quinta-feira, 8 de março de 2012

“Por que” os casais brigam?

Cama realmente não é para isso, mas para carinhos, mimos, brincadeiras, jogos, comidinhas e amor

Por que pessoas se desentendem? Esta parece ser uma questão interessante para uma reflexão filosófica simples. Visando a compor algum menu para uma consultoria ou gestão de pessoas no âmbito familiar em geral, uma estrutura base da análise teria que passar por: I. o atrito; II. a possibilidade do atrito; III. as pessoas mais suscetíveis ao atrito; IV. as relações mais suscetíveis ao atrito; e V. pistas para soluções e resolvimentos.

I. O atrito é uma fricção no entendimento da relação, uma faísca ou um desastre completo que pode desde arranhar a relação até explodi-la. O atrito deve ser visto por pessoas inteligentes como um risco para a relação. Tecnicamente risco representa algo potencialmente ruim. Essa visão precisa estar consciente para que não se queira “correr o risco” do atrito. Evitar [inteligentemente!] o atrito é sinal de inteligência. Os inteligentes farão de tudo para não inaugurar o atrito. Não é difícil o atrito se agigantar e causar danos na relação. O atrito pode começar de uma implicância histórica – alguma terceira pessoa ou ciúme já sedimentado que se agravou no momento –, ou já ter início como uma verdadeira bomba, uma traição flagrada, por exemplo. O exemplo da traição é bastante primário e vulgar, sabe-se, mas se presta meramente a título de visão concreta. Atritos há com educação de filhos, relação com amigos, valores e visões de mundo etc. O filme Eles não usam Black tie mostra o triste atrito ideológico, gravíssimo, entre pai e filho.

O primeiro que há que se cuidar, nos momentos iniciais do atrito é sua própria dimensão. Casais inteligentes devem estar conscientes que estão diante de um atrito leve, que seja, por exemplo, e que não vão “permitir” que ele se agrave. Essa conduta preventiva, tanto quanto possível, será ótima para que atritos leves nunca virem problemas graves ou tabus consolidados, daqueles que não se pode mais tocar no assunto. Já o atrito que nasce nas condições de uma crise séria estabelecida merece toda a atenção visando a que ele não frature totalmente a relação. Isso tem que ver com Negociação: é um olhar para o outro e dizer:– sabemos que isso é besteira, não vamos permitir que cresça. Ou então é o “para tudo e vamos ver o que se pode fazer para manter isso no tamanho mínimo”. Pessoas inteligentes terão um olhar máximo para a relação, e um mínimo mínima para o atrito. Farão de tudo para salvá-la, se ela for salvável.

II. A possibilidade do atrito tem que ver com o tipo da relação em combinação com o tipo das pessoas. Abre-se uma quadra aí. Relação boa com pessoas boas; relação boa com pessoas ruins; relação ruim com pessoas boas; e relação ruim com pessoas ruins. “Relação boa” seria aquela minimamente apta a gerar felicidade duradoura ou por grandes espaços de tempo, com calmaria, harmonia, entendimento e amor, ainda que com desentendimentos normais. “Relação ruim” seria aquela que não consegue deslanchar, vive aos percalços, com problemas constantes, dúvidas, desconfianças, medos, inseguranças, ciúmes crônicos, brigas e interrupções.  “Pessoas boas” são as que lidam com as outras de boa-fé, coração aberto, aderidas, prontas para ajudar e compreender os erros do outro. “Pessoas ruins” são essencialmente os medíocres, os desconfiados, os que guardam coisas para soltar como efeito diferido, os que premeditam reações, os que acham que vingança é um prato e que se pode comê-lo até frio. Explicados rapidamente as relações e os sujeitos, passa-se à tal quadra.

Assim, 1) relação boa com pessoas boas gera baixa possibilidade de atrito. É o melhor desenho que há para uma vida a dois. 2) Relação boa com pessoas ruins, parece não ser possível, mas é, não apenas porque medíocres se atraem, mas porque se uma relação gera entendimento ainda que “esquisito entendimento” ela é uma relação boa para os esquisitos, e dane-se o mundo. 3) Relação ruim com pessoas boas talvez seja a pior, a crise do desentendimento e da desinteligência esteja causando malefícios e as pessoas que são boas não conseguindo sair desse lodo. E por fim 4) relações ruins com pessoas ruins, esta parece não prestar em sentido nenhum, nem para os próprios envolvidos, é aquela relação que nasce errado, existe errada, no sentido de crises constantes, términos constantes, vinganças constantes etc. Há relações mais aptas a possibilitar atritos, essas são as mais delicadas e requerem mais cuidado.

III. Pessoas mais suscetíveis ao atrito não “descobriram” a beleza que é uma vida construidamente equilibrada, calma, serena e harmoniosa. Isso não é fácil e na teoria é sempre muito simples, bastam as palavras corretas. Parece que a opção pela inteligência e pela lógica é a mais concreta e real, envolvendo conversas francas e zeradas em termos de tabu. E ninguém melhor do que o outro para conhecer o parceiro. A arma mais poderosa será a abertura, a não cerimônia, o não tabu, a democracia na relação, a certeza de valores e opiniões iguais, desde que fundamentadas e com alguma lógica, o respeito e o carinho na aceitação da sugestão ou opinião do outro. O inverso desse tipo de personalidade desenhará as pessoas mais suscetíveis ao atrito, com um perfil autoritário, impermeável, com reservas, segredos, dificuldades de diálogos fazendo com que a relação tenha um viés inclusive ditatorial.

