domingo, 2 de outubro de 2011

Tratado geral do provincianismo urbano

Tratado Geral do Provincianismo urbano

Tratado geral em Facebox é ótimo,  e provincianismo "urbano", rs devassos. Conceituo a pessoa provinciana como “A que educada sob horizontes pessoais e sociais acanhados e preconceituosos, ainda que suaves, projeta no mundo, por restrição ao outro que se lhe difere, uma tacanhez psicológica e de visão de mundo que não logrou evoluir com hábitos contemporâneos, lógicos e inteligentes, ao mesmo tempo que vive de criticar diferenças [do outro] que, em regra, considerará desrespeitosas, transgressoras, e ameaçadoras a algum padrão de sistema, seja ético, educacional, social ou cultural lato sensu, tudo porque “longe” da sua socialidade. O que está perto é palatável, o que está longe será censurável.”
Insiro aí uma divisão, a da pessoa provinciana urbana e a rural.  O provinciano rural (que não é objeto desse estudo) é o capiau, o roceiro, aquelas pessoas que denotam a autenticidade não incomodada e exercem um provincianismo que não patrulha, não é persecutório, e sua crítica ao outro é praticamente íntima ou cochichada de canto, um verdadeiro recato, sufocada na micro amplitude de sua modesta e pacata vida doméstica.
Enquanto isso, a pessoa provinciana urbana apresenta a patologia social no sentido de que os vieses da preocupação e da crítica se sobressaem em tons elevadíssimos; é a baba do preconceito ao mesmo tempo que o furor pela inserção social, modernosa, vistosa, brilhante, fustigada e espumosa. Haverá aí preocupação com a moda, o modismo, os conceitos de tendência, o está se usando, o todo mundo usa, o ninguém mais está usando, o não se usa mais e comportamentos assim ditados sempre por um outro (ainda que se jure por deus que aquele uso que “coincide” com a moda é porque a pessoa “gosta” – aí o estapafúrdio óculos máscara, que merda!; a mondronga bolsa de mulher maior do que ela, um horror; o visualmente ofensivo sapato feminino imitando couve flor subindo pelo tornozelo, imitando bota ortopédica da década de 60, cruz credo; a medonha saia balonê, que nem o corpo da mulher samambaia suportaria, quanto mais qualquer uma por aí; tudo isso maquiavelicamente inventado por alguma biba vingativa apenas para enfeitar a mulher e estas as imbecis (as imbecis!) caem; nos homens o patético sapato de Aladim 3 números acima do tamanho do pé e com o bico apontando para o céu – a última moda em aeroportos naqueles trabalhadores cafonas com seus ternos pretos – ôh gentinha – o sapato é nessa esdruxularia para passar a ideia de que o pênis é grande. Como as pessoas estão inseguras...). Também há em alguns casos, no provinciano urbano, um uso verbal e mesmo uma busca pelo conceitos totalmente cafonas e caídos em desgraça por qualquer ser medianamente inteligente; são os conceitos pós-fúteis do chique, fino, finesse, bom gosto, socialite, in, fashion, descolado e, em geral, pelo que se entende por “conceito” ou “tendência” da moda, que um determinado grupo ou segmento social organizado ou identificável apuser a certa conduta ou modo de ser ou ver as coisas. Tudo isso é provinciano demais, antigo, retrógrado, dir-se-ia “locomotiva”, na expressão ontocafona de Ibrahim Sued, na década de 1970.
No plano dos usos e costumes, a preocupação visível na mulher provinciana, por exemplo, será com o sapato, o esmalte, o cabelo, a roupa e os enfeites. Quando falo em preocupação, é preocupação, neura (ainda que quando se insira essa qualificadora todas neguem e se apressem: – não, neura eu não tenho! Mas tem sim! Ainda que muitas não assumam ou, pior, não percebam). A mulher inteligente (que planalto de prazer! Que orgia maravilhosa de companhia...), agora falando-se agora delas, usa tranquilamente sapato, esmalte, trata do cabelo, da roupa e mesmo se enfeita, mas não tem orgulho em dizer que precisa de 2 horas e meia para se arrumar, nem que tem que se achar acima do peso. Não faz “gracinha” com certas pérolas do consumismo-burro quando abre o guarda roupa com 60 trajes diz que não tem roupa para sair. A pessoa provinciana achará “chique” atrasar encontros, ou o pior, não se importará com atrasos. É a visão do inferno emperiquitada e com excesso de perfume. Uma primeira díade interessante:

Provincianismo
Urbano (cidade grande)                                        Rural
Comissivo (persecutório)                                respeitador (delicado)
Projetante (divulgado)                                   pessoal (familiar)
Teórico (conceitual)                                      natural (espontâneo)
Enfeitado (perua)                                          arrumadinho
Consumista                                                   trabalhador
Viajado                                                        vai à missa
Arrogante                                                     teimoso

Um ponto importante é a estreita ligação entre provincianismo e burrice, pois que o provincianismo ativo (sempre o urbano) é a valoração de um modo de ser que tenta justificar a própria tacanhez e o próprio preconceito a uma modernidade logicamente contrária ao preconceito, considerada esta apenas no conceito de pluralidade e não importância ao que o outro faz ou deixa de fazer. Há também estreita ligação entre provincianismo e patrulhamento, pois que este é o mote disparador do preconceito a quem é diferente. O provinciano não admite como prestável o diferente e sua inadmissão vem sob um pesado preconceito, travestido de crítica.
Há diversos traços do provinciano urbano. Ele é cerimonioso; às vezes sisudo; não é ilimitadamente brincalhão; não é adepto do palavrão (acha “falta de educação”); limita-se pelos conceitos de fino, etiqueta, chique, bom gosto, classe A, vip e outros, buscando mesmo ser assim; não dispensa modos formais de tratamento; assusta-se com o que considera socialmente diferente; não se mistura; não frequenta bandos, faunas, turmas, antros, de quem julga ser uma “ameaça” ainda que o julgamento seja inteiramente irreal e preconceituoso; não tem personalidade suficiente para estar num lugar completamente diferente da sua educação, cultura, modos, hábitos e saber impor-se com naturalidade e satisfação; não sabe sair de “saias justas” pelo discurso, pela inteligência ou pela genialidade; invariavelmente faz força para ser o que não é; e, de uma maneira geral pode ser estudado como uma pessoa nitidamente ligada à burrice, conforme a díade abaixo.

