tratado de sua senhoria e o povo de sua excelência é que as coisas irão para os lugares. Até lá vigerá esse conceito sociologicamente suburbano de “autoridade”. Um ao qual o conteúdo intelectual do sujeito não precisa ser lá muito avaliado, apenas a carteira. Enquanto isso a corrupção ó... Jean Menezes de Aguiar.
























sexta-feira, 16 de março de 2012

O mito do macho


Matéria publicada no Jornal O DIA em 16.3.2012




Talvez não haja um exemplo melhor de grosseria humana do que a do homem que precisa se dizer “macho” em relação à mulher, com contornos da estupidez animal que, todavia, é natural nos animais. Ver na delicadeza e mimo com a mulher uma coisa idiota é própria do néscio. A melhor força e poder do homem podem estar, exatamente, em tratar a mulher como uma rainha.


Grandes filmes já exploraram o tema mil vezes. Em As pontes de Madison, talvez a história de amor mais linda de todos os tempos, o suntuoso Richard, vivido por Clint Eastwood é um fotógrafo da cidade grande. Moderno, trabalha para a National Geographic. É um homem delicado e amoroso a ponto de enfraquecer a inabalável fidelidade de Francesca, uma senhora casada vivida por Meryl Streep, estabilizada e com a vida funcionando bem em sua casa rural. Toda essa afetação à fidelidade dela ocorrerá em um único final de semana, dado o poder de Richard somado à talvez alguma carência de Francesca.

Enquanto isso, o machismo é o mito do homem “macho”. Será seu credo e ao mesmo tempo sua jactância. Em vez de querer evoluir como humano, melhorar, este homem quererá regredir, “desumanizar-se” pela não delicadeza à mulher.

É claro que por trás disso há vários fatores, causas e consequências. O consumismo, tônica da sociedade moderna, é um fator central. Com sua característica mais marcante, a pressa, as relações humanas se transfiguram sensivelmente. O romantismo e o carinho requerem tempo físico para o encantamento. Cedem a coisas como consumação, penetração, certeza da conquista etc. Mulheres “vitimadas” chegam a teorizar o comportamento do homem-no-dia-seguinte: o que some, desaparece e não manda flores.

Fatores outros como o 1) machismo da própria mulher; 2) o sucesso do “mundo corporativo” que desliga-se de toda a conexão com o carinho e com a ética, visando somente o lucro, influenciando nerds do dinheiro a uma vida híbrida e imbecil, ou como se refere Zygmunt Bauman, “líquida”; 3) a crise da educação infantil; 4) os enterros catalépticos da poesia, da arte, da filosofia; 5) o estresse da vida urbana; e tantos outros vieses.

O mito central do macho talvez passe, atualmente, por uma metamorfose. Do machismo puro que se consubstanciava na “propriedade” da mulher como objeto, envolvendo tê-la, vê-se atualmente rebaixado à mera “posse” de parceiras desejosamente fungíveis e contratualmente descartáveis. Antes que alguém torça o nariz, há muito disso saído da própria mulher. Há, em muitos casos, desejos de mero consumo por parte dela.

A mudança de “propriedade” para “posse” inferiorizou a mulher. Na propriedade o homem discutia o domínio da mulher. Se isso era “horrível” para feministas, agora ficou pior. Se berravam contra a esposa-objeto, hoje vão ter que berrar contra a mera usuária-objeto. Esse morro abaixo do machismo talvez não estivesse nos planos da própria mulher que, apenas em certa medida, incentivou o homem vê-la assim.

Como se não bastasse, há fatos paralelos que vão interferir: os modismos da homossexualidade; a “vingança” da mulher que passou a querer usar também o homem, e toda uma superficialidade pós-fútil que foi coroada nas relações onde o “ficar” em uma noite é a meta, não mais o desastre. O preço: o triunfo da solidão.

Mesmo com todos esses fatores o homem perdeu o encanto do poder da delicadeza para com a mulher, uma delicadeza com ela e para ela que somente ele pode dar. Companheiras lésbicas fantasiadas de homens lutam o seu drama tentando imitar o que não são. É a tragédia gay mostrada no premiado filme O beijo da mulher aranha, por Luís Molina, William Hurt, ao teorizar que o que ele quer é um homem e o que o homem quer é uma mulher.