IV. As relações mais suscetíveis ao atrito seriam aquelas às quais há causas amordaçadas que não são nunca dialogadas, debatidas e efetivamente resolvidas. A atitude às vezes suave de pôr uma pedra em cima é, em muitos casos, das mais mentirosas que há e no menu da mentira há uma infinidade delas ligadas à tipologia da relação. Em muitas relações há um polo visivelmente forte ou concentrador, com mando e autoridade, e um polo fraco no sentido nítido da subserviência. Quando a relação obedece a este desenho a mentira passa a compor o manejo do polo fraco para coisas as mais comesinhas. O paradoxal é que o polo forte será enganado o tempo todo, mas esse tônus que poderia ser o de vingança para o polo fraco, acaba não gerando harmonia ou uma relação essencialmente feliz. A obediência e o autoritarismo deveriam ser estranhos a uma relação a dois.

V. No item de pistas para soluções não há “dicas”. Manejos e atuações ligados à verdade, ao carinho, à vontade de se dar bem com o outro parecem ser o essencial aí. Pedi a amigos do Facebox que opinassem sobre o tema e colhi algumas coisas valiosas que comento rapidamente. A ADRIANA SALETE aponta que motivos para o desentendimento seriam pessoas se amarem demais e pessoas não se amarem mais. O segundo é perfeito, mas o primeiro não dá para deixar passar. O amor demais parece não ser causa de problemas. Isso não pode ser confundido com uma pessoa “afogar” a outra, querer exercer uma posse descomunal, já que todos praticamos posse normal com o ciúme por exemplo. De toda sorte é muito bem lembrada a situação desse “amar demais”. A ELCIRA SILVA vai apontar a divergência de opinião, a falta de informação e a intolerância. Dos três, os dois últimos são bastante nítidos. É claro que divergência de opinião chega a ser até saudável; pode ser uma fonte de briga, mas deve se cuidar para que não seja, afinal divergir em opiniões é comum. Mas a intolerância é, efetivamente, um problema grave e sério, ligado à ignorância comissiva, à agressividade, àquele tipo de “pessoa ruim” do início do texto. O intolerante é um horror. A CLAUDIA SITHA aponta a falta de amizade para compreensão e com outras “colaboradoras” faz críticas às mulheres no sentido de implicar com coisinhas miúdas e querer sempre discutir a relação, mostrando que o homem é mais prático. Faz crítica lúcida à mulher dizendo que ela exige ser mimada o tempo todo, o que parece ser verdade em muitos casos dessa sociedade atual. Mas a amizade lembrada é das coisas mais valiosas numa relação. A amizade é como uma “outra” relação que precisa ser mantida paralelamente, para servir de combustível e de linimento quando algo vai mal. A amizade parece ser a pedra de toque das relações. A DIANA NACUR aponta ótima visão: a vontade de um ter razão e não ceder ao outro. Em pessoas “autoritárias” como, por exemplo os advogados, para não ir a outros tipos de gente, essa observação é muito lúcida.  A razão se liga ao conhecimento no sentido de uma exibição dele. Quem tem mais conhecimento, tem razão. Essa equação muitas vezes defeituosa é imposta por um polo da relação mais intelectual ou pretensamente intelectual que pretende vencer divisões internas na relação pelo domínio da razão. O JORGE LUIZ SIMÃO fala que uma relação a dois precisa de liderança e que a divisão pode gerar o divórcio. Aí estão dois conceitos difíceis de se trabalhar na atualidade. Liderança é um fator modal na empresa ou numa igreja (conforme ele diz) em que se presume quantidades dicotômicas de conhecimento e saber. Tanto na empresa como na igreja há seguidores e obedientes. Na estrutura da relação moderna essas conformações ficam mais difíceis, ainda que inúmeras famílias sul-americanas (e não só estas!) se pautem por esse modelo. A CRISTINA DORNELLES fala em narcisismo, um efeito social que parece estar aguçado na atualidade, ou hiperaguçado. O ver a si próprio e não ver o outro com gentileza e carinho será fonte eterna de desavenças. Uma estrutura narcísica existente no casal é sempre algo muito nítido e problemático quando se fala em desavenças e parece que a pós-modernidade vem enaltecendo a egolatria e o consumismo nas relações de uma maneira desmesurada.

Essas foram as participações importantes e todas elas super valiosas para esse texto. Deixo aqui um grande beijo para todos em geral e o meu muito obrigado. Gostei muito de fazer um texto com opiniões interativas, esse foi o primeiro. Sempre num texto assim há inúmeras imperfeições, há coisas que passamos batido, há simplismos e superficialidades. Outro dia um amigo me advertiu de que parecia que eu ficava querendo exaurir os temas. É exatamente isso, ainda que jamais se consiga. Faz lembrar Salvador Dali ao ensinar que não devemos temer a perfeição, não vamos conseguir alcançá-la mesmo. Mais um beijo geral nos meus amigos e o meu muito obrigado. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Vaidade oficial

Artigo publicado no  Jornal O DIA SP em 8.3.2012

                Século 21, ano de 2012, o Brasil já não é mais o país do futuro em muita coisa, mas a vaidade oficial não para, em todas as instâncias. Daquelas que não basta ter um coquetel por semana para ir. Ou poder fazer o regime de trabalho conhecido por TQQ – terça, quarta e quinta, sem se falar nos salários que, em termos brazuca, nunca foram “miseráveis”. Mas isso é pouco. O poder tem suas jactâncias, suas babas e roupas engomadas como a de um príncipe dândi, conceituado por ninguém menos que Baudelaire, e citado em Habermas, O discurso filosófico da modernidade. A leitura é um gozo.