Inteligência                                                                   burrice
Abertura                                                                   visão pequena
Aceitação                                                                 cerimônia
Destraimento                                                            crítica preconceituosa
Destravamento                                                          Inadmissão
Negociação                                                               dificuldades e empecilhos
Alguma lógica                                                            compreensão estanque
Simples                                                                     preocupado
Atemporal                                                                 em fases segmentadas
Gargalha                                                                   cochicha e segrediza

Há estados e cidades grandes brasileiras que se prestam, perfeitamente, para o estudo social do provincianismo burro como posto aqui, ainda que com carrões caríssimos andando por suas ruas, bares imitando os bares dos mega centros, pessoas e suas roupas caras e exclusivamente de grife circulando num footing bem visível e diagnosticador. Numa outra relativização, poder-se-ia dizer que todo o Brasil é provinciano em relação a uma cultura que se lhe estivesse muito “acima”. Quando insiro essa gradação, como a outras existentes aí, imagino que possa despertar a ira de antropólogos e culturalistas (se Alinne B. chegou até aqui, dou um beijo nela pra amansar a Onça), mas peço licença para trabalhar com essas linhas esticadas, tanto em uma metodologia da comparação, quanto na hierarquia, e ainda da classificação. Sei que nalgums momentos, para olhos de um relativista totalitário (insurjo-me contra uma filosofia um tanto quanto vadia que busca esse esgarçamento rompitivo), em que tudo é relativo e até para o imbecil danoso e premeditado há que se guardar espaço, beiro à discriminação ou mesmo ao preconceito. Mas se estou tratando de um ser danoso, como o provinciano comissivo, persecutório e preconceituoso, e que em muitos casos tem tido espaço até na mídia para fundar teorias e culturas, não quero deixar espaço para esta criatura mefistofélica.
Também, movimentos urbanos organizados de certas minorias, começam a ficar nitidamente provincianos, ainda que engendrados num grande centro como São Paulo, pela repetição espumosa e já desnecessária de se fazer barulho ou festa, escândalo ou aparição social ratificadora de padrões íntimos que talvez não precisem ser tão purpurinadamente expostos. Quando a burrice invade a reivindicação esta deixa de se sustentar pelo padrão lógico e sensato, e cai na vala meio perdida da insistência-desobjetada, uma falência que precisa ser inteligentemente avaliada pelos organizadores desses eventos. Por todos, obviamente, a “parada” dos homossexuais. O problema agora já é se quebrar a inércia em movimento, difícil. Será que daqui a 10 anos haverá isso? Será que homossexuais não poderiam contribuir para toda a sociedade inventando um movimento poderoso em prol de uma sociedade sem roubo com o dinheiro público por gestores públicos? Será que eles não poderiam ser “temidos” não apenas pelo “medo” de se preconceituá-los, nesse politicamente correto atual e patrulhado, e não poderiam sê-lo por ótimos movimentos transformadores da sociedade que não tivessem que ver apenas com suas práticas sexuais? A insistência exclusivista no padrão sexual “um dia” vai se tornar provinciana e tola (já é me garante uma amiga deles). Mas essa discussão ainda é muito lateral e concebe vertentes que, todavia, não estão segmentadas na sociedade, ainda havendo nichos de preconceitos.
A síntese, e agora mudando uns 90 graus no assunto para se retomar o provincianismo puro, é que o ser provinciano urbano, seja ele ostensivo ou suave, embandeirado ou disfarçado é um ser visivelmente burro. Seu problema está na burrice com a preocupação e o preconceito.
Faço questão de finalizar sobre o provincianismo com o primeiro pensador que exigiu a imortalidade terrena, aquele que muitos citam por aí, mas se esquecem ou se assustariam em saber que ele teorizou o cristianismo como a mais imprestável das religiões, ligando-o à tentativa de disfarçar a derrota histórica de Jesus e sua vergonhosa morte na cruz, para que parecesse uma vitória em algum mundo do “além”, isto está em O anticristo – maldição do cristianismo. Ele mesmo, Nietzsche. Nós os imoralistas, ensina esse mestre em Crepúsculo dos ídolos, 36, fazemos tão mal à virtude, quanto os anarquistas fazemos aos príncipes; ou seja, só rindo do nosso amadorismo e ineficiência teleológicos. Nossos príncipes [brasileiros] continuam em seus provincianismos sulamericanos e terceiromundistas intocáveis, enriquecendo gerações bisnéticas à custa de tributos, um feudo social bem preoitocentista cru, escravocrata e quadrilheiro. Por isso eu, confesso, busco os “homens superiores”, conforme fala o mesmo “pensador entre os séculos”, em Além do bem e do mal, 72, como aqueles que “apenas” buscam “impressões superiores”. Bastam as “impressões”, o olhar, veja a poesia disso. Esses são os não provincianos, os reais, os homens-fundo. Essas são as mulheres viscerais, as que enfrentam e gargalham, não fingem que precisam beber pouco porque mulher tem que beber pouco, apenas não fingem, não falseiam, suavemente enfrentam. São esses que quero no governo, nos postos, nas direções e nos botequins bebendo de perder o equilíbrio, afogados na superioridade cartesiana e cruenta duma intelectualidade nietzscheana. Fora daí é o enfeite, a peruagem, o modelo mais novo do iphone, e a fulgurância espumosa da azaração facebookiada, sempre com muito sorriso e pouca produção. Muito pouca. Jean Menezes de Aguiar.

Descendemos dos antropoides. Como contestar? [atualizado]

[Não "descendemos" do macado, temos um ancestral comum, há  cerca de 25 milhões de anos.]

Parcela imensa de nossa espécie humana é muito arrogante, metida a saber de coisas que não têm a menor base por total falta de estudo. Chancela, sentencia, afirma e pronto. Não interessam a lógica, o bom senso, a razão, nem análises mais acuradas ou metódicas. Ao contrário, o comportamento ignorante, em muitos casos, é tão enraizado que se julga legítimo à ira, ao ódio, uma vez contestado, ainda que seja por uma demonstração científica serena e bem estruturada. É uma jactância vulgar em saber, conhecer e, afirmar. A manifestação do ignorante, em alguns casos aparece como um orgasmo neural amorfo, imprestável e semelhante ao que ja foi estudado em biologia como “geração espontânea”, surge e pronto, lá está.


Contrariamente ao ignorante está o estudioso, meticuloso e cuidadoso, paciente e conformado com sua impotência e erros. Tomemos por base o biólogo alemão Ernst Mayr, nascido em 1904 e falecido em 2005, professor emérito de Zoologia Comparativa na universidade de Harvard, dentre outras coisas. Mayr dedicou toda sua vida à biologia. E morreu sem conseguir saber e fazer algumas coisas. Na área do que faltou saber, há em sua obra de 2001, O que é a evolução, a humildade de reconhecer que “nosso conhecimento dos hominídeos fósseis ainda é muito incompleto” (p. 276); ou “Parece que a história do homem sempre foi profundamente afetada pelo ambiente” (p. 281 – vê-se a humildade no discurso científico: “parece”); e por fim: “É provável que tenham existido outras subespécies de australopitecíneos nas savanas arbóreas da África ocidental e setentrional, mas nenhum fóssil foi encontrado até hoje nessas regiões” (p. 284), isso para dizer que mesmo assim todas as suposições científicas dão que o Homo tenha evoluído a partir de algumas das populações periféricas. 


Na área de que faltou fazer, numa outra obra dele, Biologia, ciência única, de 2004, já um ano antes de sua morte, temos que Mayr não conseguiu criar uma filosofia da biologia. Cita Ruse, Kitcher, Rosenberg e Soler, como filósofos da biologia, mas se lhes aponta falhas estruturais pela não formação na área. Critica os filósofos da ciência por se aterem exclusivamente à física e, quase que inacreditavelmente, às páginas 32 desta obra, afirma que as teorias de Einstein não afetaram em nada a biologia, assim consideradas as descobertas da década de 1920 – a física quântica, a relatividade e a física das partículas elementares.


Este já cansado Mayr se vai deixando bases e conselhos para a criação de uma filosofia da biologia, afirmando com todas as forças que a filosofia da ciência, em geral, que tem por estrutura o mundo inanimado é imprestável à biologia, devendo-se pensar na criação da filosofia da biologia, cuja base é o mundo vivo.