A força do homem em relação à mulher não está na necessidade de ele querer ser o que já é por natureza: homem. Mas a fraqueza dele estará em não ouvir o próprio coração quando se apaixona e não mima totalmente a mulher.

A mesma mulher que quer o homem forte a lhe dobrar os sinos, quer assistir a uma outra vitória, agora dela: quer saber ter dobrado os sinos daquele homem.

                Homens inteligentes percebem esse discurso e não se sentem “ameaçados” com a delicadeza. Já os tolos não sabem pensar assim. O maior presente da mulher poderá ser a atenção a ela. Grandes mulheres já se desligaram até delicadamente de seus companheiros apenas pela falta de atenção.

                Chico Buarque já cantou o homem bobo e machão. Sábios são os que estudam a mulher, uma que ao mesmo tempo é prática e executiva, fria nas correspondências de negócio, mas totalmente entregue quando sua atenção é despertada pela delicadeza inteligente de um homem poderoso.

                Numa sociedade de imbecis, a gentileza se confunde com fraqueza, conforme ensinam Linda Kaplan Thaler e Robin Koval, (O poder da gentileza), e a delicadeza masculina se confunde com romantismo (mas que ótimo!). Os poetas, compositores, artistas, sensíveis e delicados, os apaixonados, os grandes amantes, os Richards do filme As pontes de Madison, continuam fazendo sucesso nos corações femininos, lá dentro. Já o restante, o máximo que conseguem é o corpo, esse mesmo que chega a ser objeto da profissão mais antiga do mundo. Mas o coração é infinitamente mais exigente, “elas” que o digam.

sábado, 10 de março de 2012

O problema de Deus



Deus continua sendo um questionamento dos mais interessantes. Humanos de todos os cantos e povos sempre precisaram se apegar a uma figura que efetivamente nunca viram, mas essa sempre foi uma das essências da vida: o mito. Para muitos o próprio questionamento acerca de Deus já é uma heresia, ou um pecado. Mas pecado parece ser um conceito tão brega e intelectualmente tão rasteiro.Para a filosofia talvez seja algo teoricamente produtivo (mas o que não é para ela?), como foram as guerras, os exílios, as fugas dos campos de concentração. Como são as dolorosas e infindáveis traições amorosas que fazem digladiar a mente bêbada e espasmódica com o coração estilhaçado e desejoso do colapso, a então salvação doce e eterna.

Por outro lado, o conceito de Deus talvez seja para os filósofos um problema, no sentido de que muitas são as construções conceituais possíveis e efetivamente existentes sobre o objeto Deus e nenhuma possibilidade lógica instrumental agregável a cada uma dessas construções. O objeto abstrato existe, Deus, mas com total e obrigatória impossibilidade de logicizá-lo conceptivamente ou mesmo inferencialmente, em questões que pudessem refugir do abstrato imaginário. Não se concretiza experimentalmente Deus para um conceito utilitário. O necessário conceito encapsulado no abstrato imaginário não comum, mas ainda pior, particularizável, subjetivizável, faz com que Deus seja talvez o questionamento mais aberto – democrático – da filosofia, superando talvez a concepção do Ser, que, em primeira ou última análise admite a visão primária do concretismo carnal, humanizado num corpo físico que urina e defeca.

Para se tratar de Deus, talvez haja que se referir à filosofia crítica, que se baseia no Eu absoluto, e não numa filosofia dogmática, baseada no Objeto, ou no Não-eu. Na crítica, porque Deus tem que ser concebido com essa largueza por cada um dos pensadores. Talvez essa largueza seja o que Schelling ensina sobre a filosofia crítica, ser a liberdade o “alfa e o ômega de toda filosofia”. É com essa liberdade sobre o objeto (Deus) que os filósofos o conceituam abertamente. Aí a “crise” ou uma tragédia sobre um objeto aconteituável de forma minimamente unicista ou, em vez disso, conceituável infinitamente. Ainda, esta infinitude conceitual não guarda qualquer correlação com suposta infinitude deística, assim considerada por crentes ligados a uma religião ou não, numa forma de um Deus não apenas filosófico, mas existencialmente situado em algum lugar sagrado, paraíso, céu ou espaço geograficamente superior à vida terrena em gravidade, comandando ou se preocupando com a vida na Terra.