                À vaidade se mistura o “orgulho”, este furúnculo mental lancetado por Voltaire que ensinava que o sentimento seria perdoável a um Cícero, a um César ou a um Cipião. Não “em tão mesquinho animal como o homem”; desses que compra um cargo público ou imprime versos medíocres, “eis o que dá matéria para nos rirmos longamente” (Dicionário filosófico). A reação das “autoridades” ao gênio sempre foi com prisões enérgicas. A história é prenhe dessas magnificências, excelências e autoridades; claro que também roubalheiras e prostíbulos.

                O jornal A tribuna do advogado, da OAB carioca, traz uma longa entrevista com o lúcido juiz Rubens Casara, da 43ª Vara Criminal do Rio, com o título “Posição de destaque do MP nas salas de audiências viola o princípio da isonomia.” Parece piada, mas não é. O MP continua sua estranha luta para se sentar na mesma altura dos juízes nos seus palcos, tablados, degraus, ”altinhos”, construções de madeira para se ficar mais alto, sabe-se lá que nome técnico ou jurídico terá aquilo.

                Essas “vontades” são conhecidas dos estudiosos. Gerhard Heberer, Gottfried Kurth e Ilse Schwidetzky-Roesing, na obra Antropologia, 1967, p. 37, desnudam: “As vênias e as mesuras, o tirar o chapéu, o ajoelhar-se rebaixam os de extirpe inferior; a atitude dos indivíduos que ocupam as escalas superiores das hierarquias são exaltadas e aumentadas por meio de artifícios técnicos. Máscaras, adornos da cabeça (tais como coroas e diademas), coturnos, assentos altos, vestuário vistoso, tudo isto serve para engrandecer a imponência do aspecto.” Estranha sanha essa do “rebaixamento” do povo.

                O Conselho Federal da OAB, por seu Pleno, ingressou, corretamente, com ação no Supremo Tribunal Federal pedindo a declaração da inconstitucionalidade da lei complementar 75/93, que garante aos promotores “sentarem-se no mesmo plano e imediatamente à direita dos juízes singulares ou presidentes de órgãos judiciários perante os quais oficiem.”

                O MP, inegavelmente a instituição que mais cresceu com a Constituição da República, deveria se envergonhar desse artigo de lei. Deveria optar pelo povo, sentar-se na mesma altura que o povo. Mas esse altruísmo (que palavrão filosófico) parece não se coadunar com “razões” elevadíssimas, respeitosíssimas para uma igualdade cartersiana e centimetralmente perfeitíssima entre a altura da cadeira do juiz e a do promotor. Que ofensa, gritarão alguns. Que ridículo, rirá a sociedade lúcida.

                Ficar o promotor 10 ou 20 centímetros em nível abaixo da altura da cadeira do juiz será, certamente um desrespeito, dirão os legalistas plantão. É por isso que esse sentimento do “desrespeito” é um atalho ou porta dos fundos da retórica para a falta de argumento num debate. O filósofo Lou Marinoff, na obra Mais Platão menos prosac, ensina: “As pessoas que procuram se ofender sempre encontram motivo para isso; consequentemente, são elas que têm um problema”. Perfeito.

                As “más” línguas populares diriam no caso: – Por que então fez concurso “só” para promotor e não fez “logo” para juiz? O MP utiliza as instalações “do Poder Judiciário” num julgamento. O MP tem prédios próprios, como o Judiciário tem. É natural que certos detalhes privilegiem o dono da casa. Que “infâmia” há em 20 centímetros a mais de altura numa cadeira?

                Certos enfeites, rapapés e alegorias vão se sustentar até quando? Mais 50 anos? Mais 20? As perucas brancas ridículas com cachinhos que os ingleses ridículos usavam de forma ridícula foram aposentadas. Por muito tempo eles a “defenderam” dizendo que era “tradição”. De novo, o ano de 2012. “Tradição”? Que argumento mais oco. Galileu em 1615 já disparava: “A razão desliga-se de toda a autoridade, tanto da tradição como dos sentidos.” Qual é a “razão” para certas coisas fundamentalistas ou ultra-formais desse universo jurídico? Não há razão outra senão a tradição.

                O bafafá da altura da cadeira do promotor x cadeira do juiz é uma dessas questões que parece não ter razão “razoável”, e ocupará o Supremo Tribunal Federal. Ridículo. Alegar que deve ser assim porque está previsto em “lei”, é de um positivismo roxo doentio. Alegar que foi uma “conquista”, é andar na contramão da história num momento que o “próprio” Judiciário mais se preocupa, corretamente em se popularizar (e o MP, quando começará?).

                Com a Constituição Cidadã de 1988, as entidades, órgãos, Poderes devem se reinventar no sentido de atendimento e acesso à população, uma palavra: transparência. Que não é favor. Todos os movimentos na direção de um sentido autoritário, conservador, hermetizante, devem ser rechaçados por cabeças lúcidas, arejadas, modernas.

                No processo penal o promotor é o autor da ação, nada mais que isso, ao lado do réu. O citado juiz Rubens Casara relata um caso em que foi alvo de uma esdrúxula “nota de repúdio” do MP por ter indeferido um pedido de prorrogação das prisões temporárias num caso do Detran RJ. Quanto autoritarismo. Quer dizer que o juiz “tem” que atender aos “pedidos” do MP? É óbvio que não. Esse asco de alguns promotores por advogados, no sentido de que têm ficar 10 centímetros mais altos, precisa ser psicanaliticamente trabalhado. Filosofia clínica certamente ajuda.