A beleza e a grandiosidade da ciência estão na plena consciência de seu possível erro, ou melhor, na não arrogância de afirmar o que não sabe efetivamente. Mayr tem a natural honestidade de reconhecer que, por exemplo, em relação às interpretações do método científico conhecido como “comparação”, utilizadas para comparar os fósseis de hominídeos com o Homo sapiens, todas elas (as interpretações) “foram contestadas!”. Ou seja, o cientista não tenta iludir, convencer, mascarar uma realidade, ou utilizar o “argumento de autoridade”. Ele sabe que há contestações e mesmo assim conseguirá [ou não] construir suposições sólidas sobre aquele terreno.

Isso tudo se presta para uma outra comparação. Quando estudamos em paleontologia e em biologia a origem do homem, temos esse tipo de discurso buscadamente exato, preciso, quantificado, preocupado com a demonstração. A ciência trabalha com três vieses de forma muito nítida: demonstrabilidade, repetibilidade e experimentabilidade. Entretanto, quando estudamos a mesma origem do home em criacionistas (os fundamentalistas), os que trabalham com o homem como produto do Criacionismo (a crença na verdade literal da Criação, conforme registrada no Gênesis), encontramos, muitas vezes, um discurso que não percorre um fio condutor lógico demonstrado e preciso.


Há nestes, mitos, crendices, histórias ilógicas, versões consideradas como verdades que não se sustentam. Em alguns casos beiram ou se assemelham às renas voadoras de Papai Noel. Há-se perguntar: como é que adultos “acreditam” nesses “contos”? Não se há discutir desesperos, fé, pedidos de socorro a um deus, nada disso. Nem a figura interessante da coincidência identificável como “milagre”. O fato é que a “narrativa” dos criacionistas para “convencer” um adulto e "inteligente" de que o homem nasceu segundo uma literalidade do Gênesis - uma história "contada", e não de demonstrações químicas e biológicas precisas e testadas, hoje perfeitamente identificáveis, é absurda.


Tudo bem, estudar ciência dá trabalho, custa caro, ocupa tempo, precisa-se de espaço para guardar centenas ou milhares de livros etc. Mas como se pode “contestar” lucidamente, em 2012, com todos os avanços da ciência, a afirmação de um biólogo como James Watson (prêmio Nobel) na obra DNA, p. 74, que “a vida é uma questão de física e de química”?  


Reproduzo toda a fala de Watson, o descobridor do DNA (dupla-hélice): “A descoberda da dupla-hélice foi um golpe de morte no vitalismo. Todo cientista sério, mesmo aqueles de índole religiosa, percebeu que um entendimento pleno da vida já não exigia a revelação de novas leis da natureza. A vida era uma simples questão de física e de química – embora uma física e uma química de organização sofisticadíssima.” Por sorte, trabalho, numa faculdade, com um padre inteligentíssimo, por sua produção intelectual. Trata-se da hipercarismática figura de Giovani Marinot Vedoato, doutor em teologia pela Universidade São Tomás de Aquino, Roma, Itália. 


Giovani, certamente é esclarecido o suficiente para não negar a ciência, como o bispo Richard Harries e os reverendos ingleses que assinaram a carta a Tony Blair, em 2004, com o zoológo Richard Dawkins, referida no livro O maior espetáculo da terra, sobre a preocupação com o ensino fundamental da ciência no Emmanuel City Technology College, em Gateshead, que explicavam que a evolução era uma "posição de fé", da mesma categoria que a explicação bíblica da criação, uma desonestidade explícita.


Para fechar, apenas mais algumas obervações de nossas ligações com os antropoides. Primeiro, Darwin foi o responsável por incluir a espécie humana no reino animal. Isso só vai se dar em 1859, ou seja, relativamente há pouco tempo. Mas como não éramos animais? Que coisa espetacular essa de supormos a hipótese de “não” sermos animais, veja isso! 


"Éramos", mesmos, anjos decaídos dos céus e danem-se as semelhanças com os chimpanzés. Queríamos ser anjos e fomos até o século retrasado. Um segundo ponto é que os primatas são mamíferos mas, espetacularmente, não são parentes próximos de nenhuma outra ordem de mamíferos, têm apenas um parentesco longe com lêmures voadores (Galeopithecus) e com os tupaiídeos (Scandentia). Esta ausência de parentesco, com as identidades que há entre nós e eles é adorável. Dá a certeza de o que afirma Watson (DNA, p. 13) – “os seres humanos são meros macacos modificados”. 


Assim, vamos parar de nos sentir “ofendidinhos” quando se nos chamarem de macacos. Essa é a nossa natureza e esse deve ser o nosso orgulho! Terceiro, das 3 evidências entre nós e os macacos (anatômica, fóssil e molecular), é decisiva a evidência molecular, quando nossas moléculas são mais parecidas com as do chimpanzé do que com as de qualquer outro organismo e, como se não bastasse, os antropoides africanos são mais parecidos com o homem do que com qualquer outro primata. A hemoglobina, por exemplo, dentre outras enzimas, é praticamente idêntica, sendo menor a diferença entre chimpanzé e homem do que entre chimpanzé e outros macacos. Certamente é por isso que Mayr (O que é evolução, p. 272), dispara: “Questionar essas evidências esmagadoras seria uma atitude um tanto irracional”.

Assim, somos macacos melhorados, não há qualquer demérito nisso e um pouco de estudo de biologia faz bem a cabeças teimosas e não ligadas ao conhecimento. Amemos os macacos, afinal temos em nossa espécie algumas fêmeas suntuosas e lindas, como Barbara Berlusconi.


Particularmente, não tenho o menor problema com minha porção macaca e os 3 anos que passei num estágio em zoologia no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, quando jovem, acompanhando diariamente o querido Tião, um Chimpanzé (Pan troglodytes schweinfurthii) que chegou a ser votado para governador do Rio pelos cariocas, só fez comigo me humanizar, afinal o olhar de Tião para os tratadores  e nós que vivíamos estudando lá era somente de doçura e complacência por servir a uma curiosidade humana meio vadia, de "jardim zoológico”, exposto como um brinquedo vivo para pais levarem seus filhos em dias de sol. Tião sabia se vingar, acumulava cuspe no canto da boca e escarrava em alguns escolhidos, ou se masturbava gozosamente para aflição das “moças” que se esforçavam em fingir que não estavam olhando. Isso tudo entre um cigarro e outro. Temos muito mais deles, que são anteriores a nós, do que nossa filosofia boba e teimosa acredita que não. Jean Menezes de Aguiar.

O presente não existe: a física e nós.

O presente não existe: a física e nós.