Um dos potencialmente infinitos conceitos filosóficos de Deus, motivou esse texto. Na obra Ensaio sobre o trágico, do húngaro Peter Szondi, p. 32, vê-se que o conceito de Deus (para alguns deus com d minúsculo) em Schelling é a “idealidade infinita que contém em si toda a realidade”. Por aí já se pode começar um desenho, talvez melhorado com a invocação de Spinoza, para quem Deus é uma “alma do Universo”, conceito aceito por Einstein, que nega expressamente existir “um Deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais”.

Agora, com esses 3 conceitos, idealidade, alma do universo e negação de uma pessoalidade ou santidade preocupativa como um síndico global parece que já se tem material para uma composição, quase que poética, ou carnavalesca do objeto. Uma primeira observação é a distância conceptiva de como as pessoas veem ou têm Deus e como os filósofos tratam dessa, por que não, doce figura. Pelo lado de uma lógica formal, talvez fosse melhor que as pessoas que se dizem inteligentes construíssem ideias de Deus menos comprometida com a imagem de um sujeito masculino, em algum lugar, sentado numa poltrona, observando o planeta, ou até o universo. Esse Deus negado por Einstein faz todo o sentido e é infinitamente mais inteligente do que essa representação boçal do Deus-procurador ou do Deus-síndico que muitos religiosos de plantão vendem comercialmente a milhares de incautos e pobres coitados que pagam dinheiro terreno para garantir um lugar na grande fazenda celeste.

Como é que um primata melhorado de nós pode ser tão arrogante a ponto de dizer que “conhece” de um Deus criatura e saber o que essa figura faz e pensa? Essa imagem de Deus síndico é bastante própria da sanha humana de querer “saber”. É um conhecer intangível, sem qualquer verificabilidade lógica, a não ser pelo viés do milagre. Aqui nem entra mais o lado comercial de igrejas, mas um pior: o da arrogância terrena de deter o conhecimento misterioso, como uma espécie de PhD do mito.

Não pode haver “respeito” por Deus, porque o respeito é uma forma farisaica de arrogância, já que pressupõe conhecimento e intimidade com o objeto. Mais, pressupõe potencialidade lesiva: respeito sob pena de ferir. Não se tem conhecimento e intimidade alguns a ponto de se precisar respeitar como a um parente, a um amigo, a um conhecido, como a “alguém”. E não se é dotado de potencialidade lesiva: Deus não é ferível por qualquer ser humano porque sua experimentabilidade é tão-somente uma inferência. É jactanciosa e pernóstica a construção de que se precisa respeitar Deus, sob pena de magoá-lo ou feri-lo, como se se soubesse dos seus sentimentos. Em ambos os casos e efeitos aí o farisaísmo baba, como qualquer construção da mente humana que não pode ser minimamente verificada, mas exigente maximamente de um crédito inexplicável.

É com essa arrogância engomada, aí já numa total atitude desfilosófica e um utilitarismo completamente financeiro e comercial que se criam frases como “Deus é fiel”. De onde pariram esse misto de lixo mental com essa vaidade cognoscitiva humanoide?  Usam isso, de novo, como se “soubessem” de Deus. Por isso é muito melhor o Deus dos filósofos, muito mais honesto, muito mais verdadeiro porque mais humilde e “possível”. Não há aqui a vaidade desqualificada dos idiotas do querer saber de um Deus síndico, ao qual parta dele uma fidelidade “reconhecida” e “certificada” por um humano qualquer, que ousadia, como se pudesse partir a infidelidade. Há aqui um Deus que seja uma suposição de força, de absolutividade, de infinitude, de totalidade, de universalidade, porém conceitos essencialmente inumanos e amentais. Esse Deus dos pensadores, criado pela inteligência da suposição é confiável e até espetacularmente “apegável” e invocável em horas de necessidade. Só que este Deus não autoriza fundar igrejas lucrativas para pobres coitados rebanhosos, até porque seu conceito seria por demais complicado para um humano enganado por salafrários do planeta. Jean Menezes de Aguiar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

“Por que” os casais brigam?