                Quem milita no dia a dia forense sabe que essas situações são corriqueiras e mundanas, até tolas. O fato é que num julgamento criminal, há uma questão essencialmente ética envolvida: o promotor não deveria ficar de tititi com o juiz, tentando passar a imagem de amiguinho “da justiça”. Na cabeça do leigo, os jurados, no Júri, essa amizadezinha cênica perpassa a ideia de que a justiça está do lado da acusação. Isto é lamentável e totalmente errado. Bons promotores repudiam esse péssimo comportamento e dizem que não precisam dele para sua atuação profissional. A ação da OAB no Supremo, pela altura do tablado da cadeira ainda vai dar pano para manga. Mas cá entre nós, Supremo precisar discutir altura de tablado para promotor é o fim. Jean Menezes de Aguiar

segunda-feira, 5 de março de 2012

Marxismo e pós-modernidade, quem diria...



A força e a riqueza do marxismo sempre estiveram na tentativa mais radical de esclarecer o processo histórico em sua totalidade. Essa é a compreensão de Jean-Paul Sartre, na obra Questão de método, que, todavia, já reconhecia certa esclerose na conjuntura, mostrando ainda que o marxismo se via ainda jovem, quase que na infância. Passam-se décadas, “passa” Sartre – há para quem o magnífico tenha passado –, mas a centralidade da fórmula do Capital “O modo de produção da vida material domina em geral o desenvolvimento da vida social, política e intelectual”, à qual Sartre sempre aderiu sem reservas, parece desafiar o tempo.  Principalmente esses tempos pós-modernos.

Se “aplicarmos” a fórmula a uma pós-leitura da atualidade à qual o consumismo, a clivagem das relações humanas (a pressa nas relações), a revolução da tecnologia da informação e a “invenção” do chamado mundo corporativo como grande gestor ideológico de estruturas tão sensíveis e originariamente estéreis a modismos como a universidade, a religião, a medicina e outros segmentos clássicos, não teríamos uma explicação efetivamente central dessa sociedade pós-fútil e pós-moderna, pelo viés de produção da vida material como patronato "intelectual" do desenvolvimento da vida social política e intelectual?

O modismo quase que rácico de se imprestabilizar Marx, num desejo obsolescencial vazio de uma sociedade não pensante à qual o modelo de produção social [de tudo, material e imaterial] fica cada vez mais nítido com o fim da ética nas relações, os panos caindo, as máscaras esfacelando, faz com que o marxismo se “torne de novo possível”. Aqui os pensadores cairão na gargalhada com o “tornar” e o “possível”, mas eu acho que eles entenderão o que quero dizer. Não quero um Marx repaginado futilmente como essa sociedade tenta com Nietzsche; ou num remake artístico como se fez com Raul Seixas. Preciso estudar mais, achar teorias plurívocas insercionais, subsuncionais, não propriamente num marxismo cristalizado como apontado por Lukácz, exteriorizado na prática de se liquidar a particularidade, “procurar o todo por meio das partes”. Na pós-modernidade cessam as partes e o espírito nefasto de um todo se funcionaliza como um manto social perverso. Que estrago estamos vivendo. Jean Menezes de Aguiar.

sábado, 3 de março de 2012

Todo mundo é isento nas análises?

O lindo e amado Gaston Bachelard, pai da epistemologia e fazedor de tantas cabeças pelo mundo


Uma ova! Todo mundo diz que é, jura, garante, promete, afirma, faz cara de sisudo, mas não é mesmo. Isenção é treino, hábito, costume e muito estudo. Isenção é exercício filosófico. E adianta-se logo, isenção absoluta nunca existiu. O racionalismo, o positivismo, o objetivismo, o cartesianismo nunca concluíram a promessa da isenção absoluta. Aprende-se na antropologia que homem é naturalmente um poço de impressionamentos, valores, conceitos concebidos e preconcebidos, olhares, leituras, interpretações, sentimentalismos etc. Mas isso não afasta a “possibilidade” da isenção ou de no mínimo alguma e ótima isenção.

A filosofia parece ser o repositório central dos ensinamentos à isenção. E dentro dela, a metodologia científica será sua rainha. As passagens são inúmeras, e todas elas didáticas. Dominique Folscheid e Jean-Jacques Wunenburger, na obra Metodologia filosófica, já no prefácio ensinam que a filosofia desde sempre foi uma “atividade do espírito que pede que suspendamos as opiniões imediatas, que nos mantenhamos afastados das discussões espontâneas, na medida em que estas só nos remetem a nossos preconceitos e a nossas crenças irrefletidas.” O problema é que somente uma parcela muito pequena da sociedade “vive” sob essa diretriz então pessoal do rigor com a atividade do espírito. Mas há que se reconhecer que encontrar um desses assim, é um gozo intelectual.

Todo mundo “tem” opinião sobre tudo. Mas a “opinião” na filosofia sempre foi considerada como um nada imprestável. Gaston Bachelard, no livro A formação do espírito científico, p. 18, ensina que “A ciência opõe-se absolutamente à opinião... A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimento...  Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado”. Também Isabelle Stengers, na obra Quem tem medo da ciência?, p. 127, dispara: “A razão científica avança quando diz não à opinião.”

É claro que a vida “em” ciência ou filosofia pode ser considerada como diferente da vida popular, social, prazerosa, familiar, amistal, de ruas e bares, onde a emoção, o amor e a alegria deveriam imperar. Mas também é claro que alguns fundamentos, apenas alguns do asco da ciência e da filosofia à opinião, poderiam ser pensados por muitos, não no sentido do cerceamento da opinião, mas apenas num maior cuidado, frente à loucura e delírio que assola a muitos que “opinam” sobre tudo e qualquer coisa com ares de autoridade, numa perda de isenção e equilíbrio de gargalhar. Algo bastante próprio dos imbecis, mesmo que "titulados".