O “presente” não existe, talvez seja melhor assim. Negar essa entidade opressora, nalguns casos, vê-se necessária. Por isso a ciência se nos é tão fundamental, e aqui especialmente a física, principalmente na viragem do famoso ano de 1905. Aprendemos em física que os conceitos de passado e futuro decisivamente não pertencem à imaginação que fazemos num cotidiano irrefletido dos conceitos. “Espaço” e “tempo” são conceitos que aparecem como “uma idealização e supersimplificação da estrutura real” (Heisemberg). Tudo começa com a repetição da experiência de Michelson, por Morley e Miller, em 1904 dando conta da evidência da impossibilidade de se detectar o movimento de translação da Terra por métodos ópticos, mais o decisivo artigo de Einstein, “Eletrodinâmica dos corpos em movimento”. Aí, talvez, o conceito de “presente” comece a ser discutido, quando, por exemplo, uma sineta posta num recipiente a vácuo não consegue fazer som, enquanto que a luz atravessa tranquilamente o volume esvaziado. Que presente é este que se “parcializa” em relação ao som? Algo se mostrava alvissareiro. O passo seguinte é a saída de cena do conceito [hoje] hipotético do “éter” – na época construiu-se que ondas luminosas pudessem ser ondas elásticas de uma substância totalmente leve e rarefeita, que foi batizada de éter, conquanto não pudesse ser vista ou sentida –. Com a formulação de Einstein, em que o tempo “aparente” de Lorentz passava a ser o tempo “real”, abolindo-se o conceito de tempo real de Lorentz, os conceitos estruturais de espaço e tempo e outros tantos problemas da física passaram a ser resolvidos. Daí, não se precisou mais da manutenção do conceito de um éter que estaria em repouso – o conceito em si perdeu o sentido -, porque todos os sistemas de referência que se movem em translação uniforme se tornavam equivalentes para descrever a Natureza. Poderíamos dizer que, filosoficamente, aqui, dar-se-ia um segundo sinal de afetação ao conceito de “presente”, com essa causação de minus ou de retiramento de substância no conceito mesmo de presente – essa é uma filosofia esgarçada, reconheço, mas ela cumpre um papel de abrir esse micromonolítico teorético que é a afetação do presente pela física –. Retrospectivamente, se quiséssemos, poderíamos não manter neste momento científico toda a afetação conceitual ao presente, já que historicamente há um chamado “princípio da relatividade de Galileu”, identificado como: “Se em um dado sistema de referência, o movimento dos corpos satisfizer as leis newtonianas, então isso será igualmente válido em qualquer referencial que esteja em movimento uniforme, sem rotação, com respeito ao primeiro.” Por que trago esse princípio de Galileu aqui? Porque sua funcionalidade [mecanicista, perdoe-se o pleonasmo] se liga ao presente pela explicação de um moto de cognição da realidade que se aplica ao “tempo” presente. Podemos chamar este de um sinal histórico, bem pretérito a Einstein, já que visava a um câmbio extremamente significativo da realidade vivida. Por fim, fica como definitiva a diferença entre a mecânica de Newton, que constroi o futuro e o passado como separados por um intervalo de tempo, ainda que infinitamente pequeno, o tal do “presente”, e a teoria de Einstein, com a realitividade, amplamente aceita, na qual há outra totalmente diferente situação: o intervalo que separa o futuro do passado é de tempo finito, variando a extensão segundo a distância espacial do observador. Insisto nisso: distância espacial, não “temporal” – sei que devo usar aspas aqui para contrapor “tempo” a espaço, mas esse câmbio paradigmático é a afetação definitiva num conceito filosófico de “presente”. Por isso, toda e qualquer ação só pode se propagar a uma velocidade menor ou igual à da luz, isso retira a “temporalidade” do presente, inserindo a espacialidade. Ou seja, 1) o instante em que um sinal luminoso é emitido da posição do evento, visando a alcançar o observador no instante da observação e 2) o instante em que um sinal luminoso emitido pelo observador no momento da observação, atinge o local considerado, não poderão 1) e 2) ser apropriados pelo observador em termos de conhecer ou mesmo influenciar qualquer evento espacialmente distante, que ocorra propriamente entre esses dois tempos descritos. A física se nos dando essas características dum conhecimento real da variabilidade e ao mesmo tempo estanqueidade nos conceitos de tempo-espaço, no mínimo pela obrigação de que qualquer ação exija uma velocidade menor ou igual à da luz, com os câmbios principiológicos aí verificados, permite divagações sobre o presente, não para destrui-lo raivosamente, mas para desmontá-lo com um jogo de paciência e destreza, estudo e observação que são próprios dos “loucos” que se dedicam a esses movimentos e buscas pelo real.
Jean Menezes de Aguiar