Cama realmente não é para isso, mas para carinhos, mimos, brincadeiras, jogos, comidinhas e amor

Por que pessoas se desentendem? Esta parece ser uma questão interessante para uma reflexão filosófica simples. Visando a compor algum menu para uma consultoria ou gestão de pessoas no âmbito familiar em geral, uma estrutura base da análise teria que passar por: I. o atrito; II. a possibilidade do atrito; III. as pessoas mais suscetíveis ao atrito; IV. as relações mais suscetíveis ao atrito; e V. pistas para soluções e resolvimentos.

I. O atrito é uma fricção no entendimento da relação, uma faísca ou um desastre completo que pode desde arranhar a relação até explodi-la. O atrito deve ser visto por pessoas inteligentes como um risco para a relação. Tecnicamente risco representa algo potencialmente ruim. Essa visão precisa estar consciente para que não se queira “correr o risco” do atrito. Evitar [inteligentemente!] o atrito é sinal de inteligência. Os inteligentes farão de tudo para não inaugurar o atrito. Não é difícil o atrito se agigantar e causar danos na relação. O atrito pode começar de uma implicância histórica – alguma terceira pessoa ou ciúme já sedimentado que se agravou no momento –, ou já ter início como uma verdadeira bomba, uma traição flagrada, por exemplo. O exemplo da traição é bastante primário e vulgar, sabe-se, mas se presta meramente a título de visão concreta. Atritos há com educação de filhos, relação com amigos, valores e visões de mundo etc. O filme Eles não usam Black tie mostra o triste atrito ideológico, gravíssimo, entre pai e filho.

O primeiro que há que se cuidar, nos momentos iniciais do atrito é sua própria dimensão. Casais inteligentes devem estar conscientes que estão diante de um atrito leve, que seja, por exemplo, e que não vão “permitir” que ele se agrave. Essa conduta preventiva, tanto quanto possível, será ótima para que atritos leves nunca virem problemas graves ou tabus consolidados, daqueles que não se pode mais tocar no assunto. Já o atrito que nasce nas condições de uma crise séria estabelecida merece toda a atenção visando a que ele não frature totalmente a relação. Isso tem que ver com Negociação: é um olhar para o outro e dizer:– sabemos que isso é besteira, não vamos permitir que cresça. Ou então é o “para tudo e vamos ver o que se pode fazer para manter isso no tamanho mínimo”. Pessoas inteligentes terão um olhar máximo para a relação, e um mínimo mínima para o atrito. Farão de tudo para salvá-la, se ela for salvável.

II. A possibilidade do atrito tem que ver com o tipo da relação em combinação com o tipo das pessoas. Abre-se uma quadra aí. Relação boa com pessoas boas; relação boa com pessoas ruins; relação ruim com pessoas boas; e relação ruim com pessoas ruins. “Relação boa” seria aquela minimamente apta a gerar felicidade duradoura ou por grandes espaços de tempo, com calmaria, harmonia, entendimento e amor, ainda que com desentendimentos normais. “Relação ruim” seria aquela que não consegue deslanchar, vive aos percalços, com problemas constantes, dúvidas, desconfianças, medos, inseguranças, ciúmes crônicos, brigas e interrupções.  “Pessoas boas” são as que lidam com as outras de boa-fé, coração aberto, aderidas, prontas para ajudar e compreender os erros do outro. “Pessoas ruins” são essencialmente os medíocres, os desconfiados, os que guardam coisas para soltar como efeito diferido, os que premeditam reações, os que acham que vingança é um prato e que se pode comê-lo até frio. Explicados rapidamente as relações e os sujeitos, passa-se à tal quadra.