Além da opinião, a isenção trabalha naturalmente com a possibilidade do erro. O erro é das coisas mais valiosas que há porque dá a certeza de que o lugar ou a teoria que se supunham ser certos, agora sabem-se errados. Isso é avanço e progresso. Algumas passagens ilustram a imprestabilidade do erro:

“A ciência progride corrigindo os seus erros, não faz segredo do que ainda não compreende.” [(DAWKINS, Richard. Desvendando o arco-íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo: Companhia das letras, 2000 p. 54). (Zoólogo).]

“É verdade que os cientistas, mais do que, digamos, os advogados, os médicos ou os políticos, ganham prestígio entre os seus pares ao admitir publicamente os seus erros”. (DAWKINS, Richard. Op. cit., p. 54.)

 “A ciência prospera com seus erros, eliminando-os um a um.” [SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. São Paulo: Cia das letras, 1996, p. 36 (astrônomo).]

“O problema do erro nos parece mais importante que o problema da verdade; ou melhor, só encontramos uma solução possível para o problema da verdade quando afastamos erros cada vez mais refinados.” [BACHELARD, Gaston. Ensaio sobre o conhecimento aproximado. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004. (Químico – tese de doutorado, 1928)


Por fim, no estudo da isenção, além da opinião e do erro, há o subjetivismo. Pensamentos encharcados de subjetivismos, experiências pessoais, percepções podem valer como leituras, por exemplo na antropologia, mas há que se ter o maior cuidado com esses “impressionamentos”.

No estudo da teoria dos quanta, feito por Karl Popper, é encontrada uma relação derivativa ilógica entre subjetividade e objetividade, ainda que estudiosos e fundadores da teoria das probabilidades, Jacob Bernoulli e Siméon Denis Poisson, o tenham defendido. É por isso que Popper dispara: “Durante muito tempo pensou-se (e há ainda muitos matemáticos e físicos eminentes que o pensam) que podemos partir de um sistema de premissas probabilísticas interpretado subjectivamente e deduzir dessas premissas subjectivistas conclusões estatísticas objectivas. Trata-se, porém de uma asneira lógica grave.” (POPPER, Karl R. A teoria dos quanta e o cisma na física – pós-escrito à lógica da descoberta científica. Vol. III. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 80.

Toda essa tralha teórica e o itinerário feito a partir dela visa a alguma construção de que a isenção ao mesmo tempo que é uma falácia, como diria Paul Feyerabend, é uma busca que se deve ter. Mas isso requer espírito científico. Opinar, berrar, falar, discutir tolamente é muito "fácil". Mas sopesar pacientemente valores, conceitos e objetos de análise é que se ensina na metodologia científica, ainda que muitos de nossos alunos a vejam como insuportável, numa desejância consumista própria da sociedade da pressa, do consumo e do gozo, só ele. Preocupa-me a minha comunidade no velho Orkut com quase 4 mil pessoas chamada Metodologia Científica, agora que tudo é Facebox, o que faço com ela? Se alguém tiver uma “opinião” legal será muito bem vinda. Jean Menezes de Aguiar.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Inventário inteligente



A flor, a herança cultural mais poderosa, o amor.
Gente inteligente deixa herança sem briga. A outra gente deixa com briga. É claro que essa divisão é grosseira, mas o princípio talvez não esteja errado: advogados vivem isso por profissão. Grandes fortunas são divididas sem qualquer mal estar, em famílias que previnem problemas. Antecipam acordos e deixam o maior tesouro de todos: laços sólidos e ternos. Pessoas inteligentes sabem que herdeiros podem se desentender, mesmo, e tratam de deixar tudo claro, definido, costurado e sem dúvidas. Quem vai discutir a vontade do pai ou da mãe?

                Herança sempre foi, historicamente, uma causa potencial de discordâncias. Mesmo até entre parentes harmoniosos. Muitas vezes, com o crescimento da família e do patrimônio, filhos, noras, cunhados, genros e companheiros não conseguem manter a harmonia de sempre e aparecem “interesses”. O jurista Narciso Amoros já ensinava: “Onde há homens há interesses; onde há interesses há conflitos; onde há conflitos surge a necessidade de compô-los.” O ideal é que o conflito não chegue a surgir, mas para isso medidas preventivas efetivas precisam ser tomadas. Se houver litígios uma coisa é certa: quem ganha são os advogados.

Para muitos, o momento da herança é a única vez na vida à qual terão acesso a um patrimônio. O efeito psicológico disso no padrão ético de alguns, como mostra a experiência, é surpreendente; e devastador. Pessoas que sempre se mantiveram honestas, às vezes aparecem do nada com ideias auto-favorecedoras, para espanto de muitos.
               
                Com a crise ética na sociedade e a inauguração do consumismo, padrões de honestidade, brio, caráter e gentileza foram para o ralo. Muitos fingem uma compostura, mas quando chega na hora agá, a máscara cai.

                A experiência advocatícia já mostrou mãe ou pai querendo ludibriar filhos. Irmãos, tios e todo tipo de parentes e afins também já quiseram levar vantagem. Basta entrar dinheiro. As famílias, historicamente, mudaram muito. Antigamente, por exemplo, um tio possuía poder sobre o sobrinho para repreendê-lo. Essa relação de boa autoridade entre tio e sobrinho era típica de uma superconfiança amorosa familiar. A família era coesa. Atualmente, se uma tia brigar com o sobrinho, a cunhada é capaz de romper relações e se mostrar ofendidíssima. Afinal, como alguém na Terra pode corrigir o bambi da mamãe? Essa crise no parentesco colateral é bem pós-moderna.

                A cultura da família coesa embalou a geração do Pós-Guerra pela necessidade de laços fraternos e juntivos à barbaria. Eram “obrigatórios” e deliciosos os almoços de domingo. Mas isso hoje parece não descer nem aos irmãos, quanto mais sobrinhos e netos. A pílula (maior revolução social do mundo), a união estável, o homossexualismo e os direitos iguais revolucionaram o conceito de família, esgarçando-o. No Brasil, o machismo legal só acabou em 1988 com a Constituição. A chamada família pós-moderna – mesmo seus núcleos – está quebradiça, autoritária, formalista, mas sobretudo emocionalmente fraturada.