A neoclandestinidade

A neoclandestinidade

No meu artigo semanal de jornal de 19.5.2011, citei Einstein sobre a importância de falarmos coisas profundas: “Vivemos numa época de tamanha insegurança externa e interna, e de tamanha carência de objetivos firmes, que a simples confissão de nossas convicções pode ser importante, mesmo que essas convicções, como todo julgamento de valor, não possam ser provadas por deduções lógicas”. Nesses tempos pasteurizados de globalização e imbecis de politicamente correto é necessário ouvir essas figuras insuspeitas para que olhemos os nossos tempos com espírito crítico, ainda que isso possa “adiantar” nada, eu sei; ainda que um texto desses aqui possa adiantar nada, eu sei; ou servir, isso sim, de uma forma canalhinha para esconder erudição de quem escreve, também não descarto esse viés. Mas, quebrando-se então essa tal erudição só há um algo a dizer, lento, poético e soberano: foda-se. Parece que ninguém mais quer falar de suas convicções mais profundas, apenas das perfunctórias, indeléveis, palatáveis, digeríveis e bem etéreas. Não diria fúteis, mas é claro que chega a isso. É um sinal dos tempos, não se falar profundamente? Talvez não, ou talvez nem isso. Intelectuais e teóricos sempre supuseram isso em seus textos. Voltaire foi preso duas vezes por essa insistência, cunhou a célebre frase “O segredo de aborrecer é falar tudo” e depois precisou fugir do próprio país. Algumas situações históricas beiraram limites paradoxais e cruciantes, como a descrita por Sartre: “Jamais fomos mais livres do que sob a Ocupação alemã” (La Républic du Silence), fazendo referência a que ali perdeu-se tudo, todos os direitos e a cada vez que o veneno nazista descia ao pensamento, cada pensamento justo era uma conquista. Pois é, atualmente não queremos mais conquistas, nem escaladas, nem desafios. Com o mundo lânguido e lúdico, com o ensino falsificado vendido na TV como “produto” e a educação obedecendo exclusivamente à ética do eu-quero-me-dar-bem-e-você-que-se-foda, qualquer um mais “profundo” (parece palavrão rábico, anal...) experimentará uma neoclandestinidade.
Esta neoclandestinidade pode ser identificada às avessas, não mais pelo cerceamento físico, patrulhado ou censurado da produção intelectual ou artística, mas pela tragédia da inexistência de interlocutor. É a sociologia do não, da não existência, não de uma “defeituosa” e, por isso, espetacularmente estudável, mas de uma nihilizada, sequer abortada, uma desmaiêutica, imparturizável. Assim, perguntarão o violonista virtuose ou um estudioso profissional: Com quem converso? Para quem produzo? Há no Brasil, nas letras, na cultura, nas artes, hoje, um Zeitgeist (espírito de tempo) completamente outro do vivido noutros lugares. Imitamos mal o conceito de auto-ajuda na literatura e tudo ficou assim. Quando Padre Marcelo é eleito o melhor cantor do ano (porra, isso é sacanagem!) por uma plateia sertanejo-jeans-diesel que parece viver em trenzinhos sexuais infinitos, temos a certeza de que a neoclandestinidade está vitimando intelectuais, artistas verdadeiros, pensadores, cientistas e gênios que não têm espaço para respirar. Até se “referir” a essas categorias é complicado, porque se é taxado de arrogante, pedante, ou sabe-se lá que merda mais os complexados e incompetentes inventam para nivelar tudo por baixo. Aí algum filho da puta de plantão, politicamente correto e com um discurso esgarçado para fazer média, nivelando de novo por baixo, em espelho à própria incompetência dirá, patrulhando: “– Mas não existe isso de artista verdadeiro! Todo artista é artista!” E foi em cima desse discurso engodado com peixe podre num pós-modernismo baratinho que simplesmente desapareceram todos os grandes ícones da MPB e uma horda desqualificada de vaidosos com cabelo penteado para frente e falsamente desarrumados, invadiu a TV. Dê-se um violão a um Milton Nascimento ou um piano a um Ivan Lins e ouça o que sai dali; aí depois dê-se um instrumento qualquer a um desses sujeitos por aí parecendo cantar em prisão de ventre, fazendo força para fingir que interpreta, e quem tiver competência que compare a qualidade musical. Isso mesmo, compare. Essa palavra odiosa e maléfica, proibida e patrulhada que alguns filósofos ousam querem proscrever: comparação. Qualquer músico de saída de metrô em Nova Iorque (que eu particularmente não conheço, mas colegas meus músicos brasileiros que lá trabalharam relatam entusiasmados), é melhor 20 vezes do que essas Justin Bibas brasileiras que enchem as rádios e as TVs. Na ciência, a mesma coisa. Pulula a pseudo-ciência como jamais foi na história da ciência. Charlatães, safados, pregadores, endinheirados e toda uma quadrilha desconexa de adivinhadores cósmicos, gente já referida por Carl Sagan (O mundo assombrado pelos demônios) que parece que veio toda para o Brasil. Nossos pesquisadores praticamente pararam de conversar com a sociedade brasileira. Ou estão em projetos próprios sobrevivenciais de pesquisa para poder trabalhar ou voltam-se exclusivamente para o estrangeiro. O nosso binômio C&T (Ciência & Tecnologia) de ponta não tem interlocutores sociais, não queremos o estudo sério, só o estudo-produto, aquele ao qual a repetência é “fora de moda” e aquele em que quem “avalia” o Mestre é o aluno, não mais as bancas de iniciados, cientistas e notáveis. Os exemplos se amontoam e o risco da repetição se aproxima.
Até nossa violência é pobre culturalmente. Sartre e Camus tiveram como mote central de suas existências intelectuais a violência. Aquele, tratando-a como uma prova do tornar-se real. Este, Camus, digladiando o quanto pôde contra sua existência, os danos que ela causa. Nós, brasileiros, temos Datena com salário de 500 mil reais por mês. O que diria Sartre disso? Perdoe-se o meu questionamento infame e prostituto. Há-se esticar essa corda sim, ao máximo, e ver o quanto de nós embutidos pode haver ocultos aí, nessa trama, nesses fios. Por que queremos Datena e um ensino infantil lúdico e somente de brincadeira? Quem queremos alijar? Manter sob essa neoclandestinidade? Preciso me informar mais, sei muito pouco ainda sobre certas estruturas. Preciso visitar escolas infantis chamadas “de ponta” no Brasil para ver se há um ensino verdadeiro ou mentiroso. Não confio nas diretoras classudas e gostosonas, quarentonas e malhadésimas que nas férias veem-se em Nova Iorque anunciando suavemente a apenas um aluno (não precisa de mais) no Facebox que “coincidentemente” estão lá e que tudo é “simpatiquinho” e que “adoooram” NY. NY deve ser adorável sim, não adiro simplistamente às críticas baudrillardianas sobre o “paraíso mítico da simulação” que são os Estados Unidos. Eles são, mas noutro ponto da investigação, um bastante teorético e isso não está em pauta aqui. Mas preciso conhecer as academias de música de lá, as de dança, os teatros, as universidades e alguns guetos e submundos. Descircularizo o discurso, eu sei e assumo, e se preciso torno-o mimético, mas certamente por defeito e preguiça na manutenção de um fio condutor lógico. Assumo desavergonhadamente. Já cansei e esse texto-ensaio já chega ao fim. Subencerro com uma fala [audaciosa?] de Simone de Beauvoir sobre o movimento da Resistência, “Aquela falaciosa entidade”. Estudamos tanto quanto possível a Resistência, nos vieses praticamente antagônicos de Camus e Sartre, para encontrar uma Simone apta à “náusea” e lindamente apaixonada por Sartre a ponto de “comprometer” uma visão então imediata num vitorioso pós-Guerra e assinar falaciosidade à Resistência. Não me apedreje achando que reduzo Simone ao primarismo do amor, isso se lhe foi impossível, ainda que biógrafos refiram-se a ela em Sartre como sendo seu “amor transatlântico” (isso sim é poder!), mas assumo que essa vitória tola do amor, vagínica e carnal, “gozosa” como falava Darcy Ribeiro, é dos melhores da vida. Meu deus. E enquanto eles trepam,  uma possível neoclandestinidade espera comportada e científica no sala, com licor e torradinhas. Enquanto no quarto se brinca de papai e mamãe, ou de primo e prima. E só assim se percebe que a vida tem salvação. Mas quando passa o efeito do suor e gozo e se volta à sala, a chata da neoclandestinidade está pacientemente a cobrar seu preço de solidão e azedume. Faz lembrar Kierkegaard: “Eu acabei de retornar de uma festa na qual eu era a vida e a alma; palavras espirituosas fluíam dos meus lábios, todos riam e me admiravam – mas fui embora – e a frustração seria tão pronunciada quanto a órbita da Terra [...] e eu desejei atirar em mim mesmo.” (Journals, p. 50-51). Aqui, fim. Jean Menezes de Aguiar.

Ciência, mito, antropologia, crédulos e saco cheio de gente chata.

Ciência, mito, antropologia, crédulos e saco cheio de gente chata.