Assim, 1) relação boa com pessoas boas gera baixa possibilidade de atrito. É o melhor desenho que há para uma vida a dois. 2) Relação boa com pessoas ruins, parece não ser possível, mas é, não apenas porque medíocres se atraem, mas porque se uma relação gera entendimento ainda que “esquisito entendimento” ela é uma relação boa para os esquisitos, e dane-se o mundo. 3) Relação ruim com pessoas boas talvez seja a pior, a crise do desentendimento e da desinteligência esteja causando malefícios e as pessoas que são boas não conseguindo sair desse lodo. E por fim 4) relações ruins com pessoas ruins, esta parece não prestar em sentido nenhum, nem para os próprios envolvidos, é aquela relação que nasce errado, existe errada, no sentido de crises constantes, términos constantes, vinganças constantes etc. Há relações mais aptas a possibilitar atritos, essas são as mais delicadas e requerem mais cuidado.

III. Pessoas mais suscetíveis ao atrito não “descobriram” a beleza que é uma vida construidamente equilibrada, calma, serena e harmoniosa. Isso não é fácil e na teoria é sempre muito simples, bastam as palavras corretas. Parece que a opção pela inteligência e pela lógica é a mais concreta e real, envolvendo conversas francas e zeradas em termos de tabu. E ninguém melhor do que o outro para conhecer o parceiro. A arma mais poderosa será a abertura, a não cerimônia, o não tabu, a democracia na relação, a certeza de valores e opiniões iguais, desde que fundamentadas e com alguma lógica, o respeito e o carinho na aceitação da sugestão ou opinião do outro. O inverso desse tipo de personalidade desenhará as pessoas mais suscetíveis ao atrito, com um perfil autoritário, impermeável, com reservas, segredos, dificuldades de diálogos fazendo com que a relação tenha um viés inclusive ditatorial.

IV. As relações mais suscetíveis ao atrito seriam aquelas às quais há causas amordaçadas que não são nunca dialogadas, debatidas e efetivamente resolvidas. A atitude às vezes suave de pôr uma pedra em cima é, em muitos casos, das mais mentirosas que há e no menu da mentira há uma infinidade delas ligadas à tipologia da relação. Em muitas relações há um polo visivelmente forte ou concentrador, com mando e autoridade, e um polo fraco no sentido nítido da subserviência. Quando a relação obedece a este desenho a mentira passa a compor o manejo do polo fraco para coisas as mais comesinhas. O paradoxal é que o polo forte será enganado o tempo todo, mas esse tônus que poderia ser o de vingança para o polo fraco, acaba não gerando harmonia ou uma relação essencialmente feliz. A obediência e o autoritarismo deveriam ser estranhos a uma relação a dois.