                Esta família pós-moderna quando num inventário judicial tem muito mais propensão a criar fervuras no relacionamento. Consultores jurídicos seniores são cada vez mais necessários para orientação inteligente e preventiva da herança, do testamento e do inventário, sem o emocional envolvido e com o conhecimento preciso e correto. O direito é sábio e os séculos já mostraram como e porque as famílias se desentendem. Também, o direito prevê tudo, além de não ser preconceituoso. Quem é preconceituoso é o homem. A lei e o direito dão apetrechos prévios para que uma família não tenha desentendimentos num inventário. Outra coisa será as pessoas quererem usar estes mecanismos inteligentes.

                Mas por que pessoas “evitam” o tema de herança? Não é porque achem que nunca vão morrer. Há diversas causas. 1) não se gostar de discutir morte; pessoas supersticiosas evitam o tema. 2) não querer abrir o assunto por parecer que herdeiros em expectativa estão de olho na futura herança. 3) já há alguma fonte de problema, ainda que disfarçada, e o responsável quer deixar que aquilo exploda quando ele não estiver mais vivo. São inúmeros os motivos.

                O fato é que não cuidar preventivamente da herança, pode permitir brigas que nenhum pai, mãe, avô, avó, tio ou tia desejaria. Como o conceito de “justiça” é maleável, cada herdeiro poderá inventar – o termo é esse mesmo – uma interpretação que lhe satisfaça para proteger um interesse próprio. Não se teoriza aqui um “final dos tempos” da família, em que todos sejam desonestos. Nada disso. Mas cada vez mais desavenças pontuais vêm surpreendendo clãs inteiros. A família pode ser comparada ao trânsito das cidades. Ele está agressivo? Pois é, mas ele é composto de pessoas, e pessoas compõem as famílias.

                No menu da “lógica” de cada pessoa, há infinitas “interpretações”. Alguém vai dizer que é de justiça ficar com um imóvel porque “afinal de contas” já reside nele; ou porque “afinal de contas” benfeitorias foram feitas nele; ou porque “afinal de contas” é o parente mais pobre; ou porque “afinal de contas” é o parente que melhor tem condições de cuidar daquele imóvel; ou porque “afinal de contas” as crianças já se acostumaram ali e seria um “pecado” desalojá-las de lá; ou porque “afinal de contas” era o que “no fundo” o papai ou a mamãe queria, e por aí vão infinitamente os cínicos “afinal de contas”.

                Ainda bem que dinheiro admite divisão em centavos, e a lei já conhece todos os disfarces. Por isso existe o instituto da “colação” que já foi objeto de um artigo aqui, há tempos: o filho que recebeu dos pais um bem ou valor adiantado deve, no inventário, computar o valor atual para gerar equilíbrio com o outro filho. Deve “colacionar” o bem, trazê-lo ao inventário, para que o irmão não fique no prejuízo. É o óbvio. Além de ser uma obrigação legal. Mas às vezes irmãos são passados para trás. O valor da colação de um herdeiro discretamente malandro não é corretamente corrigido ou é computado como valor histórico etc.

                O pior cego é o que não quer ver, diz o ditado popular. Ou no caso prever. Acreditar que herança não tenha como dar problema numa família é inocência. É claro que muitas famílias mantêm-se com elevado e belíssimo padrão de honestidade e ética. Mas até para estas, o que custa “prevenir”? A prevenção “ofende”? Se alguém resiste ao “preto no branco”, ao transparente, ao ético, é porque pode ter interesse no escuso e no desonesto. Folha de papel aceita tudo, até grandiosos e belíssimos acordos.

                A prática advocatícia em consultoria de heranças e testamentos consegue ótimos e inteligentes resultados. Inclusive sem utilizar inventário, mas outra figura que o substitui, chamada “arrolamento”, uma forma judicial muito mais simples e barata cabível em muitos casos. O Código Civil de 2002 contém todos os instrumentos para que pessoas organizem com segurança e equilíbrio o futuro do patrimônio e a harmonia da família, impedindo desavenças. Essas são as pessoas inteligentes que deixarão inventários inteligentes, calmaria na gestão da herança e harmonia entre os herdeiros. O amor eterno na família precisa de um bom gestor, inteligente e inesquecível. Jean Menezes de Aguiar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Todos riem, menos um.




Professores costumam reparar alunos que têm problemas e saem do padrão da turma. A um gracejo que 90% dos alunos riem, outros 9% sorriem discretamente e míseros 1 ou 2 alunos mantêm a cara premeditadamente fechada como se estivessem zangados, há uma fotografia “interessante” aí. É óbvio que as "palhaçadas" de professores não precisam alcançar a tal da unanimidade, mas se a cena descrita no início do texto se repete 10 vezes em 10 momentos diferentes, não serão as brincadeiras que são “ruins" nem todos os 99% da turma que são patetas, mas a cabeça do esquisito de plantão que precisa passar por um conserto, rs... Isso quando é consertável.

O que se retrata aqui é descrito com perfeição pelo filósofo clínico Lou Marinoff, na obra Mais Platão menos prosac: “As pessoas que procuram se ofender sempre encontram motivo para isso; consequentemente, são elas que têm um problema”. Assim, por exemplo, quando um funcionário da polícia ouve uma piada sobre a “sua” instituição e “problematiza” disparando uma zanga preventiva para todas as próximas brincadeiras, fechando a cara e pensando que não admite graça com a entidade, fica claro que o problema está nele, não nos ouvintes outros, ou no elaborador da brincadeira.