por Jean Menezes de Aguiar, quarta, 8 de junho de 2011 às 00:43

Quem não lida com ciência acha que ela é sinônimo de “verdade absoluta”. Um saco isso. Já ouvi muito isso de pessoas boas e verdadeiras, e que creem nessa coisa como se fosse um dogma. A imprensa “vende” essa ideia, por meio da mídia e da publicidade, e também vende produtos, claro. Ouve-se da boca de pessoas inocentes na TV comercial o horror do “está provado cientificamente”. Daí, todo mundo acha que essa tralha de prova científica é sinônimo de verdade absoluta. Fazer o quê? Este é um grande equívoco cometido por muitos. Para a filosofia da ciência essa equação, verdade absoluta, é uma piada gargalhática. Na área da metodologia científica aprendemos que há 4 níveis de conhecimento: o vulgar ou empírico; o científico; o filosófico; e o teológico. Isto está em Cervo, Bervian & Silva, na ótima obra Metodologia científica (o livro que adoto). E também aprendemos que o único conhecimento que produz verdades absolutas é o conhecimento teológico. Isso mesmo, e não adianta se espantar. Verdade absoluta é coisa de conhecimento teológico, o dado “revelado”. Mas não vou entrar muito nisso. O mito e o milagre são estudados tanto na metodologia quanto na antropologia, profundamente. Mas o fato de eles serem “estudados” não quer dizer que cientistas e filósofos o “adotem” como um rumo pessoal. Jamais. A ciência não tem qualquer preconceito em “estudar” o mito, o milagre ou o clásper (pênis) do tubarão. Já passar a “acreditar” nessas estruturas é outra coisa. Quanto mais se lida com ciência mais se fica “científico” e menos propenso a “acreditar” em conhecimentos “fáceis”, atalhos e simplificações da mente humana (aqueles conhecimentos que não demandam formação, livros, horas, meses, anos de estudo, nada, apenas alguém “falando” e alguém “crendo”). Nem se precisa entrar numa avaliação do mito, da fé, das manifestações culturais. Eles são validados e reconhecidos pela antropologia enquanto traços culturais de uma gente, de um povo, de uma sociedade. São reconhecidos assim, deste modo, e assim devem ficar organizados e classificados, no lugar deles.
O grande antropólogo Clifford Geertz (Nova luz sobre a antropologia, p. 111 e ss.), quando tenta apartar a deliciosa briga entre historiadores e antropólogos, informa com elegância e isenção que os historiadores se dedicam a movimentos grandiosos que mudaram o mundo – a Ascensão do Capitalismo, a Queda de Roma –, já os antropólogos se dedicam a pequenas e bem delimitadas comunidades – o Mundo Tewa (qual?), o Povo de Alor (quem?). As perguntas irônicas entre parênteses, qual e quem, são do próprio Geertz. Mas o fato é que a identificação das culturas, ainda que delimitadamente circunscritas e “extravagantes” se nos é muito importante. Talvez tiremos delas, para uma metodologia comparatória valiosa um “excesso” de mitos, crenças, crendices próprios de povos rudimentares e quando aproximemos o mesmo “sistema” de mitos, crenças e crendices de povos “evoluídos” – e eles existem – consigamos ver que “mesmo” os povos evoluídos têm seus padrões de mitos, crenças e crendices. Daí tiram-se duas “conclusões” (atenção às aspas!): Ou os povos “atrasados” que utilizavam seus mitos não eram atrasados porque os povos “evoluídos” também utilizam mitos, e então a utilização de mitos não será uma “sistemática” atrasada; ou os povos “modernos” quando utilizam mitos mostram-se atrasados [nisso] porque a sistemática de mitos é [seria] própria de povos atrasados. Tudo bem que esse método balanceado possa ter alguma “lógica”, mas tem em mente a visão distendida de um resultado que beira ao cartesianismo, ainda que – advirta-se! – no caso não de todo imprestável. Mitos, crenças e crendices sempre existiram e fizeram parte das culturas e das gentes. Não se bate contra isso, o mito é um traço cultural dos povos. O problema é uma investigação que busque esgarçá-lo num confronto “com a ciência”. E aí ele tem que “apanhar”, não há como ele não apanhar. O mito é atávico a muitos, reconheça-se, mas também é um atalho (merdosial e espúrio) em termos de episteme cognoscitiva. A ciência trabalha com repetibilidade, experimentabilidade e demonstrabilidade. Não se trata de “crer”, por exemplo, que Peróxido de Hidrogênio seja composto como H2O2, cuja solução aquosa é conhecida por água oxigenada. Não há mitos e crenças aí, nem “teses”. Há uma redução científica que “descobre” que a fórmula x é a substância y em qualquer lugar e sob qualquer condição (não vou abordar aqui como a filosofia da ciência enxerga a “redução”, isso é outra coisa). Não há como se “contestar” isso. Quando se trabalha com este tipo de estrutura está-se demonstrando, repetindo e experimentando. Cem alunos em um laboratório têm, obrigatoriamente, que concluir a mesma coisa, o mesmo resultado, por meio da mesma equação. Sabemos que a ciência evolui no tempo (muda conceitos), mas isso também é outra coisa. Passei alguns anos enfiado em laboratório de química, quando estudante, recordo que a turma inteira, no início, ficava perguntando ao professor como o ácido podia “fazer fumaça”; como era possível dar um nó numa pipeta (tubinho de vidro) aquecida no bico de bunsen (chama), aquilo tudo parecia mágica, mas as explicações científicas calmas e exatas existiam, e nos maravilhavam. Fiquei tão empolgado que montei um laboratório de verdade em casa, pesquisando e misturando as coisas mais loucas (que perigo).
Mas quando se fala em “redução”, desafia-se a ira de certos filósofos da ciência (eles a chamarão de fisicalismo), principalmente a “nova” filosofia da ciência que vem pretendendo alargar conceitos e princípios científicos como se tudo fosse uma zona, um vale tudo, por isso que se diz que o pós-modernismo é o irracional da ciência, uma construção intragável para cientistas. Esses relativistas totalitários vão dizer que por séculos verdades se mantiveram estáveis e depois caíram; é verdade. Sabemos disso. Mas não podemos tornar “tudo” infinitamente relativizável, não podemos nulificar o todo, dizer que não há mais nenhum núcleo duro ou lógico na ciência. A mecânica não se alterou com a física quântica. A evolução de Darwin deixou de ser uma teoria e se tornou um fato para todos os biólogos, segundo Ernst Mayr e ele pode falar por todos. Assim, há princípios que não oscilaram, não experimentaram viragens ou câmbios conceituais.
O inteligente filósofo Luiz Felipe Pondé, na boa obra Contra um mundo melhor, que declara gastar seu tempo para humilhar as almas científicas, certamente diria que essa ode à ciência é das maiores boçalidades já vistas. Mas ele talvez se situe numa quadra de filósofos “desarrumadores” genéricos da ciência. Noutro plano, mundial, há a figura mítica de Paul Feyerabend com sua densa obra Adeus à razão. Mas não só ele, há inúmeros “anarquistas” (gosto muito desse termo, não tenho problema psicológico nenhum com ele, e o emprego aqui de forma dócil), tanto que SoKal e Bricmont na obra Imposturas intelectuais deitaram e rolaram, dando nome a alguns bois, filósofos da ciência que vilipendiaram a própria ciência com terminologia confusa e demente. Mas essa conversa interna entre filosofia e ciência é pra outra hora.
Quero, ou queria (...) discutir as pessoas que creem [apenas!] e consideram a sua crença como “conhecimento” a ponto de opor suas crenças ao conhecimento científico. Este é o ponto. As pessoas, não o mito ou a ciência. Vou verter uma baba nojenta e asquerosa a partir daqui em defesa da ciência. Como meus textos não valem nada mesmo e isso tudo é mera brincadeirinha de Facebox, qualquer um que chegou até aqui pode parar de ler e me mandar pro inferno (soube que lá tem mulher bonita & gostosa; alvissareiro!). Aprendemos na antropologia que as religiões são manifestações válidas e “legais” das sociedades. Ok, tudo bem. Só não podemos confundir os vendedores e pregadores desses “conhecimentos” com quem simplesmente estuda, seja um oceanógrafo, um paleoantropólogo, um astronauta, um biólogo, um musicista (este ainda precisa de dom que é um troço meio inexplicável- deístico? Ou biológico?). Só precisamos combinar: há conhecimento, há informação, há notícia, há fofoca e há pseudo-ciência, como astrologia, por exemplo. Só precisamos organizar em que plano vamos conversar. Oceanógrafos produzem conhecimento, lento, acumulado. O tempo de vida máximo ideal do tubarão branco (Carcharodon carcharias) fora da água para colocação de rastreador, recebendo água mecanicamente pela boca para que não morra é de 20 minutos (basta ver no canal Animal Planet). Conseguiu-se reduzir para 15. Outro dia vi na mesma emissora de TV que a tentativa para redução para 10 minutos falhou. Essas cronometrizações são a maravilha chamada “fazer ciência”. Calculam-se quantos homens são necessários, quais as ferramentas etc. Isso é cumulativo. E é inscrito, publicado e “até” divulgado pela TV. Ninguém ali crê em porra nenhuma, a não ser nas medidas precisas e calculadas que precisam ter e operar para que o grande branco não morra quando tirado da água. Aí me aparece um sujeito qualquer, com um curso de correspondência em márquetíngue religioso, com um bíblia na TV faturando trilhões de reais. Fodam-se os seus trilhões, se eu estou discutindo conhecimento não é e nunca poderá ser aquilo, aquele pastelão comercial e descarado. O mundo é muito grande e tem espaço pra muita gente, só não venha querer dizer que aquilo tem como explicar a idade da Terra, o formato dela, o surgimento da vida, a evolução humana, e o sistema galáctico. Todo mundo é livre para crer em alguma coisa, Deus, Buda, Alá, Maomé, Thor, Jesus, Oxossi, Iemanjá etc. E digo isso com respeito, sem qualquer problema psicológico com os deuses e santos. O grande problema é terreno – é o homem que “apenas” crê, querer desfazer o conhecimento científico de um biólogo, de um químico quando falam da vida. Talvez seja por isso que Carl Sagan e Isaac Asimov ficaram cada vez mais severos (emputecidos mesmo) em suas divulgações científicas. Asimov (Antologias) chega a dizer – você acha que estou fazendo muita propaganda da ciência, então compare os países que produzem ciência com os que ficam de joelho gemendo em adoração oficial a um deus. Sei que muitos detestam comparação, odeiam, querem que tudo seja possível em nome da “cultura”. Tudo bem. Mas há se retomar: pode haver toda “cultura” do mundo, só deixe a ciência em paz. Isso está tão conturbado que em aulas do inocente Direito, área que se principiologiza cientificamente, os alunos não querem aceitar qualquer dado científico. São expostos princípios lógicos no quadro e a lógica “não convence” mais. É assustador. Assim, quem gostar de um bom mito, duende, papai Noel, coelhinho da páscoa, tudo bem. Que seja feliz com sua visão de mundo. Só não encha o saco querendo doutrinar quem lida com ciência, dura, exata, básica, social, humana, dúctil, axiomatizada, cliometricizada etc. Vamos para a corruptela do gosto não se discute. No máximo se pode lamentar. O meu gosto, por exemplo, deve ser péssimo e fedorento para muita gente que odeia a ciência e a filosofia da ciência. Mas é, “é gosto.” Jean Menezes de Aguiar