V. No item de pistas para soluções não há “dicas”. Manejos e atuações ligados à verdade, ao carinho, à vontade de se dar bem com o outro parecem ser o essencial aí. Pedi a amigos do Facebox que opinassem sobre o tema e colhi algumas coisas valiosas que comento rapidamente. A ADRIANA SALETE aponta que motivos para o desentendimento seriam pessoas se amarem demais e pessoas não se amarem mais. O segundo é perfeito, mas o primeiro não dá para deixar passar. O amor demais parece não ser causa de problemas. Isso não pode ser confundido com uma pessoa “afogar” a outra, querer exercer uma posse descomunal, já que todos praticamos posse normal com o ciúme por exemplo. De toda sorte é muito bem lembrada a situação desse “amar demais”. A ELCIRA SILVA vai apontar a divergência de opinião, a falta de informação e a intolerância. Dos três, os dois últimos são bastante nítidos. É claro que divergência de opinião chega a ser até saudável; pode ser uma fonte de briga, mas deve se cuidar para que não seja, afinal divergir em opiniões é comum. Mas a intolerância é, efetivamente, um problema grave e sério, ligado à ignorância comissiva, à agressividade, àquele tipo de “pessoa ruim” do início do texto. O intolerante é um horror. A CLAUDIA SITHA aponta a falta de amizade para compreensão e com outras “colaboradoras” faz críticas às mulheres no sentido de implicar com coisinhas miúdas e querer sempre discutir a relação, mostrando que o homem é mais prático. Faz crítica lúcida à mulher dizendo que ela exige ser mimada o tempo todo, o que parece ser verdade em muitos casos dessa sociedade atual. Mas a amizade lembrada é das coisas mais valiosas numa relação. A amizade é como uma “outra” relação que precisa ser mantida paralelamente, para servir de combustível e de linimento quando algo vai mal. A amizade parece ser a pedra de toque das relações. A DIANA NACUR aponta ótima visão: a vontade de um ter razão e não ceder ao outro. Em pessoas “autoritárias” como, por exemplo os advogados, para não ir a outros tipos de gente, essa observação é muito lúcida.  A razão se liga ao conhecimento no sentido de uma exibição dele. Quem tem mais conhecimento, tem razão. Essa equação muitas vezes defeituosa é imposta por um polo da relação mais intelectual ou pretensamente intelectual que pretende vencer divisões internas na relação pelo domínio da razão. O JORGE LUIZ SIMÃO fala que uma relação a dois precisa de liderança e que a divisão pode gerar o divórcio. Aí estão dois conceitos difíceis de se trabalhar na atualidade. Liderança é um fator modal na empresa ou numa igreja (conforme ele diz) em que se presume quantidades dicotômicas de conhecimento e saber. Tanto na empresa como na igreja há seguidores e obedientes. Na estrutura da relação moderna essas conformações ficam mais difíceis, ainda que inúmeras famílias sul-americanas (e não só estas!) se pautem por esse modelo. A CRISTINA DORNELLES fala em narcisismo, um efeito social que parece estar aguçado na atualidade, ou hiperaguçado. O ver a si próprio e não ver o outro com gentileza e carinho será fonte eterna de desavenças. Uma estrutura narcísica existente no casal é sempre algo muito nítido e problemático quando se fala em desavenças e parece que a pós-modernidade vem enaltecendo a egolatria e o consumismo nas relações de uma maneira desmesurada.

Essas foram as participações importantes e todas elas super valiosas para esse texto. Deixo aqui um grande beijo para todos em geral e o meu muito obrigado. Gostei muito de fazer um texto com opiniões interativas, esse foi o primeiro. Sempre num texto assim há inúmeras imperfeições, há coisas que passamos batido, há simplismos e superficialidades. Outro dia um amigo me advertiu de que parecia que eu ficava querendo exaurir os temas. É exatamente isso, ainda que jamais se consiga. Faz lembrar Salvador Dali ao ensinar que não devemos temer a perfeição, não vamos conseguir alcançá-la mesmo. Mais um beijo geral nos meus amigos e o meu muito obrigado. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Vaidade oficial

Artigo publicado no  Jornal O DIA SP em 8.3.2012

                Século 21, ano de 2012, o Brasil já não é mais o país do futuro em muita coisa, mas a vaidade oficial não para, em todas as instâncias. Daquelas que não basta ter um coquetel por semana para ir. Ou poder fazer o regime de trabalho conhecido por TQQ – terça, quarta e quinta, sem se falar nos salários que, em termos brazuca, nunca foram “miseráveis”. Mas isso é pouco. O poder tem suas jactâncias, suas babas e roupas engomadas como a de um príncipe dândi, conceituado por ninguém menos que Baudelaire, e citado em Habermas, O discurso filosófico da modernidade. A leitura é um gozo.

                À vaidade se mistura o “orgulho”, este furúnculo mental lancetado por Voltaire que ensinava que o sentimento seria perdoável a um Cícero, a um César ou a um Cipião. Não “em tão mesquinho animal como o homem”; desses que compra um cargo público ou imprime versos medíocres, “eis o que dá matéria para nos rirmos longamente” (Dicionário filosófico). A reação das “autoridades” ao gênio sempre foi com prisões enérgicas. A história é prenhe dessas magnificências, excelências e autoridades; claro que também roubalheiras e prostíbulos.