Em turmas de direito isso alcança ares de esquizofrenia, porque muitos do mundo jurídico acham que não podem ser alegres, felizes, gargalhar e se espalhar de uma graça momentânea, uma piada ou uma pilhéria que se faça, em típica falta de segurança e personalidade. É a síndrome de que autoridade não ri. (E quem é autoridade?).

A empatia estudada pelo biólogo Franz de Waal (A era da empatia), originariamente nos grandes primatas e depois “trazida” para a humanidade é um valor maravilhoso nas relações humanas. Mas ela nem depende  da nossa decisão, vê-se involuntária, conforme pesquisas de Ulf Dimberg, psicólogo sueco. No caso da sala de aula onde todos vivem a alegria empática momentânea de uma história e penas um aluno faz questão de não conviver essa alegria, por diversas vezes, fica nítido o seu "problema" na relação. Essa boa relação grupal requer bom coração, pessoas de bem, requer abertura para receber um gracejo e não ficar buscando problematizar, implicar, achar defeitos nas brincadeiras descontraídas, nas alegrias normais e mundanas dos outros. Quem vive querendo achar esses defeitos é que tem problema. No caso citado, como o professor aí tem adesão de 90% da sala para uma mera brincadeira, a reação zangada de 1 ou 2 em nada muda o quadro. Apenas o sujeito deve levar uma vida meio infeliz, cerceando seu riso espontâneo, sua alegria mundana como a de qualquer pessoa que não tem o espírito prevenido. Deve ser ruim viver assim. Jean Menezes de Aguiar.


“Criacionismo” na escola e violação infantil.



Criança e o seu direito ao conhecimento.

Criança deve estudar. Estudo envolve conhecimento. O conhecimento que é fornecido para a criança em todas as escolas do mundo envolve socialidade e ciência, aferível por métodos próprios que garantem o trinômio verdadeevidência - certeza.

Método é como o conhecimento será manejado, tanto no seu descobrimento quanto na sua transmissão que imprime lógica e garantia ao conhecimento. O processo de lógica e garantia no conhecimento é resultante de demonstração – o conhecimento precisa ser demonstrável objetivamente por si só (H2O é um fato que pode ser percebido em laboratório); também é resultante de repetição (procedimentos objetivos conseguem repetir aquele conhecimento); também a experimentação (o conhecimento é testável por qualquer um, não requerendo qualidades subjetivas especiais, dom, intuição ou crenças).

Crianças em todos os lugares do planeta vão à escola aprender disciplinas que obedecem aos mesmos métodos que, todavia, são mundiais, seja na história, na geografia, na matemática, na física, na química, na biologia etc., afinal a ciência é um processo de cumulação de saber metódico. O que orienta o conhecimento científico é o método.

No estudo do método, na metodologia científica, há 4 níveis de conhecimento, empírico, científico, filosófico e teológico. Alguém ensinar a outrem a refogar arroz sem adição de óleo, é uma forma de transmissão de conhecimento vulgar, válido e existente. Já a ciência vai mais além, se preocupa com detalhes, medidas e exatidão quantificada e qualificada, sendo o método mais importante do que com a descoberta em si, ou seja, será o método objetivo utilizado que qualificará o conhecimento como científico. Por terceiro, a filosofia que tem o mesmo rigor que a ciência, mas utilizando outro objeto de investigação, as realidades mediatas, imperceptíveis aos sentidos que não podem ser experimentáveis. Por quarto e último, conforme ensinam Cervo, Bervian e Silva (Metodologia científica) o conhecimento teológico “aceita explicações de alguém que já tenha desvendado o mistério”, ou alega que desvendou e se acredita nessa alegação, o que exige uma atitude subjetiva da pessoa de querer aceitar a explicação. Essa vontade de aceitação é conhecida por fé diante, então, do conhecimento “revelado”.

Escola, no mundo todo, é um lugar e uma ambiência em que impera e sempre imperou o conhecimento científico, e não crenças em santos, deuses, entidades e mitos em geral, seja o nome que for, Buda, Deus, Alá, Jesus, Maomé, Oxalá e qualquer outra divindade, força etc. Não se ensina 2 + 2 a uma criança fazendo-a “crer” que o resultado seja 4, mas utilizando uma compreensão objetiva, racional, demonstrável e essencialmente lógica. Qualquer criança não neural ou mentalmente lesada consegue ver, entender, perceber e testar que 2+2=4, com palitinhos, pedras, botões etc. Não se trata de “acreditar”.

Charles Darwin é um fato.

A Evolução, estudo capitaneado por Darwin deixou de ser uma mera teoria para se firmar em toda (!) a biologia como um fato incontestado – não há um biólogo sério no mundo que negue a evolução, conforme Richard Dawkins e Ernst Mayr. Mas um tema tem preocupado os estudiosos: o ensino do “criacionismo”, em escolas religiosamente fundamentalistas, em substituição à Evolução.

O criacionismo simpesmente nega, como se pudesse, todos os avanços, descobertas e confirmações da Evolução. A Evolução sofreu da própria ciência contestação por longos 80 anos após Darwin, até cessarem os argumentos contrários, calando toda e qualquer crítica quanto à sua existência e confirmação. Por isso deixou de ser uma “teoria” e se tornou um “fato”. Enquanto isso, religiosos radicais, os fundamentalistas religiosos, mantém-se no criacionismo por pura crença religiosa, sem qualquer início ou base científicos sérios, considerando o homem um produto de Deus. Que desenvolvam seus credos por seus medos, temores e mitos na fase adulta será um problema de cada um, mas querer impor isso às crianças será uma questão de interesse público, no sentido de ensinar algo sabido e cientificamente errado a quem precisa “aprender” conceitos não oriundos de uma ou outra crença, mas do conhecimento científico.