Sobre a ditadura da Razão

Sobre a ditadura da Razão.
por Jean Menezes de Aguiar, terça, 3 de maio de 2011 às 21:57
Há uma linha que passou a ser esticadíssima, para filósofos primordialmente; secundariamente para cientistas, sobre o conceito e prestabilidade da Razão. O paradigma aqui é Paul Feyerabend, com a obra Adeus à razão. Criticado e odiado por não poucos e endeusado por outros, Feyerabend é um marco inegável. Uma acusação sedutora chama a atenção na centralidade de sua tese: a da vitória de um grupo então majoritário que acabou impondo e legitimando um establshment sobre o conceito de razão. Com isso, o Iluminismo teria sido tão-somente um slogan e não uma realidade; a afirmação de Kant sobre o Iluminismo ter libertado o homem da imaturidade, é outro dado falso; e, pelo conceito usual de Iluminismo, hoje em dia não se pode considerar a sociedade "iluminada", já que ela depende de "especialistas" sendo que, no caso da brasileira (que vergonha), cada vez mais de gurus, pregadores de plantão e orientadores espirituais com carnês. Ainda aí, Kant afirmou que o Iluminismo era a capacidade humana de fazer uso de sua compreensão sem orientação de um outro. Chegamos a isso? Pois é...
Não vou entrar em clichês tipologicamente dementes e piegas, repetidos como verdades científicas de que as crianças de hoje em dia são "mais inteligentes que as crianças de antigamente". Esse tipo de esdruxularia própria de pais hipermodais urbanos que frequentam padarias aos domingos com cachorrinhos histéricos e criancinhas feias & chatas, interativas & participativas, buscando, os pais, superqualificar os dândis manhosos não entra em cena. Nem precisa. Não se mede uma sociedade por uma afirmação patética e inquantificável (viva Galileu) como essa. Ainda que numa interpretação forçada, reconheço, ninguém menos que Clifford Geertz (Nova Luz sobre a antropologia, p. 169) já disparava "Os bebês, como se constatou, eram muito mais inteligentes, mais dotados de iniciativa do que reativos em termos de cognição, e mais atentos ao mundo social imediato a seu redor do que se suspeitara anteriormente." Ocorre que esse dado não se historiciza numa metodologia comparada entre o bebê de hoje e o de antigamente, apenas porque o de hoje tem computador e Iphone, o que representam apenas "informação" e "notícia", nunca conhecimento e percepção refletida. Se se quiser aí, a criança de antigamente "inventava" brinquedos numa criatividade que a ataraxia debilóide criançal de hoje simplesmente não sabe o que é. Mas deixemos esse orgulho jactancioso de pais hiperpreocupados em que seus filhos mimados sejam CEOs aos 15 anos de idade e partamos para discussões menos fúteis e mais suculentas, efetivamente selvagens, afinal não tô experimentando o meu facebox pra brincadeirinha de criança e elas não são bem-vindas aqui.(nem-fudendo.com.br)
Será que uma sociedade com essa preocupação ruptural com filhos mimados, modas e tendências, cantores sertanejos e baianos desqualificados às centenas é uma sociedade minimamente "iluminada"? E será que ser iluminada quer dizer ter a capacidade de compreensão sem necessidade de orientação do outro? Complicado isso.
É de todo preocupante a acusação original de Feyerabend, nada pontual, de que uma maioria ocidental (isso é por minha conta) implantou o Iluminismo e, aposteristicamente, a noção (aí sim) de que a ocidentalidade é o jeito correto de ser e viver. Passamos a ver o oriental, todo ele, como estranho, abstrato, fora do padrão e, claro, fora duma razão "nossa", como se fôssemos os síndicos da razão. Obama faz essa merda de mandar matar o cara e sumir com o corpo e nem responde por homicídio, formação de quadrilha e ocultação de cadáver, sendo que nesse ato em que impera (de imperialismo mesmo) uma razão-EUA vê-se uma aderência putarial do resto do mundo a essa tão razão, ou american way. E mais! Aqui, pela natureza jurídica do ato estatal envolvido declaradamente o serviço secreto, todo e qualquer historiador dirá que a presunção de suspeição vale contra o Estado americano no sentido de: matou mesmo? sumiu com o corpo mesmo? era o cara mesmo? Isso está longe de ser uma suspeita escatológica ou uma daquelas teorias usadas na ditadura em que o desconfiar era a moda.  Foda-se a moda. Não há se desconfiar para se "parecer" intelectual, para se tirar uma onda questionante de lançar um enigmático "será?" em tom blasé a la Paulo Francis. A desconfiança aqui passa dos pensamentos primários e secundários. Há sim, escachada possibilidade de não se crer no serviço secreto americano quando a história mostra que diversas coisas somente no trindecídio após veio a ser "verdadeiramente" revelada. Mas até aí muita gente se perdeu. Pois bem, essa é a "razão" desse hoje matador, esse hoje que aceita um presidente encomendar ao seu serviço secreto o assassinato. Foda-se Bin Laden, quer saber, o boçal islâmico de touca na cabeça, feio e narigudo, atrasado e gemendo pra Alá que morresse. Zero de pena desse idiota. Mas o que fica em pauta é a tal "razão". Daria tudo pra ver Baudrillard vociferando disso.
Aí está o problema da razão, a razão dos vencedores. Faz lembrar Darcy Ribeiro ao receber o título de Doutor Honoris Causa na Sorbonne, subindo para seu discurso e relatando ser um homem de 3 derrotas, vindo a ser ovacionado após dizer que não queria estar no lugar de quem lhe derrotou. Darcy era lindo e tesudo e a mulherada se abria inteira, mesmo velho, continuou a ser assim, morreu assim, o grande comedor de Copacabana, nunca perdeu a verve e a beleza, porque morreu intelectual e pensador. Mas sua razão andava na contramão, por vezes, com a segurança de um Feyerabend.