                O jornal A tribuna do advogado, da OAB carioca, traz uma longa entrevista com o lúcido juiz Rubens Casara, da 43ª Vara Criminal do Rio, com o título “Posição de destaque do MP nas salas de audiências viola o princípio da isonomia.” Parece piada, mas não é. O MP continua sua estranha luta para se sentar na mesma altura dos juízes nos seus palcos, tablados, degraus, ”altinhos”, construções de madeira para se ficar mais alto, sabe-se lá que nome técnico ou jurídico terá aquilo.

                Essas “vontades” são conhecidas dos estudiosos. Gerhard Heberer, Gottfried Kurth e Ilse Schwidetzky-Roesing, na obra Antropologia, 1967, p. 37, desnudam: “As vênias e as mesuras, o tirar o chapéu, o ajoelhar-se rebaixam os de extirpe inferior; a atitude dos indivíduos que ocupam as escalas superiores das hierarquias são exaltadas e aumentadas por meio de artifícios técnicos. Máscaras, adornos da cabeça (tais como coroas e diademas), coturnos, assentos altos, vestuário vistoso, tudo isto serve para engrandecer a imponência do aspecto.” Estranha sanha essa do “rebaixamento” do povo.

                O Conselho Federal da OAB, por seu Pleno, ingressou, corretamente, com ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a declaração da inconstitucionalidade da lei complementar 75/93, que garante aos promotores “sentarem-se no mesmo plano e imediatamente à direita dos juízes singulares ou presidentes de órgãos judiciários perante os quais oficiem.”

                O MP, inegavelmente a instituição que mais cresceu com a Constituição da República, deveria se envergonhar desse artigo de lei. Deveria optar pelo povo, sentar-se na mesma altura que o povo. Mas esse altruísmo (que palavrão filosófico) parece não se coadunar com “razões” elevadíssimas, respeitosíssimas para uma igualdade cartersiana e centimetralmente perfeitíssima entre a altura da cadeira do juiz e a do promotor. Que ofensa, gritarão alguns. Que ridículo, rirá a sociedade lúcida.

                Ficar o promotor 10 ou 20 centímetros em nível abaixo da altura da cadeira do juiz será, certamente um desrespeito, dirão os legalistas plantão. É por isso que esse sentimento do “desrespeito” é um atalho ou porta dos fundos da retórica para a falta de argumento num debate. O filósofo Lou Marinoff, na obra Mais Platão menos prosac, ensina: “As pessoas que procuram se ofender sempre encontram motivo para isso; consequentemente, são elas que têm um problema”. Perfeito.

                As “más” línguas populares diriam no caso: – Por que então fez concurso “só” para promotor e não fez “logo” para juiz? O MP utiliza as instalações “do Poder Judiciário” num julgamento. O MP tem prédios próprios, como o Judiciário tem. É natural que certos detalhes privilegiem o dono da casa. Que “infâmia” há em 20 centímetros a mais de altura numa cadeira?

                Certos enfeites, rapapés e alegorias vão se sustentar até quando? Mais 50 anos? Mais 20? As perucas brancas ridículas com cachinhos que os ingleses ridículos usavam de forma ridícula foram aposentadas. Por muito tempo eles a “defenderam” dizendo que era “tradição”. De novo, o ano de 2012. “Tradição”? Que argumento mais oco. Galileu em 1615 já disparava: “A razão desliga-se de toda a autoridade, tanto da tradição como dos sentidos.” Qual é a “razão” para certas coisas fundamentalistas ou ultra-formais desse universo jurídico? Não há razão outra senão a tradição.

                O bafafá da altura da cadeira do promotor x cadeira do juiz é uma dessas questões que parece não ter razão “razoável”, e ocupará o Supremo Tribunal Federal. Ridículo. Alegar que deve ser assim porque está previsto em “lei”, é de um positivismo roxo doentio. Alegar que foi uma “conquista”, é andar na contramão da história num momento que o “próprio” Judiciário mais se preocupa, corretamente em se popularizar (e o MP, quando começará?).