Alguns conceitos precisam ser previamente explicados. Tomando-se como base o livro A goleada de Darwin, do biólogo brasileiro, pós-doutor por Harvard, Sandro de Souza, há:

“Teísmo” – a crença na existência de um ou mais deuses.
“Ateísmo” – ausência dessa crença.
“Deísmo” – crença numa força maior, não religiosa.
“Agnosticismo” – não se pode prova a existência de Deus, mas também não o rejeita.

Em contraposição à Evolução que em termos de existência, consistência e não questionamento se mantém um fato unânime na biologia, há nada menos que dez organizações que inventaram explicações criacionistas para a origem do homem, cada uma pipocando para um lado teórico maluco, como hérnias descontroladas, todas elas de origem americana.

1) CRIACIONISTAS DA TERRA PLANA – em patético contraste com estudos geológicos e fotográficos, acreditam esses lunáticos que a Terra é um plano, numa interpretação literal e primária da Bíblia. Em 2008 a tal Sociedade da Terra Plana ainda conseguia ter 12 mil membros;

2) GEOCENTRISTAS – a Terra é redonda mas discordam, em  afronta a estudos astronômicos e físicos, do modelo heliocêntrico do nosso sistema solar, são a The Criation Science Association for Mid-America;

3) CRIACIONISTAS DA TERRA JOVEM, para esses boçais não adiantam os estudos sobre a Terra, eles querem que ela tenha ínfimos 10 mil anos, sendo que todo material orgânico e inorgânico teria sido criado em 6 dias. O complexo e preciso sistema de “datação” aceito incontestavelmente pela ciência, que prova a estultice dessa crença imbecil de nada adianta para esses aí: seu fundamentalismo é separatista e preconceituoso, não aceitam sequer discutir o tema;

4) CRIACIONISTAS DA TERRA ANTIGA – esses são mais “razoáveis”, aceitam as demonstradas evidências geológicas da existência da Terra em termos de 7 bilhões de anos mas acreditam que um Deus lá atrás criou tudo, é a American Scientific Affiliation;

5) CRIACIONISTAS DA RESTITUIÇÃO – teria havido grande espaço temporal entre o Gênesis 1 e o 2, assim Deus teria recriado o mundo; está no livro Mysteris of the Ages, de Herbert Armstrong;

6) CRIACIONISTAS DIA/ERA – para esses “criativos” aí, cada dia da criação foi uma verdadeira era. Deus, para esses tontos devia ser muito moroso, com uma era por dia.

7) CRIACIONISTAS PROGRESSISTAS – aceitam a física, mas rejeitam a biologia mesmo com todas as comprovações e, claro, a Evolução. Teimosia é assim mesmo, fiel e imutável;

8) CRIACIONISTAS DO “DESIGN INTELIGENTE” – dizem que é implausível a complexidade da biologia a partir de fenômenos aleatórios, daí para um Deus é apenas um mergulho. Mitos e inexplicações sempre atraíram quem nunca quis estudar muito, é um atalho fácil.

9) CRIACIONISMO EVOLUTIVO – aceitam um pouquinho a ciência, mas uma  que possam ligar à Bíblia, a principal obra é Evolutionary creacionism: torah solves the problem of missing links, de Susan Schneider, outro bando de lunáticos que nega conquistas insuspeitas da ciência, mas cinicamente a usam, não por reconhecer seu valor, mas para “usar” a força da ciência em seus credos e crenças.

10) EVOLUÇÃO TEÍSTICA – Deus teria criado as formas vivas por meio da evolução, esses aí aceitam a Evolução, mas fazendo partir tudo de Deus. É a Igreja Católica com seus inúmeros padres cientificamente formados com mestrados e doutorados que, no item da Evolução, a que melhor se mostra inteligente e arejada mesmo mantendo sua crença. Seu principal pensador foi o teólogo Teillard de Chardin, com o livro The phenomenon of man.


Qualquer criança que vá ao zoológico fica admirada com a semelhança que o chimpanzé apresenta com os humanos, em termos de olhares, comportamentos, hábitos e gesticulações. Espontaneamente a criança se vira para o pai sem saber o que seja Evolução ou criacionismo e, neste momento, indaga que os macacos são impressionantemente “iguais” a nós. Neste momento a ciência “estimula” essa visão natural e óbvia da criança, enquanto que o criacionismo a “decepa”, sem o mínimo de fundamento sério, tudo atrelado a crenças e mitos, introduzindo na criança como que uma cepa viral de ignorância que proíbe a sua visão institiva, óbvia e correta da semelhança entre os primatas e o homem.

Diversas visões naturais outras serão também estimuladas pela ciência ou, contrariamente, amputadas pelo fundamentalismo religioso e seu preconceito. Daqui a pouco alguém decretará que será pecado levar criança para ver chimpanzé no zoológico, para não se estimular esse tipo de questionamento.

Adultos não deveriam fazer isso com suas crianças, mesmo sendo seus filhos. O fundamentalismo radical não deveriam querer anular o conhecimento científico. O adulto é livre para escolher o que bem entende, como leva e administra sua vida, que religião ou igreja se filie. Mas não deveria obrigar a criança a aprender coisas que são efetivamente erradas. Querer que H2O não seja água por crença ou mito é forçar a barra. Essa covardia contra crianças não deveria existir. Jean Menezes de Aguiar.


 Uma rápida discussão sobre criacionismo e Evolução pode ser vista em http://profs.if.uff.br/tjpp/blog/entradas/criacionismo-na-europa#comment_270353c2cc56f26abb1acaf064b8977b