Assim, que razão vamos "sustentar"? (Mas que questionamento mais primário). Quase caí do cavalo ontem quando li em Ernst Mayr que Einstein praticamente não influenciou a biologia e as descobertas da década de 1920 foram hipertrofiadas pelos fisicalistas. Mas o mundo inteiro não mudou com a relatividade? Pois é, um Mayr velho e querendo criar uma verdadeira Filosofia da Biologia (ele não conseguiu, mas deixou semestes sérias) renega veementemente a prestabilidade disso para a biologia. Estarrecedor, inacreditável. Quem põe em xeque assim as razões historicamente assentes?
Por que a rapaziada dos 20 ou 30 anos de idade não tá mais se surpreendendo como se soubesse tudo? Que saber mal parido é esse que sai do notebook? Que conhecimento de merda que não reflete é esse que é manuseado como diamante, quando no fundo é um dejeto? Dominique Folscheid e Jean-Jacques Wunemburger na obra Metodologia filosófica reclamam que na França o ensino de filosofia nos 1o e 2o graus é "pouco". Esses caras tão de sacanagem... só podem estar, querem irritar os brasileiros. Aqui ninguém fala de filosofia. Um aluno meu de graduação há alguns anos me disse: - vc é o único cara que fala de "ciência" em sala de aula. Veja o nível da falência, isso numa "universidade". Em França os caras reclamam "mais" filo no primeiro e no segundo graus! É, certamente é por isso que o presidente frances corneado casa com a vedete tesuda (pra ele...) e as senhoras francesas não fazem greve de fome. Aqui se o Sarney largasse Marlysinha e casasse com Sabrina Sato (vc duvida?) a imprensa retrô, global & cia ia cair matando. 
Mas essas são as nossas "razões" reinantes. Prossigamos com elas. Somos ocidentais, acreditanos no Iluminismo, lemos ou tentamos ler Kant e pensar que não dependemos do outro para perceber (sacar), e no final do ano mandamos flores pra Iemanjá na praia de Copa ou Ipanema, outra qualquer do mundo será fake. Sim, somos preconceituosos e babamos nossos preconceitos. E vamos em frente nessa vida longa, que chega a cansar de tanto viver, com tantas variâncias e acontecimentos. Viva a Razão, afinal Feyerabend já cantou pra subir.
pós-escrito - passei a usar o facebox como um laboratório-berçário para textos meus, pois a publicidade obriga a um tipo de criação, que a produção interna não "causa". Peço desculpa aos amigos por tanta bobagem. Isso deve ter valor só pra mim e pra meia dúzia de caras. Parafraseio Vanzolini, o biólogo que disse isso perguntado por uma jornalista se não tinha que usar uma linguagem mais "acessível". O mestre disparou, faço o meu trabalho pra mim e pra meia dúzia de caras e cada um que faça o seu e me deixe em paz... Lindo o grande professor. Abraços gerais. Jean Menezes de Aguiar. (sem revisão)

"Ele foi meu último bom amigo", Sartre.

"Ele foi meu último bom amigo"
por Jean Menezes de Aguiar, quarta, 4 de maio de 2011 às 21:51
Albert Camus. Sartre só "soube" que amava o amigo após sua morte. Mas aí já era tarde.


Sartre se fez amigo de Camus, na época da II Gerra. Foram assim de 1944 a 1952, até que se separaram. Cada um cunhou sua teoria e sua Escol, se é que podemos falar assim. Aí e efetivamente aí eles se separaram mesmo. Mas dois grandes homens com tantas teorias e visões de mundo não passariam incólumes pela vida. 


De Sartre ficam uma autêntica Teoria do Engajamento; a frase dita por Camus: "Sartre é um escritor do qual podemos esperar tudo"; a frase "O homem é uma paixão inútil" e tantas mais coisas incontáveis. De Camus, o Estrangeiro como passou a ser conhecido ficaram o "não" à oferta de Beauvoir de treparem; a frase dita em 1939 "O reino das bestas começou"; e o acidente de carro que o matou em 1960, dentre tantas coisas admiráveis. 


Após a ruptura da amizade, biógrafos narram que não houve mais qualquer contato e ambos teorizaram em sentidos opostos. Mas algum tempo depois da morte de Camus, numa entrevista, um verdadeiro Sartre admitia, após tantos anos de separação e total ausência de contato: "Ele foi meu último bom amigo" ("Self-Portrait at Seventy", in Life / Situations, Nova Iork, 1976, p. 107). A frase esconde uma confissão de dor e perda, a frase esconde um arrependimento talvez, desses que se optou por enfrentar após a assunção da tragédia de um parceiro de luta e olhares de vida que se foi por diferenças estruturais de visão de mundo. A perda é sempre mais que dolorosa, é reflexiva. 


Nietzsche dizia que o homem com a perda (sofrimento) ficava "apenas" mais reflexivo. É doloroso ler a amizade de Sartre e Camus e ver essa perda em vida, como é doloroso ver pessoas se perderem também em vida, indo cada um para um lado, amigos, parentes etc. Não há pieguismo na perda verdadeira, mas o esgarçamento da certeza do nunca-mais. 


Não deveríamos perder quem não morreu, mas perdemos, não deveríamos deixar ir, mas deixamos e não deveríamos ir, mas vamos. Essa frase de Sartre incomoda e certamente incomodou a tantos que o idolatraram e tentaram fazer algo por aquela amizade tão emblemática. Os amigos precisam saber que são amigos, ter a consciência de que são amigos e viver essa consciência. Mas amizade é uma coisa efetivamente difícil, rara e muito cara. E a sua perda é dilaceradora. Esta frase de Sartre incomodou e continua a incomodar e incomodará sempre. Ela tinha que deixar de existir e deixar de ter verificabilidade, mas sabemos que não é assim. É uma merda. Infelizmente é. Jean Menezes de Aguiar.