                Com a Constituição Cidadã de 1988, as entidades, órgãos, Poderes devem se reinventar no sentido de atendimento e acesso à população, uma palavra: transparência. Que não é favor. Todos os movimentos na direção de um sentido autoritário, conservador, hermetizante, devem ser rechaçados por cabeças lúcidas, arejadas, modernas.

                No processo penal o promotor é o autor da ação, nada mais que isso, ao lado do réu. O citado juiz Rubens Casara relata um caso em que foi alvo de uma esdrúxula “nota de repúdio” do MP por ter indeferido um pedido de prorrogação das prisões temporárias num caso do Detran RJ. Quanto autoritarismo. Quer dizer que o juiz “tem” que atender aos “pedidos” do MP? É óbvio que não. Esse asco de alguns promotores por advogados, no sentido de que têm ficar 10 centímetros mais altos, precisa ser psicanaliticamente trabalhado. Filosofia clínica certamente ajuda.

                Quem milita no dia a dia forense sabe que essas situações são corriqueiras e mundanas, até tolas. O fato é que num julgamento criminal, há uma questão essencialmente ética envolvida: o promotor não deveria ficar de tititi com o juiz, tentando passar a imagem de amiguinho “da justiça”. Na cabeça do leigo, os jurados, no Júri, essa amizadezinha cênica perpassa a ideia de que a justiça está do lado da acusação. Isto é lamentável e totalmente errado. Bons promotores repudiam esse péssimo comportamento e dizem que não precisam dele para sua atuação profissional. A ação da OAB no Supremo, pela altura do tablado da cadeira ainda vai dar pano para manga. Mas cá entre nós, Supremo precisar discutir altura de tablado para promotor é o fim. Jean Menezes de Aguiar

segunda-feira, 5 de março de 2012

Marxismo e pós-modernidade, quem diria...



A força e a riqueza do marxismo sempre estiveram na tentativa mais radical de esclarecer o processo histórico em sua totalidade. Essa é a compreensão de Jean-Paul Sartre, na obra Questão de método, que, todavia, já reconhecia certa esclerose na conjuntura, mostrando ainda que o marxismo se via ainda jovem, quase que na infância. Passam-se décadas, “passa” Sartre – há para quem o magnífico tenha passado –, mas a centralidade da fórmula do Capital “O modo de produção da vida material domina em geral o desenvolvimento da vida social, política e intelectual”, à qual Sartre sempre aderiu sem reservas, parece desafiar o tempo.  Principalmente esses tempos pós-modernos.

Se “aplicarmos” a fórmula a uma pós-leitura da atualidade à qual o consumismo, a clivagem das relações humanas (a pressa nas relações), a revolução da tecnologia da informação e a “invenção” do chamado mundo corporativo como grande gestor ideológico de estruturas tão sensíveis e originariamente estéreis a modismos como a universidade, a religião, a medicina e outros segmentos clássicos, não teríamos uma explicação efetivamente central dessa sociedade pós-fútil e pós-moderna, pelo viés de produção da vida material como patronato "intelectual" do desenvolvimento da vida social política e intelectual?

O modismo quase que rácico de se imprestabilizar Marx, num desejo obsolescencial vazio de uma sociedade não pensante à qual o modelo de produção social [de tudo, material e imaterial] fica cada vez mais nítido com o fim da ética nas relações, os panos caindo, as máscaras esfacelando, faz com que o marxismo se “torne de novo possível”. Aqui os pensadores cairão na gargalhada com o “tornar” e o “possível”, mas eu acho que eles entenderão o que quero dizer. Não quero um Marx repaginado futilmente como essa sociedade tenta com Nietzsche; ou num remake artístico como se fez com Raul Seixas. Preciso estudar mais, achar teorias plurívocas insercionais, subsuncionais, não propriamente num marxismo cristalizado como apontado por Lukácz, exteriorizado na prática de se liquidar a particularidade, “procurar o todo por meio das partes”. Na pós-modernidade cessam as partes e o espírito nefasto de um todo se funcionaliza como um manto social perverso. Que estrago estamos vivendo. Jean Menezes de Aguiar.